setembro 23, 2006

Existencialistas???

Sei que o José Belém sempre foi homem avesso a protagonismos. Antes pelo contrário, cultivava - calhando não cultivava nada, era assim – o recato dos modestos.
Desde que passei a residir uma suficiente quota das 24 horas no Café Arcada que, no turno da noite, me habituei a ver o José Belém, por vezes, na companhia do motorista da camioneta de distribuição das carnes do matadouro. Do último sei a profissão e não sei o nome, do José Belém não sei em que ocupava o tempo para além daquela rotina do Arcada – soube há não muito de uma outra parte.
Eram clientes de hábitos na localização, do lado direito de quem entra pela giratória, mais ou menos a meio da sala e numa mesa encostada à parede, só de duas cadeiras portanto. Não recordo ao certo o que consumiam. Tenho a memória fotográfica que passavam o tempo lendo canhenhos volumosos pouco conversando entre si. Com a mesma discrição com que entravam assim abalavam.
Nós, jovens imberbes com pretensões a figurar na prateleira dos que não andavam cá apenas por ver andar os outros, ruía-nos a curiosidade sobre estas duas figuras. E mandava-mos barro à parede. São isto são aquilo até que nos quedámos pelo epíteto de existencialistas. Tenho a sensação que não desacertámos muito.
Há não muitos anos, após o regresso deste filho pródigo, encontrei-os algumas vezes no Jardim do Garcia de Resende. Todos nós mais amarrotados pela idade, mas eles ainda de mais tempo que eu. Mantinham as cismas da leitura e da conversa avara. Soube por essa altura que o José Belém era pintor, pondo os olhos em duas ou três obras suas. E cismei da razão de não o saber antes, tal como nunca o tinha visto exposto, mesmo em colectivo. Mais percebi que tinha qualidade.
Há coisa de umas quatro mãos cheias de meses, em tertúlia de conversa mansa acompanhada dos inevitáveis comes-e-bebes descobri que a esposa de um amigo de quem aprendi a gostar, era nem mais nem menos que sobrinha e fiel depositária do espólio do José Belém. E esta amiga teve o admirável gesto de me oferecer duas obras do mestre. Grato, sempre!

Nuno.jpg
José Belém - 1992

Há uns anos a Câmara de Évora, montou uma colectiva de pintura e escultura sobre os artistas em Évora no século XX, acolitada de um honesto catálogo. Lá constava uma soberba cantareira de artistas do pincel e do buril. Do Dordio Gomes ao meu amigo José Carvalho (Zé Guinapo), entretanto, precocemente desaparecido, tal como o Palolo. Levo-lhes à palmatória não convocarem obras do Cachatra e do José Belém. Ambos mereciam.

Publicado por machede em setembro 23, 2006 04:25 AM
Comentários

aviva rapaziada!
eles andem ai.
save-se quem puder.

Afixado por: unha negra em setembro 23, 2006 09:33 AM

Esquecimentos que a ignorância agrava. Esquecimentos que a falta de cultura justifica... mas não desculpa.

Afixado por: Leonardo sem da Vinci em setembro 25, 2006 12:33 PM
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