agosto 31, 2006

Uns fazem-nas e os outros semeiam-nas…

Passe a publicidade, transcrevo do pasquim do Belmiro de hoje. Transcrevo uma língua notícia (calhando a indignação do jornalista levou-o a mandar imprimir a bold) de uma hipocrisia risivelmente cínica que nos informa da parábola do patrão e do criado que, segundo tem provado, aprendeu muito mais do que poderíamos pensar com os antigos carcereiros e algozes. Os que as construíram vão agora investigar se os outros as usaram. Porra, é que os gaijos da “terra prometida” (gostava que o gaijo que prometeu explica-se este despautério), senão as usaram não vão receber novas remessas de brinquedos.
Kofi Annan se queres continuar a merecer o respeito da sensatez, demite-te!!!!

“Há um total de 100 mil componentes de bombas de fragmentação por explodir no sul do Líbano, afirmou ontem o responsável da ONU para as questões humanitárias, Jan Egeland, explicando que Israel usou este tipo de armas principalmente depois do acordo de cessar-fogo, que entraria em vigor pouco depois. «Noventa por cento dos ataques com bombas de fragmentação ocorreram nas últimas 72 horas do conflito», afirmou Egeland, acusando Israel de ter usado estes explosivos de forma «completamente imoral». A ONU estimava que existissem restos de bombas de fragmentação numa centena de locais. Afinal, foram já registados em 359 – o que Egeland descreve como «nova informação chocante».«As bombas de fragmentação afectaram grandes áreas – muitas casas, muita terra de cultivo». Israel afirma só utilizar munições de acordo com a lei internacional. Os EUA estão a investigar o uso pelo estado Hebraico de bombas de fragmentação de fabrico Americano. Estas bombas têm mais 200 explosivos secundários, e destroem tudo num raio de cerca de 400 metros do alvo.”

Publicado por machede em 05:55 PM | Comentários (2)

agosto 30, 2006

Os homens e a mó

moinho.jpg

Os homens construíram a mó,
a mó moeu o trigo,
com a farinha os homens fabricaram o pão.
O tempo moeu os homens e a mó.

Publicado por machede em 09:46 PM | Comentários (17)

Calciocaos & Ligacaos ex aequo

Portugal e Itália. Provavelmente seremos nós a aprender com quem tem mais experiência e há não muito tempo tinha um primeiro-ministro capaz. Nós, só tivemos aprendizes.
Registe-se não só o facto de nas questões da chixa integrarmos finalmente o primeiro pelotão e, inclusivamente, determos o primeiro lugar ainda que a par da Itália. O nosso presidente, nato da Fonte de Boliqueime, sempre teve fé que colaríamos aos melhores, só não teve a fezada de que trajaríamos de amarelo. Não acreditou totalmente no potencial endógeno. Tropeção de palmatória para quem instaurou aquela barbuda de que a certeza tinha dúvidas, ou, as dúvidas eram a certeza, ou ainda que tinha pedido ao Jumbo para pôr as duas em saldo para que o bom povo português pudesse ter acesso simplex (esta foi descoberta posteriormente por outro iluminado), aos descobrimentos do chefe, tal e qual como tivemos acesso gratuito há miscigenação (que termo tão soft) das valorosas descobertas do Vasquinho (não confundir com o Pulido Valente que esse descobrir, descobrir, que eu saiba, apenas bares de boa e má nota e um forte contributo para a minha boa disposição quase diária, o que já não é pouco para um caixa d’óculos) da Gama depois de ter dado uma valente trepa de arrochadas no Adamastor que queria as pitas catorzinhas só para ele. Olha o pila d’aço?!?!
Mas voltando ao valoroso e magnifico feito da zaragata da chixa nacional. Temos potencial porra!!! O arrojado major batata e descendente (eu diria antes ascendente), o pinto que amanda dar umas lambadas nas gajas só para manter os seguranças em forma, o seu delfim que alterna com empresário da noite, um gaijo com o mesmo nome do batata que fez uma directa do governo para a liga da chixa, o rei do pneu e o seu apaniguado que grandes ensinamentos tem a partilhar com o povo; não contribuir com um chavo para as finanças (feito a que o bem povo português dá muito mais valor do que ao puto a cantar que o bacalhau quer alho) e sentar-se semanalmente no banco em vez de no chelindró). E muitos mais maganos, uns que já mostraram o potencial no processo do assobio dourado e outros que, por enquanto, estão nos treinos.

Publicado por machede em 05:58 PM | Comentários (209)

agosto 29, 2006

Extemporâneo e avesso a efemérides, mas…

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Ontem, fez 80 que nasceu o rapaz negro que afiançou que o som do seu trompete seria “sempre superior ao de qualquer branco”. Boca extravagante de artista numa América com um apartheid tipo gato escondido com o rabo todo de fora. Com toda a certeza que essas questões rácicas o apoquentavam. Porventura, agradava-lhe mais tocar distinto para melhor e é com o branco Gil Evans que constrói uma das obras primas, que penso consensual, «Birth of Cool». A outra, foi a construção da história do jazz que mais vendeu e possivelmente se escutou: «Kind of Blue». E, Miles Davis “o Cool”, é uma alcunha soberba para o seu controverso temperamento.
Lá, onde quer que esteja, e no bar onde quer que toque, continuará sempre a surpreender com um timbre nem muito agudos nem muito graves, com intervenção contida, depurada, e um som franco mas inovador! Aposto mil trompetes em como é verdade.

