Saboreiam as sopas alentejanas e dizem-nas divinais. Da açorda, passando pela tomatada, até às beldroegas com queijo, deliciam-se com a subtileza gustativa dos coentros, dos poejos, das hortelãs da ribeira e comum... Engorduram os beiços com os remanescentes adubos terrenos ou aquáticos, da pastagem, da horta ou do mar. Sorvem deleitados em rijas colheradas os calduchos até ao cu do prato e, quanto a ensopar e deglutir as generosas sopas de pão, aos cubos ou falquejadas, aos costumes dizem nada. Assim, regra geral, se comportam os exógenos – a não ser um reduzido número de iniciados – quanto à realeza e indispensabilidade do pão embebido nas sopas da planície.
Tenho para mim que, ensopar pão no caldo dos cozidos de panela, é costume generalizado por tudo quanto foi território de subsistência. Mais a mais nas regiões bordaduras do mediterrâneo. Tenho para mim que o desuso do costume, caminhou lado a lado com o abastardamento da genuinidade do pão. Com o abastardamento galopante induzido pela industrialização.
Sopa de Peixe
A pequena praia onde acostámos situava-se no começo de um desfiladeiro e instalámo-nos no meio das pedras, sobre uma tira de relva queimada, que nos serviria de mesa.
Era realmente um acontecimento esta “bouillabaisse” ao ar livre. Primeiro, Micoulin entrou para o barco e foi sozinho puxar os cofres que colocara na véspera. Quando voltou, Nais apanhara tomilhos, alfazemas, um molho de ramos secos suficientes para acender um grande fogo. Nesse dia, o velho ia fazer a “bouillabaisse”, a tradicional sopa de peixe, cuja receita os pescadores do litoral transmitem de pai para filho. Era uma “bouillabaisse” extraordinária, fortemente apimentada, terrivelmente perfumada com alho esmagado. Os Rostand divertiam-se muito com a confecção desta sopa.
- Pai Micoulin – disse Mme Rostand, que nestas ocasiões condescendia em brincar -, acha que ficará tão boa como a do ano passado?
Micoulin parecia muito divertido. Amanhou primeiro o peixe com a água do mar, enquanto Nais tirava do barco uma grande frigideira. A operação foi rápida: o peixe no fundo da frigideira, coberto apenas com água, cebola, alho, uma mão cheia de pimenta em grão, um tomate, meio copo de azeite; depois, a frigideira ao lume, um fogo formidável, capaz de assar um carneiro. Os pescadores dizem que o segredo da “bouillabaisse” está na cozedura: a frigideira tem de desaparecer no meio das chamas. Enquanto isso, o rendeiro, muito sério, cortava fatias de pão numa saladeira. Ao fim de uma meia hora, deitou o caldo por cima das fatias e serviu o peixe à parte.
Do “Nais de Micoulin” de Émile Zola
Não tarda nada, despimos as ovelhas!
E elas, desacauteladas, passearão a nudez,
balindo a diferença de fêmeas
por entre os machos, de voz grossa,
tal-qualmente em pêlo ralo.
Enfarpelado, apenas o pastor homem,
com a outrora roupa do rebanho agora nu.

Imagem de Luís Pavão
Com abundância pedem a receita do pão alentejano. Tenho evitado escarrapachá-la. Não que a feitura do pão alentejano seja do domínio dos deuses, nada disso. Apenas porque o seu fabrico requer reunidos alguns pormenores indissociáveis do genuíno. Originalmente as farinhas tinham uma moagem mais grosseira e, em boa verdade, eram uma mistura de trigos rijo e mole. A cozedura era feita em forno aquecido a lenha – até a qualidade das lenhas não era ignorada. O fermento (isco) também tinha o seu rigor – era consecutivamente deixado de massa para massa. Por fim a sabedoria das mãos que dançavam o ritual da amassadura. O sapiente e destro movimento de amassar, o momento certo de borrifar a massa com água, a leitura rigorosa do ponto de levedura e o tender e esculpir do pão.
Mas que a tentativa seja, neste caso, a mãe do engenho. Com mais ou menos rigor, que se amasse, coza e comungue o saboroso pão.
Nas andanças por outros que não o meu transtagano território, sempre na minha casa se fez pão.
2,5 kg de farinha
50 gr de sal grosso
125 gr de fermento de massa (adquira numa padaria)
1,5 l de água
Põe-se a farinha num alguidar suficientemente grande. Abre-se no centro da farinha um buraco, onde se deitam 2 l de água morna com o sal. Mistura-se bem o fermento na água. Mexe-se a farinha até que esta ensope totalmente a água. À medida que se amassa, sempre que a massa borbulhar, borrifa-se com água tépida. Deixa-se a massa em descanso a levedar, cobrindo o alguidar com um pano. Em levedando (crescendo) 2 a 3 cm no alguidar, tendem-se os pães – divide-se esta massa por 3 pães. Cozem-se em forno bem quente durante, mais ou menos, 1 hora.

