A verdadeira bravura está em chegar em casa bêbado, de madrugada, ser recebido pela mulher com uma vassoura na mão e ainda ter peito para perguntar:
- Vais varrer ou vais voar ???
Tó dixi
Infanta da Planura = aforismo romântico saído da aura poética de um amante do Sul, porventura autóctone, que assenta bem e é já um dado adquirido na compreensão e paixão pelo lugar.
Sitio aberto, de vastos horizontes, situado numa encruzilhada de caminhos importantes e estratégicos desde a Pré-história.
O seu topónimo, Vimieiro (Lat. Vimenaria), gerou controvérsia, mas, recentemente, afastou-se a hipótese de terras de vimes, dada a secura da área, a não utilização de vimes na empa da vinha, nem de pipas e tonéis, mas talhas de barro no fabrico do vinho. Resta, portanto, a colonização interna no sec. XIII por gente do Norte, provinda de localidade homónima do norte de Portugal.
Tem presença humana assinalável desde o Neolítico, sobretudo, no eixo da ribeira de Tera que abrange a linha Vimieiro / Pavia. É uma zona de profusão de povoados, monumentos funerários megalíticos (antas), alinhamentos e menhires. De assinalar a Anta dos Prates, Claros Montes, Caeira, Camaroeira e Bardeira.
A presença Romana é um facto notório, pois aqui passa uma ligação à grã Via Olisipo / Emérita Augusta, restando ainda de pé a Ponte da Frausta, a Ponte do Freixo e vários pedaços empedrados dessa via. O topónimo Fonte Santa, pressupõe uma fonte com virtudes medicinais e divinas do tempo Romano. O topónimo Tourega tem importância arqueológica, ainda de origem Pré Romana, bem como o Vale da Pinta cujo termo arcaico de “Pinta” provem do Latino “Picta”. Este topónimo, aproxima-se dos nortenhos Pala de Pito, Pala Pinta, em que “Pala” era sinónimo de anta, o que ajuda também na toponímia da vila.
A conquista da Península Ibérica pelos muçulmanos, trouxe novas gentes à região. São berberes, islamizados, mas não arabizados, que são relegados para as zonas mais pobres e marginais como a do lugar de Vimieiro.
ABD-Al-Rahman, ibn Marwan Al-Jilliqii, líder berbere incontestado, une interesses locais e berberes e ganha posição em relação a Córdova, que acaba por lhe reconhecer a posse de “Bataliyaws”, (Badajoz). Daqui resulta mais tarde o poderoso reino de Badajoz, já no período Taifa, no qual a nossa terra estava incluída.
Após conquista cristã e a consequente colonização, surge o Vimieiro, já documentado no séc. XIII, Consta da tradição ter tido foral de D. Dinis, no entanto, nada o certifica e só tem prova cabal o foral de D. Manuel I de 1 de Junho de 1512.
Foi sede de concelho desde o séc. XIII até ao séc. XIX, altura em que o poder centralizador do estado acabou com ele, tal como com muitos outros (1855).
O Senhorio Medieval é um tanto obscuro, como no geral no interior Alentejano, aparecendo D. Sancho de Noronha no séc. XV e terminando com D. Sancho de Faro e Sousa no séc. XVIII.
A segunda metade do séc. XVIII é tempo áureo para a casa condal de D. Sancho de Faro e Sousa, pela mão da poetisa D. Thereza de Mello Breiner, sua esposa. D. Thereza é fundadora da Arcádia, movimento intelectual de maior expressão há época, e, é aqui, neste palácio, que dispõe ao tempo da maior biblioteca privada do reino, onde se reúne a nata pensante da corte. Após a morte de D. Thereza, e em sua memória, o seu marido mandou erigir um monumento (obelisco) nos jardins do palácio, composto por uma pirâmide de basalto de pedra única.
Tem o Vimieiro grande profusão de monumentos religiosos, sobressaindo a Igreja Matriz, em honra de Nossa Senhora da Encarnação do Sobral. Vasto templo em cruz grega, com seis capelas além da mor, de uma só nave, com frestas estreitas, alpendre exterior e telhado ameado, tecto de abobada ampla artesoada, sem uma única coluna, cuja autoria se remete para o arquitecto da Igreja de S. Francisco de Évora (séc. XVI). De salientar ainda, embora mais pequena, a Igreja da Misericórdia e a Igreja do Espírito Santo, ainda dentro da vila.
Circundante ao povoado, temos a assinalar o Convento de S. Francisco (1554), do qual só restam ruínas, e outras capelas cuja edificação se situa entre os séculos XIV e XVIII.