Publicado por machede em 06:51 PM | Comentários (1084)

A incontornável rurbanidade, ou a irracionalidade dos “racionais”?!?!?!

Rurbanidade.jpg
autor desconhecido (ou a minha ignorância) mas soberbo

Publicado por machede em 12:01 AM | Comentários (497)

agosto 28, 2006

Toponímia e sons da cidade

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Praça do Giraldo com os Armazéns do Chiado no local do actual edifício do Montepio
Imagem de Inácio Caldeira – (datada entre 1910 e 1920)

Todos os burgos provectos foram somando artérias apelidadas por celebridades, acontecimentos, tradição, misteres ou negócios preponderantes, figuras ou lugares místicos e miticos, religiosidades ou celebrantes importantes. E assim se foram avultando e sedimentando-se os lugares. O mesmo aconteceu com a (minha, salvo seja) cidade de Évora.
De há uns tempos a esta parte é usança o nome de políticos, artistas plásticos, escritores e outros actores mais ou menos preponderantes nas vidas do local, da região ou da nação. Deixou de ter a criatividade de um dicionário evolutivo e interessante para se tornar numa lista necrológica de mais ou menos figurões. Aqui no burgo prolifera tudo quanto foi político que já bateu a bota. Alguns, (s o l e t r o alguns) tiveram tanta importância na evolução cá da terrinha como eu sou lagareiro, mas enfim, a rapaziada é danadinha para a lagrimazinha fácil na homenagem, não raras vezes, hipócrita. A história está atulhadinha de exemplos.
Continuando. Aqui grafo a criatividade dos gentios no correr dos tempos:
Travessas
- do Açacal (artífice de armas brancas)
- das Anjinhas
- das Canastras (possivelmente artéria de artesãos de cestos, alcofas, etc…)
- do Caraça
- das Damas (não especulo)
- do Diabinho
- dos Estaços
- dos Frades Grilos
- da Harpa
- do Mahomud (nome próprio árabe)
- do Mal Barbado (também poderia ser do barba rala)
- da Mangalaça (possivelmente corruptela manga larga)
- do Megué (esta não lembraria nem ao diabinho)
- do Pão Bolorento
- da Pulga (eh, eh, eh, eh, eh, eh…)
- das Tâmaras (novamente a rapaziada do Magreb)
Ruas
- dos Aferrolhados (possivelmente dos presos, indícios de prisão)
- das Alcaçarias (lugar onde mouros e judeus mercavam conjuntamente)
- das Amas do Cardeal (segundo se diz, eram as amas do Cardeal Rei)
- dos Caldeireiros (existência de bastas oficinas de caldeiraria)
- da Carta Velha
- do Cenáculo (refeitório, casa onde se reuniam amigos)
- do Capado (possivelmente sujeito com voz de cantor de ópera)
- do Cicioso (sujeito que segreda ou fala baixinho)
- Escudeiro da Roda (guarda de roda de convento ????)
- do Imaginário (certamente um sujeito inventivo e atafulhado de imaginação)
- da Mouraria
- do Poço da Moura (e eu que não encontrei tal morena encantada)
- dos Touros (artéria que desemboca na Praça do Giraldo e por onde entravam os ditos quando aí se realizavam touradas, D. Sebastião, por aí)
- de Valdevinos (também poderia ser do estoura vergas, do extravagante, etc…)
Becos
- dos Açucares
- do Beiçudo
- do Chantre (regente de coral de Igreja)
Pátio
- do Baicharel (em leis possivelmente)
Largos
- do Amauriz
- do Chão das Covas (largo onde existiu o primeiro botequim de “alterne” da cidade denominado «Sociedade das Nações»)