Imagem de António Cunha
E já que tivemos rosas em empadas, porque não beberíamos o famoso vinho rosado? As receitas para o fazer diferem – mas a mais simples e rápida é de Pausanias. Desfolhai um ramo de rosas, guardai-as durante um dia, e deitai-as dentro de dois ou três litros de velho (de Bordéus, hoje). Ao fim de três ou quatro semanas, juntai um arrátel de mel. E se pensais que o gosto e o saber de Heliogábalo podem ser seguidos com confiança, acrescentai ao vinho, horas antes de o beberdes, um punhado de pinhões esmagados, como fazia esse esplêndido e imperial estroina.
Eça de Queiroz em Notas Contemporâneas
Estou a revê-lo a compor o aquecimento de atleta como se fosse entrar no relvado do José Alvalade para jogar o grande derby. O Izidine sempre simulava o aquecimento de atleta antes de despachar as loiras laurentinas que estivessem à mão de semear. O companheiro Izidine era danado para a brincadeira, era danado para a amizade. O Izidine gostava de ser amigo e de ter amigos. E tinha, imensos!
Da última vez que estive em Maputo, confidenciou-me: ando a juntar dinheiro para ir a Lisboa. Inquiri-o, se para ver os amigos? Devolveu-me: também, mas principalmente para ir a Alvalade, por uma vez, ver o meu clube de sempre. Nunca mais estive com ele, mas sei que cumpriu o seu desmedido desejo. O Izidine era um verdadeiro leão, um leão do bem-querer!


