dezembro 03, 2007

Apreensões

Aqui pelo burgo arremete-se contra a qualidade da água, barafusta-se contra a localização do novo hospital, malhasse no negócio e nas insuficiências da Arena de Évora, sovasse recidivamente na promessa da fábrica de aviões, badalasse ainda sobre mais meia dúzia de minudências caseiras.
É normal que assim seja. Anormal seria os cidadãos não se preocuparem com a qualidade de vida que lhe proporcionam por troca com o pagamento dos seus impostos. Anormal seria os cidadãos não terem direito ao contraditório. Anormal será igualmente o uso destes problemas no mero jogo do arremesso político. A política deve ter a nobreza de ser manuseada com as mãos limpas.

No território nacional outras contendas há. A construção e a localização do novo aeroporto continuam a alimentar os truques dos lances políticos, quase só na óptica do jogo de interesses em detrimento da razoabilidade técnica.
A temida ASAE continua a ocupar o palco das emoções em prejuízo do palco da razão. O facto de que não se deve pactuar com a ausência de cuidados de higiene e com a trafulhice económica, não deve servir de justificação para a prática de encarniçados fundamentalismos por parte da instituição de segurança. Obvia é também a excessiva cenarização das intervenções dos agentes da dita instituição. A modéstia quase sempre é aliada da seriedade.
A ratificação do acordo ortográfico levantou novamente uma enorme onda de opinião. Do lado de cá tem-se a sensação de se ir ratificar a “brasileirização” da língua. Esquecemo-nos que este jogo não tem apenas dois jogadores. Estão em campo igualmente os restantes países de expressão portuguesa, artilhados de uma importância imensa no desempate das conveniências linguísticas. Esquecemo-nos que a língua portuguesa é, finalmente, património de quem a fala. Que culpa têm os outros utentes de durante um ror de anos termos enterrado a cabeça no palavrório da indiferença, enquanto eles iam tecendo a manta da sua utilidade.
Sempre enunciei que um povo que não gera riqueza suficiente para usar com a cultura, é um povo com o destino a prazo. Portugal é useiro e vezeiro em demonstrar esse destino a prazo. Temos de nos congratular por desta vez termos introduzido uma excepção na regra com a compra pelo estado da obra do pintor Tiepolo.

Lá fora sublinho dois acontecimentos ainda que muito distantes têm uma terminação comum. A conclusão que os tempos estão longe de acabar com a miséria humana. A conclusão que por mais que o homem se julgue evoluído, isso não passa de uma triste mistificação que vende a ele próprio. E a piorar a conclusão, sublinhasse o facto dos dois acontecimentos terem lugar em países do mundo civilizado, dito civilizado. Eu, tenho enormes dúvidas?
Na Bélgica, mais propriamente em Antuérpia, voltou ao uso uma prática que era dada por extinta desde os finais do século XIX. A “roda dos enjeitados” agora com uma designação tristemente prenhe de actualidade: “Gaveta dos Bebés”. Mais se adianta, que o método de largar os recém nascidos para que outros os criem, está igualmente em funcionamento na Itália, Áustria, Alemanha e Suíça. Todos países insuspeitos de práticas mais próprias de países pobres, se próprias são.
O jornalista norte-americano, Mumia Abu-Jamal, antigo membro do grupo político Panteras Negras, que vegeta inquietantemente há 25 anos no corredor da morte, reclama um novo julgamento. Foi condenado à pena máxima depois de ter sido acusado da morte de um polícia. A sua condenação, que tem sido amplamente reconhecida como política e racista, foi formalizada depois do estado e da polícia terem recorrido à falsificação de provas e depoimentos.

Joaquim Pulga

(Crónica de Opinião – Rádio Diana FM)
Dezembro 3, 2007

Publicado por machede em dezembro 3, 2007 05:53 PM | TrackBack
Comentários

Amigo, a lista de inquietações é de tal modo extensa que o cidadão precavido vai-se tornando selectivo, não seja surpreendido por um AVC ou coisa que o valha. aceito a tua selecção como boa!
No meio disto tudo, saúdo a iniciativa de 17 escritores consagrados que confrontam os políticos europeus com a cobardia de não incluírem as situações calamitosas (ou criminosas?) de Darfur e Zimbabué na agenda da cimeira UE-Àfrica que, como se sabe, faz parte do show-off da presidência portuguesa.
"The show must go on"!

Afixado por: JC em dezembro 4, 2007 11:10 AM
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