É por estas travessas, ruas e largos que eu gosto de andar a penantes, agora, nestes domingos no verão. Logo pelas matinas, quando o astro rei ainda está de ladeira acima e até enfuna uma aragem fresca subtraída da madrugada.
O agrado de ouvir o ronronar da cidade que se levanta ensonada. Aqui um bocejo sonolento de um valdevinos ainda desnoitado, ali o sussurro de um faducho na telefonia da avozinha viúva de preto na alma e no traje. Acolá, naquele piso de cima, goteja o som dum chuveiro matinal. Além, o apetitoso odor d’um cozido de tradição, e também apelidado de verão; grão, feijão verde, batatas, cenouras e as carnes da praxe, mais a folhosa hortelã que será já na terrina ao verter o calducho a cereja no cimo do bolo. Mais ali, o rebarbativo som de um imbecil programa matinal de televisão, mas então… Mais além, o familiar cheiro de uma chocolateira rasa de café de mistura, misturado com o aroma do santo pão de trigo acabado de cortar, aconchegado no braço, com a faca de aço corticeiro da Azaruja. E o burburinho de conversas entremeadas de um tom mais perceptível em vernáculo, geralmente do esposo (ou o contrário que elas também já se voltam ao moiral), de quem não está para aturar os queixumes larvares da chatisse da rotina domingueira do fica tudo no remanso do lar. E ainda as escassas beatas que já voltam da missa completamente recicladas dos pecados da semanada passada mas já vão de tesoura afiada na conversa da vizinha que é uma mal governada e da filha da outra que anda com o cu quase amostra e ainda da outra que o filho é mais drogado que a drogaria Azul. E o gaijo tipo Speedy Gonzales que entre o sair da porta com o estojo da pesca à arreata e dar a curva à rali no velho opel apenas dura um abrir e fechar de olhos que a madame quando assoma ao postigo só já lhe cheira o rasto.

Publicado por machede em 12:58 AM | Comentários (253)

agosto 24, 2006

Apenas falta meio bago

A maioria das vinhas tecnologicamente evoluídas, inclusive com rega gota-a-gota. Nalgumas zonas, para os lados de Cuba e Vila de Frades, por exemplo, algumas pequenas manchas com encepamento ainda à romana. Umas brancas, outras pretas, a maioria de castas tradicionais, não descurando alguma migrante inovação trazida pela mão da curiosidade. Basta ter alguma atenção na leitura dos rótulos posteriores, geralmente, aí consta as variedades empregues na feitura.
Apenas falta pouco mais de meio bago de tempo para a labuta das vindimas e consequente laboração das adegas. Nestas, certamente, já se limpam as teias de aranha e aprontam as maquinetas e demais utensílios para a sagrada tarefa de dar existência ao sangue da vida.
É o vinho do nosso contentamento. É o afamado néctar da nossa terra.
vindimas 1.jpg
Imagem de António Cunha

1.
Tinha na mão um raminho de mirto
e uma linda flor do roseiral e com eles
se comprazia. Os seu cabelos
cobriam-lhe de sombra os ombros e a nuca.

2.
Do seu cabelo perfumado e do seu peito
até um velho se teria enamorado.

3.
Jazo infeliz, sem vida, sem paixão
vencido, trespassado até aos ossos
por dores acerbas, obra dos deuses.

4.
Coração, coração, de irreparáveis males
agitado, levanta-te, defende-te
dos inimigos opondo-lhes
o peito e nas ciladas
dos contrários mantém-te
firme. E nem, em caso de vitória,
te ufanes em demasia, nem, vencido,
te arrastes em casa, com lamentos.
Nas alegrias alegra-te, e geme nos pesares,
sem excessos. Acostuma-te
aos altos e baixos da fortuna.

5.
Na lança tenho o meu pão
amassado na lança,
o meu vinho de Ismaro, e bebo
apoiado à minha lança.

6.
Sei uma coisa importante: respondo
com males terríveis a quem me faz mal.”

Arquíloco (Poeta Grego arcaico)

Publicado por machede em 08:49 PM | Comentários (135)

agosto 23, 2006

Pierre Louys, obra negra

(Num tempo em que teimam em voltar as mordaças, por enquanto, a maioria, ainda de seda, outras já nem tanto. Num tempo (para o meu temperamento, demasiado evangélico), em que todos assobiam para o ar quando as barbas do vizinho já estão a arder e estão podres de saber que o mais certo é serem os seguintes (capados: digo eu). Num tempo em que já não há tempo para os prazeres porque o tempo é demasiado caro. Num tempo em que a maioria dos sentidos ou são proibidos ou obrigatórios. Principalmente por respeito a mim, tenho a obrigação de usar o pouco tempo que me resta driblando o interdito. Assim como assim aqui vai um dito maldito.)

Livro 01.jpg
(da introdução do Manual de Civilidade para Meninas)

“A leitura isolada deste Manual, hilariante caricatura dos livros de moral para crianças, poderá induzir em erro o leitor não familiarizado com a obra de Pierre Louys, que é um autor multíplice e de grande complexidade.
(…) O relevo deste particularismo é visível até no facto, bem curioso, de todos os seus grandes livros terem versões especiais de carácter erótico-paródico (caso da versão livre de Afrodite ou das Chansons secrètes de Bilitis). O Manual de Civilidade para Meninas não constitui portanto, na obra literária de Louys, um divertimento sui generis; faz parte da sua desmedida paixão anti-puritana, que o conduziu a celebrar o hedonismo e a definir-se sumariamente como um «pagão da fé».

