«Não há limites Fernão» *. Veio-me parar às mãos nos anos de brasa. Era interessante. Apelava a uma série de sentimentos e intuições que inevitavelmente somos hospedeiros. Menos ou mais descobertas e reflectidas. Só que coabitávamos um tempo de voarmos em bando. Um tempo de fazer forte a fraca figura. Um tempo caldeirão cheio de emoções e razões. Que caldeávamos com a alquimia de uma vontade comum. Um tempo em que apenas dávamos corda às botas e deixávamos o destino ao sabor da deliciosa embriaguês da liberdade.
O que é certo é que o Fernão me acompanhou de toca em toca, de lugar em lugar. De tempos a tempos limpava-lhe o pó e relia meia dúzia de páginas. E voltava o adormecido pensamento que há minha maneira também era um Fernão.
Cresceu e despontou o buço ao filhote. Com a naturalidade das heranças que calham em vida, o Fernão foi parar no meio dos livros do meu filho. Ali se conserva, no seu quarto, entre outras coisas que já poucas vezes o vêem adormecer e acordar e esperam pela transumância incontornável da sua mudança definitiva de toca.
Ontem entrei lá no escuro, pé ante pé, fingindo não querer acordar a sua ausência e retirei o Fernão. Li-o quase de um tiro. Hoje, encerrada a badana posterior voltei a devolvê-lo. A meia voz, com a serenidade com que os pais encaram o apartamento das crias, disse-lhe: «Não precisaste de fé para voar, precisaste de entender o que era voar» **.
Precisamente no dia que ele faz mais um gregoriano.

imagem e * ** do livro “Fernão Capelo Gaivota” de Richard Bach
O "Fernão Capelo Gaivota" ensinou-nos também a não sermos «carneirada».
Afixado por: visitante em março 2, 2007 02:54 AMentendi e senti, tb eu com uma ave longe do ninho onde era cria, e eu saudoso
abc