maio 25, 2007

do vinho e da morte

vinho morte.jpg

Uma vez que ignoras o que te reserva o dia de amanhã,
procura ser feliz, hoje.
Toma uma ânfora de vinho, senta-te ao luar e bebe
lembrando-te que, talvez amanhã, a lua te procurará em vão.

Homem que bebes, ânfora imensa, ignoro quem te modelou.
Somente sei que és capaz de conter três medidas de vinho
e que a Morte te destruirá um dia.
Então perguntarei a mim mesmo, mais demoradamente,
por que é que foste criado, por que é que foste feliz e por que, agora,
és somente poeira.

Quando nasci? Quando morrerei?
Nenhum homem pode evocar dia do seu nascimento e designar o da sua morte.
Vem, minha dócil bem-amada!
Eu quero pedir à embriagues que me faça esquecer
que nunca saberemos nada.

Eu tinha sono.
A sabedoria disse-me: «As rosas da Felicidade nunca perfumam o sono.
Em vez de te abandonares a esse irmão da Morte,
bebe vinho. Tens a eternidade para dormir.»

A vida escoa-se.
Que resta de Bagdade e de Balk?
O menor toque é fatal à rosa completamente desabrochada,
bebe vinho e contempla a lua, evocando as civilizações
que ela já viu extinguirem-se.

Em que reflectes, meu amigo? Nos teus antepassados?
Pó na poeira – eis o que eles são.
Pensas nos seus méritos? Deixa-me sorrir.
Toma esta ânfora e vamos beber,
escutando sem inquietação o grande silêncio do universo.

Ó gladiador de corações, toma uma ânfora e uma taça!
Vamos sentar-nos junto ao regato.
Esbelto adolescente de claro rosto,
contemplo-te e penso na ânfora e na taça que tu serás um dia.

Quando a sombra da Morte se alongar para mim,
quando o feixe dos meus dias estiver atado,
eu hei-de chamar-vos e vós levar-me-eis, ó meus amigos!
Quando eu me tornar pó, vós moldareis
com as minhas cinzas uma ânfora que enchereis de vinho.


Numa taberna pedi a um velho
que me informasse sobre aqueles que morreram.
Respondeu-me:
«Não voltarão. É tudo o que sei. Bebe vinho!»

Cansado de interrogar, em vão, os homens e os livros,
eu quis interpelar a ânfora.
Pousei os meus lábios sobre os seus e murmurei:
Para onde irei quando morrer?
A ânfora respondeu-me: Bebe na minha boca.
Bebe longamente: jamais voltarás aqui.

“Rubaiyat – Odes ao Vinho” de Omar Khayyam*

Ruba’i nº 5, 19, 21, 35, 56, 83, 86, 99, 113, 134

* Cidadão da Pérsia muçulmana do princípio do século XI. Homem sábio e crítico, astrólogo, matemático e geómetra, que com a normalidade dos amantes do prazer prezou o convívio das mulheres e do vinho, tal como com a simplicidade dos que sabem da naturalidade da Morte, dela também fez poema.

Publicado por machede em maio 25, 2007 12:10 AM | TrackBack
Comentários

Compadre, este é o caminho da Herdadinha (boa pinga essa dos Ervideiras). Já agora, para completar a informação(http://www.vinhos.online.pt/def.asp?id=1600):

A Vendinha é o principal aglomerado da Freguesia concentrando mais de metade do total da população. O actual nome da Freguesia tem origem na sua igreja paroquial pois a denominação de S. Vicente do Pigeiro já aparece documentada em

meados do século XIV.

Em 1341 há um empregamento da herdade a que chamam Folha de S. Vicente do Pigeiro, arrendada de forma consequente na mesma data a Domingos Esteves por oito quarteiros de trigo pois já no século XVI o actual templo ou Igreja Paroquial construída segundo o tipo rústico e população dos fins do Século XVI e começos do imediato, sucedeu a outro primitivo de arte gótica, de que não existem vestígios. Era uma encomenda do hábito de S. Pedro.
Abraços.

Afixado por: Albardeiro em maio 26, 2007 05:59 PM

Num dia qualquer poderei achar que são dois bons caminhos...

Afixado por: Cospelume em maio 28, 2007 10:38 AM

IN VINO VERITAS

Afixado por: Fred em maio 28, 2007 02:00 PM

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