setembro 21, 2006

Da subtileza e da estética dos engenhos para a pesca à linha

O Isidoro de Machede tem na pesca o desfrute de um enorme prazer. Tal como tem nas artes plásticas, na música (alguma: jazz e clássica particularmente), na gastronomia e vinhos, no futebol (digo: futebol desporto), na literatura e na poética, nos espectáculo integral dos toiros (dou de barato aos civilizadinhos do hambúrguer e dos douradinhos do capitão iglo), no convívio com os amigos (sublinho: não dos amigos da onça), e porque não, no escrevinhando de escriba modesto e acocorado, …etc.
Em pé de igualdade gosto de dar trabalho ao cérebro e às mãos. Honro imenso
dar trabalho às mãos, pôr a trabalhar em absoluto a delicada mecânica das mãos, a criativa ferramenta das mãos que não poucas vezes se transcendem no milagre da invenção.
Aqui chegado, impõe-se grafar o fabuloso poema do mestre António Quadros dedicado a estas mágicas extremidades:

O Elogio da mão

A natureza essencial do Homem é a Acção.
A expressão física mais verdadeira, bela e eficaz da Acção é a Mão.
O que distingue o sonho da realidade é que, no Homem que sonha, as Mãos dormitam.

A Acção é Conhecimento e Criação.
A Mão é órgão de conhecimento e instrumento de Criação.

Combina espantosas aventuras da matéria.
Modela a argila, marca a madeira, malha o metal.
Hoje, como ontem, mantém vivo o passado do Homem. E os séculos passam sem que ela altere a essência da sua vida profunda. Sem que renuncie às eternas maneiras de descobrir e reinventar o mundo.

Toda a Acção é repartida. Toda a Acção é já, de base, um colectivo de gestos.
A Mão é a entidade dupla que designa o espaço do gesto e o materializa.
Ninguém possui duas mãos direitas.
O controle do universo exoge uma grande simetria do gesto para um total equilíbrio da Acção.

A Mão que cria não está separada, nem do corpo, nem do espírito.
Mas entre espírito e Mão não há relações dóceis.
A Mão não é escrava nem o espírito é o senhor.
O espírito faz a Mão, mas a Mão faz o espírito.
O gesto que não cria é um gesto sem ter amanhãs.

O gesto que não cria, provoca e define o estado de consciência vão.
O gesto que cria exerce uma acção contínua na vida interior.

A Mão arranca o tacto à sua passividade receptiva e organiza-o para a Experiência e para a Acção.
A Mão dá ao Homem a posse da dimensão, do peso, da densidade e do número.
Criadora de um universo próprio e inédito, deixa por toda a parte a sua marca.
Entra na matéria, movimenta-a e transforma-a.
Reconhece a Forma, ritma-a e transfigura-a.
Educadora do Homem, multiplica-o no espaço e no tempo.

Que mais me aprova dizer? Mas tento-o. E tento-o com as mãos.
Escrevi no cimo sobre o prazer da pesca à linha. Um jogo solitário entre o Homem e a Presa. Um jogo solitário que pode ser comungado no convívio da margem com outros jogadores. Um jogo que requer utensílios, vários utensílios. De diferentes matérias, formas e cores. Utensílios que podem envolverem a Mão do jogador. A Mão do jogador que fica ligada umbilicalmente ao sucesso das jogadas.
Estralhos.jpg
A minha primeira cana, fabriquei-a na íntegra. Usando o bambu para a cana propriamente dita, cortiça e madeira para o cabo, arame e fio de carreto para os passadores. E pesquei com ela imenso tempo já de calça comprida e o despontar de um ralo buço. Depois rendi-me às tecnologias de ponta. Não sei se sou mais feliz, duvido?
Mas continuo a pôr a Mão nos nós e nos laços e noutras minudências que dão prazer e alimentam o espírito.
Moscas.jpg
E, finalmente, existe sempre o sucesso ou insucesso das mãos no trabalhar da presa, da água até ao prato!

Publicado por machede em setembro 21, 2006 01:07 AM
Comentários

Oh Isidoro, não será mais carpas, achigâs, barbos e outros mais.
Agora trutas...
Lagoia

Afixado por: Toino em setembro 21, 2006 02:44 PM

Caro Machede, quando andava à escola e não dava uma para a caixa nos famigerados "pontos", tinha por hábito desenhar um pescador à linha sentado à beira de um rio. Os professores ficavam furiosos, por pensarem que estava a gozar com eles. Certo dia, um perguntou-me: "ouve lá ó rapaz, o que é que significa esta porcaria?" Respondi-lhe o óbvio: sô tor, significa que não pesco nada disto.
Muitos anos passados, "doutor" encartado, aprendi umas coisas, mas continuo a não pescar nada de muita coisa...

Afixado por: Pescador de Tretas em setembro 21, 2006 03:18 PM

HEY,
esse mestre pescador (antónio quadros) pescou mal a page 123,capítulo VI "o elogio da mao", HENRI FOCILLON " O mundo das formas" edicoes sousa & almeida
sou mais pelo espírito da matéria...
a haver 2 maos DIREITAS o meu SPORTING nao foi prejudicado...
pois é pá
as minhas "moes" nao dormitam estao gastas de procura
ABRACO

Afixado por: cipriano em setembro 21, 2006 06:23 PM
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