Adunco e sisudo de fácies.
De adubação granítica e reste diferente,
a atestar a nascitura nortista.
A sensibilidade, possivelmente,
entranhou-a ao ver o rabiscar da petinga pelas escravas do mar,
e outros agrestes cirandares das gentes
nos Espinhos e Vila Covas entremeados da adolescência.
O traço do saber.
Riscou-o na capital dos impérios já idos.
Um saber aprender feito de esquiços gravado na memória do (seu) tempo.
Ulteriormente, em perfeita discórdia com a bússola progenitora,
demandou a leitura horizontal duma construída estética interior.
Da horizontal,
e dos verticais contentores de líquidos apaziguadores da inquietude.
Por vezes o taberneiro deve ter o recato do padre mas, daí à surdez, santa paciência!
- Manel, não passas dum bêbado incorrigível.
- Palavras certas as tuas Maria. Só que eu amanhã estou novamente sadio que nem um pêro. A tua fealdade, pelo contrário, não terá nunca nenhures de amanhãs – escorropichou o cu do copo, endireitou-se que nem espeto, e saiu com o aprazimento da dezedura cumprida.

Da terrina a caudal sopa
Em silêncio é devorada.
Só então fingiram de homens,
Porque não disseram nada.
Mas venceu a natureza!
Camilo Castelo Branco
Pingou, envergonhadamente, mas lá pingou. Livra, acontece que começava a pôr em causa o cagar de alto do absolutista dedo em riste: Isto é um país de manda-chuvas!!! Afinal, ainda os há, com um poder decididamente fraquinho e serôdio, mas há!
A propósito de hoje ser o dia mundial da floresta. Aproxima-se inexoravelmente uma nova ronda de fogos florestais. O grave, o gravemente ardente é a míngua de água para o adágio pôr as barbas de molho.
Portugal continua briosamente na senda da consolidação!!! Segundo os especialistas, em Março de 2004, haveria 200.000 potencialmente famintos no país. Actualmente, segundo os mesmos especialistas, o número é despudoradamente superior.
Vale ainda sublinhar os números de 272.194 reformados do regime especial da Segurança Social das actividades agrícolas que recebem uma pensão de 199,37 € por mês, e os 120.018 reformados do regime não contributivo e equiparados que recebem 164,17 € por mês.
Quanto à prometida entrada no reino dos céus, descansem todos os pobres e excluídos deste mundo – incluindo os nossos!!! Lá falar não falou, mas o Papa João Paulo II apareceu novamente à janela do Vaticano.
Por vezes, assola-me uma ponta de inquietação, uma retroactiva e egoísta inquietude? Quando no início da década de setenta do século passado, por sonhar um mundo mais justo e solidário, enquanto afanosamente me chegava a roupa ao pêlo, afim de, hipoteticamente, eu dar à língua. Se o pide Tarouca não teria uma pontinha de razão, uma escandalosamente nada antifascista pontinha de razão, ao proferir entre cínicas e babosas gargalhadas pidescas: “ó meu jovem comunista de merda, em vez de estares prá qui a levar na fuça, devias era gastar o tempo a ir a Badajoz comprar caramelos e cobrir umas guapas”.
Leite-creme
Nós podemos viver alegremente,
sem que venham, com fórmulas legais,
unir as nossas mãos eternamente,
as mãos sacerdotais.
Eu posso ver teus ombros desnudos,
palpá-los, contemplar-lhes a brancura,
e até beijar teus olhos tão ramudos,
cor de azeitona escura.
Eu posso, se quiser, cheio de manha,
sondar, quando vestida, p’ra dar fé,
a tua camisinha de bretanha,
ornada de crochet.
Posso sentir-te em fogo, escandecida,
de faces cor-de-rosa e vermelhão,
junto a mim, com langor, entredormida,
nas noites de verão.
Eu posso, com valor que nada teme,
contigo preparar lautos festins,
e ajudar-te a fazer leite-creme,
e os mélicos pudins.
O Livro de Cesário Verde
Pelo canto do olho, de esguelha portanto, lobriguei a reunião da nova legislatura da nação – nova, mas com um número substancial de deputados já a cair da tripeça. Dei comigo a pensar quanto insana e não profiláctica é a oposição à interrupção voluntária da gravidez. Porventura, já pensaram bem se nesta terra o aborto fosse livre, a carrada de gimbrinhas e tolos que estávamos ausentes de aturar? Também as mães, coitadas.
Passou a santa vida a beber copos de cinco, no balcão de pé. Mesmo tendo todo o tempo do mundo – como gostava de arrematar – nunca o viram sentado na taberna. Dizia que gostava de estar à altura do momento. E ria-se, ria-se escancaradamente de si mesmo enquanto cismava que, afinal, era um homem para consumo próprio. Estimava igualmente sublinhar que, em coerência com o consumo, era também dono de si próprio.
E assim parecia ser. Corria à boca cheia que sempre que um patrão o tentou abeirar do vexame ou da desfeita: despediu-se. Alardeava depois que não eram só os balcões que o conheciam de pé!
Como não tinha paciência para usar a vida a meias, permanecera solteirão. Quando a velhice tentou empurrá-lo para a dependência do lar da misericórdia, bradou: serei até ao fim eu o meu único dono. Suicidou-se, igualmente de pé!
(Desaforadamente, depois de morto, a estatística usou-o como mero número para informar que o Alentejo é região contumaz no top dos suicídios.)
Dobrada à moda do Porto
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
que a preferia quente,
que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão; nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta.
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)
Sei isso muitas vezes,
mas, se eu pedi amor, por que é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio.
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
Sendo obvio que o Alentejo continua a perder população, é igualmente obvio que, embora ainda ténue, há um movimento de urbanos rumando aos lugares do interior rural.
Vale a pena ler a conversa do sociólogo Borges Pereira no Jornal de Noticias, de 6 de Março, em artigo titulado “Tendência – Depois do êxodo rural, o citadino”.
A coisa mexe-se, devagar mas mexe-se!
Sempre tive o cidadão Mariano Gago em boa conta. Dizem-no um grande entre os nossos (poucos) cientistas contemporâneos. Dele sei o que lhe vou lendo e ouvindo. E gosto! Gosto, sobretudo, da humildade do homem despojado daquela imposturice tão comum nos nossos imaginados doutos – vulgo DOUTOR FULANO DE TAL - que, por vezes, mais pinta têm de sapos com flatulência. Do homem que sabe que a dúvida é uma das molas do conhecimento e que a ciência deve ser um instrumento de desenvolvimento e não de poder. Do homem que se inclina com a mesma atenção para o complexo e para o elementar. Do cidadão cientista que não despreza o saber empírico das gentes.


