outubro 09, 2006

Bien Danse

Para a rapaziada que tocava piano (mentira, mil vezes mentira, ninguém tocava piano a não ser o mestre Adilio barbeiro) e falava francês era o “bien danse”. Para o resto da rapaziada que só falava a língua do Camões entremeada de dialecto alentejano era o “balha bem”.
Aos irrequietos não bastava a amuralhada cidade. E iam aos entretenimentos da capital rotinar prazeres e vinham logo de seguida (geralmente quando se acabava o picão), ou, abalavam, deambulavam, cuidavam de angariar para a papa e vinham de vez em vez com mais cinco tostões de jogo de cintura. Parece-me, parece-me que o Balha Bem era mais do segundo naipe. Apogeu lisbonense do dito notável eborense – não me recordo do nome próprio ou sobrenome, e disso peço absolvição ao campeador, somente da alcunha -, décadas de sessenta e princípio de setenta. Profissional - para além da arte que lhe rendeu alcunha bilingue - de matraquilhos. Penso que desta última recolhia o salário ou o rendimento, como queiram. Tinha como escritório principal a Casa de Jogos existente, há altura, no Parque Mayer. Nas bancadas dos topos da mesa de matrecos, junto dos cinzeiros redondos, as apostas dilatavam-se exponencialmente na dimensão do ardor das contendas, arribando não raras vezes a verdosa de vinte por jogo (dez esféricos de madeira em troca de uma moeda de um escudo), verdosa de vinte que, na altura, se cambiava por duas refeições sem desperdícios a palmilhar rua logo ali no Cantinho dos Artistas. Nada de sociedades, trabalhava por conta própria, guarda-redes, defesa, meio campo e ataque. Solitário na aposta e geralmente no lucro. Bola que aportasse no trio atacante, era bola dentro que apenas se suspeitava pelo baque oco no fundo do galinheiro, bloc! Não se sabe muito bem se era só trabalho do ponta de lança, se era coisa a meias com os flanqueadores, tal era a mecha na finta. Até ficávamos com os olhos tipo planetas a rodar em volta do astro-rei numa gasosa supersónica. Era assim o Balha Bem, virtuoso no pé de dança e matador nos matrecos. Faleceram os balhos cá da província, balhos autênticos com arrifação, no intervalo para descanso do tocador, da garrafa de esponche…que calhou na letra A de alifante. Faleceram os matraquilhos do Parque Mayer. Faleceu o Parque Mayer. O paradeiro do Bien Danse é-me desconhecido, se paradeiro ainda tem neste mundo.
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Publicado por machede em outubro 9, 2006 11:32 PM
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Afixado por: em fevereiro 19, 2008 09:27 AM
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