Terra plurifacetada prenhe de influências, viu, e certamente sentiu, em tempos de transumância passar maiorais serranos do centro de Portugal, na demanda de suculentas pastagens e invernos menos rigorosos, ali, para os lados dos campos de Ourique. Estas enormes caravanas de gentes e animais utilizavam um trajecto, nem sempre pacífico, a pé, através da chamada Canada Real. Após travessia do Tejo, em Vila Vela de Ródão, percorriam os campos de Nisa e Alpalhão até Fronteira, onde se bifurcava a rota. Uns seguiam por oeste, outros para este, voltando a encontrar-se no Monte da Estrada (Vimieiro). Daí rumavam para Venda do Duque, Vale do Pereiro e campos de Évora, prosseguindo até Ourique. O regresso, já com o Verão à porta, processava-se pelo mesmo itinerário.
Curiosidades do lugar
“Era tal o amor que os do Vimieiro tinham aos seus baldios, que, em lhes falando em os aforar ou alienar, faziam logo bernarda”. Por diferentes vezes foram incendiados os papéis das Repartições Públicas (Pinho Leal).
Os habitantes do Vimieiro eram conhecidos nos arredores pelos “Favas Fritas”, “Favas Torradas” dada a profusão do cultivo e consumo desta leguminosa.
Acerca de 3 Km da Vila, na estrada para Pavia, há um pedaço de caminho tão direito e unido que parece calçado a maço. É o “brincadouro”, assim chamado porque vão para ali as bruxas brincar e fazer o sabbat.
Na Ribeira de Tera junto ao chamado pego do Sino, na noite de S. João, à meia-noite, ouve-se cantar um galo, chorar um menino, berrar um boi e tocar um sino.
José Oliveira (Det)
Viticultor e finalista de Arqueologia
(do Livro de Bordo da Sulitânia)
Está dito, por quem sabe, que beber vinho é um acto de cultura popular, dando à palavra cultura o seu significado antropológico.
O vinho povoa, efectivamente, o nosso quotidiano, a nossa linguagem, a nossa gastronomia, o nosso imaginário, as nossas relações sociais. Parafraseando Roland Barthes podemos afirmar que, também para os Portugueses, o vinho é uma bebida totémica, correspondente ao leite dos holandeses, ao chá britânico e à cerveja germânica. Como tal, ele «é o suporte de uma mitologia variada, que não se embaraça com as contradições... antes de mais, é uma substância de conversão capaz de voltar do avesso as situações e os estados, e de extrair dos objectos o seu contrário; de fazer, por exemplo, de um fraco um valente, de um silencioso um fala barato» (Barthes 1978).
Repare-se que são imensos os motivos para se beber vinho – ter sede, fazer calor, ter fome, fazer frio, estar cansado, para não falar de outras manobras sociais, como adiante veremos. Sangue da terra (o tinto), manjar dos deuses (qualquer um), suco do sol, «o vinho detêm poderes aparentemente maleáveis: tanto pode servir de álibi ao sonho como à realidade, tudo dependendo dos utilizadores do mito» (Barthes 1978), ou seja, dos bebedores.
O recurso ao vinho é das soluções mais universais do Homem, porque se bebe por tudo: quando se está triste, quando se está contente, porque se está só, porque se está com os amigos, porque estamos zangados, porque fizemos as pazes, porque estamos apaixonados, porque celebramos a vida, e até, quando acompanhamos a morte.
Humaniza-se o vinho: se alguém se sente mal é porque lhe «caiu o vinho no corpo». Por outro lado, «fulano tem bom vinho», ou seja, bebe com prudência e parcimónia ou, quando embriagado não faz disparates. Nalgumas povoações alentejanas, ir ao café ou à taberna, ao fim do dia e beber seja o que for (cerveja, vinho ou amêndoa amarga), é «beber o vinho do trabalho». A simplicidade da expressão é apenas aparente: o homem que trabalhou merece beber vinho e só o vinho é referido como compensação ao esforço dispendido.
A ingestão do líquido cria riqueza e prodigalidade não apenas comportamental; os linguistas ficam satisfeitos com a diversidade semântica da terminologia vinícola. Bebedeira é piela, torcida, bezana, tosga, carraspana, ursa, camada, cardina, açorda, bêbada, borracheira, grossura, tachada, gatosa, pifão, perúa, turca e que mais?
Estar bêbado é estar tratado, é estar alegre, ter o rei na barriga, estar farto, estar com ela ou, já estar.
O petisco, esse cerimonial colectivo, tão do agrado das classes populares, e das outras, parece-me ser simplesmente uma desculpa para beber vinho; é um mecanismo de fachada. Então não se costuma dizer que o petisco é só para enganar o estômago? Beber um copo parece-me também uma deliciosa mentira inofensiva. Quem diz que vai beber um copo, bebe apenas um?
Neste percurso da ironia, desejo evitar equívocos: não faço a apologia da bebedeira, desejo fazer a defesa do bom vinho e, nomeadamente das zonas vitivinícolas ora designadas de origem. No trajecto irónico, a referência é a frase lapidar de muitas tascas alentejanas: «Se vires um homem caído na rua, respeita-o. Pode ser um bêbado».