Pierre Félix Louis (seu nome baptismal) nasceu, como acontece a um bom número de artistas franceses, na Bélgica, em 1870, e morreu – de sífilis, a sida da época – em Paris, em 1925, em plena belle époque, com 54 anos, quase cego. A sua vida sentimental foi muitíssimo agitada, e dá conta dela em obras insolentes como Trois filles deleur mère, segundo ele extremamente autobiográfica.
(…) Pierre Louys é um misto de erudito (de um erudito à margem da universidade e em claro conflito com ela), dedicando aturados trabalhos de investigação a «loucos literários», a marginais, aventureiros e outros excêntricos de uma colossal paraliteratura de que foi bibliófilo impenitente – mas também a autores célebres como Ronsard, Rimbaud, Villon e tantos outros.
(…) Espontâneo helenista, assim se mostrou Louys do amor e da literatura. No prefácio ao seu primeiro romance, interroga ele: «… como se explica que, através da derrocada das ideias antigas, a grande sensualidade grega nimbe, como um raio de luz, as frontes mais elevadas? É porque a sensualidade é a condição misteriosa, mas necessária e criadora, do desenvolvimento intelectual. Aqueles que nunca sentiram até ao seu limite, para as amar ou para as maldizer, as exigências da carne, são por isso mesmo incapazes de compreender, em toda a sua extensão, as exigências do espírito».
(…) Nas suas ligações intelectuais, e ao mesmo tempo afectivas, destacam-se as que manteve com André Gide, Paul Valéry, Mallarmé, Óscar Wilde (que infelizmente virá a abandonar), a amazona Nathalie Barney ou Debussy, que musicou algumas das Canções de Bilitis. Apesar da cegueira que o virá a atingir, de viver crivado de dívidas (num palacete cuja renda deixará até de pagar), da solidão a que um certo nojo da celebridade o votara e da desastrosa atmosfera que veio a criar à sua volta, Pierre Louys manter-se-á até ao fim um jouisseur, grande apreciador de champanhe e de bons vinhos, de cocaína, de bom tabaco… e de meninas.

(um excerto do livro)

Não digais… Dizei…

Não digais. «A minha cona.» Dizei: «O meu coração.»

Não digais: «Tenho vontade de foder.» Dizei: «Sinto-me nervosa.»

Não digais: «Vim-me como uma louca.» Dizei: «Sinto-me um pouco cansada.»

Não digais: «Vou marturbar-me.» Dizei: «Volto já.»

Não digais: «Quando eu tiver pintelhos no cu.» Dizei: «Quando eu for crescida.»

Não digais: «Gosto mais da língua do que da pissa.» Dizei: «Só gosto de prazeres delicados.»

Não digais: «Entre refeições só bebo esporra.» Dizei: «Tenho uma dieta especial.»

Não digais: «Os romances honestos chateiam-me.» Dizei: «Gostaria de algo interessante para ler.»

Não digais: «Ela vem-se como uma égua a mijar.» Dizei: «É uma exaltada.»

Não digais: «Quando se lhe mostra uma pissa, fica logo zangada.» Dizei «É uma original.»

Não digais: «É uma rapariga que se masturba até desfalecer.» Dizei: «É uma sentimental.»

Não digais: «É a maior puta da terra.» Dizei: «É a melhor menina do mundo.»

Não digais: «Vi-a foder pelos dois lados.» Dizei: «É uma eclética.»

Não digais: «Deixa-se enrabar por todos quanto lhe façam minete.» Dizei: «É um pouco namoradeira»

Não digais: «A pissa dele é grande demais para a minha boca.» Dizei: «Sinto-me uma criança, quando falo com ele.»

Não digais: «É uma fressureira endiabrada.» Dizei: «Não é nada namoradeira.»

Evitai comparações temerárias. Não digais: «Dura como uma pissa, redondo como um colhão, molhado como a minha racha, salgado como a esporra, não maior que o meu botãozinho», e outras expressões que não são admitidas pelo dicionário da Academia.”

Publicado por machede em 11:40 PM | Comentários (6618)

agosto 22, 2006

Os cinco sentidos

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Não tarda meia dúzia de horas. Ainda pela brisa fresca da madrugada destes dias calmosos. No silêncio do quase tudo ainda a repousar. Lanço o isco e espero todo o tempo deste mundo. Pode ser que sim, pode ser que não. Tanto faz. O gasto infinitamente aprazível deste tempo não tem ressarcimento com riquezas terrenas. Apenas o deleite da mente como moeda de troca. E o trabalhar depurado dos cinco sentidos a satisfação plena deste pedaço de vida. A alquimia da terra e da água, o fogo do astro rei virá com o empinar do dia.

