novembro 29, 2004

Impostores invertebrados & invertebrados impostores

Ao lembrar-me dos Silvas, Lopes, Morais, e outros embusteiros que endrominam os outros Silvas, Lopes, Morais... espécimes estes da família bué da grande dos acéfalos e invertebrados bué de comuns na parte mais ocidental da península e que passam o tempo a diligenciar fecundar o próximo... Me assola o desejo de me lambuzar com o O’Neill.

Zibaldone

Penso no meu povo pobre,
Na vidinha tilintada em magros cobres,
Na mesquinhez à sobreposse.

- Ó formiga operosa,
julgas-te mais do que a cigarra?
- Alexandre,
assim é que ensinam nas escolas...

Neste país do monólogo,
do fala-só, muitos poucos
conversatam uns co’os outros,
e é sempre uma conversata
triste e chata,
um não-ter-que-dizer que não se esgota
senão em palavras pela boca fora.

- Esse chapéu-de-ir-aos-bencos,
vai-lhe, Dr., a matar
no intérmino labor de falazar.
- Impertinente poetrasto,
a que dislate se atreveu?
Não tens onde cair morto,
És da sinistra e ateu...
- Dr., já cá não está quem falou

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novembro 27, 2004

Que a modéstia arrede por um pedaço

Com os filhos escapa-se-nos sempre uma lasca de imodéstia. Temos esse direito, carago! A este, não tanto como ao Frederico, mas também lhe quero como a um filho. É o meu filho mais novo, e calhando o último.

Quintal.jpg

A Visão Gourmet fala hoje deste meu último filho. E fiquei contente, porra. E diz a determinado ponto:
Pelo que é pura e simplesmente mentirosa a informação que vem nos cartões de boas-vindas em que se lê que o restaurante Sulitânia é uma «casa de comes-e-bebes». Deveria lá vir, nos cartões, o seguinte dizer: «Casa de desfrutes ou de realização de actos mais complexos que os simples comer e beber». É o que qualquer pessoa pode comprovar sempre que se sentar defronte do tampo de mármore taberneiro das mesas deste que é, na actualidade, o mais elegante e extrovertido e interessante e bem desenhado (acima de tudo bem desenhado) restaurante de todo o Alentejo.

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novembro 26, 2004

Até mais ver Fernando Vale...

Raros são os Homens que tratam despojadamente tu-cá tu-lá com a utopia. Partiu da gare da vida um desses ocasionais e parcos aristocratas. Que tenha uma viagem descansada!!!

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novembro 25, 2004

Para desenjoar da prosa,

Baeta.jpg

vou ali na Costa do Sol ao baeta meter a máquina zero e pode ser que na volta compre na mamana caranguejos do mangal. Ou umas amêijoas, quem sabe? Na esplanada da grega, uma Manica bebo de certeza! Uma ou mais, guarnecidas de uma meia dúzia de camarões grelhados. Com gindungo se faz favor. E olho a Xefina em frente, como se fosse um enorme vapor em manobra de atracar, ali, na paragem do machimbombo e do chapa, para largar embarcadiços sequiosos de cerveja e aveludados abraços de chocolate.
Depois, mais pelo encovar do sol, quando as palmeiras da marginal se preparam para sonecar, volto à cidade para indagar dos cheiros a caril e a matapa, por entre o chilrear dos mufanas no afã do cair do pano das brincadeiras de mais um dia.
E logo volto para a África de cá. Voltava?!?! Sei lá se voltava?????

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novembro 24, 2004

Na flor da idade…

Entrou curvado mas resoluto. Atrás, alguns amigos não tão entortados. Disse que vinha ver o novo sítio da Vila. Olhou, olhou e disse que sim senhora, a coisa estava bem engendrada. Pediu um tinto. Os amigos, cafezinhos. Olhou-os do alto do desdém dos seus noventa e quatro anos. Os anos, confessou-os depois para aditar que só são muitos por mou do tinto e do branco. Aliás, mais
tinto!
Foi bebendo pausadamente, saboreando cada trago. Contou da madrasta vida do sol a sol e do vinho do trabalho à luz do pavio de azeite. Apensou da fase mais amena das últimas décadas. Confessou-se um vivente sem rancores. Meteu a mão na testa e rememorou o tempo do Avante em papel de arroz lido na confiança dos camaradas. Só dos mais seguros e tesos! Avaliou a contabilidade da sua vida com a coluna do haver bastante superior à do deve. Mais disse estar pronto para a última viagem. Frisou, no entanto, que cada dia e cada copo a mais é abertamente lucro limpo.
Bebeu mais um vagaroso tinto e despediu-se com a gravidade de quem é de muito tempo. Agradeci-lhe a lição. Só tinha de agradecer! Fiquei a vê-lo abalar, trôpego mas digno, rua abaixo, cosido às paredes caiadas e de taipa da sua mocidade.
Veio-me há memória o solene respeito africano pela sabedoria do “mais velho”. Em contraponto, agora, aqui, na cristã e ocidental civilização, os velhos também acompanham o progresso tecnológico: são apenas velhos e daí descartáveis!!!

