
Não é um qualquer imaterial, é o baril do 34 da rua da Gala, na baixa velha de Coimbra. O baril do 34 que mora precisamente ali no 34. O 34 que tem por vizinhos, há direita e há esquerda, o 32 e o 36. Rapaziada esta da mesma mocidade. Coisa para terem sido colegas de carteira pelas classes da primária. Coisa para terem jogado ao pião e ao berlinde ali na borda-d’água do Mondego. Não que não se dê bem com os da frente, mas não é a mesma coisa, o mesmo à vontade do ó vizinho empreste aí um raminho de salsa que eu pago-lha quando for ao 17 da casa de hortaliça. É realmente outra amizade esta pelos vizinhos do lado, não há dúvida. Os da frente, atribuem esta lateral afeição ao feitio divisível dos números pares. Para eles impares, é tinto ou branco, pares ou impares tanto se lhe dá. Mas, valha a verdade, na rua da Gala as tricas não passam de pequenos amuos numerários. Coisa menor se comparada com os filmes a preto e branco dos humanos. Na rua da Gala, é como tudo na vida. Vai-se mais à bola mais com a cara daquele não desgostando da cara do outro. Não se explicam assim do pé para a mão estas coisas do gostar mais ou menos, é como a raiz quadrada. É o mesmo com a família numerária mais chegada. Ele, o 34, gosta imenso do 24. O grande amigo duas dúzias, como gosta de o apelidar. Já não preza lá grande coisa o 44. Acha-o um pouco snob, um narciso com a mania que é minimal. Aborrece-o o 14. Dele, diz constantemente, ao 32 e ao 36, que é apenas um 7 multiplicado pelo 2. Já ao 4, não se cansa de o proteger. Vê-o como um irmão mais novo: o puto. Dele, d’O 34, dizem ter um génio difícil. Tem pêlo na venta. Nunca esteve para outros números. Isso, e não só, comentam em surdina, não lhe vá chegar aos ouvidos, os sócios das agremiações do Calendário e das Horas. Um anarquista empedernido que não dá mão ao tu cá tu lá da tabuada. Ele é O 34.
É aqui que reconheço o lacre da minha língua pátrida. É aqui que o rompante límpido do português espelha a pernada dissonante do meu alentejanado cante.
É daqui que a língua do poeta abalou para dançar com outras formas de conversares. Por terra e por mar, por ar não certamente dada a ainda abonada ausência sequer da passarola do Gusmão. E se amancebou tantas vezes como linguarejares pariu, nas américas, nas áfricas, nas ásias e noutros conquistares para além do adamastor da semântica.
Por todos esses sítios se construi-o [e continua] noutros verbos e cantares. E retornou ao regaço da pátrida para desencolher o horizonte da representação. Ou, por lá continua mulata e amante das gentes que a recitam.
É aqui a coimbrar que reconheço e me aconchego na pátrida da língua e reafirmo a mátrida aquentejana.
A união pedonal desconcentrada sobre o bazófias, agora mais para o gordo pacato por mou da engenharia hidráulica.
A D. Inês Não de Castro, mas dos tremoços e amendoins para compensar a minguada pensão.
O ainda paradoxo camponês em território de mercadores de tralha cosmopolita.



Viajando de caleche, do sul para o norte, por alturas do Mondego, provavelmente, numa manhã nevoenta de ressaca literária.
«Olha a estúpida Coimbra! Sempre tive uma consciência honesta sobre a minha ignorância, por isso nunca me fiz doutor.»
Camilo Castelo Branco dixit, segundo Agustina Bessa-Luís

Já lá vai uma trempe de décadas e mais uns anos avulsos que Samora Machel proclamou a construção da República Popular de Moçambique.
Morreu-lhe, entretanto, o camarada guerrilheiro presidente.
Entre a tormenta e a aquietação os moçambicanos reinventam-lhe, tempo após tempo, um Moçambique construindo-se no ressuscitar das acácias rubras!
Conclusão a que chegaram alguns deputados do PS numa reunião do grupo parlamentar – segundo as tradicionais fontes bem informadas.
