agosto 16, 2006

Carta ao intelectual israelita Frank

Escrevo-te esta carta com o coração apertado. Deixo a análise fria para a razão cínica que domina o comentário político ocidental. És um dos intelectuais judeus israelitas — como te costumas classificar, para não esquecer que um quinto dos cidadãos de Israel é árabe — mais progressistas que conheço. Aceitei com gosto o convite que me fizeste para participar no Congresso que estás a organizar na Universidade de Telavive. Sensibilizou-me sobretudo o entusiasmo com que acolheste a minha sugestão de realizarmos algumas sessões do Congresso em Ramallah.

Escrevo-te hoje para te dizer que, em consciência, não poderei participar no congresso. Defendo, como sabes, que Israel tem direito a existir como país livre e democrático, o mesmo que defendo para o povo palestiniano.

Esqueço, com alguma má consciência, que a Resolução 181 da ONU, de 1947, decidiu a partilha da Palestina entre um Estado judaico (55% do território) e um Estado palestiniano (44%) e uma zona internacional (os lugares santos: Jerusalém e Belém) para que os europeus expiassem o crime hediondo que tinham cometido contra o povo judaico.

Esqueço também que, logo em 1948, a parcela do Estado árabe diminuiu quando 700 mil palestinianos foram expulsos das suas terras e casas (levando consigo as chaves que muitos ainda conservam) e continuou a diminuir nas décadas seguintes, não sendo hoje mais de 20% do território.

Ao longo dos anos tenho vindo a acumular dúvidas de que Israel aceite, de facto, a solução dos dois Estados: a proliferação dos colonatos, a construção de infra-estruturas (estradas, redes de água e de electricidade), retalhando o território palestiniano para servir os colonatos, os “check points” e, finalmente, a construção do Muro de Sharon a partir de 2002 (desenhado para roubar mais território aos palestinianos, os privar do acesso à água e, de facto, os meter num vasto campo de concentração). As dúvidas estão agora dissipadas depois dos mais recentes ataques na faixa de Gaza e da invasão do Líbano. E agora tudo faz sentido.

A invasão e destruição do Líbano, em 1982, ocorreu no momento em que Arafat dava sinais de querer iniciar negociações, tal como a de agora ocorre pouco depois do Hamas e da Fatah terem acordado em propor negociações. Tal como então, foram forjados os pretextos para a guerra. Para além de haver milhares de palestinianos raptados por Israel (incluindo ministros de um governo democraticamente eleito), quantas vezes no passado se negociou a troca de prisioneiros?

Meu Caro Frank, o teu país não quer a paz, quer a guerra porque não quer dois Estados. Quer a destruição do povo palestiniano ou, o que é o mesmo, quer reduzi-lo a grupos dispersos de servos politicamente desarticulados, vagueando como apátridas desenraizados em quadrículos de terreno bem vigiados. Para isso dá-se ao luxo de destruir, pela segunda vez, um país inteiro e cometer impunemente crimes de guerra contra populações civis. Depois do Líbano, seguir-se-á a Síria e o Irão. E depois, fatalmente, virar-se-á o feitiço contra o feiticeiro e será a vez do teu Israel.

Por agora, o teu país é o novo Estado pária, exímio em terrorismo de Estado, apoiado por um imenso lóbi comunicacional — que, sufocantemente, domina os jornais do meu país — com a bênção dos neoconservadores de Washington e a vergonhosa passividade da UE. Sei que partilhas muito do que penso e espero compreendas que a minha solidariedade para com a tua luta passa pelo boicote ao teu país. Não é uma decisão fácil. Mas crê-me que, ao pisar a terra de Israel, sentiria o sangue das crianças de Gaza e do Líbano (um terço das vítimas) enlamear os meus passos e embargar-me a voz.

