setembro 29, 2004

Alarvidade???

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Vi este filme vai para uma década. Estou exactamente a reflectir a cena posterior, à imagem acima, com um asseio invulgar. Nada menos que o alarve a tragar o cachené bávaramente salsicheiro entre grunhidos de profundo prazer. De quando em vez suspendia a mastigação, limpava os beiços levemente engordurados, preparando a cavidade para escoamento de rigorosos tragos de um citrino branco igualmente germanófilo. É de fundamental conveniência narrar que o bávaro cachené se encontrava guarnecido de um substancioso choucroute que, segundo as regras, era analogamente bávaro. É ainda de capital importância relatar que o alarve forrava a função com uma infiltração da Vidigueira. Nada menos que um panito de duas cabeças, à altura já fatiado, que o alarve teve o desplante de carregar religiosamente por terra e ar.

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setembro 28, 2004

O centro do meio

é o que está a dar o iogurte magro a política do centro do meio a cerveja sem álcool o fato às riscas o tabaco sem nicotina a saúde moderada nas taxas a barba de três dias a guerra a computador a loucura sem maluco o bronzeado sem sol o ps sem socialismo o sexo na net o patrão sem rosto a falsa calvície a choruda reforma sem bulir o leite línea a corveta sem inimigo a música spunc spunc spunc spun a situação sem oposição o café com ermezetas o psd sem social-democracia a linguiça sem gordura o pc sem proletários as bicicletas estáticas o ministério da defesa sem tropa a maltosa a comprar a crédito a agricultura sem couves o presidente inodoro a comunicação social do umbigo o robalo de aviário a aviar o bagão sem tostão a canja sem ovinhos amarelos os mestres-escola sem a dita o aborto defendido por abortos e os abortos pela vida as câmaras sem ar o padre sem vocação o maluco sem loucura o livro sem papel o queque sem chá enfim o triunfo do lights

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setembro 27, 2004

Mecânicos da ucharia agrícola

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imagem de Luís Pavão

O etnógrafo José da Silva Picão, na sua obra de 1903, esclarece assim das responsabilidades do abegão: “Encarregado principal de todos os serviços desempenhados pela ganharia de que é mandante e cabeça. «Chavão da lavoura», no dizer de alguns campónios”. Mas, quando discorre sobre os carpinteiros anuncia: “Mestres carpinteiros, mas de «obra grossa», «de machado e enxó» para não se confundirem com os de «obra fina». No concelho de Campo Maior nem carpinteiros de machado lhe chamam. Conhecem-nos por abegãos, dando ao verdadeiro abegão o nome de apeirador”.
No que me é dado saber, a nomenclatura de mestre Picão no que concerne ao abegão, era apenas localizada no seu concelho de Elvas. Mesmo o apeirador tinha, no restante Alentejo, a denominação de feitor. Quanto ao abegão, também no restante Alentejo, não era mais que o mecânico da ucharia agrícola, no que concerne a artefactos de madeira. Já para os artefactos de ferro a responsabilidade do seu maneio cabia ao mestre ferreiro.
Nalguns acentos de lavoura (montes), o abegão era pau para toda a obra. Fazia a manutenção do equipamento agrícola metendo a mão na madeira e no ferro, e, nalguns casos, também fazia as vezes de ferrador. Isto porque os mestres ferreiros, geralmente, tinham oficina aberta apenas nos povoados de maior dimensão, vilas e cidades. O ferreiro também exercia a função de ferrar as cavalgaduras. Por regra, os ferreiros eram mais bem pagos que os abegãos, daí que o lavrador exigisse ao segundo uma habilidosa polivalência.
Não era mais que a hoje propalada gestão apropriada dos recursos humanos.

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setembro 26, 2004

Pregado pelos tomates...