Dado os movimentos rectificativos serem chão que deu uvas no tempo da arqueologia maoista, sobeja, aos mortificados deputados, usar a excelência da mais badalejada ferramenta contemporânea: A OPA. Que lancem uma OPA sobre o governo já que, em sua opinião, este lançou uma OPA sobre o partido socialista [deles]. OPA com OPA se paga!!!
Os cordeiros do reino do Senhor, ao pilotarem um veículo motorizado (calhando, também extensivo à tracção pedaleira e animal), devem: para além da obrigatória introdução da password «sinal da cruz», acatar as normas extensivas aos outros terrestres avulso, tais como, sinalização rodoviária, limites de velocidade e o não consumo de álcool ou narcóticos. Chama ainda o Vaticano a especial atenção dos pilotos do reino para a total contenção na mímica (ao estilo: vai-te coçar, ganda demente, toma lá manguito, pega um das caldas, vou-te às fuças na tarda, olhó invisual…), nas canoras pilhérias nauseabundas e outras putativas diatribes fora de catálogo.
Sobre a barbuda acarretada pelos cordeiros pilotos, a circular de volante nas garras ao jeito de duplos cinematográficos, sem terem réstia de trambelho para a vertiginosa ou encaracolada tarefa da curva e contra-curva, portadores de cartas ao género das extirpadas na farinha amparo e mais modernamente nos gelados olá, particularmente vocacionadas para a produção de anjinhos mais ou menos tenros, o Vaticano nada normaliza devido aos vastos e rendosos prados onde pastam os cordeiros da indústria dos popós e do pitróli.
“ Para compreender bem os Chavantes*, comecei a organizar um pequeno dicionário da sua língua. E até fiz parte das suas sociedades secretas! Os homens reuniam-se entre eles e era suposto ocuparem-se de magia, mas na realidade ficavam sentados, a fumar. Quando lhes perguntei que magia havia afinal naquilo, deram-me a entender que os ritos mágicos eram um mero pretexto para ficarem sossegados, entre homens, longe das mulheres e suas histórias. No fundo, era o mesmo princípio dos clubes da alta sociedade britânica: entre um guerreiro da tribo dos Chavantes e um coronel do exército das Índias, não havia grande diferença.”
“O desejo de ser inútil – Memórias e Reflexões”, Hugo Pratt/Entrevistas com Dominique Petitfoux
* tribo índia da Amazónia – Brasil
Começam a ficar apreensivos os terrestres. Suspeitam que são vigiados, que a sua vida, mesmo os pormenores mais íntimos, são devassados por dá cá aquela palha. Acham agora que há muita gente a meter o nariz onde não deve.
Pois é, estão efectivamente debaixo d’olho. Estão verdadeiramente controlados até à cor das cuecas.
Admirados! Porquê? Não passam a vida a pedir folia? Não passam a vida a pedir mais segurança, vigilância, fiscalização, ordem… Onde está então o espanto? É muito mais fácil o pastoreio e a ordenha se o rebanho for dócil e bem mandado. Mais fácil e mais barato!
Nada melhor que, a acolitar um tinto pintado e com cheiro de vinho vinho paixão, deixar-me estar com o patrício Fialho d’Almeida no colo a consumir-lhe a escrita sadia e sem rodriguinhos. O Fialho nascido em Vila de Frades corria o gregoriano de 1857, mas transtagano de todo o Alentejo e tempos deste mundo. O José d’Almeida, da caneta ácida mas elegante, que nunca virou o aparo às virtudes manhosas dos, tal como neste nosso tempo de basbaques, trigos submersos de joio.
Por aqui me fico, na grata campanha da botelha de tinto e do autor de “Os Gatos”, arranhando mansamente o enjoo destes tempos de pasmo.