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Publicado por machede em 11:14 PM | Comentários (1428)

agosto 21, 2006

O homem amigo dos outros animaizinhos??? Tá bem abelha…

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ressalto de suporte de beiral com ninhos de andorinhas

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ressalto de suporte de beiral protegido por uma tela anti-ninhos

Tu, abelha, ainda tens a ventura de engendrar uma doçura que deleita o bicho racional. Contanto que tenhas a oficina bem longe da sua vivência habitual. Senão está o caldo entornado e nem o mel te safa o canastro.
Agora a mana andorinha que nem a chixa se aproveita. Não tendo préstimo para mais nada a não ser cagar a casinha do racional. Que vá dar uma volta ao bilhar grande, que esta coisa da cadeia alimentar, com a globalização também já não é o que era. Para nos lembrar que as cidades também têm passarinhos, basta-nos o chilrear dos sacanas dos pardais que também são uns cagões, mas são mais espertalhaços quanto ao disfarçar da casota.
Ainda por cima, o Sardinha, para versejar sonsas redondilhas à lindeza das avezinhas andorinhas mensageiras da primavera, tem agora os santinhos que só passarinham de levezinho de nuvem em nuvem mas também têm asinhas, e para além disso para se saber quando é a primavera existe o boletim meteorológico.
As burguesinhas das andorinhas que vão então fazer o segundo ninho de férias noutra freguesia que aqui já demos para esse peditório.

Publicado por machede em 05:49 PM | Comentários (638)

agosto 20, 2006

Vasco Pulido Valente dixi

«Hoje a "geração de 60" não tem boa fama. Paciência. Assim como assim, não a trocava por outra.»

Publicado por machede em 05:49 PM | Comentários (434)

agosto 19, 2006

Eu, anti-amaricano primário???

Segundo o matutino do Belmiro, destacado e a bold, a Juíza norte-americana, Gladys Kessler, obriga tabaqueiras a acabar com light.Ora bem! É que para além de serem já armários com cérebros de moços pequenos, ou se preferirem a síntese: putos grandes. Andando a dar passas em garretes light acabavam por ficar assim para o nem carne nem peixe. Parecia mal um marine mascarrado, acabadinho de violar e massacrar a sangue frio uma catrefada de pitas iraquianas, abalar pelo meio da rua a levantar pó com as esporas à general Custer e puxar uma baforada d’um light. Afinal a magnifica senhora juíza só repôs a verdade amaricana do anúncio do durão da Malboro. Assim, sim!
Calhando, o light tal como a democracia também deve ser invenção dos neocons?!?!

Publicado por machede em 09:27 PM | Comentários (2)

agosto 18, 2006

ACORDE PERFEITO

Oh!, os ramos do verão –

onde as cigarras
cantam
ou a cal

queima
lentamente o coração.

Eugénio de Andrade

Publicado por machede em 10:49 PM | Comentários (1)

agosto 17, 2006

A Vuelta ao Subdesenvolvimento

É adágio popular remoto: “Que de Espanha nem bom vento nem bom casamento”. A Manuela que tem experiência feita, certamente, não concordará! Eu, por aí não vou, mas como tenho uma grande costela regionalista ibérica apenas constato o que se passa com as gentes vizinhas, no caso, dois casos de isenta massa cinzenta.

O espanhol David Blanco, que ganhou recentemente a Volta a Portugal em ciclismo 2006, na conferência de imprensa final, ao ser interpelado, por um matutino português, qual era a sua formação, afirmou textualmente:
"Sou aquilo a que vocês chamam de doutor. Tirei o Curso de Administração e
Direcção de Empresas. Cheguei a trabalhar na área. Mas só aguentei seis
meses dentro de um escritório”.
Acrescento eu: para além de ganhar a Volta a Portugal, há muito tempo que deu a vuelta ao subdesenvolvimento.

Zapatero, recebeu o Papa Bento, na qualidade de chefe de Estado do Vaticano, com todas as formalidades e honras devidas e que constam dos cânones do protocolo. Foi, posteriormente, criticado pelos católicos espanhóis por não ter estado presente na Missa de Sua Santidade em Valência. A isso, firmemente respondeu: "Sou agnóstico, não sou hipócrita!!!!".
Estou a recordar o nosso ex Presidente não da Junta mas da República, (pedi-lhe formalmente a devolução e desconto do meu voto nas suas contas), socialista convicto e também agnóstico, todo enfatuado e contentinho com a primeira dama igualmente enfatuada e de chapéu mais austero e escuro, igualmente contentinha, na missa rezada pelo Papa (o anterior) em Fátima.
Enfim, feitios. Siga o balho!!!!

Publicado por machede em 11:54 PM | Comentários (1)

agosto 16, 2006

Carta ao intelectual israelita Frank

Escrevo-te esta carta com o coração apertado. Deixo a análise fria para a razão cínica que domina o comentário político ocidental. És um dos intelectuais judeus israelitas — como te costumas classificar, para não esquecer que um quinto dos cidadãos de Israel é árabe — mais progressistas que conheço. Aceitei com gosto o convite que me fizeste para participar no Congresso que estás a organizar na Universidade de Telavive. Sensibilizou-me sobretudo o entusiasmo com que acolheste a minha sugestão de realizarmos algumas sessões do Congresso em Ramallah.

Escrevo-te hoje para te dizer que, em consciência, não poderei participar no congresso. Defendo, como sabes, que Israel tem direito a existir como país livre e democrático, o mesmo que defendo para o povo palestiniano.

Esqueço, com alguma má consciência, que a Resolução 181 da ONU, de 1947, decidiu a partilha da Palestina entre um Estado judaico (55% do território) e um Estado palestiniano (44%) e uma zona internacional (os lugares santos: Jerusalém e Belém) para que os europeus expiassem o crime hediondo que tinham cometido contra o povo judaico.