(Boaventura de Sousa Santos, Revista Visão de 27/07/2006)

Publicado por machede em agosto 16, 2006 08:32 PM
Comentários

passo ...
não consigo ler com os 2 olhos

Afixado por: bamboo em agosto 16, 2006 10:19 PM

apesar de ter gostado do texto estou em desacordo com o autor quando parece defender a resolução 184 da ONU na qual os estados europeus mais os américas, vencedores da guerra, autorizaram que os judeus criassem o seu estado na Palestina, esquecendo arrogantemente que esse local era habitado por um povo que sempre aí tinha vivido. Terá sido porque esse povo era árabe e pobre? Se os europeus queriam expiar as suas culpas pela maneira como durante séculos tinham tratado os judeus porque é que não seguiram a opinião sensata do rei da arábia saudita, Saud, quando afirmou que até concordava que os judeus deveriam ter direito à sua pátria, mas uma vez que tinham sido os alemães que tinham cometido os crimes hediondos durante a guerra, teriam que ser estes a ceder uma parte do seu território para a fundação desse estado.
Como é sabido esta sugestão não teve acolhimento, nem poderia ter tido já que os nazis tinham feito um favor a esses estados - polónia, alemanha, frança, austria, hungria - ao terem eliminado fisicamente durante a guerra significativas comunidades judaicas que aí viviam. Está claro que nunca puderiam ter consentido na criação de um estado judaico no coração da europa.Quanto mais lonje da porta melhor.
Gostava que a Esther Mucznik tivesse lido o texto, mas como deve estar de férias em Israel deve-lhe ter passado ao lado.

Afixado por: luis filipe godinho em agosto 17, 2006 11:49 PM

apesar de ter gostado do texto estou em desacordo com o autor quando parece defender a resolução 184 da ONU na qual os estados europeus mais os américas, vencedores da guerra, autorizaram que os judeus criassem o seu estado na Palestina, esquecendo arrogantemente que esse local era habitado por um povo que sempre aí tinha vivido. Terá sido porque esse povo era árabe e pobre? Se os europeus queriam expiar as suas culpas pela maneira como durante séculos tinham tratado os judeus porque é que não seguiram a opinião sensata do rei da arábia saudita, Saud, quando afirmou que até concordava que os judeus deveriam ter direito à sua pátria, mas uma vez que tinham sido os alemães que tinham cometido os crimes hediondos durante a guerra, teriam que ser estes a ceder uma parte do seu território para a fundação desse estado.
Como é sabido esta sugestão não teve acolhimento, nem poderia ter tido já que os nazis tinham feito um favor a esses estados - polónia, alemanha, frança, austria, hungria - ao terem eliminado fisicamente durante a guerra significativas comunidades judaicas que aí viviam. Está claro que nunca puderiam ter consentido na criação de um estado judaico no coração da europa.Quanto mais lonje da porta melhor.
Gostava que a Esther Mucznik tivesse lido o texto, mas como deve estar de férias em Israel deve-lhe ter passado ao lado.

Afixado por: luis filipe godinho em agosto 17, 2006 11:50 PM

Escapa-me a razão porque - havendo disponibilidade de dados das Nações Unidas - ninguém diga a verdade como ela era no terreno em 1947/48.

É pura e simplesmente mentira que a resolução 181 (II) dava um território aos judeus e outro aos palestinianos.

O Plano de Partilha de 1947, de facto dividia a Palestina num estado Árabe, outro Judaico e na Cidade Internacional de Jerusalém (incluindo Belém). Mas nem o Estado Árabe ficava só para Árabes, nem o Estado Judaico ficava só para Judeus, nem a Cidade Internacional de Jerusalém ficava só para Árabes ou Judeus. Todos as etnias ficavam a viver lado a lado, exactamente onde estavam.

Dados tirados da Resolução 181 (II)
O Estado Árabe (amarelo no mapa) era partilhado por todos os seus 735.000 habitantes, sendo 725.000 Árabes e 10.000 Judeus. Todos com a mesma cidadania e direitos iguais.

O Estado Judaico (rosa no mapa) era partilhado por todos os seus 905.000 habitantes, sendo 498.000 Judeus e 407.000 Árabes.

A Cidade Internacional de Jerusalém (branco no mapa) era partilhada por todos os seus 205.000 habitantes, sendo 105.000 Árabes e 100.000 Judeus.

A totalidade da população da Palestina em 1947 era de 1.890.000 habitantes, divididos em 1.237.000 Árabes e 608.000 Judeus.

Os Judeus aceitaram o Plano de Partilha da ONU, os Árabes não aceitaram, partindo para a primeira guerra árabo-israelita, sendo esta a base do conflito que viria a degenerar noutras complicações.

Afixado por: tribunus em agosto 24, 2007 11:42 PM
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