agosto 06, 2006

Geografia Senti Mental

Para quem como eu viveu, no inicio da década de 70 do abalado século, um gregoriano de 365 na margem esquerda, ou seja, na margem de Cacilhas ou pela terra mais adentro nos amontoados dormitórios, Lisboa divisava-se pela luz crua da manhã, ou, adivinhávamos-lhe os contornos rompendo do nevoeiro dos cacilheiros de bífido atracar, Cais do Sodré ou Terreiro do Paço. Isto na ida para a capital, porque seria (haveria vezes que não) a horas normalmente convenientes, horas a que tal e qualmente circulavam os cidadãos decentes.
Na vinda. Só do Cais do Sodré, no último das 2:45, ou seja, dos moinantes que tinham deixado os últimos copos a meio, nos Jamaicas & Outros Sítios Onde As Senhoras Tratam Os Homens Por Tu, para não perder o transporte para a tarimba. A não ser que o atrevimento do engate dessa santa noite, apresenta-se direito a garina e camalho sabe-se lá se antes já amornado. Os cidadãos decentes, esses tinham, quando muito, tinham largado, no último do Terreiro do Paço às 21:30 para o doce lar pantufar a existência na gaveta periférica. Mas voltando às desoras da caravela dos moinas. A essa hora, o afastamento da capital era o de uma lente que vai paulatinamente desfocando até restar apenas nenhures na margem direita. Apenas a sirene do Ginjal cortava a noite com estridência crescente ao aproximar do cais da margem esquerda. O gentio que frequentava o derradeiro era o de um autêntico albergue espanhol: as necessárias e incontornáveis senhoras prostitutas; alguns chulos a fecharem a contabilidade de mais um dia de labuta; diminutos carteiristas desprevenidos, dada a hora em causa estar a léguas do seu horário de trabalho normal cujos tansos já roncavam a sonhar com o cachucho que já era; os profissionais da noite de vários excertos, condições e idades; um ou outro noctívago debutante; um par ou um trio de bêbados demasiado liquefeitos a bombordo e a estibordo; um casalinho à proa apalpando húmidas maresias; e um ou outro cidadão decente que tinha na noite o horário do ganha pão e barafustava toda a santa viagem contra a restante malandragem.
Entre a ida e a vinda, bom, entre a ida e a vinda era um sem número de curtas e longas metragens que, enquanto não arrefecer o céu da boca a alguns figurões, ainda são do domínio da «informação classificada».

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Imagem de Carlos Marques

Publicado por machede em agosto 6, 2006 10:08 PM
Comentários

A beleza da cidade perde-se agora na sua crueza. A idade é um acrescentar de lentes, e estas tiram o brilho ao olhar. E já não se pode fazer "zoom-out". Por isso é que cada (c)idade tem um tempo e um modo único, e nenhum deles se substitui.

Afixado por: Sílvia em agosto 10, 2006 10:50 AM
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