«Sarro, nm fezes ou sedimento que o vinho e outros líquidos deixam aderentes ao fundo das vasilhas; saburra; borra; resíduo de nicotina, que fica no tubo dos cachimbos e boquilhas; fuligem que a pólvora queimada deixa nas armas em que ardeu; certa formação sobre os dentes que não se limpam.»
( “A enciclopédia” da Editorial Verbo)

(Sarro – Bitartarato de potássio e tartarato neutro de cálcio / Alcobaça, Museu Nacional do Vinho)
Quando tagarelamos sobre o sarro, usualmente, referimo-nos ao sedimento deixado pelo vinho. Inclusive, no dia seguinte, após uma embriaguez mais formal é costume bebermos água declarando que é para limpar o sarro da vasilha.
Depois, de meu cultivo dedutivo, existem também outros tipos de sarro mais etéreos. Menos físicos mas mais nocivos para os portadores e, mormente, para quem tem de aturar os ditos detentores. Criaturas estas que recusam ter o pernicioso sedimento como o exorcista esconjura o belzebu. Tal como o sapo que, ao atravessar a estrada, tinha acabado de ser cilindrado por um camion TIR e daí ter ficado com a tripanhada toda de fora. Ao ser avisado pelo boi que, pastava na berma, de ter os interiores à mostra, contestou com amofinação: “Tripas? Os cordões do relógio de bolso, se não se importa!”. Funesta esta maleita, este sarro comportamental. Nefasto por demais demonstrativo do faz o que eu te digo não faças o que eu faço. Democratinhas na sua muito conveniente “democracia”, no seu intolerante princípio – e fim – de falsificada equidade. Déspotas de pacotilha, ordinariamente, com um farto potencial de cobardia. Cagarolas que só têm bravura quando couraçados pela matilha, ou barricados no anonimato. Altivos no porte flácido e no ar compostinho da gravata às riscas do código de barras do servilismo. Velhacos do entendimento que confundem tradição com inovação e o contrário, desenvolvimento com crescimento e o contrário, humor com burlesco e o contrário, enfim catedráticos do chico-espertismo nacional. Demagogos para quem qualquer meio – nem que seja o denunciar o pai, a mãe e o mano – servem para atingir os fins. Os fins deles! Ortodoxos de fés decrépitas em que já nem a sua própria ortodoxia tem fé. Quando muito, encanam a perna à rã para sobreviver na tacanhez do peito cheio de certezinhas gordurosas e para porfiar uns cobres dada a sua penúria de jeito para outros misteres. Unicamente sonsos cardeais da virtude pública e do vício privado.
Os seus deuses que lhes perdoem. Ainda assim, sem rancor!
Sem rancor, amigo Machede?! É feio (lamento) e contraria a minha educação judaico-cristã (não lamento), mas não consigo ter tamanha benevolência para com o sarro que brilhantemente evoca no seu texto. Para cada uma das suas figuras de estilo, o meu imaginário arranja a ilustração adequada, com personagens que povoam as memórias deste cidadão que já passou dos cinquenta e não tem cu para continuar a aturar certas imitações de gente. Dão-me raiva! Adoro provocá-los! Faço questão de salientar a porcaria que são, de olhos nos olhos! Luto com eles! Geralmente, fico ferido pelos seus tentáculos de compadrios arregimentados... mas, não desisto! A vida continua...
Afixado por: José Luta da Silva em setembro 25, 2006 12:18 PMO sarro é uma película de porcaria pegajosa, mal cheirosa e com muito mau aspecto. Olhando bem, tem rosto(s) e identidade(s). De primeiro-ministro, de presidente da república, de ministro, de secretário de estado, de deputado, de presidente da câmara, de governador-civil, de director-geral... Não sei porquê (estou a mentir, sei porquê!, mas não digo) associo sempre o sarro a um político de qualquer cor, especialmente aos pequenotes com ar de limpinhos, penteadinhos e engravatadinhos! Nomes? Isso queriam vocês, mas não é difícil imaginar...
Afixado por: O Destravado em setembro 29, 2006 10:36 AM