“Apetite, graças a Nosso Senhor, nunca faltou; sua gota de vinho às refeições, e no tocante a presentes de chouriços e presuntos, nem já os conseguia ocultar debaixo da cama, havendo que mandar alguns pelo amor de Deus, ao guardião. Já, se vê, referia mercês daquelas, a S. Vicente, ao patriarca S. Bento, e a N. Senhora: e acabadas as rezas, pela noite, alava-se no presunto como lobo em quartos de burro, vá de goladas de vinho, até piteireiro oferecer os suplícios cruéis daquela vida, em amortização dos seus pecados. Tentações do demónio, algumas tinha, na figura de mulher roliça e branca, anaguada de rendas, que se lhe afigurava tal e qual a Doroteia do almocreve. Bolava então num delírio soturno, lançando mão dos cilícios para vergastar os presuntos que sobravam, e assim batido, purificada ‘a carne de porco, de flagícios, afocinhava ao chão com latins de arrependimento abraçado a um chapéu de chuva de paninho. Por seu lado, a mulher, espavorida de remorsos, tudo era rastejar pelos confessionários, à procura do protector convalescente. E a mandar-lhe frangas recheadas, bilhetinhos no oveiro, a que viesse, tão perdidinha dele, que até nem lhe aqueciam os pés na cama…”
“O País das Uvas” de Fialho d’Almeida
Calhando, o bufo Basílio conhecia a ruindade de feitio da Guida, e deu-lhe corda. A Guida calçou os patins e escancarou as pernas da malvadez! Óbvio, estava tudo ali a boiar no juízo da Guida, bastou-lhe um empurrão do bufo Basílio.
O paleógrafo acima podia servir de intróito a uma nova versão do “Deus, Pátria e Autoridade”, renomeado: “Só Pátria e Autoridade porque o Deus não esteve para aturar a escumalha”.
Eles andarem aí, ou se andarem!

A tepêzita dos contribuintes é maleável, mais do que ao ponto de vista dos donos, ao ponto de vista do poder. Depois do directo das homilias e das comendas do 10 de Junho, a estucha do diferido. É o reviver de um célebre programa da rádio quando as galinhas ainda não tinham dentes, “Discos Pedidos”.
Dos poucos [mas ainda há disto?] que sai da onuzita, depois de vinte e cinco anos, sem ser na condição de animal rastejante. Alvaro de Soto, diplomata peruano, bateu com a porta deixando lá dentro um relatório, sem papas na língua, sobre o papel trafulha dos EUA no processo de paz para o Médio Oriente.
Ruminam os chungas a chuinga
Remoem a chuinga os chungas
Os chungas chuingas
As chuingas chungas
Moem os chungas a chuinga
Esmoem a chuinga os chungas
Porra chuinga pontapeia o cu do chunga
Porra chunga cola a chuinga na peida
Alegoria ranhosa em desonra de todos os chungas funcionários, ou funcionários chungas que nos atazanam a paciência ao ruminarem a sua estupidez murcha e pegajosa enquanto nos olham com olhos de carneiro mal morto de trás do seu analfabetismo profissional e ético
nota musalusa:
corri para a tecla ao encarar no caixote do ópio do povo com a in&sana balza&quiana que conduz e atropela atropela e conduz a inducação que enstrói o maralhal em Portugal a ruminar chuinga enquanto o nosso primeiro balbuciava mais umas espertinhas certezinhas
Em fascículos, tem o jornal Público dado à estampa, o «Guia do Viajante». Hoje, no fascículo 9 “Sabores do Campo”, viaja pelo Alentejo à mesa.
Entre vários tabernáculos da amesendação, observa o Sulitânia Casa de comes-e-bebes e sobre ele apregoa.
“Joaquim Pulga, o fundador desta taberna/tabernáculo que não tem tido vida fácil, é uma daquelas pessoas, como há algumas outras, infelizmente não muitas, que mefazem gostar de ser português. Quem lhe quiser apreciar a verve, a informação e a cultura, que é vasta e bem fundada, consulte o seu www.alentejanando.weblog.com.pt
Quem quiser testar o seu paladar e bem gosto vá ao Sulitânia. Repito-me: Não seria mau se, um dia, em todas as terras portuguesas, tivéssemos, em cada uma delas, uma “casa de comes-e-bebes” como esta Sulitânia, do Vimieiro. Quem leu o conjunto de crónicas que Joaquim Pulga reuniu, no final de 2001, no livro Alentejanando estórias e sabores (Casa do Sul Editora, Évora), sabe o que encontrará na Sulitânia: petisqueira e cozinhados mais elaborados, pão e vinho, tudo o que de melhor tem a sua pátria alentejana para nos alegrar a vida.”