Numa perspectiva rural e popular, falar do vinho é trazer à memória a tradicional taberna. As tabernas mais antigas estavam associadas às carvoarias, por razões que talvez não fossem meramente comerciais. O garrafão e o pedaço de carvão pendurados às portas eram cartazes publicitários, mas transportavam em si uma outra simbologia. «Para além da questão funcional da venda comum dos dois produtos, descobre-se o significado ritual que faz associar os dois elementos: o carvão provoca o fogo que aquece o copo; o vinho produz a chama que aquece o espírito...» (Ramos 1980).
Taberna é tasca ou adega. Nalgumas localidades é apenas nomeada pela última designação. Naturalmente que a adega pressupõe a produção própria ou, pelo menos, a armazenagem. O vinho é, na taberna, o centro à volta do qual gira um vasto número de elementos: o petisco, o mobiliário, a decoração, o vasilhame, a clientela, etc. Note-se que, quando outras bebidas invadem o espaço do vinho, a taberna genuína torna-se híbrida e caminha para café, restaurante ou bar.
A taberna mais primitiva só vende vinho (e aguardente), e não fornece petisco, não possui frigorífico, a vasilha por excelência é o garrafão ou serve directamente do pote, a decoração é exígua e o local é frequentado pelos grupos sociais mais pobres. A taberna frequentada por caçadores, empregados bancários e funcionários públicos, (grandes amantes do «vinho do trabalho»), tem tendência a evoluir para café: surge o balcão-frigorífico, o jornal, a televisão, a coca-cola, o petisco diversificado, etc.
Os bons bebedores fazem questões em beber o vinho de um copo sem interrupções. Bebem no entanto devagar, prolongando o prazer do saboreio e olhando o vinho decrescente. Deixam uma pinga no fundo do copo, atirando-a normalmente para a parede do balcão. Limpam a boca com a manga e cospem de seguida. Tal acto simbólico de purificação pode acontecer, nalguns casos, antes de se levar o copo à boca. «Os homens que misturam vinho com gasosa são considerados fracos bebedores, sendo por isso alvo de chacota». (Ramos 1978). As tabernas-adegas mais tradicionais possuem ainda talhas centenárias fabricadas no Redondo, S. Pedro do Corval e Beringel.
Beber um copo de vinho, que é beber o vinho de um copo, já foi «vai um copo de três» e, nos dias que correm pode ser: «vá lá mais um», «queria um balde», «quero um penálti», «dá-me uma saquinha de carvão», «serve-me um chá», «dá-me um dos grandes», «aponta aí mais um», «vá lá o último». Mas este jogo de metáforas não cria problemas de comunicação; os interlocutores entendem-se perfeitamente, tão perfeitamente que podem passar da linguagem oral à gestual.
Na comunidade rural o vinho é o tónico duplamente fortificante que a tudo ajuda: é preciso beber uns copos antes de contar um segredo há muito guardado, antes de descrever uma história interdita, antes de enfrentar os cornos de uma vaca ou os punhos de um rival. O vinho é, na festa popular, a armadura ideal para a ruptura com a norma. Por outro lado, se a comunidade critica o comportamento de um indivíduo que se embriagou, há sempre uma voz de contrição que, misericordiosa, atalha: «Coitado, estava bêbado, não sabia o que fazia...».
O bêbado é uma figura acima e fora de regra, não é homem e não é deus, não está no seu juízo perfeito e não é louco; é outro. É um réu condenado a ser condenado a pena suspensa. Como insinua com imaginação Lobo Antunes, teria sido uma bebedeira tipificada nalgum marinheiro famoso que nos terá levado ao Cabo das Tormentas e às Índias. Sem o vinho, a aguardente ou o absinto que Fernando Pessoa bebeu, estaríamos agora a comemorar o maior poeta universal do nosso tempo?
Nos meandros e nos delírios das paixões obsessivas do mundo rural, há sempre uma desculpa mítica veiculada por mãos femininas: «Ela deu-lhe qualquer coisa a beber» - diz o povo. Depois de investigação aprofundada sobre o tema posso garantir-vos uma coisa – dessa veniaga amorosa não consta o vinho do Alentejo.
Francisco Martins Ramos,
antropólogo
(do Livro de Bordo da Sulitânia)
Já pensei em deixar de o comprar ao sábado. Mas o suplemento Fugas é das melhores coisas do jornal. Assim sendo continuo a mercar todas as semanas, em aditamento ao jornal, umas substanciais gramas de papel impresso - no caso couché o que agrava o delito face ao ambiente - sem sequer ler as gordas quanto mais as magras. Só de a ver fico com brotoeja no cérebro. Lembra-me vagamente uma Supico Pinto pós-moderna. De seguidinha, dá-se o chamado bypass da XIS: da rotativa directamente à reciclagem.
Infelizes as árvores que tal papel parem.
É notável a motivação do construir. Gosto desta adrenalina de me saber desinquieto e, ao mesmo tempo, da aquietação por ter chegado ao final da primeira etapa.

De Architectura
O Joaquim Pulga gosta de arquitectura. Já gostava antes de nos conhecermos
em Beja em 89. Depois disso ficámos os dois a gostar um bocadinho mais.
