A resolução do Conselho de Ministros 96/2000, considera a gastronomia portuguesa como um bem imaterial integrante do património cultural de Portugal. Diz ainda o texto da resolução: “Entendida como fruto de saberes tradicionais que atestam a própria evolução histórica e social do povo português, a gastronomia nacional integra pois o património intangível que cumpre salvaguardar e promover. O reconhecimento de um tal valor às artes culinárias cria responsabilidades acrescidas no que respeita à defesa da sua autenticidade, bem como à sua valorização e divulgação, tanto no plano interno como internacionalmente”.
Confessou o presidente da Misericórdia de Faro, que adjudicou recentemente o fabrico das refeições a uma empresa de catering. Da referida medida resultou o fecho da cozinha que até aí confeccionava as refeições para os utentes do lar da Santa Casa. Explicou que a causa da decisão se cingiu ao evidente receio que uma inspecção procedesse ao encerramento da cozinha. Lamentou ainda o facto de os utentes passarem a comer peixe congelado em vez do peixe fresco adquirido no dia, passarem a comer ovos pasteurizados em pó em vez de ovos frescos. Veiculava ainda o presidente, as lamentações dos próprios utentes relativamente ao sabor desenxabido da nova alimentação.
Consta ainda da notícia, que outras misericórdias se preparam para seguir o exemplo de Faro.
As actividades da restauração e comércio de bebidas vivem tempos de temor. Trabalham com o credo na boca na espera de mais dia menos dia, mais hora menos hora lhes entre pelas portas adentro uma inspecção que encerre a baiuca por dá cá aquela palha. Não foram poucos os que já experimentaram a sanha inquisitorial da nova autoridade alimentar.
A antiga e incontornável Ginjinha das Portas de Santo Antão, em Lisboa, foi compulsivamente encerrada. Possivelmente a faca com que cortavam as rodelas de limão não tinha a cor do cabo de acordo com a nomenclatura regulamentar.
O Festival Nacional de Gastronomia de Santarém viveu momentos de pandemónio com a ostensiva presença de um bando de inspectores, que com um alarde policial desmesurado viraram do avesso as comedorias presentes à cata do pecado escondido atrás da alheira de Mirandela.
Os vendedores de rua de castanhas assadas foram forçados a embrulhar as ditas em cartuchos de papel branco. Está interdito o aproveitamento das páginas das listas telefónicas, calhando por temor do contágio das páginas amarelas. Não tarda muito que lhe tranquem a actividade por o carvão ter teores nefastos de um dióxido qualquer.
Estamos fartinhos de nos conhecer como o povo da cunha, do dá aí um jeitinho que eu caibo também, da arte do desenrasca, do perante a distracção do próximo lhe passar descaradamente a perna. Perante tanto deixa andar, vá-se lá saber desta fobia nacional de ser mais papistas que o papa no que toca a cumprir à risca tudo o que nos é imposto do exterior, no caso, da organizadinha, fundamentalista e asséptica União Europeia. Os outros povos mediterrânicos, espanhóis, franceses, italianos, gregos e por aí fora, estrebucham que se fartam. Lá vão cumprindo muito há sua maneira sem venderem a alma ao diabo. Nós, não! Ainda os assanhados funcionários eurocratas não despiram as calças, já nós temos o tubo da vaselina na mão. Perante um qualquer dedo em riste comunitário, ficamos logo na subserviente posição ajoelhada.
A Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica é o espelho mais cristalino desta posição acocorada. E pronto, os referidos autoritários bordam e pintam a manta alegremente escarranchados no poder do crachá e do colete policial. Aos costumes, à tradição e ao património nacional dizem zero. Eles não são os representantes da autoridade, são – pensam eles – a autoridade.
Joaquim Pulga
(Crónica de Opinião – Rádio Diana FM)
Novembro 26, 2007
Boa crónica, como de costume e como seria de esperar! Agora, alguns contributos corroborantes e marginais:
Ponto 1: A vaselina é um ingrediente que nas últimas décadas os nossos políticos muito usam nas suas sortidas externas. E para que não se gerem confusões, esclareço: usam de cócoras.
Ponto 2: dentro em breve, correremos o risco de estar remetidos exclusivamente às intocáveis travias de plástico, sejam dos Macdonalds, das Pizza Huts ou de outra multinacional qualquer.
Ponto 3: proibição total de fumar nos restaurantes. Medida hipócrita, pois se a preocupação com a nossa saúde fosse verdadeira, proibia-se o tabaco. A "chatice" é que lá se iam os milhões de receitas para o cínico estado da nossa desgraça.
Conclusão: continuarei a matar-me como me apetecer, fumando o que quiser onde puder e enchendo o bandulho com tudo o que me der prazer (nem que seja em casa). É complementar no desiderato de estar como me apetecer. De resto, nunca fui certinho e "evitar-me" só para andar por cá mais uns anos... bhaaaa! Antes morto de barriga cheia!
E o restaurante da Casa do Alentejo em Lisboa, também foi encerrado. Futuramente, será obrigado a fazer as migas de espargos com papossecos e espargos de conserva, mexidas com colher de plástico...
Afixado por: Pum! em novembro 27, 2007 09:28 AMO tubo da vaselina (ou de outra coisa qualquer), só por si não escorrega pelo tal sítio acima? É que há uns tipos na "pelítica" que merecem esse tratamento. Com tubos XXL.
Afixado por: Yá em novembro 27, 2007 02:42 PMPois é amigo Pulga.
E ainda por cima têm o desplante de dizer que andam a defender os interesses dos consumidores.
Que consumidores ?
Eles sabem lá quais são os meus interesses! nem sonham.
O meu interesse é consumir a ginginha e comprar DVD piratas.
Nuno Jordão