Não tem tido vida fácil. É bem verdade! E o patrício Joaquim Pulga sabe-o e di-lo de verdade sofrida, por ele e pelo filho Sulitânia. É assim a vida dos filhos de quem tem poucas posses para se aguentar à bronca da magana da vida. Por mais que os ame e apaparique, quem tem filhos tem cadilhos, escorre a sabedoria popular dos berbéres deste “deserto” alentejano. E, para mal dos seus pecados, lá teve que entregar o filho nas mãos do Luís Batista que também tem por moço opinioso nisto da ciência dos comes-e-bebes.
Mesmo sem ser na sua companhia, que o filho do Joaquim Pulga espigue um grande maltês, é o anseio franco do Isidoro de machede.

Pão, azeite, manteiga, manteiga de cor e azeitonas no Sulitânia
Antes de Abril: Dia de Camões, de Portugal e da Raça.Do Camões: Estamos atafulhados de saber do seu infortúnio. Da Raça: Nunca fui à caça com tal senhora, certamente, entraria mal nas silvas!
Depois de Abril: Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades.Do Camões: Continuamos atafulhados de saber do seu infortúnio. Das Comunidades: Longe dos olhos, longe do coração, a não ser durante a época de caça ao voto. Desemerdense!
Antes e depois: Condecoração de crédulos, pouco e nada crédulos.
Passo!

“Chamou-lhe um figo”! Papou-o a contento numa vertigem… a exemplo do que se faz aos figos. E os figos caem que nem ginjas no ditado. Nem mais!
Os frutos figos nados e criados nas solarengas terras da borda d’água mediterrânica. Pintados no mesmo tom por dentro e por fora, delicadamente carnudos e humedecidos no feminino. Apetitosamente maduros no verão como tentadoramente apetitosa é a sombra matriarcal. Os frutos que o imaginário cigano considera um estimulante sexual e usa, igualmente, como remédio para a depressão, a ansiedade e a falta de memória. Os figos que alentejanamos na açorda, no gaspacho, nas sopas de tomate e mais nisto e naquilo que o paladar nos calhar. E secados a condutar o matar do bicho das águas ardentes da vida logo pelo parto do dia.
Damascos de Damasco como alguém já disse frutos filhos do primeiro acto de engenharia vegetal praticado pelo sapiens árabe. Da China, segundo outros entendidos nos lugares de nascimento das coisas vivas. Sedosamente amarelos, polpudos e suculentos. Perfumados e afrodisíacos, aromatizantes de paixões, também no simbolismo cigano. Frutos também dos tempos calmosos que não desmerecem companhias pantagruélicas e fontes de águas frescas.
Moçambique tem uma área de 799.390 Km2, contendo estes, 13.000 Km2 de águas interiores.
Segundo os sábios que estudam as questões antropológicas, em Moçambique convivem 14 grupos étnicos, subdivididos em 22 subgrupos que, por sua vez, utilizam 57 dialectos para comunicar.
