Com o tempo, necessariamente veio o amadurecimento. Com o amadurecimento, veio uma reflexão mais apurada a desaguar na conclusão que a revolução de 17, na Rússia, apenas tinha mexido na posse dos meios de produção e, de certa forma, na distribuição da riqueza. Os modelos de produção continuaram a ser uma cópia fiel dos processos utilizados no mundo capitalista. Julgavam os teóricos de 17 que bastava a superioridade moral para tornar o mundo mais justo. Não seria necessária a revolução abordar e transformar as formas de produzir capitalistas e, em certos casos, o que produzir. A superioridade moral não chegou para produzir o homem novo. Antes produziu o seu próprio abastardamento.
O resultado, depois de quase um século, é perfeitamente exemplar do monumental erro cometido. A herança de uma Rússia pós-socialismo atulhada de problemas sociais e com modelos de produção verdadeiramente obsoletos, em que os impactos ambientais foram e são catastróficos.
Paradigma disto é a China e a Índia. A primeira, porque se quis continuadora de um modelo idêntico ao de 17, na União Soviética. A segunda, depois da revolução da simplicidade indicada pelo pensamento do Mahatma Gandhi, cavalga igualmente, hoje, os arquétipos produtivos capitalistas.
A central termoeléctrica de Sines está à beira do top 10 das mais poluidoras da Europa. Produz anualmente qualquer coisa como 8,5 milhões de toneladas de CO2. A China, em 2006, construiu, em média, uma central de Sines de quatro em quatro dias.
A Agência Internacional de Energia, no seu relatório anual, diz que a humanidade consumirá ainda mais petróleo e carvão em 2030 do que hoje. Diz ainda que qualquer solução para atenuar os problemas da dependência dos combustíveis fósseis terá inevitavelmente que passar pela China e pela Índia. China e Índia que são considerados os dois colossos emergentes da economia mundial e do mercado energético.
E nós, os viventes de uma Europa onde os regimes alternam democracias liberais com rotinas mais ou menos de direita. Democracias em que os regimes ditos socialistas, não são mais que resquícios de uma coisa que acabou ainda no século findo. Democracias de um liberalismo económico cada vez mais desumano, a que não faltam sequer tiques autoritários, traduzidos em pequenos grandes nadas tais como a furiosa persecução antitabágica. Pequenos grandes nadas que nada têm a ver com a importância das políticas de dependência dos combustíveis fósseis, essas sim seguidistas de modelos que asfixiam a continuidade de uma vida confortável no planeta. Essas sim, políticas subordinadas a um liberalismo instigado pela engorda capitalista.
E nós por cá? Na mesma como a lesma. Entalados entre uma esquerda que ainda acredita nos amanhãs que cantam e uma direita completamente retrógrada, sentados à mesa de um socialismo, passe a expressão, que tem da palavra progresso uma ideia de crescimento amarrado a um liberalismo mais que subalterno do deus monetário. Sentados a uma mesa sem gavetas, e daí sem lugar para ter ao menos arrecadado o dito socialismo.
Faz-nos falta uma nova crença! Faz-nos falta acreditar em ideias positivas portadoras de uma nova coisa. Uma nova coisa que seja hospedeira de humanizados princípios assentes na justa distribuição da riqueza. Riqueza criada sem molestar a terra que usamos por empréstimo do próximo.
Joaquim Pulga
(Crónica de Opinião – Rádio Diana FM)
Outubro 12, 2007
Eu, passado meio século de vida e após a falência de várias crenças, tenho uma nova fé: eu! Ou seja: só acredito em mim! Mas, esclareça-se, não é todos os dias, tais as sacanices que tenho feito ao próprio eu.
Bem, sobre a tua crónica, amigo, ocorre-me dizer-te que agora acho deveras curioso que os grandes chefes da máfia russa actual sejam os antigos altos dirigentes do PCUS e do KGB, os tais da superioridade moral, do sol do mundo, da vanguarda revolucionária, os incorruptíveis contra o capitalismo, o imperialismo e outros li(s)mos... Ora, com cães destes (e doutras políticas, obviamente), não vale a pena ir à caça! Que acharão os Jeróminhos da "carreira" seguida pelos seus outrora camaradas "com provas dadas"?