Não, não, apesar de, segundo parece, estarmos em plena campanha eleitoral, isto não se trata do retrato dos chefes partidários!!! Isto para os mais obcecados, é evidente.
Cair do pano
As acácias já se incendiaram de vermelho
e o zumbido das cigarras enxameia obsidiante
a manhã de Dezembro. A terra exala,
em haustos longos, o aguaceiro da madrugada.
Ao longe, no extremo distante da caixa
de areia, o monhé das cobras enrola
a esteira e leva o cesta à cabeça,
cumprindo o papel exacto que lhe coube
e executou com paciente sageza hindu.
Dura um instante no trémulo contraluz
do lume a que se acolhe, antes da sombra
derradeira. Assim os comparsas convocados
para esta comédia a abandonam, verso
a verso, consignando-a ao olvido
e à erva daninha que, persistente, a cobrirá
irremediavelmente. O encenador faz
a vénia da praxe e, porque aplausos
lhe não são devidos, esgueira-se pelo
anonimato da esquerda alta. É Dezembro
a encurtar o tempo, o pouco que nos sobra.
Rui Knopfli
Cebola,
luminosa redoma
pétala a pétala
se formou tua formosura,
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra escura
se arredondou teu ventre de orvalho.
Pablo Neruda
O finado Diário de Lisboa foi o periódico no qual, por meados dos dezassete anos, comecei a soletrar as boas e más andanças do mundo. Na altura, a silabar nas entrelinhas do atrevimento da guerrilha contra o azul da censura. Era quase uma diária resolução de um imenso jogo de palavras cruzadas. E fui-lhe fiel, rigorosamente fiel até ele se finar de exaustão financeira, bastos tempos depois do enterro do azul da censura. Generosas memórias abrigo da “Guidinha” do Sttau Monteiro, do suplemento “A Mosca” dirigido pelo Cardoso Pires, da critica de televisão do Mário Castrim e da afoita opinião do Piteira Santos.
Algum tempo depois do desatar da mordaça, comecei também a estacionar a leitura nas crónicas taurinas de Cristóvão Moreira. “Solilóquio” de sua curiosa denominação. Convém aclarar que, nos abrasados tempos da altura para um cidadão, visivelmente da margem esquerda, gostar da festa das hastes nuas e do bailado de luces, era uma condenável profanação. Um marialvismo miseravelmente retrógrado. Mas, contra as correctivas orientações da moral proletária, lá fui mantendo o prazer de aficionado. Com a agravante imoralidade de gostar da sorte integral, ou seja, com o estoque ou com o indulto.
Então e não é que me entra pelo portão adentro um tranquilo senhor que, não tardei a descobrir, ser o homem dos excelentes monólogos taurinos no saudoso Diário de Lisboa. Que volte sempre a entrar por este modesto portão e amesende em paz Senhor João Cristóvão Moreira.
OITO POETAS DE ESPANHA
1 – Manuel Machado (1874 – 1947), foi um dos grandes de Espanha que em seus versos cantou a Festa, de que sonhou um dia ser protagonista:
Y, antes que un tal poeta,
mi deseo primero
hubiera sido
ser un buen banderillero
2 – Juan Ramón Jiménez (1881 – 1959), um dos Nobel da literatura espanhola, que nos deixou o incomparável encanto de «Platero y yo». Não sendo aficionado, a sua sensibilidade captou o sortilégio do touro:
El negro toro surge, neto y bello
sobre la fria aurora verde.
Muge de sur a norte, espujando
el hondo cenit cardeno, estrellado todavía
de las estrellas grandes
con su agigantado testuz.
- La soledad inmensa se amedronta
el silencio sin fin se calla.
3 – Adriano del Valle (1895 – 1957), sevilhano famoso como literato e jornalista, poeta que também foi da Festa, sensível a tudo o que dela se desprende, até da morte de um cavalo de picar:
Caballo, que en treinta pasos
morirás sobre la arena...
Volando se irá tu alma,
no te servirán las piernas
vuela, caballito muerto!
Que el alma no tiene riendas,
ni los vientos tienen justos,
ni los angeles espuelas!
4 – José Bergamin (1897 – 1983), o poeta que sentiu a música calada do toureio de Rafael de Paula, cantou também o ocaso dos que um dia se vestiram de luzes:
Los toreros viejos
pasan por la calle
haciendo el paseo con un pasodoble
que no escucha nadie.
5 – Lorca (1898 – 1936), o imortal Federico a quem os tiros assassinos não mataram a grandeza do seu génio, para além da hora trágica de «Las cinco de la tarde», deixou o sofrimento de olhar o corpo sem vida de Ignácio Sánchez Mejias:
No quiero que le tapen la cara com pañuelos
para que se acostumbre con la muerte que lleva.
Vete, Ignacio: no sientas el caliente bramido.
Duerme, vuela, reposa. También se muere el mar!
6 – José Maria Pemán (1898 – 1981), foi doutor, dramaturgo, Presidente da Real Academia: mas para o aficionado, foram seus versos que ficaram, como os daquela tarde de touros, depois da corrida:
Silencio. En el redondel
inmóvel, triste, callado
un abanico olvidado
y un clavel...
En el pueblo, unos reflejos
del sol que se vá. Unos dejos
de amargura en las almas
y mui lejos, entre palmas,
un fandanguillo...
Muy lejos...
7 – Rafael Alberti (1902 – 1999), o poeta de El Puerto de Santa Maria, poeta universal de «Marinero en tierra» e «Cal y canto», também no mundo deslumbrante dos seus versos cabia o touro:
Corre toro, a la mar, embiste, nada
Y a un torero de espuma, sal e arena,
Ya que intentas herir, dale la muerte.
8 – Miguel Hernández (1910 – 1942), foi autor de várias excelentes biografias de toureiros contidas em «Los toros» de Cosio; mas nessa prosa anónima se escondia o grande poeta, militante da República que o franquismo deixou morrer aos 32 anos num cárcere de Alicante:
Como el toro he nascido para el luto
y el dolor; como el toro estoy marcado
por un hierro infernal en el costado
y por varón en la ingle con un fruto.
Como el toro lo encuentra diminuto
todo mi corazón desmesurado.
Do livro de Cristóvão Moreira “O Corte da Coleta”
Tá bem abelha!!! Cá na parvónia, há uma carrada de tempo que lhe damos de calcanhar. Baques engenheiros desses, ora essa rapaziada. Isso é poda que qualquer gaiato solfeja mano a mano com o abecedário. Sem borda para incertezas, sem um bago de imposturice, garanto estarmos muito acima de tais engenharias. Tão acima, que ainda noutro dia a NASA assediou, na Azaruja, um turma inteirinha da pré-primária para renovar o seu departamento de física quântica. Até a mestre-escola foi convidada para suceder ao Donald na chefia do pentágono. E a moça até nem é de cá. Parece que é da Tasmânia, foi cá colocada pela tecnologia de ponta do ministério da educação. Evidentemente que recusaram! Iam lá agora trocar as migas com carne frita pela mixórdia hamburguesa. Iam lá agora trocar o regaladão do Lopes pelo entediante George.
Duvidam? Atentem só nestas duas insignificâncias tecnológicas. Por mou da seca, e antes de esgotarmos outros expedientes mais de ponta, a Diocese de Beja lançou “on-line” uma oração a solicitar chuva ao divino mestre. Quanto à imagem abaixo, nada mais que o ti Manel a dar um jeito numa territa para semear uns hectares de neutrões consociados com protões serôdios. Sementeira esta para processar ração para o acelerador de partículas de Portel.

Não sendo criaturas de andar a reboque das saias da padralhada, mas sempre tivemos uma honesta cisma por aquilo que nos transcende. E tal como temos em grande consideração o astro rei, na mesma moeda acatamos respeito pelos divinos padroeiros das procedências que nos calharam em sorte. Sem ter tido voz activa na sua sublimação, abonamos contudo os avós do tempo que neles depositaram a sua fé. Mais que não seja, por respeito às dores de parto e às laboriosas mãos que nos encanastraram o berço.
Daí que a Srª das Candeias seja uma das veneráveis que consta do prontuário da fé transtagana. Consta e tem uma importância suprema na adivinhação meteorológica regional. Herdámos da sapiência dos antepassados: “Se as Candeias rirem, está o inverno dentro”. Nada mais que, hoje, ditou a radiosa presença, do nascer ao pôr, do divino astro rei.
Cá então com a adivinhada e invernosa mãe água!!!

Imagem requisitada ao outsider

Eis o acepipe de estragão em flor; um outro vermelho
coberto de alcaparras,
cujo perfume delicia o olfacto, como se o
droguista o tivesse polvilhado de almíscar.
Outro de manjerona, cujo gosto é realçado
pelo cravo-da-índia.
Ibn al-Mûtazz