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novembro 23, 2004

Cogitações detrás do balcão

1.200 ovelhas atravessaram Madrid acompanhadas dos pastores e dos seus fieis ajudantes cães. Manifestavam-se pela protecção e manutenção das ancestrais vias da transumância dos rebanhos de ovinos que demandavam pastagens mais suculentas e fartas. Segundo dizem os sapientes pastores, uma das importantes vias serpenteou outrora onde hoje se ergue a grande metrópole. Mais que não seja, os outros campesinos da Ibéria, teimam em conservar a memória duma labuta ancestral.
Cá, erradicámos-lhe a existência com cancelas aferrolhadas a cadeado, com cercas de arame farpado, ou, pura e simplesmente, com lavouras profundas que lhe eliminaram o rasto. Da história das canadas reais apenas sabemos pelo cadastro existente, ainda, em certas cartas topográficas.
Quanto a manifestações: o património que se fecunde que só empata, antes o cacau, o cacauzinho com que se compram os melões, esse sim, só esse nos empurra a sanha reivindicativa.
Um povo que não acarinha e protege o seu património histórico, jamais viverá de bem consigo!!!

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Afinal...

Era filho do lavrador da herdade grande. Não fosse isso e um apurado humor sempre na ponta da língua, seria mais um entre os outros moços aldeões. Partiu para a aldeia grande assim que acabou a escola primária. O seu pai dizia que o queria um homem ilustrado. Voltava então, à aldeia pequena, todos os fins-de-semana e pelas férias. Voltava para o pagode de vidinha que ele tanto gostava. Os banhos no pego grande da ribeira, as idas aos pássaros e aos bailaricos repletos de moças a desabrocharem rubores e quenturas.
Quando acabou o liceu, o seu pai deu uma festa de arromba no monte. Da aldeia pequena, todos os amigos chegados das estourarias tiveram convite para a função. Da aldeia grande veio, na carreira da véspera, uma multidão de polidos amigos. Durante o banquete, o seu pai anunciou que daí a menos de meia dúzia de anos a festa dobraria para festejar a entrada no mundo das leis de um novo doutor.
Foi então ilustrar-se ainda mais para uma cidade à séria. Coimbra, comentava-
se na venda. De ano para ano foi ganhando modos diferentes. Abdicou de tomar banho no pego grande da ribeira, de armar aos pássaros, de namoriscar as moças nos bailaricos da sociedade e de todas as outras coisas que entretinham a mocidade da sua igualha. Vinha muito de tempos a tempos e apenas passava pela rua grande da aldeia pequena no caminho, de ida e volta, para o monte. Parar na rua grande, só o tempo de comprar tabaco na venda. Distribuía então uns escassos e secos bons dias ou boas tardes, mesmo pelos outrora mais chegados das carteiras da primária. Começou a ter modos aparentados com o dos doutores da aldeia grande.
Soube-se então que a festa redobrou de importância. Mas não houve notícia dos porcos mortos, dos bolos e licores finos servidos. A função aconteceu na casa da família na aldeia grande. Dos amigos da aldeia pequena, ninguém foi convidado.
Aparecia de muito em muito tempo, mas não parava sequer na rua grande para comprar tabaco, fumava charuto. Entre os roncos do potente automóvel somente acenava contidamente. Apenas o sabiam com escritório de jurisconsulto montado na capital. Era finalmente um homem profundamente ilustrado como era desejo de seu pai.
Deixou mesmo de passar na rua grande quando o seu pai arrendou a herdade grande e foi viver com a família para a casa da aldeia grande.
Voltou um dia para acompanhar o pai ao jazigo da família. Tinha o cabelo e a barba aparada quase grisalhos e um ar cansado. Mas, para admiração geral, parecia o moço bem-falante dos tempos da mocidade.
Soube-se depois que tinha renunciado o contrato com o rendeiro da herdade grande. Arranjou e caiou o monte. Para espanto geral, passou um dia pela rua grande guiando o tractor com uma carrada de lenha de azinho. Acenou a todos amavelmente.
Uma noite apareceu no café e entreteve-se por lá na conversa e nas aguardentes. Disse para quem o quis ouvir que o mundo tinha mudado e ele também. Disse mais que tinha perdido uma pilha de anos a aturar e a aturar-se um cagalhão de vida. Mudou-se de todo para a herdade grande. Voltou a aparecer cada vez mais amiúde. Na outrora venda e hoje minimercado, na padaria, no café, na sociedade...
Está aqui sentado de roda de umas cabeças de borrego assadas, de um tinto carregado mas saboroso, de umas azeitona pisadas e de um pão trigueiro. Enquanto desabotoa a samarra de gola de raposa, faz uso da reconhecida ironia do antigamente. Brinca com a graúda dose de colesterol, da boa comida da sua adolescência, de que agora voltou a fazer uso diário. O seu antigo companheiro de carteira da primária, que está sentado ao seu lado de navalhinha em riste, diz-lhe por entre os poucos dentes que lhe restam na boca mal ancorada numa face comida pelos calores e pelo trabalho:
- atão moço, na me digas que queres morrer sadio. Eu cá só quero morrer quando esgotar o capado até à última pinga. A na ser assim, é um desperdício.
Riu-se alarvemente da tirada do companheiro e deu de resposta:
- não vás sem resposta, quando fiquei farto do embuste da higiénica vida de impostor, pensei em matar-me. Até cheguei a desinfectar uma faca para cortar as veias.
Afinal...



