outubro 18, 2005

O terrenamente ainda possível e o notoriamente impossível

Nestes amadorismos do garatujar sempre tive dois anseios. Um, ainda possível, dar à estampa umas lérias em parceria com o mê Luís Afonso. Coisa que muito possivelmente ficará apenas pelo anseio dado o atarefamento do artista. O outro, terrenamente impossível, dado o mê Pedro Ferro já ter entregue o canastro ao criador há um bom par de luas.
Estas coisas vêm geralmente à tona da memória, quando ando por aqui catando nos canhenhos que entretanto se foram avultando paralelamente aos imparáveis dias, semanas, meses, anos e séculos das veredas do vício do deus dará das letras.
Hoje, tirei o pó com a manga-de-alpaca a um recorte do Público de Dezembro de 94, do século que também já entregou a alma ao criador. Recorte que tem a importância de ter uma das crónicas do Pedro que sempre me há-de rebolar de gozo.

Para o céu no comboio da Cuba

O padre Prudêncio morreu com fama de santidade no comboio da Cuba.
Era pároco numa aldeia sem nome no mapa. Viajava em segunda classe para o Barreiro. Tinha-se finalmente rendido à insistência do sobrinho advogado para passar uns dias lá em casa, na Cruz de Pau.
Ao lado da bagagem, o padre levava uma caixinha de cartão com um porquinho de doce de amêndoa e gila do Luís da Rocha para oferecer à mulher do sobrinho, à espera do primeiro filho.
Adormeceu nos bancos de napa suja, embalado pelos sacões do comboio a cruzar molemente a planura.
Nunca mais acordou. Já não ouviu o factor gritar – “Casa Branca” – num grito desprendido.
Foi o factor que deu com ele morto quando passou revista às carruagens no Barreiro.
O factor ficou com o porquinho de amêndoa e gila. E, na tal aldeia sem nome no mapa, as beatas ficaram com a convicção de que também se pode ir para o céu no comboio da Cuba.”

Pedro Ferro

Publicado por machede em outubro 18, 2005 03:51 PM
Comentários

Excelente! É por isso que o Pedro Ferro ainda por cá anda entre nós...

Afixado por: Bocadecabra em outubro 19, 2005 04:47 PM

Já que o segundo anseio não é possível, embora a atingir o primeiro. A tua escrita e o humor do Luís Afonso casavam mesmo bem!

Afixado por: Louro Alves em outubro 20, 2005 09:28 AM

Vou aproveitar para escrever ao Pedro:
É pá, foste-te embora e nunca me chegaste a oferecer o tal livro de não sei quê que tinha sido editado pela Câmara de Serpa! Foste-te embora sem te despedires, nem nada. Não apanhaste o comboio de Cuba e, por isso, não soube, senão vários dias depois que tinhas partido. Foi chato, pá. Ficou-me uma pena, no caminho: nunca te ter apoiado na ,uta que travaste pela direcção do Diário do Alentejo... Não podia, pá; eu era amigo de ambos e não quis perder a vossa amizade. Lembras-te daquele serão naquela esplanada pequena, na Vidigueira, tu, eu e as nossas companheiras a futurar. Fomos premonitórios, sabes? Isto agora está muito mais difícil do que era naquele cenário hilariantemente trágico que desenhámos. Dizias-me que, se fosses do meu tamanho sabias bem o que fazer. Nunca me explicaste. Vais explicar-me um dia destes, quando eu tomar o comboio para Cuba ou para outro sítio qualquer, para ir ter contigo a exigir-te que me dês o tal livro editado pela Câmara de Serpa sobre não sei que assunto...
Por agora, fica com este último abraço que saberá por quantos não pude dar-te antes da partida.

Afixado por: Ed em outubro 20, 2005 07:27 PM