setembro 08, 2006

Coexistências…

Coexistiam os cidadãos nos cafés, a solo, a duo, em tertúlia mais numerosa e rotineira com mesa certa ou ao deus dará. Ir ao café, frequentar o café, estudar no café, encontrar no café, namorar no café, meditar no café, negociar no café, vivênciar a intimidade do café… A aragem refrigerante e inovadora da ventoinha colonial de teto a rodopiar mansamente durante o estio, ou o quente conforto natural do bafo e do calor dos corpos nas invernias mais severas. Bisbilhotar os odores que pairavam no café: o tabaco amarelo ou preto, a cigarrilha e o charuto ou ainda o cachimbo; as torradas ensopadas em manteiga e os bolos; o café de máquina ou saco, o galão, o aperitivo e os digestivos, o capilé e o sumo de laranja ou limão. A nomenclatura particular do serviço, por vezes, quase cabalística: o abatanado e o café em copo ou chávena de vidro, com o recipiente aquecido ou frio, italiana, curto, cheio e ainda pingado, o carioca e o garoto, o especial de limão e o chá preto ou verde e outras inúmeras infusões, a meia de leite a acolitar o bolo de arroz, a aguardente branca ou amarela e a envelhecida em balão aquecido na lamparina, o uísque, uísque ou o uisquezinho saloio (água de castelo com brandy), os licores de várias proveniências, cores e sabores com essa instituição nacional que é o licor Beirão a capitanear tão vasta prateleira. Anteriormente ao vinte e cinco, coabitavam mal uma mistura dos gentios com a clivagem da praxe: a larga maioria situacionista, os minguados e debaixo d’olho do reviralho e mais alguns esparsos que mantinham um mutismo que só o divino mestre tinha conhecimento da verdade e, mesmo assim, sabe-se lá da insondável mestria do disfarce. Posteriormente ao vinte e cinco, foram campo de combate político em que as clientelas se barricavam pela fezada partidária, sendo as guerrilhas mais acesas entre o amontoado de esquerda do tudo ao molho e fé em Marx e noutros deuses menores (vale abrir um parênteses para anunciar que os acratas não tinham fé, ou diziam que não, e estavam estoicamente ao lado do camarada Bakunine, o resto era canalha bolchevique) e uma direita entrincheirada numa social-democracia e democracia cristã envergonhadas. Aliás, era normal os sítios serem catalogados mais para aqui ou mais para ali pela frequência destes ou dos outros. É patente que estas memórias reflectem maioritariamente a vida nos ditos botequins do sul. A norte, a não ser nalguns enclaves, a realidade desalinhava um pouco, muito e mesmo muitíssimo.
Évora, também teve os seus cafés históricos. Resta-me na lembrança meia dúzia de sítios com carradas de estórias e, no meu particular, muitas horas de refaça dos fundilhos e coteveleiras por cadeiras e mesas, principalmente no Arcada (o que resta hoje é um cadáver adiado irreconciliável com o outrora) e no Portugal. Outros famosos haviam, Estrela d’Ouro e Diana Bar (mais conhecido na gíria pelo café navalha). E as magnificas (principalmente para a marmelada do namorico) pastelarias Bijou e Académica. Mais recuado no tempo ainda a tempo de lhe ter posto a vista em cima ainda que de calções existiu, na entrada dos arcos do Largo da Porta Nova, o café Camões que feneceu no final da década de cinquenta do ido centenário.
Século XXI, tempo de outras estéticas e outros estares e vagares. Mesmo outras nomenclaturas mais para o cafetaria e lanchonete.

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Café Camões – 1937 / imagem de Eduardo Nogueira

Publicado por machede em setembro 8, 2006 10:26 PM
Comentários

Ontem, no Luís da Rocha, assolou-me (assolar, assolar, é assim um bocado exagerado... digamos: picou-me) um pensamento: aquele café, com algum espítito de café, e tal, é já único num raio de muitos e muitos quilómetros. Assim, a voo de pássaro, -que não de pássara!...- para cima, em Évora a situação é a que referes, para baixo, em Faro, havia o Aliança... ainda lá está, quase podre... O Luís, se calhar, já é único num raio de centenas de quilómetros. Ora aí está uma coisa que a rapaziada da Região de Turismo devia ter em conta.

Um abraço,
Francisco Nunes

P.S.: Tenho gostado muito, nos últimos tempos, do teu blogue. (Sendo este crítico a besta que é, até pode não ser lá muito bom sinal... Olha! é o que se arranja.)

Afixado por: Planície Heróica em setembro 11, 2006 01:12 PM

Se as mesas dos desaparecidos cafés falassem... Ai os segredos, conspirações e outras coisas que aconteciam em cima dos tampos e o que mais se fazia por baixo deles... Que saudades, ai, ai!

Afixado por: Gustava dos Prazeres e Morais em setembro 12, 2006 02:57 PM
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