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novembro 20, 2004

Cogitações detrás do balcão…

A coerência, nos tempos que correm, é, paradoxalmente, apenas frequentada pelo zero, ou pelo infinito!!! Uns – notáveis maníacos de um costume em desuso - insistem em frequentar um luxo caríssimo. Outros – pagantes com o corpinho da conformidade – deitam-se ao “relaxo” do sem-abrigo.
No fundo do copo de tinto que, mesminho agora, acabei de vazar, imaginei – eu às vezes imagino o inimaginável – o grande poeta Sebastião Alba. Daí a cogitação a montante.

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novembro 19, 2004

Morais Goebbels

Lá meão na altura é ele. Seco e vincado de carnes na face, não. Antes rechonchudo, e mais rechonchudo ostenta ser com a barbicha à passa-piolho. Assim sendo, antes Nero seria. Mas, para que assim fosse, previamente teria de derribar o melífluo Lopes. Mas não, e até ver, fadado está para músculo tagarela do reino da brilhantina.
Não aprova o Morais nem a validade nem a honradez do conselho de sábios para as contendas informativas. O Morais antes anuiria – mas que palavra mais desajustada no Morais - a um conselho avisadamente aconselhado. A uma aconselhada voz do dono megafonada para toda a propaganda dos verdadeiros sábios. Atamancadamente sabidos e avisados, caso botassem o pé em ramo verde, das judiarias que os verdadeiros e únicos sábios lhes gostariam de infligir assim vivessem no reino do verdadeiro Goebbels.
Assim se tempera o aço!!!

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novembro 17, 2004

Da aldeia em tempo de rijezas…

Está frio, uma rijeza escorrida, seca, que se entranha. Gosto deste tempo que nos perscruta severamente o canastro. Como gosto da ternura do olhinho do sol no aconchego da empena da casa. O dádiva calorenta do astro rei. E gosto desta luz crua, nítida, das dez da manhã. Da hora que trás o odor do pão fresco acomodado no talego da tia Maria, que passa debruada a escuro, preto mesmo. Que passa e sorri a generosidade de um bom dia. A nobreza de um bom dia que partilha mesmo com os que mal conhece, com os que não lhe são nada. Que não lhe são nada, mas que lhe são tudo, porque sempre os alcançou como humanos iguais e garantes da sadia convivência que aprendeu no berço e levará até ao final.
É deste frio confortavelmente afável que eu gosto. Desta humanidade antiga que sabe nos outros, mesmo nos que não lhe são nada, a companhia indispensável ao calcorrear da estrada da vida. Mesmo que apenas seja no partilhar da migalha de um caloroso bom dia.

