Uma herança bem antiga, esta do pão. Tão antiga que morre nas profundezas do nascimento da civilidades nas práticas alimentares. É também o pão que fará a destrinça entre os homens civilizados e os homens bárbaros. É também o pão que revela o homem transformador, o homem do saber fazer. O saber fazer que, para além do pão, também chega ao azeite e ao vinho, trempe fundamental da nossa civilização mediterrânica.
Os romanos como povo difusor da cultura da alimentação, tinham no pão um emblema forte da sua dieta. No entanto, aquando da sua chegada a terras lusitanas, já por cá existia o pão fermentado em detrimento do pão ázimo. Talvez por via desta simbiose, conquistador conquistado, nos costumes alimentares, se tenham demorado por cá tanto tempo.
Ainda hoje somos guardadores zelosos desta epopeia do pão. Do pão, símbolo dos anseios do povo nas palavras de políticos e poetas. Pão e circo; a paz, o pão, a saúde, a habitação… Do pão, mote das sentenças populares: pão, pão, queijo, queijo; a pão e laranjas; comer o pão que o diabo amassou. Do moreno pão de trigo que em tempos também foi de centeio, como tempos antes o tinha sido de outras sementes.
E tal como a nossa cultura não dispensa o azeite e o vinho, não prescinde igualmente do pão nosso de cada dia. O pão, cujo oscilar de preço nos continua a provocar o barómetro interior do nosso descontentamento mais elementar. O pão, o único produto a que o Salazar nunca permitiu subir o preço - coisas da sensibilidade primária de qualquer ditador que o quer continuar a ser.
Disse-nos recentemente a comunicação social que a cotação do trigo bateu o recorde, o que inevitavelmente terá consequências acrescidas para uma panóplia de bens alimentares essenciais. O aumento do consumo de carne nos países em desenvolvimento, principalmente na China e na Índia, está na origem da subida dos preços. O sustentar das necessidades básicas dos homens, tem um impacto tal no andar do mundo que, talvez, o abane mais que o crescente e desmesurado aumento do preço do petróleo. É a supremacia da necessidade de satisfazer o óbvio em detrimento do supérfluo.
Mau augúrio este indicador transmitido pelas bolsas de valores. Um mundo que contende pela posse de produtos básicos, é certamente um mundo à beira de convulsões imprevisíveis. No entender de que esse imprevisível é onde assenta hoje o omnipresente mercado global. Mercado que, não esqueçamos, é composto por uma imensidão de seres humanos capazes de pontapear a harmonia reinante a qualquer momento e em qualquer direcção. É dos livros!
Por cá, outra pedrada no charco. Estranheza não pela pedrada, mas pela mão que a arremessou. O patrão do Observatório da Segurança, general Garcia Leandro, pessoa insuspeita por ser de um organismo do estado, é desta vez o actor que decidiu falar alto e desabrido. As actuais tropelias incontáveis da banca, as escandalosas remunerações e indemnizações dos administradores, o despudor da promiscuidade entre o poder político e o económico, a corrupção reinante e avassaladora que é um dado mais que óbvio, fazem parte das preocupações do general. Diz ainda que a sua capacidade de resistência psicológica a tanta desvergonha, vai enfraquecendo todos os dias. Alerta ainda, para a eminente explosão social que pode atear a qualquer momento na sequência de movimentos de cidadãos que não podem aguentar mais o que se passa.
Isto foi dito pelo general Garcia Leandro, chefe do Observatório de Segurança, não por mim.
Joaquim Pulga
(Crónica de Opinião – Rádio Diana FM)
Fevereiro 11, 2008
O extraordinário não foi o que disse e que reconfirmou. O invulgar foi ter sido uma pessoa de dentro do sistema a escancarar a voz. Geralmente o atrevimento da impertinência só chega até ao dia que se sobe o degrau do estatuto. Depois, à que respeitar o pacto de silêncio quanto a não disparatar inconveniências contra o sistema de que também se faz parte. Tacticamente deve-se manter a postura bem composta no aforismo africano do macaco: cego, surdo e mudo. O assim não proceder, ao mandar pedras aos telhados dos outros corre-se o risco de um dia nos atingirem os nossos que também são de vidro.
É esta, infelizmente, a cartilha do pensamento dos nossos políticos. É esta a cartilha a que se obrigam voluntariamente os nossos dirigentes quando trepam a um lugar de responsabilidade do nosso poder. É este o fadário das nossas fadas políticas. É esta a omertá que o nosso império teceu e continua a tecer.
Pobre povo que elege e arca com tais salafrários. E se porventura algum gato deixou o rabo de fora, anémico povo que assiste impávido e sereno, no órgão máximo de soberania legislativa, ao desfilar de sucessivas comissões de inquérito que não inquirem patavina. Ou se inquirem, apenas inquirem o vazio da contumaz irresponsabilidade da prescrição.
O bastonário apenas se portou como um cidadão honesto e um profissional responsável, mau grado o escarcéu das virgens ofendidas pelo descaramento de um seu par. O jurista Marinho Pinto apenas disse e reafirmou o que há muito tempo vem dizendo: “Manifestou a sua indignação relativamente à existência de uma criminalidade de colarinho branco que se pratica quase impunemente na sociedade portuguesa”. Coisa que qualquer cidadão mais atento sabe até à exaustão ser verdade.
Os negócios de milhões com o estado, tendo por matérias bens do património público, quase sempre em conexão com as mesmas pessoas e grupos económicos únicos. Coisa que qualquer cidadão mais atento detecta nas notícias do dia-a-dia do país.
Que há pessoas que amontoaram grandes patrimónios pessoais no exercício de funções públicas ou em simultâneo com actividades privadas, sem que nunca se conhecesse a real origem do enriquecimento. São factos que qualquer cidadão sem precisar de estar muito atento vislumbra, aqui, na parvalheira, ao passar da passadeira e atentar no topo de gama que parou anteriormente.
Um homem da causa disse um dia que o melhor da festa não é estar no poder, mas sim no que se segue ao sair. Sabia por demais do que estava a falar. Sabemos por demais do que estava a falar. Lá, dos que estão no topo da pirâmide do poder, cá, dos que andam pelo sopé do mesmo poder. É uma evidência que nos entra pelos olhos até à exaustão. É uma evidência que eles se perpetuam indistintamente da coloração que servem e de que se servem. Ou não fosse tão grande o afã de esgatanharem até lá acima mesmo que para isso tenham de vender a mãe.
Para coroar o bolo, recordo ainda palavras do bastonário para reafirmar a pobreza do estado de sítio em que continuamos a viver: “Há um sentimento generalizado na sociedade portuguesa de que o sistema judicial é forte e severo com os fracos, e fraco, muito fraco e permissivo com os fortes”.
Com uma antiguidade bem medida está numa das paredes, do antigo tribunal da antiga comarca de Monsaraz, escarrapachado num fresco a imagem do juiz com duas caras que sorri para o rico que o presenteia com um molho de pombos e se mantém bisonho para o que nada lhe oferece.
O meu aplauso por mexer na ferida bastante infectada da sua classe senhor bastonário.
Joaquim Pulga
(Crónica de Opinião – Rádio Diana FM)
Fevereiro 4, 2008