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Ainda por cima franciú??? Era que nem favas contadas!!! Nos dias que correm, a atrevimento análogo, os americanos, abonar-lhe-iam a franqueza de o pregar na cruz, mas pelos tomates.
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Este genial e elegante louco, faz-tudo do engenheiro ao matemático, do poeta ao dramaturgo, do músico de jazz ao director teatral, sob o pseudónimo de Vernon Sullivan, Boris Vian, ele próprio grande apreciador do romance policial negro, escreveu este murro no estômago de imediato proibidíssimo nas terras do tio Sam. No prefácio, desta obra de 1946, para Vernon Sullivan, escreveu Boris Vian: (...) Ai de nós! A América, país de delícias, é outrossim a terra de eleição dos puritanos, dos alcoólicos e dos meta-bem-isto-na-cabeça: e se, em França, se envidam esforços por uma originalidade acrescida, já do lado de lá do Atlântico todos acham natural explorar sem pejo uma fórmula que deu provas do seu valor.(...)

«Irei cuspir-vos nos túmulos» foi publicado em Portugal, pela Europa-América, na colecção Clube do Crime, em 1973. O Francisco Lyon de Castro também era um homem com eles en su sítio.

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setembro 24, 2004

A idade do Jazz

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Há um par de anos que me regalo a ouvir este trangalhadanças, não só na extensão mas, essencialmente, no génio musical.
Para além deste «Beyond”, vale a pena usar o «Passage of time».
Por aqui me fico no balanço!!!

Publicado por machede em 12:19 AM | Comentários (2) | TrackBack

setembro 23, 2004

O show de ilusionismo da trupe Lopes

Quando o apresentador Jorge deu início ao espectáculo da trupe do mago Lopes, declarei, o meu direito de assistir em silêncio até à apoteose final. O que não invalida, dado a qualidade do show, de irromper em sonoros bravos sempre que haja momentos de destemperado arrojo. É o caso meus senhores: pôr 50.000 professores a levitar, é obra punheta!!!

Nota: a interjeição punheta tem a ver com o recurso às loucas e trepidantes tarefas manuais.

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setembro 22, 2004

XITIZAP # 15

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xitizap # 15
- proliferação nuclear
- lenha a $80
- nikkormat
- arquitectura 9/11
- 340 ml de Moçambique
- links & downloads

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Outono

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(...) Na maioria dos casos, o alqueive, depois de pronto na Primavera, fica em branco, até à próxima sementeira outonal, principal, senão único objectivo do seu preparo. Se, porém, o terreno se presta à cultura de legumes, aproveita-se logo, semeando-lhe grão de bico e chícharos. Mas quer fique em branco, ou se lhe semeiem legumes, a terra alqueivada lavra-se de novo mais tarde, desde as «águas novas» de Setembro ou Outubro até Novembro, para se lhe semear a seara por excelência: trigo, centeio, cevada ou aveia. (...)

(Através dos Campos – usos e costumes agrícolo-alentejanos, de José da Silva Picão)

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setembro 21, 2004

leãozinho...

O sistema voltou a funcionar. Invalidou um golo limpo à SAD do Alberto João!

Publicado por machede em 12:40 AM | Comentários (0) | TrackBack

Indefectível!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Nem que chovam picaretas em brasa. Direi mais, semanalmente, depois do Benfica, é a única rábula que me atrofia de pasmo na frente do caixote das pantominas.

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setembro 20, 2004

O cação da necessidade

Até há uns anos atrás, ninguém passava cartão ao tamboril. Era apenas um peixe mal encarado e mal amado. Na lota, os pescadores, davam-no de sustento à pobreza. Hoje, está bem cotado entre a bicheza de espinha.
Com o cação a coisa não era exactamente da mesma igualha. Mas também não era bicho bem amado no litoral, basta atentar no facto de não constar dos tradicionais alfarrábios gastronómicos das bordas de água. Pelo facto de ser anafado e gordurento, aguentava bem as caminhadas e os calores e daí a sua venda à gente das poucas posses dos sequeiros interiores.
Nós sempre lhe reconhecemos o mérito. Os exógenos, apenas desde que a cozinha alentejana teve direito ao merecido Olimpo. O certo é que o bicho qualquer dia está cotado na bolsa. Mas com mais ou menos dor de carteira, vamos continuando a meter-lhe o dente. E de várias maneiras que não só na famosa sopa com falcas de panito a boiar. Hoje degluti um caçanito de coentrada com amêijoas. Forte de sabor e redundante em bicheza marítima, mas de camaradagem bem conseguida. Um branco de Pias acolitou admiravelmente a sorte.