Este não é o 1.º projecto de uma taberna que fazemos juntos. Já fizemos muitos. Não foram é construídos. Nem eram para ser.
Chegou agora a vez. O Pulga decidiu-se finalmente. Vamos ter obra. Temos boas hipóteses. E depois ficamos todos a ganhar com isto. Eu pelo menos não vejo ninguém que não fique.
Eu e ele queremos a mesma coisa. Isso está entendido há muito tempo.
Então nisto das tascas...
Agora vamos fazer uma.
Para começar o sítio é dos bons. Metido bem dentro da aldeia. Um edifício já velho mas inteiramente capaz de responder à demanda. É assim que nós o vemos.
Há duas coisas (pelo menos) de que o Joaquim se orgulha nesta conversa d`Alentejo. Uma é aquilo a que se costuma chamar a “verticalidade” dos alentejanos ( conceito duplamente importante neste particular ). A outra é a dieta dos ditos.
O projecto do Sulitânia não tem outro programa. Dois temas de peso, daqueles que puxam pelos arquitectos convocados. Neste caso por mim e pelo Rui.
Temos uma tarefa boa e temos uma tarefa difícil. Os projectos de arquitectura são assim. Os arquitectos sabem isso. Têm uma ideia para acrescentar a essa discussão.
O projecto do Sulitânia não está ainda completo. Temos apenas um ponto de partida para poder chegar à obra e vamos ficar por aí. Temos que ficar.
Ele vai-se completar depois.
O Joaquim está encarregado disso.
É aquilo que nós podemos pedir-lhe.
Manuel Faião
arquitecto
(Do Livro de Bordo do Sulitânia)
Eles andam por aí. Metia-os num cepo se não é verdade!
Dê um clique no prazer inculto e confirme.
Vieram as primeiras águas dignas desse nome. Não tarda nada verdes são os campos. Daqui a uma mão cheia de dias os úberes das campaniças estarão rasos de leite. Começará então o alavão. Depois as rouparias escancaram as portas para mais um ciclo do queijo Serpa.

Imagem de Luís Pavão
No final do século XIX publicava-se em Serpa a Revista mensal d’ ethographia portugueza illustrada «A Tradição». Nela, o Conde de Ficalho escreveu sobre o fabrico do queijo:
(...) Ordenha-se então regularmente duas vezes ao dia, uma de madrugada, a outra ao começar da tarde. (...) O leite passa dos ferrados para os cântaros, e n’ estes é trazido para a rouparia, uma das casas do monte, especialmente destinada ao fabrico dos queijos. Ahi é deitado em um pote pequeno, chamado azado, sendo coado por pannos sobrepostos, especialmente tecidos para este fim, e aos quaes se dá o nome de coádeiros. (...) As rouparias empregam um numero considerável de coádeiros, que todos os dias se lavam e se penduram a secar. D’ aqui resulta um grande estendal de roupa, o que seguramente deverá ser a origem das palavras rouparia e roupeiro.
(...) Quando o leite está no azado, deitam-lhe o cardo, sob cuja influência coalha. O coalho é tirado para cima da mesa de pinho, chamada queijeira, onde o roupeiro e o seu ajuda o trabalham, migando-o, remigando-o, e apertando-o nos cinchos até estar feito um queijo de dimensões ordinárias, chamado simplesmente queijo, ou às vezes de menores dimensões, tendo então o nome de cunca. Depois de um pouco enxutos, os queijos são passados para um caniçado, onde durante quinze ou mais dias sofrem uma fermentação especial, scientificamente bem conhecida, e conhecida practicamente pelos roupeiros, que lhe chamam azedo.
Ainda hoje revivo amiúde o gesto gaiato de franzir o rosto diante do prato da sopa. Dizia a mãe que eu era moço de má boca. De boca desejosa de eternizar as guloseimas dos dias de festa como todas as outras bocas que não nasceram na abundância, digo eu. Mas a tesouraria da gerência era a que era e, perante o forçoso equilíbrio na gestão, desde a linha de partida que conheço os cantos à agora endeusada cozinha transtagana da necessidade. Não que a mãe não soubesse de outras podas culinárias, sabia e era mestra, mas o equilíbrio na balança de recebimentos/pagamentos justificava a poupança na despensa. E lá fui medrando à conta de sopas mal engolidas, entremeadas, é certo, de outros acepipes mais domingueiros. Entretanto, enquanto espigava, cirandava a curiosidade pelos detalhes da vida adulta. Dentre eles, não resta a menor dúvida da aposta na taberna como um dos lugares que tresandava a academia da vida. Tal como o pensei na altura, assim o grafei há uns pares de luas atrás.
“Na Grécia antiga a taberna dava pelo nome de Kapêleion e os taberneiros de Kápelos. O vinho, razão primeira da existência das tabernas, mereceu do poeta grego Alceu para a posteridade:
É preciso não entregar o coração ao infortúnio./Nada lucraremos, ó Bíquis, com tristezas. /O melhor remédio é pedir vinho e embriagar-nos.