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novembro 16, 2004

Cogitações detrás do balcão…

Até 2014!?!? Ou o Lopes está a alucinar, ou, a portuga tropa fandanga alucinará até ao veio do tutano. Isto, no caso, do dito tutano não ter virado osso buco. Prego!?!?
O Lopes decretou o fim das vacas magras. Matadouro com elas!!! O magarefe mor, só de pensar na trabalheira de tanto abate, deu-lhe uma salipanta e foi de charola para o hospício com o coração a bater ralo.
Interrogo se os adjuntos do ilusionista resistirão a tanto truque. Os espectadores, esses, em desvario total, estão a afluir aos mercados grossistas em busca de tomates e ovos.
Pimentos recheados com peruca de molho branco, coadjuvados a puré de batata com pezinho de salsa levemente reclinado. Marmelos cozidos em vinho branco posteriormente polvilhados com canela.
Aguenta aí meu!!! Então e o campari com tónica e limão, vagarosamente sorvido, a ganhar lastro para a refrega? Ok meu!!!

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novembro 15, 2004

Consommézito...

Jorge Sampaio.jpg

Dado o enfastiado ar do Santo Padre, apostava uma garrafita de Pêra Manca contra um copo de mediana pomada em como o Presidente Jorge lhe está favorecendo um desenxabido e protocolar consommézito. Voltava a apostar uma caixa do mesmo Pêra Manca contra uma botelha de mediana pomada em como o Sua Eminência antes aguardava, do Presidente desta ratificada República de magníficos comedores, o provimento duma suculenta e fumegante sopa de feijão com espinafres aperaltada de meia dúzia de pataniscas para debicar a regulares espaços papais. Quanto à oferta da notável porcelana, rendilhada com as armas do Vaticano, nada tenho a atalhar. Digo mesmo que a dita só teria a ganhar se hospedeira fosse de tal graça.
Ao contrário do esconjuro da diplomacia do croquete, decidida há uns tempos atrás por um qualquer gimbrinhas dos negócios estrangeiros, penso que deveríamos continuar a atacar diplomaticamente na comezaina, no entanto, mais com torresmos e cozidos de grão. É que o problema da insuficiência na arte política da negociação e afirmação externa não está, definitivamente, no croquete. Está antes na sensaboria mental dos artistas que promovemos a nossos representantes. Atrevo-me até a acreditar, por troca de artistas, na superior capacidade intelectual do croquete.
Quanto ao Presidente Jorge, no que concerne aos dotes promocionais da arte de bem comer no luso território, estamos conversados. Apostava mais uma caterva de garrafas, agora de finos digestivos, em como medrou a poder de ralos cremes de cenoura e maçadores bifes raspados.
Quanto aos que se perfilam? Um – as sofisticadas e operáticas maneiras dos encerados corredores do poder assim o exigem -, quiçá olvidou por demasiado rústica a boa cozinha da natalícia Beira Baixa e agora é também mais consommé. O outro, bom do outro, embora o linguarejar apresente uma pitada de sopinha de massa, acredito piamente que a D. Maria lhe favoreça regularmente e a seu desejo uns tradicionais pitéus algarvios. Reminiscências, não varridas para debaixo do tapete de S. Bento, de quando era forçado a deixar os apetitosos carapaus fritos com arroz de tomate a meio, por mou de aviar umas litradas de gasóleo ao Chico do táxi.

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novembro 13, 2004

Da freguesia com tempero blogueiro

Já cá tinham estado outros, o Francisco da Planície e o Carlos das Ideias Soltas. Antes, já por cá tinha passado o Nuno do Macacos_Deuses. Hoje, entrou-me pelo portão adentro outro comparsa das lides blogueiras. O Luís do Ene Coisas.
Mirou a baiuca, conversámos, bebeu e comeu e abalou, segundo parece, de papo cheio.
Prezo que assim seja. Fico basto de contente!!!