.grupo SUAHILI » pemba, mocimboa da praia, ibo, macomia, palma [subgrupo » Muani] dialectos » M’vita, Unguja, Lamu, Mavia, Amuane
.grupo MACONDE » mocimboa da praia, macomia, palma[subgrupo » Ndonde] dialectos » Muera, Konde
.grupo MACUA » niassa, cabo delgado, nampula, zambézia [subgrupos » Macua litoral, Macuana, Macua Mêto, Macua Niassa, Macua Lómuè] dialectos » Acherima, Xi-Maganja
.grupo CHUABO » quelimane, namacurra, pebane, chinde [subgrupos » Maindo, Carundo]
.grupo NHANJA » niassa, amaramba, maniamba, mopeia, marrumbala, maganja da costa, zambézia, angónia, macanga tete [subgrupos » Manaja, Mazarro] dialectos » Cheua, Peta
.grupo » NESENGA mopeia, zambézia, tete, máguè, marávia, mutarara, zumbo, vale zambéze, chemba, cheringoma, gorungosa, marromeu, sena manica, sofala [subgrupos » Chicunda, Xi-Sena] dialectos » Nhúnguè, Podzo
.grupo TAUARA » macanga marávia zumbo tete, chimoio manica, mossurize sofala, báruè manica sofala [subgrupos » Manyco, A-Teve, Baruè] dialectos » Hkonde, Nhassa, Tumbua, Henga, Camanga
.grupo SHONA » sul tete, manica, sofala [subgrupos » Shona ocidental setentrional oriental, Zezuro, Karanga ocidental oriental] dialectos » Niai, Rozi, Calanga, Lilima, Peri, Gova, Shangue, Corecore, Tande, Shausha, Harava, Hera, M’bire, Nobua, Cicuácua, Zimba, Tsunga, Hungue, Duma, Jena, Govera, Ngova, Ndau, Garve, Danda
.grupo TSUA » govuro, homoíne, massinga, morrumbene, vilanculos inhambane / dialectos » Dbizi, Macuácua, Lengue, Dzonga
.grupo XI-THONGA » bilene chibuto, guijá, magude, inharrime, morrumbene, sábiè / dialectos » Nualungo, Halanganu, Bila, Guambé
.grupo XI-RONGA » bilene chibuto, guijá, magude gaza, inharrime morrumbene inhambane, sábié, maputo / dialectos » Nonduana, Nyissa, Pfumo, Calanga, Putio
.grupo XI-CHOPE » terra dos muchopes gaza, inharrime, zavala, inhambane
.grupo BITONGA » bilene chibuto guijá chokwé Gaza, homoíne inhambane [subgrupo » Changane]
.grupo ZULO » maputo, namaacha [subgrupo » Anguni] dialecto » Sibaha
Estou ofegante e embasbacado! Por todos os deuses, será que isto tem substância?
O grande grande jornalista polaco, desaparecido na aurora do ano que corre, Ryszard Kapuscinski - Kapu para os de perto -, afirmava, que era assim, sem tirar nem pôr! E escarrapachou-o, com um talhe sublime, como só os andarilhos atentos o sabem desenhar em letra afoita.
“São 30 a 50 pessoas. Este é o núcleo de uma tribo. Mas porque é que este núcleo tem também de ter a sua língua? Como pôde o cérebro humano ter inventado uma diversidade linguística tão grande? E cada língua com o seu léxico, gramática, flexão, etc.? Pode-se compreender facilmente que uma nação milionária, graças ao esforço colectivo, invente uma língua. Mas aqui, na selva africana, e tratando-se de tribos pequenas, que vivem no limiar da miséria! Andam descalças e eternamente esfomeadas, mas, apesar de tudo, guardam ambições, criatividade, imaginação, sensibilidade e memórias musicais, suficientes para conceber uma língua diferente, só para seu uso. E não é só a língua, porque, desde o início, inventam também os deuses. Cada tribo tem os seus, únicos e insubstituíveis.”
Uma testemunha de Jeová senta-se junto de um alentejano no vôo Lisboa-Funchal.
Quando o avião descola começam a servir as bebidas aos passageiros.
O alentejano pede um tinto de Borba. A hospedeira pergunta à testemunha de Jeová se quer beber alguma coisa.
Responde a testemunha de Jeová com ar ofendido: "Prefiro ser raptado e violado selvaticamente por uma dezena de putas da Babilónia antes que uma gota de álcool toque os meus lábios".
O alentejano devolve o copo de tinto à hospedeira e diz: "Eu também. Não sabia que se podia escolher"
No início, ervas todas eram. Ceifou e saboreou o Homem. Apartou e amansou as que lhe encantaram o palato. Outras houve, que apurou para condimento. Assim, também estas trocaram a condição de maninhas pela condição de saciar o Homem.
Aqui, neste sul, a sempre engenhada cozinha da necessidade, ergueu o Império das Ervas. Império sem fronteiras, das beldroegas aos espargos bravios, da hortelã-da-ribeira aos poejos, dos queijos com sabor a cardo aos enchidos ajaezados pela massa de pimentão. Dignitários morenos das sopas de peixe do rio, dos ensopados de borrego, das açordas com coentros, das poejadas de bacalhau… Soberania conquistada pelo paladar dos tisnados Homens da planície na guerrilha da sobrevivência. Aristocratas de uma singela estética alimentar. Altivos senhores de uma burilada geometria do palato.
