outubro 29, 2007

O umbigo

Quando muito vinha-se à cidade pela feira de S. João. O cereal estava ceifado e recolhido no celeiro. Fechara-se o ciclo agrícola. Em tempo de adiafa, havia agora uma folga maior na vida do camponês. Uma folga que dava uma certa largueza no tempo disponível e no conteúdo carteira. Vinha-se à feira de S. João para comprar algumas coisas indisponíveis no comércio da aldeia. Também se vinha para alegrar a vida com os divertimentos propiciados pelo arraial. Um dia não são dias, daí brunir-se o corpo com a roupa dos dias especiais, a chamada roupa domingueira. Vinha-se de ponto em branco. Tirado das poeiras.

Vinha-se à cidade uma vez por ano, a não ser que alguma maleita traiçoeira obrigasse a uma vinda ao médico. Profissional esse que não existia na aldeia. O médico dos animais também não existia, mas nos casos menos graves sempre havia um ou outro entendido que o substituía na função. De resto havia o necessário. Do mestre-escola ao barbeiro, do sapateiro ao carpinteiro, da loja de fazenda à drogaria, da venda à mercearia e ao talho. Nos montes se fabricavam os enchidos, os queijos e o pão, que também haviam de abastecer a aldeia. Havia ainda a loja oficina de bicicletas e motorizadas. A aldeia tinha um pouco de tudo que chegava para as necessidades do dia-a-dia. Tendo fundamentalmente a actividade e o consequente emprego baseado na agricultura, sendo o restante trabalho distribuído pelos artesãos, outros artífices e funcionários do comércio que, por regra, se baseava na mão-de-obra familiar.
Era por assim dizer, um pequeno centro com uma vida económica própria. Um pequeno centro que, para as precisões da altura, se bastava a si próprio.

O primeiro abanão neste estado de coisas aconteceu com a mecanização da agricultura. Começou a sobrar a mão-de-obra. Outro remédio não houve senão emigrar para a cidade próxima ou mesmo para outras cidades mais longínquas, cá ou lá fora, que ofereciam outras possibilidades no tecido industrial quando não nos indiferenciados. Paulatinamente, principiou o chamado despovoamento que se foi acentuando com o definhar da actividade agrícola.

Evoluiu a vida e o comportamento nas comunidades e nos territórios. Democratizou-se o consumo e as acessibilidades. A cidade grande passou a estar ali à mão de semear para comerciar e trabalhar. A aldeia pouco a pouco foi-se tornando num dormitório. Dormitórios competitivos com o preço da habitação na cidade grande. Poupança substancial para quem vive de magros salários. Paradoxalmente, começou a aldeia a ser procurada pelos citadinos pela mesma ordem de razão, o preço da habitação e, porque não, uma forma de viver o ócio mais calma mas desenraizada.

Até que aportamos a uma situação verdadeiramente estranha. Aquando das eleições autárquicas, na generalidade, as promessas eleitorais centrais, contemplam apenas propostas para a sede do concelho. As aldeias ficam remetidas para um papel perfeitamente secundário, quase inexistente. Destinadas ao papel de dormitórios longínquos, já fora dos termos da cidade grande. Remetidas para o papel de lugares sem vida económica, a não ser a magra construção civil, e previsivelmente sem grande necessidade de animação.

Discordo em absoluto destes procedimentos. Discordo deste secundarizar desses lugares.
Concordo que eles também têm direito a ter vida económica e social. Assinto no seu legítimo direito a serem contemplados, em pé de igualdade, com propostas tendentes à sua revitalização. Quem assim não o faz, está a defraudar o desenvolvimento global do território do concelho e, inclusivamente, a sua sustentabilidade. Está a olhar apenas para o umbigo.
Esta rábula recorda-me a política, de há uns tempos a esta parte, da companhia de caminhos-de-ferro, actual Refer. Se as estações ou os apeadeiros não são viáveis, fecha-se pura e simplesmente todo o ramal.

Joaquim Pulga

Crónica de Opinião
Rádio Diana FM
Outubro 29, 2007

Publicado por machede em outubro 29, 2007 12:48 AM | TrackBack
Comentários

Joaquim, o assunto pertinente que levantas nesta crónica, já não é uma questão sujeita a concordância ou discordância. Tornou-se uma questão de necessidade gritante no plano das funções complementares entre o rural e o urbano. A situação que retratas é razão do sub- desenvolvimento dos territórios, ainda por cima desequilibrado, de esguelha, a dar para o que calha quando calha! Isto é pano para mangas, eu sei. Lamentavelmente, temos políticos-decisores incultos, ignorantes e insensíveis ao que está à vista de todos. Instalados no ar condicionado dos seus gabinetes a contar votos, nem o óbvio vêem!

Afixado por: JC em outubro 29, 2007 10:05 AM

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Afixado por: vtnzehzulj em outubro 29, 2007 12:33 PM

Para lá de pertinente, verdadeiro, ou melhor, um verdadeiro escândalo.
Haverá ainda quem se lembre de ir de combóio a Estremoz, a Borba, a Vila Viçosa, a Montoito ou a Reguengos?
Não seria o transporte ferroviário o ideal, para o escoar dos mármores, retirando a excessiva tonelagem que diáriamente circula nas nossas estradas?

Afixado por: José palmeiro em outubro 29, 2007 09:53 PM
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