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setembro 19, 2004

Albardas e molins

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Imagem de Luis Pavão

É possível que ainda haja mestres albardeiros em actividade, eu desconheço. De qualquer maneira estará por pouco o ponto final na arte. Para tratar dos aprestos essenciais às laborações da tracção e da sela restam os correeiros. Só que do asinino ao equino vai exactamente a mesma diferença que do albardeiro ao correeiro. Um trajava o plebeu asinino, o outro trajava o fidalgo equino. Um metia a unha na serapilheira, na palha de centeio, na carneira e nos acessórios de lata. O outro metia a mão no cabedal, na lã, no feltro e nas ferragens nobres. Um era o operário que albardava o asno que carregava, a trote miúdo, o Sancho Pança. O outro era o artífice que aparelhava a montada que, garbosamente, partia à desfilada com o D. Quixote.
O prisma do criado e do senhor ou o erro de paralaxe???

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setembro 17, 2004

Utopia

Na brancura da cal o traço azul
Alentejo é a última utopia.

Todas as aves partem para o sul
todas as aves: como a poesia.

Manuel Alegre

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setembro 16, 2004

Protecção das camadas

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Abono o meu sentido assentimento a este dia, antes que os mamíferos plantígrados, com dentição completa, polegares oponíveis aos outros dedos e crude na caixa craniana, espécime george bush, ponham o ozono ozunir daqui pra fora.
Só mais esta coisinha à consideração superior: para além deste prodigioso dia protector da camada do ozono, deveriam haver um dia protector da camada de tinto, outro dia protector da camada de branco e outro dia protector da camada de aguardente.

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setembro 15, 2004

Do abatimento do Ma-Schamba pelo assassínio do Portinho da Arrábida...

Nunca esquecerei a ironia que o João Leal, aqui há uma mão cheia de anos, ao passarmos por uma praia de areia preta na Ilha de S. Miguel, atirou certeira: Olha um molho de palermas a torrar, deitados num parque de estacionamento.
Saco do negro sarcasmo do João por mou de carregar nas tintas sempre que malho na carneirada estival. Não que abomine o mar, antes pelo contrário, sempre funcionou como uma reconfortante pitada na minha alma de jagodes do sequeiro. Abomino sim a poluente e torrante turba carneiral da sandes e do Ambre Solaire.
Daí que a praia é um dos meus paraísos perdidos. Perdido na aprazível memória do Portinho da Arrábida da década de cinquenta. Quando subia à serra pela mão paternal levantando coelhos a cada trôpego passo. Quando no cimo enfeitiçava o olhar naquela ferradura de mar a pisar a areia branca branca de extasiar. Quando arregalava o ouvido às histórias dos marítimos do Portinho na única taberna de serviço. Quando jurava a pés juntinhos pequeninos de criança que a rocha da Anicha era poiso nocturno de temíveis piratas. Quando a Arrábida tinha meia dúzia de asseados campistas... do Barreiro... de Setúbal... de Évora... Quando ia a pé a Alpertuche sem ver viv’alma. Quando o João do estético e honrado bar de madeira da praia acendia o petromax para jogar suecadas enquanto eu bebia gasosas de berlinde da Serra d’Ossa. Quando... quando... quando nunca mais quando!

