Ainda me recordo, como se tivesse sido ontem de madrugada, dos serviços de Limpeza da Câmara a lavarem a cidade de agulheta em punho. Como recordo, tal e qual tivesse sido ontem à noite, de me arrimar às tendas da quinquilharia para que o carro da rega, das ruas da feira de S. João, passasse sem me regar os pés. O Ford cinzento multiplicava esguichos na traseira para baixar o pó no terrado do Rossio de S. Braz. Coisas pensadas pelos senhores gajos do antigamente. Senhores gajos que, valha a verdade, não se estavam borrifando para estas minudências, ao contrário de se borrifarem na abastança de mendigos, pobres, descalços, famintos e os outros ostracizados da situação.
Gramava imenso ver a minha cidade lavadinha, como gramava imenso calcorrear a feira sem um grama de pó a entupir a narina. Não gramava mesmo nadinha dos tais senhores gajos da situação que mandavam na malta, na urbe e no país.
Nesse tempo de que já passou algum tempo, Évora, deveria andar pelos vinte e tal mil habitantes. Tinha alguns cívicos mais um carro com sirene dos ditos cívicos, meia dúzia de pides encartados mais o famigerado Volkswagen azul FE-54-22 dos ditos pides, inúmeros bufos, aliás, bufos com fartura, mais duas ou três camionetas Mercedes carregadas de legionários.
Daí que o civismo dos habitantes fosse marcado pelo temor do bastão e doutros reputados tratamentos mais cirúrgicos. Daí que a ninguém passasse pela cabeça mijar fora do penico. Daí que, pobrezinhos, mas limpinhos.
Vale igualmente acrescentar que nesses tempos se usava a alcofa para carregar as compras e outras encomendas. Lixo lixo, quando muito, o papel pardo e as caixas das camisas e sapatos. Era bem contido o lixo resultante do aprovisionamento doméstico nessa altura.
Agora, bem agora é o descalabro. Para além dos horrorosos sacos dos hipermercados, não resta uma quinquilharia que, por mais insignificante que seja, não traga no invólucro um desperdício imenso.
Mas vamos subir ao inferno, que nada mais é que os mercados quinzenais das terças-feiras no Rossio de S. Braz. Inferno gradeado este, que ainda não percebi bem se por mou da fuga dos feirantes se dos clientes. Ou, talvez, uma querença mal sustida da Câmara em apartar um acontecimento regular que lhe causa uma certa urticária.
E causa efectivamente uma desmesurada urticária, após o levantar das barracas e dar por findo o zaronzel, o selvático lixo que por ali fica a conspurcar o nobre terreiro da cidade. Plásticos de todas as cores e feitios. Caixas de cartão de vários tamanhos. Mais um montão de outros desbaratos que só o vento tem o condão de saber para onde carrega tamanha esterqueira.
A indolência dos serviços camarários de higiene não tem positivamente mão na desgraça.
Coisa para os olhos menos atentos pensarem estar a acontecer num qualquer mercado informal do terceiro mundo.
Apenas uma achega. Não será possível engendrar uma solução pedagógica, que não permita o relaxo do deita para o chão tudo o que o cliente não leva ou ao mercador não interessa. Apenas e só espalhar pelo recinto contentores de fácil manuseio que permitam engolir as toneladas de imundice. Apenas e só normalizar com os feirantes a obrigatoriedade de deitar o lixo no lixo. Apenas e só informar que aos prevaricadores seria vedada a participação no mercado.
Apenas e só ordenar o que é possível de ser ordenado.
Dá para recordar o velhíssimo ditado alentejano: «Pela rua do monte se vê quem lá mora dentro».
Joaquim Pulga
(Crónica de Opinião – Rádio Diana FM)
Outubro 15, 2007
Caro Joaquim Pulga, a tua exigência - contida nos últimos parágrafos - transcende a razoabilidade expectável da nossa cada vez menos distinta autarquia. Fazer o que tu dizes, leva muito tempo a pensar, coisa que alguns "chefes" não chegaram a aprender como se faz; e dá imenso trabalho, coisa que quem entra por generosa "cunha, amizade ou camaradagem", não está preparado para ter senão ao dia 22 na tesouraria municipal. Além disso, estes neo-senhores gajos democraticamente eleitos, não são fascistas nenhuns para mandarem impor a ordem na vocação porcalhota dos badalhocos feirantes do Rossio (e já não falo no conspurcado Centro Histórico)! Dirão alguns: a Liberdade é uma porcaria! Digo eu: a Liberdade envergonha-se de a terem sujado!
Afixado por: JC em outubro 16, 2007 01:39 PM