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novembro 12, 2004

O homem do Kaffyeh

Não gosto nada de tecer estimações a quem quer que seja depois de dobrar a quina da morte. De prantos muito menos. Sempre me afastei desses cenários tão ao gosto das gentes da banheira mediterrânea. Nisso, sou minguadamente latino. Nalguma coisa tinha de ser.
Hoje, no entanto, apeteceu-me teclar cinco tostões de palavras. O eterno – afinal também não era - homem do kaffyeh foi ao encontro das cento e tal virgens que estão prometidas aos muçulmanos no para lá disto que nos é dado conhecer. Cresci com a sua teimosia militante do inalienável direito a uma pátria palestina. Criou – ou criaram-lhe – um nimbo de gato das sete vidas. E tinha, digo eu. Tinha porque remou violentamente contra corrente. E que corrente! Por vezes assim tem de ser!!!
Nos últimos anos, segundo parece, deixou-se enovelar nas coisas que todos os que se querem perpetuar no poder correm o risco de permitir – ou objectivamente permitem e usufruem. Os eternos malefícios do exercício do poder.
O homem do kaffyeh fez e faz indissoluvelmente parte da história do “meu” tempo. O meu profundo respeito pelos seus ideais.

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Das sopas de tomate

Sopas de tomate no Alto, açorda de tomate no Baixo. Aos do Baixo sempre ouvi elencar quase tudo o que leve sopas de pão afogadas como açordas. De alho, de tomates, de espinafres... Tudo na rodada das açordas. Cá no Alto sempre tivemos a esquisitice de ser mais explicadinhos – lá fico mais uma vez com o pé torcido para a maltesaria do Baixo -, açordas, só as de alho acolitadas de coentros ou poejos, o resto são sopas disto e daquilo. Pormenores de terminologia. O certo é que tão boas, as açordas e as sopas, são as de cima, como as debaixo.
Poisei, neste instante, a colher de pau depois de sorver a prova de uma lambareira sopa de tomate acamaradada com a fritada de linguiça, toucinho da salgadeira e farinheira. Uma pitada mais de sal e a coisa fica um esmero de temperança. Sopa de levantar um morto não digo, mas um moribundo belamente! Gaba-te cesto!!!
Ora deixa cá ver Isidoro? Pias? Um tinto de Pias pois claro! Nem mais nem menos.

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novembro 10, 2004

XITIZAP 16

Ciclicamente das bordas do Índico a boca escancarada a golfar palavras, o olho objectivo na objectiva e o traço louco do louco cipras.

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soda water & banha da cobra
sou dos que gostam de um bom scotch ao fim da tarde - copos altos, tipo xarope com gelo e muita soda gelada.e saiba-se que a soda tem para mim várias funções - refresca o álcool, disfarça zurrapadas e, segundo alguns, o carbono da soda mitiga boa parte de outros gases.
digamos que...a soda terá até uma certa função na saúde pública - dos whiskeiros pelo menos.
daí que seja inaceitável que, sem qualquer explicação ao mercado, a gaseificadora local haja cessado a produção de soda ... e lá vão mais de três meses.
diz-se que foi abafada pela concorrência.Diz-se mesmo que até houve arruaça intra-capitalista.
não sei!só sei que tudo isto revela o mais profundo desrespeito pelo consumidor - e que afinal o marketing deles não passa de banha-da-cobra.

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novembro 09, 2004

O retrato do gabiru

O Lopes fez-se retratar todo pimpão naquela pose de grande gabiru de balzaquianas. Tanto o Lopes como o escudo pátrio – este a modos que um naco de ladex assim mais ou menos que objectivamente a escorrer-se do retrato – estão bem-parecidos. Coisa para muitos valores este retrato do Lopes. Só espero que o Lopes dê instruções – pecebe – que, para além das escolas, juntas de freguesia, notários, secções de finanças, quartéis de bombeiros e outros sítios desconcentrados de instrução e recreio, a referida pose seja igualmente partilhada pelos T Clube, Kapital, Casa do Castelo, Kadoc, Lux, Sala da Lili, redacção da Caras, etc... e tal - prontos.

O Vasco Pulido Valente, na lúcida crónica de ontem, chamou a este embasbacamento territorial: A Barca dos Loucos. Eu apostava que a coisa, mais dia, menos dia, iria ter alguma piadola. Cá com o Felini, se necessário for, desencantem-no no além. Também temos direito ao nosso jet set e meio, porra!!!