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setembro 14, 2004

Rolls Royce

Também nestas coisas da cozinha se deve anunciar que quem sabe da tenda é o tendeiro. Exacto e qual como nos outros misteres, ou, puxando a brasa ao erudito, como nas outras artes. Pressente-se do apuro do pintor na escolha do rigor da têmpera e da maciez do pincel, de conforme se pode imaginar do esmero do oficiante da sertã no juízo e escolha dos artefactos.
Das tormentas que açoitam o diletante dos tachos até ao caminho da luz, iguala a cruz que carrega este agora pretenso caminheiro até ao vislumbrar da redenção culinária. Daí o actual e aprimorado estudo da nomenclatura da ferramentaria que deve ornamentar qualquer oficina gastronómica que se preze.

Conchas e espátulas
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Às conchas, na minha terra, se dava o nome de cáceres, conchas então se devem chamar porque Cáceres é nome de terra extremeña.
Noutros tempos se balbuciava nos cafundós cozinheiros que as espátulas não eram outra coisa senão salazares. Evidentemente do dito que era rijo para raspar!!!

Panelas e tachos especiais
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É uma panóplia tecnológica de desamparar qualquer iniciado do tudo ao molho e fé em deus a mijar-se às pingas pelas pernas abaixo. Ele é aço inoxidável, cobre, louça vidrada, alumínio fundido e anodizado, cerâmicas, vidro temperado, barro e titânio – reparem só no afrontamento dos marcianos, em Marte evidentemente, quando lhe pousar à frente dos beiços uma açorda numa malga de titânio?!?! Verdadeiramente siderado e estarrecido mas impante fiquei, quando descortinei que o tacho de cobre é o Rolls Royce dos cozinheiros. Alimpa-te Saraiva!!!

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setembro 13, 2004

Ter uns buraquinhos...

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A propósito dos portugueses serem o povo que apresenta, na Europa, o índice mais elevado de posse de habitação própria, reproduzo um excerto do livro de José da Silva Picão “Através dos Campos – usos e costumes agrícolo-alentejanos”, dado à estampa em 1903. O que escreveu Picão Caldeira no inicio do século passado, não deixa de ser interessante para compreender a génese deste arreigado sentimento, pelo menos, no que toca ao Alentejo.

(...) Pondo de parte os ratinhos (ceifeiros vindos das Beiras) e pouco mais indivíduos, de encargos igualmente transitórios, os serviçais das lavouras alentejanas nascem e residem nas povoações próximas das zonas onde trabalham. As pequenas vilas e as grandes aldeias são as que fornecem maior contingente. De algumas se pode afirmar que, pelo menos, quatro quintas partes da sua população masculina, válida, empregam-se todo o ano a servir nas herdades. Andam lá pelo campo agarrados à «obrigação», mas o domicílio estabelecem-no nas povoações. Cada chefe de família tem aí o seu lar, onde habitualmente vive a mulher e os filhos. Ele em pessoa, só o utiliza quando folga e quando está doente ou desacomodado. Muitos residem em moradia sua, adquirida por herança, compra ou construção. Outros, habitam casa arrendada aos semestres ou por ano, com vencimento no fim de Junho ou de Dezembro.
Uma das principais aspirações do criado de lavoura é adquirir de propriedade uma casita na aldeia que o poupe a mudanças e a exigências e caprichos dos senhorios. Ter uns buraquinhos onde se possa alojar é o seu maior empenho. Os que conseguem enfim realizar esse propósito, quase sempre à custa de privações e sacrifícios, senão com o auxilio e protecção dos amos, tomam à casa tal apego, que só a vendem por necessidade extrema, imperiosíssima. Há exemplos de indivíduos velhos e inválidos mendigarem, tendo ainda casa sua. Se os increpam por esse facto, respondem: «Então hei-de arrancar-lhe uma pedra para comer?...» Outros, desculpam-se afirmando que não encontram comprador, que o prédio está arruinado, ect. (...)