Ervas todas continuam a ser!

Louro, Alecrim, Poejos, Orégãos e Hortelã-da-Ribeira
«Mais que nenhuma, talvez, a profissão de pastor foi seguida e respeitada entre os árabes. Como os outros povos semitas, os árabes eram tradicionalmente pastores, pastores de tempos imemoriais na sua província natal; pastores no norte de África, donde, misturados com os berberes, passaram às nossas terras. Nada mais natural, pois, do que encontrarmos um grande número de termos de origem árabe na linguagem profissional do pastor alentejano; por isso que os próprios árabes se dedicavam nos velhos tempos de dominação à guarda dos seus gados; e os ricos senhores árabes ensinavam e impunham aos seus servos moçárabes os nomes e termos da sua língua»
Palavras estas grafadas pelo conde de Ficalho no há um ror abalado ano de 1899. Mais grafou, o pensador transtagano, um arrolamento de termos com nítida chancela árabe ligados à pastorícia e comummente usuais ainda hoje:
Ajuda – subordinado(s) do pastor nas tarefas do pastoreio dos rebanhos;
Alavão – palavra transversal às várias tarefas atadas à ordenha das ovelhas e ao fabrico do queijo, numa determinada época do ano. A palavra deriva do árabe al-labban que significa leite;
Alfeire – rebanho de ovelhas jovens, por vezes, apartadas das ovelhas de ventre (reprodutoras) e das badanas (velhas). Palavra derivada do árabe al-heir que designa o curral ou recinto fechado onde pernoita o gado;
Almatrixa – contracção da palavra árabe almadraquexa que no português antigo nomeava o pano que protegia o lombo dos animais de carga na linguagem dos pastores;
Almece - soro do leite que escorria pela francela (mesa queijeira) quando o roupeiro (queijeiro) espremia nos cinchos (cintas redondas) a massa já coalhada, soro este que também é aproveitado para a alimentação. Os árabes do oriente e do deserto chamavam-lhe al-meçl, os do ocidente diziam al-meiç;
Ceifões – peças de vestuário, usadas pelos pastores e outros trabalhadores na faina agrícola, feitas de peles de ovino ou bovino (com a lã no exterior ou sem), abertas no lado de dentro da perna, sem cobertura nas nádegas e geralmente com o comprimento um pouco abaixo da barriga da perna. Este vestuário de trabalho tem a denominação árabe de çahon ou zahon;
Ovelhas forras – o oposto de ovelhas de ventre, não sendo reprodutoras. Derivação do masculino árabe horr, e do feminino horra, que significam livre, liberto(a);
Rabadão – maioral (pastor responsável), a cargo de quem estão todos os rebanhos de uma herdade (exploração agrícola). Palavra derivada do árabe rabb ad-dhan que designa o chefe ou dono das ovelhas e carneiros;
Zagal – moço muito jovem que, na maior parte das vezes, nem soldada auferia, trabalhando apenas pela comedoria – um triste indicador da madrasta fome (da frequência da escola nem vale a pena falar), em tempos bem recentes no Alentejo -, e domiciliado no último degrau na hierarquia dos condutores de rebanhos. Esta palavra ainda é comum na língua árabe e significa um rapaz forte e esforçado.

Flor do cardo (Cynara cardunculus L.)
Cardo deriva do latim cardúus, que significa “fazer sinal com a cabeça”, em alusão à flor de forma ovóide apoiada num caule que oscila à mínima aragem.
Estas flores são colhidas quando a planta começa a ficar senescente, ou seja, durante os meses de Junho e Julho, sendo guardadas as pétalas e pistilos em locais secos para uso na indução da coagulação do leite durante a época do alavão, finais do Outono, Inverno e princípios da Primavera.
Este coagulante de origem vegetal, tal como o leite de figueira, já era conhecido dos romanos.
É frequente os apreciadores do queijo tradicional alentejano dizerem: Tem o gosto do cardo. E é bem verdade, o cardo grava no queijo um característico sabor bem identificativo da origem da sua feitura.