CARTA ABERTA A UM SENHOR PROFESSOR DE ECONOMIA , mostrando-se este muito compungido com a derrota do Não – em referendo - e proclamando as desventuras que de aí advirão para o país, quem sabe para a própria civilização ocidental.
Caro Senhor Professor
Que chatice, que monotonia, que grande atraso,
O bloqueio da Economia, os empregos que não aparecem à mesa do Café,
As eternas embirrações do Chefe,
A torrente de abortos que já estarão a acontecer
Por via dessa monstruosa votação no SIM
Ó senhor Professor, tivesse ele sido o Não a ganhar o referendo
E aí teríamos os transportes públicos mais rápidos e menos ruidosos,
menos poluentes
A fuga ao fisco controlada até ao cêntimo
A inflação descendo
Descendo até se transformar em deflação
E todos a ficarmos ricos sem nos darmos conta
E a acompanharmos o crescimento económico da Europa – por que não da China-
O Benfica a rectificar a vergonhosa derrota com aqueles ranhosos do Varzim
Quem sabe até os americanos a safarem-se melhor da enrascadela em que se meteram no Iraque.
Ó senhor Professor,
Tivesse sido o Não em vez do malfadado Sim
Quem sabe os plátanos, e os áceres, e as acácias vermelhas, e os roxos jacarandás,
De que todos – as crianças em particular - tanto gostam, quem sabe, desculpe repetir-me,
Não estariam já em flor,
E não se venderiam sorvetes pelas Esplanadas da Baixa,
E as criadas antigas – com os seus aventais de renda – não andariam já por aí namoriscando
Os seus magalas
Seguramente não haveria essa angústia do aborto.
Ora, fazia-se como dantes - numa salinha limpa, embora húmida
À luz de um candeeiro de escritório - daqueles que tinham uma longa traqueia flexível
E sobre a lâmpada um capacete de alumínio como os soldados da 1ª. Grande Guerra
Não venham cá com estórias, nem com modernices, era limpo ou não era?
E os padres, todos, Professor, e os bispos, a hierarquia em peso – sobretudo
os que tão heroicamente se bateram pelo Não -
Que tranquilidade de pastores não habitaria agora aqueles peitos santos.
Mas nem tudo acabou, emérito mestre de Finanças. A saga continua
Não ouviu, hoje mesmo, declarações do mediático sargento
Que vai bater-se até ao fim da vida pela sua rica Filha?
Como quer o senhor que a realidade da economia
Se sobreponha a tão plangentes dramas da sociedade Lusitana?
Mas não esmoreça, homem, as andorinhas já chegaram
Esteja de ouvido atento
que este ano os grilos, Professor,
vão cantar mais cedo.
Seu indefectível admirador
António Saias
Publicado por machede em fevereiro 19, 2007 05:34 PM | TrackBack