Publicado por machede em 12:59 AM | Comentários (7) | TrackBack

setembro 12, 2004

Cenórios

Vi cinema, obsessivamente, todos os dias. Primeiro na santa terrinha, no Salão Central e no Éden Esplanada que deus já tem os dois. Depois na cidade grande e noutras cidades grandes por onde arrastei o coiro cinéfilo. Primitivamente, tesourados pela censura, após a sacristia, à vara larga. Entre outros, muito cinema francês, alemão e italiano. Americano, por vezes.
Depois foi o longo e delicioso hiato africano que deu mais para me sentir interprete de uma longa longa metragem. Costumava então proferir: filmes, só aqueles onde também sou actor!
Após o regresso do filho pródigo, das poucas vezes em que abafei às escuras, experimentei uma enxurrada de violência despropositada a puxar à catástrofe e à calamidade onde não batia a bota com a perdigota. E o bicho do vício, se já andava arredio, escapuliu-se de vez.
Se o meu filho me atenta muito, vou deitando o rabo do olho de quando em quando. Sensibilizado, algumas vezes mas não muitas. Mas nessas poucas haja deus, encarei com um gajo que sabe da poda. Direi mais, que está de rompante a inventar uma nova poda. E conhece os tiques dos seus conterrâneos como poucos. E despe-os em pêlo.

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setembro 10, 2004

Ainda o tarefar das velhinhas máquinas de costura

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Imagem de Frans Nieuwenhuis

Publicado por machede em 10:52 PM | Comentários (1) | TrackBack

Tarefar na velhinha singer

Dias há que, mesmo de contra vontade, dá para coser meia dúzia de peças de roupa. Hoje, nem para alinhavar a porra da casinha dum botão.

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setembro 09, 2004

Ainda a pancada do branco e da cal

O Caleiro

O cantar da voz solitário
habitando másculo
as manhãs quentes do verão
cheio,

o matraquear das rodas altas,
de carro de mula nas ruas tortuosas
talhando lento a pedra,

a alma antiga
do canto pregoeiro –

cal... e... e... e...
bran... n... n.... ca... a...

branca, branca,

como o canto do caleiro.


Monarca Pinheiro

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A propósito da altura das caianças

A insistência da cal e do branco. E no branco, quando muito, apenas a indulgência da barra de ocre. Por fora e por dentro, o rigor do branco. A honradez do asseio. No provérbio a prova dos nove: Pela rua do monte se vê quem lá mora dentro!
Aqui e ali, ainda se vislumbra o teimoso asseio da cal. Teimosia que falece aos poucos, como aos poucos morre o contraste forte das mulheres de preto que pincelam o branco.

Publicado por machede em 01:51 AM | Comentários (0) | TrackBack

setembro 08, 2004

Masoquismo & contracepção

Do Partido Socialista, não tenho a menor dúvida da sua fertilidade. Como não tenho a menor dúvida da impotência para o fecundar. Tem aparelho!!!

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setembro 07, 2004

Azeite, um tesouro para o coração

Com um reconhecido talento pedagógico, Michel Montignac faz-nos descobrir neste livro apaixonante todas as facetas do azeite: história, cultura, virtudes culinárias lendárias mas, sobretudo, as suas vantagens excepcionais para a saúde em geral, particularmente na prevenção das doenças cardiovasculares.

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setembro 06, 2004

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Pormenor da obra “Peregrinação de Santo Isidoro” – Goya, 1820 - 1823