Esqueço também que, logo em 1948, a parcela do Estado árabe diminuiu quando 700 mil palestinianos foram expulsos das suas terras e casas (levando consigo as chaves que muitos ainda conservam) e continuou a diminuir nas décadas seguintes, não sendo hoje mais de 20% do território.

Ao longo dos anos tenho vindo a acumular dúvidas de que Israel aceite, de facto, a solução dos dois Estados: a proliferação dos colonatos, a construção de infra-estruturas (estradas, redes de água e de electricidade), retalhando o território palestiniano para servir os colonatos, os “check points” e, finalmente, a construção do Muro de Sharon a partir de 2002 (desenhado para roubar mais território aos palestinianos, os privar do acesso à água e, de facto, os meter num vasto campo de concentração). As dúvidas estão agora dissipadas depois dos mais recentes ataques na faixa de Gaza e da invasão do Líbano. E agora tudo faz sentido.

A invasão e destruição do Líbano, em 1982, ocorreu no momento em que Arafat dava sinais de querer iniciar negociações, tal como a de agora ocorre pouco depois do Hamas e da Fatah terem acordado em propor negociações. Tal como então, foram forjados os pretextos para a guerra. Para além de haver milhares de palestinianos raptados por Israel (incluindo ministros de um governo democraticamente eleito), quantas vezes no passado se negociou a troca de prisioneiros?

Meu Caro Frank, o teu país não quer a paz, quer a guerra porque não quer dois Estados. Quer a destruição do povo palestiniano ou, o que é o mesmo, quer reduzi-lo a grupos dispersos de servos politicamente desarticulados, vagueando como apátridas desenraizados em quadrículos de terreno bem vigiados. Para isso dá-se ao luxo de destruir, pela segunda vez, um país inteiro e cometer impunemente crimes de guerra contra populações civis. Depois do Líbano, seguir-se-á a Síria e o Irão. E depois, fatalmente, virar-se-á o feitiço contra o feiticeiro e será a vez do teu Israel.

Por agora, o teu país é o novo Estado pária, exímio em terrorismo de Estado, apoiado por um imenso lóbi comunicacional — que, sufocantemente, domina os jornais do meu país — com a bênção dos neoconservadores de Washington e a vergonhosa passividade da UE. Sei que partilhas muito do que penso e espero compreendas que a minha solidariedade para com a tua luta passa pelo boicote ao teu país. Não é uma decisão fácil. Mas crê-me que, ao pisar a terra de Israel, sentiria o sangue das crianças de Gaza e do Líbano (um terço das vítimas) enlamear os meus passos e embargar-me a voz.

(Boaventura de Sousa Santos, Revista Visão de 27/07/2006)

Publicado por machede em 08:32 PM | Comentários (4)

agosto 15, 2006

Fast Food

Se
vertical
é
a
postura,

humana
é
a
espécie,

elementar
será
o
uso
da
inteligência
na
demanda
da
razão

se humana é a condição,
e vertical (ainda?) o porte
cabotino é desconseguir compreender
- muito menos seduzir –
o que despido e honesto se expõe.

Publicado por machede em 03:29 PM | Comentários (0)

agosto 14, 2006

Quase a empinar a bota militar (dizem???) mas com 80 no papo!

Um dia disse: «A história me absolverá». Por este andar, terá de rectificar: «Eu absolverei a história».
A incoerência não é saudável, muito menos a um líder (mas todos exercem, só que não dão por isso ou então assobiam para o ar), quiçá, na ponta final, era escusado anunciar:”Não me interessa o que possa acontecer a Cuba depois da minha morte”. Sem comentário.

Publicado por machede em 12:45 AM | Comentários (7)

XITIZAP # 27

(Digo eu: à laia de EDITORIAL do # 27, cavalheiro como é apanágio, mas de florete desembainhado)

Marte anda por aí em oposições,
e em fins de Agosto vai estar bem pertinho a olhar para nós.
Allo rovers!

Cá pela Terra, a agitação gravítica já se faz sentir - e de que maneira.

Talvez por isso,
os gases andem tudo menos etéreos,
e algumas propostas sejam verdadeiramente indecentes.

entretanto, em Moçambique, os cardeais EUROSTAT há mais de 6 meses que foram a banhos em Bassa.

Isso não são férias, senhores.
Isso são compêndios de ócio!

