Em classe executiva com a respectiva cortina a dividir os eleitos da plebe, distancia entre bancos superior ao lado do piolho, toalhetes de pano felpudo mesmo e quentinhos para limpar a tromba e as manápulas, comedorias de avião, é evidente, mas da lavra do chefe Vítor Sobral – dá-me que fazer o que um chefe de cozinha reputado goza a elaborar ementas para o industrial cattering. Tintol Duque de Viseu, eh, assim como assim. Cafezito do comendador e a desbunda dos digestivos que troquei pela perseverança no tintol, ainda que do cavaquistão.
Quanto a roncares de carros de corrida, pó e mais pó, gps com precisão micrométrica, dunas não as do gimbrinhas do Reininho mas dunas do Sara a sério, pontos de passagem, camelos e berberes, sofisticados acampamentos à Kadafi, oficinas móveis com tecnologia de ponta, gajas bonitas com fatos de macaco de estilista e marcas top estampadas entre os ombros de gazela que pela frente os decotes tem de ser generosos e acrescentam mais cinco tostões de vontade aos africanos de bazarem para uma Europa com boé de loiras, telefones por satélite em barda, televisões, rádios e afins, nativos indígenas de boca escancarada com overdoses de progresso, heróicos pilotos e navegadores que metem o Gama e o Cristóvão num chinelo, pudera se os outros amandassem umas bocas para a comunicação social é que podia haver comparação, pois é, quanto a este circo, não me apercebi de népias.
- Senhores passageiros dentro de momentos aterramos no aeroporto Leopold Senghor em Dakar – relata uma voz feminina tão de plástico como a comezaina.
Foi por esta altura que me lembrei da famosa corrida do fim de ano. Agora restava ao Carlos Sousa e à Elisabete Jacinto assobiarem-lhe às botas que eu tinha feito a coisa com a passagem do mediterrâneo e tudo numa bagatela de três horitas. Marca do bólide: Airbus 320.
Despertei também para o nome do pai deste Estado, o poeta maior de um Senegal independente há um ror de anos. Olhei pela janela e agradou-me a vista nocturna de longuíssima baía orlada de casario. E pensei para comigo que a coisa deveria ser agradável.
Airbus 320 no chão e toca a andar para o martírio das aduanas e recolha dos trastes. Mais uns papéis de desembarque a preencher só para entreter burocrata e chefe coça na pança. E ala para a rua que se faz tarde. Ala para a rua, alto aí que lá fora é uma multidão de gaijos a esbracejar tambaque e táxis e câmbio pela surrelfa e gaijas e policias feitos com os moinas especialistas em ajuntamentos deste quilate. Coçando a barba, protegido pelo vidro da última porta, traço um olhar a 180º. E no meio da turba diviso um gaijo com uma placa “Hotel Oceanic”. Avanço resoluto surdo e cego aos variados aliciamentos. Que espere junto do policia dos moinas que ainda tem de encontrar um casal de italianos que têm camalho marcado na mesma estalagem. Lá chegam os italianos a falarem pelos cotovelos como é seu apanágio. O gaijo faz marcha atrás com o táxi afim de nos pôr o máximo a salvo da turba e zás praz ia mandando um sinal de transito para o ganheiro. Os italianos perderam o pio. Malas para a bagageira tipo à pegada que cabe mais uma. Os italianos no banco de trás mudos que nem rochedo e submergidos por um montão de tralha e eu repimpado ao lado do corredor, pronto para a última classificativa. Não balbuciei instruções de navegação porque perdi o roteiro logo no inicio da corrida, senão me engano, quando fizemos o primeiro looping.
Hotel Oceanic. Não abro a boca nem que me matem. Dormi, sei lá se dormi, com um ar condicionado cheio de catarro e aos saltos no buraco, com um olho no burro e outro no cigano. Sonhei com um duche matinal retemperador. Lá duche tomei, mas custou-me 3000 XAF (Francos), ou seja, 1000 mocas por cada garrafa de água de um litro e meio. As torneiras aos costumes diziam nada!
O meu Lisboa Dakar já cá canta! Outros que se aventurem.
No dia seguinte Bissau meu amor.

Guardo no entanto com desvelo esta peça (minúscula 2cm x 3cm) do artesanato senegalês que me ofereceram há um ror de anos e cuja estética não tem nada a ver com a inestética viagem.
Que aventura, amigo! E que tal o regresso ao Portugal dos pequeninos? (Tu sabes quem são os pequerruchos a quem me refiro...). Tudo na mesma, não é? Apetece zarpar logo outra vez e de vez, não é? Não há pobreza maior do que esta vidinha de caca a que estamos remetidos: mais uma fatia do ordenado comida pelos impostos, a casa para pagar ao banco, a patroa chateada com o novo visual da vizinha, o raio dos gaiatos que não pensam no futuro, o chefe com a mania que sabe dar ordens, a porcaria dos políticos-pinóquios, o carro que devia ir para a sucata... Tenho a certeza que nos Bijagós a vida é muito melhor, meu! Longe disto, uma palhota é um palácio...
Afixado por: Lacan em novembro 14, 2006 05:20 PM