Os Romanos frequentavam-nas com entusiasmo, como se de lugares de culto se tratasse. Para eles, eram poiso de conversa e boa disposição, de abrigo e refúgio, de comidas e vinho que, generoso, corria a rodos. Muitos foram os autores romanos a quem nunca doeram as mãos e a pena na sua celebração. Plauto, Horácio, Cícero e Tito Lívio que, certamente, entre outros, se refugiaram na sua penumbra apelando às Musas.
Na Idade Média continuaram a ser templos de convívio e satisfação. Nelas, continuou a jorrar vinho para poetas, jograis, e goliardos, saltimbancos e vagabundos, cavaleiros e soldados, frades e peregrinos, camponeses e artesãos. Foram frequentadores seus que escreveram os magníficos Carmina Burana. Nelas, se conspirou e delas saíram revoluções e regicídios. Nelas, encontraram conforto os inúmeros desprezados da sorte daqueles tempos.
Omar Khayyam, cidadão da Pérsia muçulmana, homem sábio, culto e crítico, astrólogo, matemático e geómetra, que com a normalidade dos amantes do prazer, prezou o convívio das mulheres, das tabernas e do vinho, deixou-nos na forma de poema, o seu elogio:
O nosso tesouro? O vinho. / O nosso palácio? A taberna. / Os nossos fiéis companheiros? A sede e a embriaguês. / Ignoramos a inquietude, porque sabemos que as nossas almas, corações e taças e as nossas roupas maculadas nada têm a temer do pó, da água e do fogo.
As tabernas foram para mim a curiosidade da infância e a academia da adolescência. A taberna do Armando, do Nabo, do Quintaneiro, do Praça, do Carranca, sítios que atentatóriamente foram convertidos em baiucas de mau gosto, onde reina a falsa modernidade do espelhinho, do alumínio e da fórmica, foram escolas onde percebi dos méritos e dos malefícios da vida. Lugares onde estabeleci amizades e aprendi a maldizer, onde discuti o relativo e o absoluto, onde com reverência escutei do saber e do fazer, onde fui iniciado nos prazeres do vinho e do petisco.” (...)
Logo que os caminhos da vida deram para andar pelas pernas minhas, parti à descoberta de outros lugares. E foram anos e anos de mal (bem, magnificamente bem!) andar pelos costumes de outras gentes. A bem dizer, sempre pelos trilhos do sul. Desse sul bamboleado que por bem ajuntou fantasia ao temperamento do meu sul austero. E descansei. Descansei por uns bons pares de anos nas bordas do Índico e nos matos que pelas terras adentro se vão.
Vale a pena ajuntar a este relambório o mester em que ocupei o tempo, um substancial naco do tempo que já levo de siso. Por bem empregue, labutando pelo conforto do mundo rural. Do mundo rural onde igualmente labutaram os meus antepassados. Vale também dizer que, à laia de consolo de emigra, me fui crescentemente filando à arte dos tachos e panelas.
Depois tal e qual o Cambaco (elefante velho), retornei às terras da minha adorada transtagânea. E por aqui continuei a insistir mais um ror de anos que a matriz da vida está nos lugares onde se lavra, semeia e colhe - guerra inglória esta, num tempo virado do avesso em que a rapaziada quer é saltar para dentro dos ajuntamentos de gavetas da propriedade horizontal.
Tudo tem o seu tempo, e o subversivo oficiar no desenvolvimento rural foi sendo paulatinamente imerso pelas baias redutoras dos poderes. Foi perdendo o salutar à margem entre um crescendo de tanganhadas e reverências pelos poiais dos gabinetes dos directores gerais de tudo e mais alguma coisa. Começou a desfalecer-me a querença no ofício paralelamente ao crescimento da paixão pela talha e pela sertã. Até que, um dia, acordei com o desejo de tomar de renda uma respeitável taberna, ali no fundo da rua das Portas de Moura, encolhida junto da muralha, mesmo no cerne da mouraria bejense. O desejo bejense acabou por ir-se nas teias que a vida entretanto teceu, mas ficou o bicho da vontade.
Bastas enxurradas passaram por debaixo das pontes. Mais umas arrobas de bacalhoadas distribuídas a pataco pelos corredores dos poderes. Até que, um belo dia, o Zé Det sentenciou: antes que endoides de vez, agarra no casão da minha mãe e monta a porra da taberna.
E pronto, na companhia societária da minha companheira Maria José, da Maria Fernanda e da Maria Paola – um chaparro minoritário e três Marias & tárias – a Sulitânia está de partida para a aventura dos comes-e-bebes.
Do livro de bordo da Sulitânia Casa de comes-e-bebes
Planta dicotiledónea, herbácea, aromática, da família das Labiadas, frequente nos lugares húmidos de Portugal.