José Lopes

Publicado por machede em 12:10 AM | Comentários (1)

agosto 13, 2006

O 28 era o último eléctrico a sério de Lisboa

28.jpg

Cá para mim deveriam ser devidamente ponderados pela Assembleia Nacional e em Diário da República ungidos de «utilidade pública». Para além de serem dos últimos artífices em exercício que ao fisco dizem zero e, como tal, profissão quase da pertença da arqueologia. Pensando bem, quando o abastado ganha-pão do artesão estava nos pré-históricos anafados de brilhantina e bigodinho e gordo(s) cachucho(s) distribuído(s) a eito pelas manápulas apalpa cu de corista, e nos grossos cordões e pulseiras de orina.
Na ida semana, a psp deteve com as ganfias em plena actividade sete carteiristas, apropriadamente, a laborar no último eléctrico que cruza a área histórica da capital. O porta-voz da instituição policial referiu que para além de dinheiro de plástico e documentos de identificação avulsos, conservavam em dinheiro vivo a parca verba de setecentos e cinquenta euros.
Ao preço a que estão os bilhetes dos transportes públicos, a margem de lucro da actividade está abaixo do ordenado mínimo nacional. Com rendimentos afins, certamente, estes profissionais há muito que bebem ginjinhas sem elas (quando a tradição mandava com) na rua do Coliseu pelas cinco en punto de la tarde.

Publicado por machede em 03:00 AM | Comentários (3)

agosto 11, 2006

Manobra de diversão…

Meto-os no cepo, para além de sempre curtir uma apostinha!

- Mamã Tomás, perdão Condoleezza, os israelitas disseram que em duas semanas não deixavam nada na vertical. Há um mês que nos espatifam a reputação dos consultores e tecnológica. Já nos basta a Palestina, o Afeganistão e o Iraque e, por este caminho, não tarda nada vamos assistir aos bárbaros do Irão e Síria, isto para não falar da China e da Índia – que o papá diz que a longo prazo nos fazem a folha -, a achincalharem o império que já era. Telefona ao Tony e ordena ao gaijo para anunciar que desconcertou uma nova maldade daquela maltosa muçulmana, uma coisa que principie na sucursal e termine no império. Comunica igualmente aí ao escriba de serviço para me preparar uma declaração que aluda ao fascismo, exactamente, absolutamente, completamente, fascismo islâmico. Com esta, até o Pulido Valente e o Vítor Dias ficam a desvairar. Eh, eh, eh, a minha inteligência e o gaijo do nº 10 que manda no Borroso é um duo do camandro. Oh marreco liga o projector que quero continuar a ver «O Doutor Estranho Amor». Quando formos ao Irão - yuppie, yuppie, yuppie - eu é que vou montado na bomba!

Sempre ouvi dizer ao lavrador Isidoro Calado, meu avô materno: «Não é com vinagre que se apanham moscas».
O Isidoro Calado tinha massa cinzenta. Na caixa dos pirolitos deste, até água de coco tenho dúvidas que chocalhe?!?!

Publicado por machede em 01:32 AM | Comentários (2)

agosto 09, 2006

AGOSTO A GOSTO

Na minha África
sem embondeiros
mas,
com sobreiros

a terra gretada
queima
os dias largos

nas noites magras
a terra gretada
adormece
sonhando o fogo do dia seguinte.

Publicado por machede em 10:30 PM | Comentários (1)

agosto 07, 2006

Fundamentalistas? Os outros, aqueles bárbaros!!!!

A união europeia (a partir de hoje não merece maiúsculas, e por este caminho calhando nunca mereceu), acaba de sentenciar que nas normas comunitárias nada coíbe as empresas dos países agregados de descriminarem os fumadores. Se não proíbe, incentiva, o resto são estórias da branca de neve a quem os anões nunca foram à pachacha. Nem sequer me merece comentários.
Tinha vontade de andar por cá mais uns anos. Mas este tipo de hominídeos que cagam estas sentenças e, efectivamente, têm o poder de meter um gaijo à sombra, essa é que é a verdade, começam a pôr-me o fígado de pantanas que da massa cinzenta já nem sequer mando lérias.

Publicado por machede em 07:35 PM | Comentários (5)

agosto 06, 2006

Geografia Senti Mental

Para quem como eu viveu, no inicio da década de 70 do abalado século, um gregoriano de 365 na margem esquerda, ou seja, na margem de Cacilhas ou pela terra mais adentro nos amontoados dormitórios, Lisboa divisava-se pela luz crua da manhã, ou, adivinhávamos-lhe os contornos rompendo do nevoeiro dos cacilheiros de bífido atracar, Cais do Sodré ou Terreiro do Paço. Isto na ida para a capital, porque seria (haveria vezes que não) a horas normalmente convenientes, horas a que tal e qualmente circulavam os cidadãos decentes.
Na vinda. Só do Cais do Sodré, no último das 2:45, ou seja, dos moinantes que tinham deixado os últimos copos a meio, nos Jamaicas & Outros Sítios Onde As Senhoras Tratam Os Homens Por Tu, para não perder o transporte para a tarimba. A não ser que o atrevimento do engate dessa santa noite, apresenta-se direito a garina e camalho sabe-se lá se antes já amornado. Os cidadãos decentes, esses tinham, quando muito, tinham largado, no último do Terreiro do Paço às 21:30 para o doce lar pantufar a existência na gaveta periférica. Mas voltando às desoras da caravela dos moinas. A essa hora, o afastamento da capital era o de uma lente que vai paulatinamente desfocando até restar apenas nenhures na margem direita. Apenas a sirene do Ginjal cortava a noite com estridência crescente ao aproximar do cais da margem esquerda. O gentio que frequentava o derradeiro era o de um autêntico albergue espanhol: as necessárias e incontornáveis senhoras prostitutas; alguns chulos a fecharem a contabilidade de mais um dia de labuta; diminutos carteiristas desprevenidos, dada a hora em causa estar a léguas do seu horário de trabalho normal cujos tansos já roncavam a sonhar com o cachucho que já era; os profissionais da noite de vários excertos, condições e idades; um ou outro noctívago debutante; um par ou um trio de bêbados demasiado liquefeitos a bombordo e a estibordo; um casalinho à proa apalpando húmidas maresias; e um ou outro cidadão decente que tinha na noite o horário do ganha pão e barafustava toda a santa viagem contra a restante malandragem.
Entre a ida e a vinda, bom, entre a ida e a vinda era um sem número de curtas e longas metragens que, enquanto não arrefecer o céu da boca a alguns figurões, ainda são do domínio da «informação classificada».

