«Mestre: o que ensina; o que é versado numa arte ou ciência; artista de grande mérito; artífice que dirige outros ou trabalha por sua conta; homem douto; aquele que comanda uma pequena embarcação; que tem vantagem em relação a outrem; principal; exemplar; grande; extraordinário.»
da enciclopédia Editorial Verbo
Desde que comecei a entender da hierarquia da vida, que aprendi da veneração que o adjectivo encerra. Vocábulo abonatório de dignitários que muito uso tinham dado às mãos e ao cérebro. Titulo apenas para usança de pessoas com um estatuto intocável na sapiência e na honorabilidade profissional. Do respeito por pessoas a quem as cãs brancas do tempo, sinalizavam a sua qualidade de mestres, para além do conhecimento manifesto naquilo que sabia do saber e do fazer.
Pessoas comuns que, do básico aprendiz, paulatinamente, tinham subido com perseverança, devoção e experiência na profissão, até alcançarem o nirvana na hierarquia, sendo, somente, então entronizados mestres. Percurso transversal aos vários mesteres, do honorável e honrado artífice ao honorável e singelo cientista.
Que outra coisa poderia ser, Vieira da Silva, Dórdio Gomes, Siza Vieira, Manuel dos Santos, Alexandre O’Neill, Aquilino Ribeiro, Amália Rodrigues, Túlio Espanca, João Ribeiro, Bento de Jesus Caraça… Mestres no seu mester, somente e apenas porque o tempo e a sabedoria se encarregaram de lhe coser no percurso o estatuto maior. Não o esmolaram a ninguém.
Tal como o podem vir a ser, Pedro Cabrita Reis, Teresa Vila Verde, Aires Mateus, Pedrito de Portugal, José Luís Peixoto, Camané, Marisa, Luís Afonso, João Mangueijo… Mestres no seu mester, caso o tempo e a sabedoria recomendem o aditamento da chancela maior no seu caminhar. Sem igualmente o esmolarem a alguém.
As palavras também envelhecem. O envelhecimento deve aumentar-lhe a valia. É o respeito que lhe deve os que as usam. É o respeito pelo seu ancestral sentido. Não querendo com isto dizer que são imutáveis, mas se mutáveis, nunca pelo caminho da desconstrução.
Por subtileza da nomenclatura académica, pode-se, agora, ser apelidado de mestre após o curto carreiro de meia dúzia de semestres escolares, logo ali, depois de torcer da esquina de uma licenciatura, cuja estrada tem a lonjura de meia dúzia de anos escolares. Note-se o escolar e a ausência do profissional.
O famoso processo de Bolonha, ainda mais abreviou, quer a curteza do carreiro, quer a lonjura da estrada. Vai daí, vou ali e num instantinho volto já mestre. Coisas e loisas de quem pensa nestas coisas e loisas do ensino e, por regra, as deve pensar sereno e sensatamente.
Que me perdoem a foice em seara alheia. Mas não me entra assim às boas esta vazia vacuidade. Prefiro, sem margem para dúvida, a hierarquia ditada pelas brancas cãs da sabedoria. A hierarquia lavrada por uma vida de apego e sede de saber.
Mas que fazer perante a invasão do “fast food”, por ora e até ver, mesmo no dito ensino. Mas que fazer perante academias nascidas à laia de cogumelos. Mas que fazer diante duma panóplia de cursos, cuja denominação, de muitos, muitíssimos, não se sabe muito bem para o que serve, se é que serve para alguma coisa.
Termino, estabelecendo uma analogia entre a destemperança no uso do adjectivo e aqueles que daqui por uns dez réis de mel coado de semestres, podem, se para isso tiverem uns tostões e um mínimo de engenho e arte, saírem-nos ao caminho mestrandos. Quando há um nadinha da sua vida atrás, andaram a apoucar vexatóriamente seus iguais colegas de escola, só e apenas por estes terem o azar de ser debutantes e, portanto, caloiros. Que carácter transportarão estes indivíduos, que da autoridade de mais velhos e uns hipotéticos mais cinco tostões de conhecimento, apenas e somente fazem uso torturando e enxovalhando o próximo.
Falo, obviamente, das aleivosias contidas na maioria das praxes académicas. Uma mão cheia de empinocados, falando grosso, nada mais que a profanarem o traje que certamente se sente ultrajado pela simbólica conivência, no aleijar do lombo e da dignidade de um “rebanho” de putos borrados de medo.
Como diria o meu amigo Victor: E não há governo que ponha mão nisto?
Joaquim Pulga
(Crónica de opinião Rádio Diana FM)
Outubro 1, 2007
Desde que em qualquer loja dos 300 se compra um diploma, ser mestre é uma qualificação desvalorizada. Hoje em dia, é fácil qualquer aprendiz ser logo mestre, virtual e inapto, é certo, mas... mestre. Há diplomas de mestre desde os 300 aos 1000 contos, conforme o formato, o número de cores da impressão e a quantidade de caracteres, explicou-me um chinês. Acho que por respeito aos velhos mestres não diplomados - simplesmente tarimbados no saber-fazer dos seus ofícios - as universidades deveriam mudar a designação daquele grau académico. Talvez para: licenciado em risco de desemprego com um diploma inútil e outro extra. Ou simplesmente EXTRA, para ser mais curto e evitar os erros ortográficos...
Afixado por: JC em outubro 3, 2007 12:39 PM