A descoberta de um prato novo
faz mais pela felicidade do género humano
do que a descoberta de uma estrela
Brillat-Savarin
Las imágenes de los sueños y las imágenes de la memoria tienen sonido.
Con el cine nos dimos cuenta que las imágenes tienen música.
Con la música sucede algo más antiguo y más íntimo: cuando te toca realmente puedes inventar tus propias imágenes y sonar cosas que no sabías que ibas a soñar.
La música es como una selva: tiene límites pero no los conocemos.
Hagamos posible lo mágico, viéndolo con ojos calientes.
Gato Barbieri

Taberna do Arrufa/Cuba – Imagem de António Cunha
Confissão
Eu, tóxico? Confesso que sim. Mas independente!
Despropósito a propósito
eu governo-me
(não há por aí ainda uma reformazita antecipada)
tu governas-te
(a galinha da vizinha é mais gorda que a minha)
ele governa-se
(quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não tem arte)
é mais fácil a fuga ao fisco passar pelo buraco de uma agulha que a pátria entrar no reino dos céus
como é que se pode ser padre numa freguesia destas
nós governamo-nos
(enquanto o pau vai e vem folgam as costas)
vós governai-vos
(sol na eira e água no nabal)
eles governam-se
(dão uma linguiça em troca de um porco gordo)
se não me mandam para a reforma aos 65 anos ponho o trombone na boca e demito-me de sócio
À hora da refeição
recortam-se pelas tascas:
- Vinho, bacalhau assado
ou carapaus de escabeche
com cebolas e batatas
às rodelas, - que banquete!
António Botto