Aromática com um lugar insubstituível na culinária alentejana, principalmente, nos cozinhados em que a substância é bicheza de espinha. O seu préstimo passa igualmente pelo perfumoso licor de poejo. Digestivo regional elevado, nos tempos que correm, a bebida mirífica da nossa cultura gastronómica. Bem haja a elevação!!!
Na rua da República, debaixo da arcada, quase a desembocar na Praça do Giraldo, existiu a Casa das Limonadas. Para além das ditas, consumadas no momento com limões frescos e água do cântaro, comerciava licores, bolos, outras guloseimas e artesanato (do tempo em que o era). Foi por lá que debutei no saboroso poejo. Ficou-me a pecha que, aliás, não faço questão de desamparar.
Encontrar o genuíno está em pé de igualdade com o procurar de agulha em palheiro.
- Arranjo-lhe umas garrafitas, mas sem factura.
- Cá com elas tio Manel e muito obrigado pela sua teimosia.
Enfileira assim o poejo com o medronho na condenação a uma morte lenta, supliciada pelos mandantes zarolhos que da riqueza cultural pensam nada e do resto muito pouco.

Ao Poeta José Craveirinha
quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drumond de Andrade
os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância
sobre a casa
a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e metáfora
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos dos mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não e a sete de Março
chama-se Junho desde um dia de o com meia
dúzia
de santanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no Parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo
enquanto os tocadores de viola
com latas de rícino e amendoim
percutem outros tendões da memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
AOS GRITOS
Luis Carlos Patraquim
Arrefeceu. Até que enfim poisou o Outubro. Já não era sem tempo. Os mais velhos dizem que o astro ficou desnorteado desde que os americanos foram à lua. Mas não deixa de ser verdade que o tempo anda a modos que apalermado. Já cá ando há anos suficientes para ser dono dessa sabedoria.
Mas o que eu gosto mesmo é de perceber com nitidez os contornos das extremas nas estações do ano, tal e qual como gosto de sentir que saí do Alentejo e entrei na Andaluzia. Tem a ver com o atino da minha bússola territorial/temporal.
Acabei de malhar uma açordinha com uma posta de pescada e um ovinho cozido. Foi a comedoria de boas vindas à inteireza da época do cair da parra. Também não me batia mal um par de santas migas. De batata, alentejanas, da charneca, de tomate, canhas, com espargos, à serrador, de mioleira, gatas, de couve com feijão, do Guadiana, de batata à S. Mateus... são migas senhor... são as santas migas do nosso contentamento.
A propósito da arte das migas, aqui vos lego um belo texto, sacado do livro “a talha e a sertã”, talhado pela pena do meu belo amigo e confrade José Manuel Martins.

As Migas
Esclareça-se antes de mais uma confusão: aqui no Alentejo chamamos migas aquilo que (aproximadamente), os outros portugueses chamam açorda e com este nome em Lisboa por exemplo, comem uma papa parecida com as nossas “migas”.
Mas ficam-se por aqui as semelhanças.
Imagine-se, numa manhã fria de inverno, uma grande cozinha com a sua lareira ao fundo. Sobre as brasas coloque-se uma trempe e em cima desta uma sertã de ferro, funda com um cabo. Cortem-se lá para dentro rodelas de chouriço, farinheira e umas lascas de toucinho. Deite-se mão de entrecosto e carne de porco migada, antecedentemente apaladada com massa de pimentão. Para ajudar a fritura dos enchidos, caso o toucinho não chegue, uma colherita de banha ou fio de azeite. Não se pode dispensar um ou dois dentes de alho.
Retire os enchidos depois de fritos, mas não exagere e bote de seguida a carne de porco, que levará um pouco mais de tempo. Previamente já amoleceu em água pão duro (do nosso “casqueiro” alentejano) que apenas se deixa roer. Retire a última fritura e, no pingo que ficou deite o pão escorrido quase desfeito, renovando os alhos, porque os da primeira fritura já estão pretos.
De colher de pau em punho dê umas voltas até obter uma massa uniforme. Prove e apure de sal. Se achar seca, junte uns golpes de água. Começando a despegar do fundo abandone-se a colher e segurando a pega da sertã tente enrolar a massa. Pode-se imaginar do “Tour d’Argent” finalizando uma omoleta. Obterá, se para tanto tiver arte e engenho, um rolo tostadinho por fora, mas não muito seco.
Está pronto.
Verta numa travessa, dispondo à volta as carnes fritas e rodelas ou gomo de laranja. Um pequeno pires de rábano é companhia apreciável.
Assista-se com um tinto encorpado de preferência do Alentejo e prepare-se para não fazer mais nada durante a tarde excepto filosofar sobre pequenas/grandes coisas da vida, enquanto lá fora cai a chuva miúda e sobra o norte gelado.
É a “áurea mediocritas” dirá o leitor cosmopolita e “europeu” .
Mas é BOM.
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Colegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
Alexandre O’Neill
Dar-lhe um tiro certeiro e fulminante para lhe sacar a dentadura, ainda vá!