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novembro 07, 2004

Das matanças

Não tarde um fósforo e os bacorinhos pretos de montanheira estarão com as arrobas necessárias ao sofrimento. Não mais que oito ou nove arrobas. Por agora é um corriqueiro tremendo de azinheira em azinheira por mou da bolota. Quanto mais correr melhor é a carne do suíno. É desta impudência sapiens que medram os substanciais enchidos alentejanos. Mas antes de se besuntar com os ditos ensacados do fumeiro é necessário imolar o porco. Esse passo tem desde antanho um ritual de apetrechos peculiares que são parte integrante da história deste território transtagano. Geralmente peças, apetrechos e trajes com uma estética invulgar. Por mais toscos que alguns aparentem, tem o estilo simples da utilidade e a marca das mãos calosas do artífice que os moldou. Com o musgo do tempo ganharam o direito a uma estética fabulosa.

aventais.jpg
Aventais da matança

chambaril.jpg
Chambaril (peça de madeira para pendurar o porco morto pelos tendões antes da desmancha)

colheres de pau.jpg
Colheres de pau

sangradeira.jpg
Sangradeira (faca do sacrifício)

olaria.jpg
Alguidares de barro

frigideira.jpg
Sertã de ferro

(imagens do livro A Talha e a Sertã)

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Legado

Ou muito me engano ou está encontrado o herdeiro da sapiência e elegância do velho capitão Coluna. O puto Manuel Fernandes tem inteligência, habilidade e a estrela dos fadados.
Já não era sem tempo!

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Pedreiros livres

Ainda há disso? Escassos, é certo, mas há! De fio a pavio, da teoria à prática. Construtores da ideia e de obra acabada. Arquitectos da vida e das vidas. Homens que da nascença à morte vivem cosidos com a mãe terra. Que lhe pedem desculpa se porventura lhe abalroam um grão da sua infinita harmonia. Criaturas cultores da herança dos outros avós arquitectos. Sabedores dos segredos da taipa e do adobe. Da cal e do ocre. Do azinho e do carvalho. Homens formados pela cartilha da ordem natural das coisas – não confundir com a ordem anormalmente enviesada determinada pelos hominídeos menores. Mestres que por bem determino por criaturas acratas do saber e do fazer.
Vem isto à laia de homenagem ao Manuel Faião e ao António Modas. Os audaciosos pedreiros livres que arquitectaram esta bela taberna onde corro e donde vejo correr os dias. Engendraram, com o respeito devido pelo velhinho casão já existente e outrora erigido a tijolo burro pelas mãos de outros pedreiros – calhando não tão livres.
O Manuel, nado de Espinho e espigado na cidade do sul mais ao norte que é a velhinha Lisboa. Homem que as vicissitudes da labuta encaminharam para o Alentejo de baixo vai para um ror de anos. Criatura agora já de cá.
O António, nascido na Aldeia de Nossa Senhora de Machede e medrado na aldeia grande de Évora. Homem que por aqui tem feito a lida a sorver saber sobre a salvaguarda do património construido.
Que Deus lhe pague, sentando-os, para lá do inadiável dia, na mesa farta do além. Certamente o S. Pedro, em sua honra, ripará da adega celestial um tinto de estalo.

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novembro 04, 2004

Sai mais um tinto…

Ser taberneiro é do baril! Tintos e brancos. De entrada e abaladiços. Toucinho da salgadeira e rodela de alho esparramados no casqueiro. Manteiga de cor a barrar o castrol. E a poejada santo deus? Digestivos grossos daqueles que deixam a goela em labareda, e macios que aveludam a prosápia.

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novembro 03, 2004

A modos que continuamos a ter de mamar o império dos moços pequenos?
Que me perdoem os gauleses, mas antes a Roma dos Césares.

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XÔ ??????

Por mou das interpelações valha verdade dizer que sou um nabo a mexer nestas coisas das informáticas. Daí ter o sentimento que me escapa o caminho das pedras. Como não tenho o S. Pedro à mão de semear, resta-me recuar ou ir na cheia.
Dada a minha actual ocupação de taberneiro pós-moderno, e para continuar a rabiscar o alentejanando, resta-me os compassos entre o lá vai mais um tinto e uma tapa de toucinho e alho para ir vertendo a ideia no teclado. Para que assim fosse apetrechei o estabelecimento com um portátil para uso a mielas com a clientela. Para espanto meu, hoje, ao tentar entrar no weblog/privado, o dito amanda-me com um Xô.
No monte tenho uma ligação cabo netvisão.
Na tasca instalaram-me via pt um sapo sem fios.
Calhando cometi um delito estrutural comercial. Calhando meti-me no meio de uma zaragata alheia. Calhando é da interioridade. Calhando não vou o suficiente à Fnac. Calhando tenho as quotas em atraso na Filarmónica. Calhando meti-me por uma vereda proibida.
E pronto por aqui me fico de caçadeira aperrada na espera dos representantes da autoridade.


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