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Imagem de Carlos Marques

Publicado por machede em 10:08 PM | Comentários (1)

agosto 04, 2006

Exposição de pintura em Monsaraz, na Igreja de Santiago, de 5 de Agosto a 16 de Setembro

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As mãos com imagens
Nos canhenhos de assentos na antiquíssima Bracara Augusta consta seguramente o nascimento do José Augusto Costa Araújo, no ano de tal, filho de tal e tal. Sobre as suas mãos e sua rijeza estética, nada atestarão as folhas nutridas de pó. Sabemo-lo agora nós que te conhecemos a obra de muito tempo.
Não sei quando e se pela mão progenitora ou nos seus calcanhares, desceste ainda mais para sul do hemisfério inferior deste achatado globo. Eu, pela parte que me toca, penso que só lucraste com tal viagem, possivelmente, num barco voador ainda movido a hélices. E por lá medraste um ror de anos a fundir ritmos, cores, traços, expressões e outros condimentos que a quentura das Africas e Brasis vai desvendando a quem por lá se demora.
Depois, com os sinuosos acasos da vida, subiste para a África de cá (o Alentejo nas palavras poéticas do já desaparecido Rui Knopfli). E por aqui permaneces branqueando as melenas enquanto, com a regularidade de um relógio suíço, cobres com mansidão furiosa a traços e cores mirabolantes tudo quanto pensas propício para gravar o teu pictórico génio. Para isso tens no Alentejo um manancial inigualável. Tens nas ceifeiras alentejanas uma peculiar e arrimada sensualidade criativa. Até parece que nessa antiga labuta trocaste, por momentos, o pincel pela foice. Tal sensualidade que revejo in loco com os olhos que minha mãe me concedeu, dependurada, ali, no lado direito da parede onde me sento e escrevo mesmo agora sobre o Araújo, numa ofertada aguarela que desvenda uma jovem apetecivelmente descuidada, de ombros angulosos e duas luas cheias por seios donde se empinam rosáceos mamilos.
Enquanto olho as palavras já gravadas, passo a memória pelo pluralismo da tua obra. Do exotismo à Gauguin, pintado numa tela existente na tua oficina, à força que salta da tela que exibe uma matrona balzaquiana que tem uma mão brutalmente expressiva e uns olhos poderosos que dizem tudo sobre o trabalho das mãos com imagens do pintor.
Persevera sempre Araújo. O lápis, o pincel, a tinta, o papel e o que demais usas na tua arte, foram também as ferramentas com que os ancestrais pedreiros-livres construíram um mundo harmonioso de criadores.

Joaquim Pulga
(do catálogo da exposição)

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Publicado por machede em 08:41 PM | Comentários (4)

agosto 02, 2006

Do tridimensional ao linear

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Agora na fase serôdia não poucas vezes me vem à lembrança: e se derrepentemente o meu indivíduo tridimensional passa-se na calandra da terra do nunca e me espalmassem num vulgar desenho unidimensional. Convertia-me apenas (e eu sempre com este optimismo do já ontem), numa personagem de BD, conservando-me no esquiço a tralha do percurso (que até possui casualidades com alguma piadola) e o substantivo pelo qual costumo responder.
E pronto, magnificamente plano, esboçado a vulgar lapiseira, almejando a rude mas crueza bela do preto e branco da tinta-da-china, ou então – não desdenharia certamente – suavizado a aguarela. Também tenho cismas nos tipos de papel, texturas e outras minudências de picuinhas. Mas, decerto, artista que fixasse a minha personagem teria de ter pancadas estéticas afins.
Carrego a melancolia da certeza de não passar pelo estirador do mestre Hugo Pratt e ser personagem romântica das suas fabulosas estórias. Tivesse eu a fezada que a máquina do tempo ainda me transportaria a uma qualquer fábula de Veneza e podem ter a convicção que de imediato mandava às urtigas esta tridimensional existência miudinha.
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Publicado por machede em 01:10 PM | Comentários (0)