Agora carregar no lombo com a idiotice para gáudio da turba idiota? Peço-te, Elefante, que guardes na tua exímia memória a minha não presença.
Se por ventura a diferença era abissal, aventava de imediato em barroco linguarejar transtagano: é o mesmo que comparar o olho do cu com a feira de Borba com mastros e tudo.
Depois do Liechtenstein reconsidero e proclamo: os referidos olho e feira são doravante uma insofismável capicua!!!





Agosto de 1920
(...) Os Aliados dão-nos ajuda para melhor nos esquartejarem. Franceses, ingleses, americanos e japoneses, aproveitam-se da agonia da Grande Rússia. Abutres em cima de um cadáver. (...)
do álbum “Corto Maltese na Sibéria”
Abaixo de zero, drasticamente negativo. Já o chefe é uma carga de fezes para atinar com os truques de ilusionismo, volta na volta mete as mãos pela GALP e os pés na CGD ou noutra barafunda que estiver mais à mão – se não houver ele inventa na hora. Ainda por cima o ajudante silva desata aos tiros nas pombas, nos pés, nos coelhos, no marcelo, nos patos do lago da residência do patrão... enfim em tudo o que não bata palmas aos truques desastrados do chefe. Ainda por cima a ajudante tia carminha desata a dizer que combinou com a outra tia ajudante da cultura mandar cultura para as escolas do género ó arlete manda aí o paquete entregar na EB de Alfeizerão uma grosa de doses de cultura... decididamente a mulher malucou de vez. Ainda por cima como se não bastasse já os títeres sem graçola do bagão, do barreto, do corveta, do guedes e dos outros mais ou menos transparentes que estão a ver se conseguem passar pelos intervalos dos pingos da chuva. Com este amadorismo o pós ps moderno sócrates megafone da sinistra moderna pode bem ir entretanto espalhar ferocidade para a rua dele que na próxima rodada o poder cai-lhe de maduro no prato da sopa.
Ao menos na madeira a coisa é à séria e os espectáculos valem bem o dinheiro do bilhete. O alberto joão actua a meias com os leões do circo cardinale. O gaijo do ps que não conheço nem dos carros eléctricos canta a meias com o bacalhau do quim barreiros.
Era impossível viver lá fundo da África, gostar de jazz, e não ouvir Dollar Brand. Deixar de ouvir um piano a debitar uma fabulosa música africana. Exactamente, disse africana!!!
Mais um que o apartheid chutou da sua terra. A alternativa ao exílio chamava-se Long Island. Nada menos que o sítio onde gradearam a grandeza de Mandela.
Islamizou-se, declarando-se a partir daí como Abdullah Ibrahim. A qualidade do seu registo musical não se ressentiu, antes pelo contrário, continuou a trepar para melhor. A minha fidelidade também não! Volto-lhe sempre.

- O copo está tão mal lavado que ainda tem o vinco do sarro.
- Esta pinga é tão velha que a garrafa já tem sarro.
- Deixa-me lá beber uma boa golada d’água para tirar o sarro da camada de ontem.
Não conheço a raiz etimológica da palavra mas, pelo ladino conhecimento da palavra, sei de carreirinha que o sarro está, sabe-se lá desde quando, profundamente entranhado no vocabulário popular. Nem sempre para alcunhar impurezas e sedimentos ligados ao vinho mas, na maioria das vezes, para lá caminha.
Hoje, no bar da Sociedade Filarmónica, ouvi empregar o termo a propósito de um sujeito valentão de uma vida completa na ingestão do néctar dos deuses. Dele diziam: O sarro é tanto na pança que, de dia para dia, lhe diminui a cubicagem. Estes chaparros são uns marotos!!!
O certo é que as lérias aguçaram a vontade de tirar o assunto a limpo.
O Sarro
Sarro é o nome pelo qual vulgarmente de designa um depósito no vinho com o aspecto de cristais e cuja constituição é essencialmente de bibartarato de potássio e tartarato neutro de cálcio.
A origem destes sais reside no ácido tartárico que é um ácido especifico da uva e consequentemente do vinho, raramente se encontrando na natureza a não ser na uva. É o ácido mais forte do vinho e o que se encontra presente em maior quantidade.
No vinho a concentração deste ácido diminui pela precipitação naquelas formas químicas sendo provocada pelo enriquecimento em álcool e pelo abaixamento da temperatura.
Esta precipitação ocorre, em maior quantidade e de forma natural, no fim do inverno nos vinhos em depósito e é potenciada exactamente por aqueles factores. (...)
Francisco Pimenta
Confraria dos Enófilos do Alentejo

Sarro

Espingardaria Ramos, Évora – 1930
Imagem do tempo em que o Ramos vendia espingardas aos caçadores. Não sei se lá, no campo das caçadas eternas, continuará com o negócio das escopetas caçadeiras? Calhando, apenas joga umas suecadas com a nomenclatura enquanto empina uns tintos acolitados de uns papos de anjo. Tenho para mim que, se o Ramos tem descoberto o elixir da longa vida e ainda por aqui andasse, uma coisa não faria seguramente: vender espingardas aos selvagens dos cacadores!!!
