agosto 24, 2007

Sempre o sacana do povo mais os outros sacanas

«Felizes os reis que, nos seus dias de amargura, encontram o povo ao seu lado para pelo seu amor lhes mitigar a aflição. Desejo, pois, meu caro Fontes, que faça constar a todos os portugueses quão gratos estamos a rainha e eu a tantas provas de interesse e afeição.»
Logo que recebeu o real favor de 4 (do corrente), o Sr. Fontes correu veloz ao lado de el-rei para agradecer ao povo. Mas o povo não se achava já aquele real lado. Tendo mitigado a aflição do monarca, o povo, pegando no chapéu, na bengala e no estojo dos lenitivos, desapareceu como por encanto. O Sr. Fontes diligente procurou-o debalde por todos os cantos do palácio, por trás das portas, por debaixo das camas, pelas frinchas do trono.
O soberano sentado no sólio, com a sua coroa na cabeça e o seu ceptro em punho, houve por bem dizer com majestade:
- Procurem-no que hão-de dar com ele! Ainda agora mesmo ele esteve aqui assim, que o vi eu, a este régio lado, mitigando-me.
E, pousando o ceptro nos joelhos e cerrando um pouco os olhos, Sua Majestade repetia a cantata dirigida ao Sr. Fontes em data de 4: - Felizes os reis, etc.
O Sr. Fontes transpirava de angústia, porque não podia achar o povo. Sua Excelência interrogou os archeiros: - Viram por acaso sair o povo? Mas os archeiros não tinham visto nem sair nem mesmo entrar semelhante sujeito.
O Sr. Fontes arrancava o cabelo aos punhados e dava-o ao Sr. Nazaré, dizendo-lhe com fúria:
- Não posso saber o que foi feito do povo!... el-rei metia o ceptro debaixo do braço, cruzava os braços no peito com tenacidade e repetia:
- Procurem-no até o achar! Felizes os reis, etc.
O Sr. Fontes tomou então uma resolução desesperada. Dirigiu-se ao sumilher da cortina e pediu-lhe que corresse a cortina. Correram-lha. E Sua Excelência bradou com voz aflitiva para o interior dos reais passos:
- Pegou por aí alguém no povo, que estava ainda agora assim ao lado de el-rei?
Ninguém se acusou.
O Sr. Fontes deu um nó no colar do Tosão de Ouro que trazia ao pescoço, e principiou a puxar. Sua Excelência, ia terminar os seus dias. Mas el-rei deteve-o com um gesto, dizendo:
- Compreendo tudo! Retirem-se. Escusam de procurar mais.
E o príncipe enrolou-se todo no manto real, carregou a coroa para cima dos olhos, e ouviram-no dizer, sombrio e tétrico, com voz cava:
- Fizeram-lhe o mesmo que costumam fazer à prata por ocasião dos festins; roubaram-me o povo! Felizes os reis, etc.

Ramalho Ortigão – As Farpas, vol. X

Publicado por machede em agosto 24, 2007 11:20 AM | TrackBack
Comentários

Agora a "farpa" é ao contrário: que abençada vidinha teria o Sócrates e a sua corte se não houvesse povo! Ele bem se esforça para acabar connosco, mas duvido que tenha "engenharia" para tanto...

Afixado por: JM em agosto 24, 2007 12:17 PM
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