«Nesta família parecem-se todos uns com os outros. Para começar são todos marinheiros pelo menos desde o bisavô que eu conheci em Queimada, no Brasil. São também mentirosos, fabuladores e românticos incuráveis. Mas Corto continua a ser o mais espantoso desta linhagem. À força de não levar nada para o trágico, acaba por vezes por se tomar a sério. A não ser no que toca a assuntos de dinheiro, em que é de uma nulidade impressionante. É coisa que não o preocupa o que faz parte do encanto que tem.»
(do livro “As Mulheres de Corto Maltese”, de Hugo Pratt / Michael Pierre)
A léria subsequente é quase do domínio das fábulas. Mas cá vai; se alguma vez tivesse ingerência nos programas educacionais, tanto o Corto Maltese como o Torpedo e o Milo Manara fariam seguramente parte dos currículos escolares. Tal como o Calvin & Hobbes, de início, também fazem falta para abrir a pestana. No entanto, vou porfiando para habilitar a malta na paralela que, de facto, é a verdadeira academia da vida.
Tenho muita pena de ter tido convivência com as histórias do Corto apenas no segundo quartel da existência. Caso tivesse sido antes, outro galo cantaria. Tenho como certo que falta o mar mar na minha vida. Vida demasiado inundada de sequeiro com mais mar das searas do que mar propriamente de água alterosa ou mansa. Mas não se pode ter tudo.
Ó amigo Machede já não é mau deixares-te cobrir pelas ondas tsunâmicas do Corto, filófoso sem rodriguinhos desta sociedade crua, fria e feia que se nos cola como se fosse uma pele. São ondas refrescantes, cujas insensatas verdades desnudam a realidade e nos mostram que a vida pode ser mais bela por via do inconformismo construtivo. Porque, afinal, isso é que é viver, sentir, dar, fazer. Ou seja: isso é que é SER. O resto é passar por cá, como qualquer ratazana dos esgotos.
O Maltês
(Talvez aparentado do Corto, se não for presunção a mais)