julho 06, 2007

Andarem parados…

- Não quero ajuntamentos nem mais de dois a andarem parados.
Arengava o cívico por via do proeminente umbigo da sua barriguda autoridade. Idade incerta, abdómen notavelmente subnutrido, tez camponesa recondicionada, fácies ociosamente iletrada, polegares encravados no cinturão a testemunharem-lhe exclusiva utilidade.
Vitimas da onerosa sintaxe do agente da autoridade, nós, sobreviventes atrevidos duma adolescência geriátrica, neste pantanoso rectângulo, em tempos de metais pesados e cheiro a sacristia [também a morgue por mou da guerra colonial].

- Como estamos numa demolicracia, em casa, nas esquinas, nos cafés, entre amigos, não quero mais de dois a andarem parados.
Arengam hoje os Silvas, as Guidas, as Carmens, os Gomes e demais cívicos igualmente de polegares encravados no cinturão a testemunharem-lhe exclusiva utilidade. Capatazes incapazes estes, letrados, nutridos, tez urbanamente bronzeada, fácies assertivamente opiniosa, desprovidos de aparelho auditivo mas programáveis.

Como pode esta terra sentir-se ditosa com tais filhos? Os que arengam e os que sustentam a arenga!

Publicado por machede em julho 6, 2007 01:59 PM | TrackBack
Comentários

Paz Poeta e Pombas

A Paz viajou em busca do silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose

maniaco-depressiva
maniaco-depressiva

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa

A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia

maniaco-depressiva
maniaco-depressiva

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa

José Afonso

Afixado por: Fred em julho 6, 2007 07:14 PM

Só o cavalo...

Só o cavalo,só aqueles olhos grandes
de criança,aquela
profusão da seda, me fazem falta.
Não é a voz,

que tanto escutei, escura do rio,
nem a cintura fresca,
a primeira onde pousei a mão,
e conheci o amor;

é esse olhar que de noite em noite vem
da lonjura por algum atalho,
e me rouba o sono,
e não me poupa o coração.

Meu coração, Alentejo de orvalho.

Alentejo
Eugénio de Andrade

Remato com esta...

Afixado por: exluída em julho 6, 2007 11:50 PM
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