
Diante de Marselha está um mar azul, luminoso, que lhe cola uma pele voluptuosa de terra do sul. Lá nasceu o rapazinho magrizela que depois de deixar de ser rapaz e magrizela andançou pelos palcos de mil e uma cidades. Dançou também um mar azul como o seu olhar, um mar dos cisnes. Tornou a primavera mais bela com a criação da sua sagração. Viveu uma vida devota a esse movimento teatral dos corpos que é a dança. E inovou e renovou esse movimento dos corpos. Ao mesmo tempo que dançava, falava, dizia coisas atrevidamente bravas onde quer que lhe aprouvesse. Disse-as no palco do Coliseu dos Recreios, na cara dos dignitários do regime do seminarista que a corpos movimentando-se ludicamente, preferia antes beatificas hóstias. Disse que era contra todas as ditaduras – em Lisboa, naquela altura, estava tudo dito. Foi encarcerado num carro blindado e largado num ermo já em território espanhol. O resto da companhia foi recambiada velozmente de avião para longe dos geriátricos que não gostavam de liberdade e de bailado.
Esse rapazinho fez-se um homem de muito tempo sempre a dançar e a falar do que bem entendia.
Maurice Béjart ausentou-se agora do palco da vida sempre a dançar, sempre a dançar no fundo do seu afamado olhar azul como o mar da sua terra.
Béjart, a arte de dançar sem perder a verticalidade, mesmo quando a coreografia exigia milagres. Talvez farto de dores nas costas, deixou-nos. Ou, quem sabe, farto de cretinos, ditadores e democratas de aviário. Ficou a memória e o exemplo: rastejando nunca se é grande!
Afixado por: JC em novembro 26, 2007 10:23 AM