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setembro 05, 2004

Figos da índia

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São deliciosos. Em tempos as gentes tinham por hábito deliciar-se com eles. A habilidade de os colectar evitando-lhe os finos espinhos, era um saber generalizado ao alcance de qualquer criança. A mesma criança que eu era quando lhe ganhei a rotina do sabor.
Presentemente caiem de maduros sem serem razão de cobiça. A cobiça é antes sabiamente direccionada ao sabor da razão dos hipermercados para exotismos outros que não o dos figos da índia. Isso era costume dos tempos em que os alentejanos trabalhavam de sol a sol e eram pategos.
Aqui ao lado, mesmo aqui ao lado, os compadres espanhóis que, certamente, também os deglutem desde os tempos da maria cachucha, fazem questão de ordenar e usar as figueiras da índia como sebes limitadoras das propriedades agrícolas. E colhem-nos. E tiram-lhe os picos com uma maquineta que inventaram. E vendem-nos. Tal e qual os pêssegos, as laranjas ou os alperces, arrumadinhos e chamativos em bem apresentadas caixinhas de madeira. E comem-nos, e dão-nos a comer a quem os visita como um produto local de qualidade.
Olha para o que havia de dar aos pategos dos espanhóis.

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setembro 03, 2004

Festas do Povo de Campo Maior

Encontro das Confrarias Gastronómicas e Enófilas Portuguesas

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Com os meus botões

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Imagem de Eduardo Gageiro – Convento da Cartuxa, Évora

Ultimamente sou um freguês assíduo do caminho para Arraiolos. Daí o amiudado reparo no Convento da Cartuxa. Vai daí as reiteradas cogitações sobre a vida conventual. Mais légua menos légua, desemboco sempre na mesma interrogação: se para alguma coisa tens jeito é para comunicar, como é então plausível esta crescente atracção pela vida monástica. Incompreensível, pelo menos no que diz respeito à flor da pele, verdadeiramente inexplicável. A não ser que a minha série de fábrica tenha a característica de, paralelamente ao uso, ir perdendo a vontade de piar??? A assim ser, é mais uma a somar ao acelerado sumiço da paciência!!!
Tenho de voltar a ler o meu manual de instruções com mais atenção.

Publicado por machede em 12:55 AM | Comentários (2) | TrackBack

setembro 02, 2004

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Imagem de José Esmael

Violas de lata

Minha alma grita
súplicas da Mafalala em mutovanas de avós
e geme timbilas do músico de Zavala
no ritmo das blusas de saca
do negro contratado.

E tu
minha companheira de olhos tristes
vens amorosamente vens
na tua boca a melodia fraternal
e lá fora na solidão da rua prenhe de gente
a voz infrene de uma cantiga ronga
o morse angustioso de uma vida de lata.

E no meu coração de pedra
estagna o sabor da vingança
e amo a vida no minuto de esquecimento
um desejo de criança porque é uma criança
um pálido raio de lua porque é um raio de lua
a mulata da boca lúbrica na cumplicidade da janela
as tranças loiras de Miss Susie toda nua na praia
e a sumaúma dos braços da negra Margarida.

Mas agora estala bem estalados
nos dedos raivosos das cantigas suburbanas
os arames de aço da tua lata de música
que o inferno de amnésia acabou
negro de sonhos subversivos
de homem descontratado.
E deixa o cerne do ritmo
no filho de mamana Angelina
a preta que trabalha a partir tincarôsse
na Companhia Industrial do Caju!

José Craveirinha

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setembro 01, 2004

A insofismável crueldade delas

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Publicado por machede em 02:19 PM | Comentários (2) | TrackBack

Adiafa

Lavrou, semeou, cuidou e ceifou a seara. Depois de pôr a semente a recato no celeiro, o Bota-Acima, fez a adiafa. Adiafa esta que verteu no balanço de um ano de canseiras e de cuidados, mas também de alegrias, desabafos, entendimentos e cumplicidades. Findo um ano a formigar palavras, anunciou o Bota o pousio que aí vem. O direito ao pousio de quem muito já semeou.
Lamento que o semeador João nos prive de nova seara. Apraz-me, no entanto, pressentir que andará por aí algures cultivando outros hortejos.
Compadre João, tão certo como eu ser Isidoro que, um dia destes, empinaremos uns canecos.

Publicado por machede em 12:48 AM | Comentários (1) | TrackBack