Nesta altura do ano, assim que topo com a recidiva cáfila dos energúmenos camuflados, com o reboque dos cães – metade deles para deixar cá – atrelado ao pajero, sobe-me o chauvinismo tal e qual a azia em dia de púcaros. Salvaguardando as devidas distâncias sinto-me assim a modos que Iraquiano. Apetecia-me pôr umas placas na estrema do Tejo com dizeres a bold: VÃO CACAR PARA A VOSSA TERRA.

No fim do Verão entrada do Outono os produtores de carvão voltam à tarefa anual de construir os fornos tradicionais de carvão, geralmente de lenha de azinho. S. Bartolomeu do Outeiro, Amieira e Santana no concelho de Portel são localidades com pergaminhos bem antigos na produção de carvão.
Este método ancestral de produzir carvão tem os dias contados. Os malefícios do impacto ambiental durante a queima dos fornos e a qualidade do carvão produzido (teores nocivos) são epitáfio anunciado para a arte.
Em 1903, sobre a arte escreveu o mestre José da Silva Picão no seu livro “Através dos Campos”:
“Carvão – Cada camarada, com seu manageiro, faz a traça para carvão, dividida em grupos a trabalharem no mesmo corte. Um deles, munido de cunhas, alviões, marrão, serrote e «malhos» (machados), corta a lenha grossa, como madeiros, pitões, pernadas, etc. Os madeiros custam um trabalhão insano e paciente, que só a perícia consumada consegue abreviar.
Outro grupo, somente com machados, prepara de pronto e a golpe certeiro os achões e achas, e ainda outro ou o mesmo, mas à roçadoira (podoa), leva a eito e de firme a restante gandaia miúda e o que se pode apurar da chamiça.
Simultaneamente, ou no fim, toda a lenha preparada acarreta-se em carros de muares e bois para os diferentes sítios de «boa caída» (baixas) em que se hão-de erguer os respectivos fornos. Para cada um distribuem-se de trinta a sessenta carradas.
Os que ficam com vinte ou menos, chamam-se-lhes bagajeiros. Cada forno empina-se pelo seguinte modo: Primeiro faz-se-lhes a «cama» colocando na base os grandes madeiros, cujos intervalos são preenchidos pelos pequenos. Depois, sobre a lenha grossa, os achões, as achas, e por último a gandaia miúda, previamente desbilrada, isto é, cortada em pedacinhos, ali mesmo no acto da enfornação. Com eles se preenche e remata artisticamente a superfície do forno – figura oblonga com um pequeno vão na base que «respira» pela «boca» e «cuada».
Concluída a empinação, aterram-se ou tapam-se os fornos em termos de se lhes largar lume e «arderem» por quinze a vinte dias, que tanto demora o período da carbonização, chamada cozimenta. Durante esse tempo adoptam-se as precisas cautelas e vigilâncias, de maneira que, se pró acaso rebenta o forno, irrompendo as chamas, se possa abafar imediatamente com mais terra, por evitar prejuízos totais ou parciais.
Após a cozimenta, extrai-se o carvão a pouco e pouco, separando-se dos tiços para ir arrefecendo e se aprontar o imediato transporte em sacas ou a granel." (...)
Entre muros brancos a urbe rompe no sino da catedral
ressoando por minha alma na planura alentejana.
São horas de acordar à porta do infinito
embora a vagem cinda o grito da vida oculta no fruto.
Contudo hei-de parir este cântico mais puro.
Coração respira teu arco de sangue fundo
tua luminosidade solar – embaciamento da Lua –
que agora se opõe distante como energia conjunta.
Conjunta por ser no trilho do trigo já recolhido
com o joio à mistura.
Por actos assim volvidos ao enrolar meus anos
cubro a volta do tempo que aponta a noite polar
ante axial culminância.
Desfez-se em luz diurna o dedo frio do Arcanjo.
Armando Emanuel Monteiro
Omite o Pacheco Pereira que esses “populares” são exactamente os mesmos para quem ele faz política há décadas, os mesmos que ele acabou de representar no parlamento europeu. Os “populares” e também os donos e chefes da tal comunicação social que os mobiliza e atiça para a exibição dos piores sentimentos colectivos à volta de dramas impensáveis entre gente civilizada. Principalmente estes segundos, com quem ele amiúde socializa o canapé e o branco do social e da retórica política. Mais sórdidos os segundos pelo patente snobismo do conhecimento que arrogam. Assim sendo, a existência desta ignóbil gente é precisamente a matéria-prima que o Pacheco usa no trabalho que se lhe reconhece, e que lhe dá os tostões com que compra a papa que o alimenta.
É pertinente este acrescento!!! Este acrescento ao aguçado artigo que esgalhou no Público, desta quinta-feira, titulado «Os “populares”».