julho 29, 2004

Vazio sanitário

(...) Estamos chegando ao reino do gerúndio, enquanto expressão da santidade do tempo, que faz com as coisas não sejam, porque vão sempre sendo. Reino que se diferencia pela natureza do seu território e clima, os quais vão produzindo uma cultura que ambiciona à sabedoria na curtição do tempo que a vida nos vai reservando.
Uma cultura tão própria e diferenciada que foi criando uma linguagem e que foi inventando um vocabulário e uma gramática que quase nos foi levando a um novo dialecto ou mesmo a uma invenção linguística.
Este processo de constatação foi certamente o que o amigo Joaquim Pulga foi realizando ao lembrar-se das suas vivências à volta da mesa com a sua família e com a malta que o foi acompanhando na descoberta dos prazeres e solidariedades que nos alimentam o corpo e o espírito, para que ambicionemos tocar, de quando em vez, nas utopias dum mundo paradisíaco. Por isso ao reler os seus escritos, que têm como matriz a degustação de sabores e cheiros em animados e calmos convívios, e que exigem amiúde expressões e vocábulos que são património único do Alentejo, sentiu-se tentado a lançar uma nova expressão linguística que dá pelo nome de alentejanando (...).

(José Carlos Albino)

O cimalho excerto consta da introdução “Prefaciando” ao livro Alentejanando por mim rabiscado e dado à estampa, pela Casa do Sul Editora, no ano de 2001. Nada melhor que o texto introdutório do amigo Zé Carlos para se chegar à gestação e parição do conceito alentejanando.
Há um ano atrás, quando parti à bolina pela modernice da aventura blogueira, mais não fiz que repescar a palavra para apelidar a cibernética folha de couve – isto porque antes ninguém a tinha usado para o fim em causa.
Há um par de dias descobri da existência de um debutante blogue igualmente apelidado de alentejanando. Dei vaia ao cidadão editor que não me parecia bem ter apelidado a criança com o igual apelido de um outro artefacto mais velho no meio. Lembrei-lhe igualmente que a população de blogues cá na planície ainda está longe da demografia chinesa, daí estranhar o seu desconhecimento. Respondeu-me mais ou menos na base do quem vai vai quem está está.
Bem sei que sou Joaquim e muitos mais Joaquins há na terra, mas porra, tal como não gosto que usem a minha escova de dentes também não gosto que usem o nome do meu blogue assim aleivosamente às três pancadas. Daí, ter decidido introduzir um vazio sanitário no Alentejanando.
A ver vamos?

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julho 28, 2004

cores.jpg

Generosidade! É mais doce
Que vitória sentir no coração!
Com ela se alcança a longínqua posse
Daquilo a que não chega a nossa mão.

Assim,
O canto que me deste na seca alvorada,
Assim,
Tu, que és noite, manhã e madrugada.

Al-Mu’Tamid

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julho 27, 2004

Vermelhas e carnudas...

Je suis d’une enfance comme d’un pays...
(Antoine de Saint Exupéry - in Pilote de Guerre)

As ambicionadas férias grandes, verdadeira terra de ninguém entre a fronteira familiar e a escolar. Para além da dose de iodo na praia da Arrábida, havia ainda um regalado mês à perna solta na casa do avô Isidoro, em Nª Senhora de Machede. Um mês inteirinho, trinta dias inteirinhos, de manhã à noite completamente coberto de glória.
O senão estava nalguns apontamentos, esparsos é verdade, mas efectivamente apontamentos capazes de empalidecer a porra da coroa de glória. Direi mais, capazes de empalidecer a avozinha bonomia do ancião Isidoro. E, dessa vez, o apontamento superou todas as expectativas.
Com a cumplicidade de um amigo de ocasião, investimos a galope desenfreado pelo meloal do avô à cata de fruta madura, particularmente, das gulosas e carnudas melancias, fruta da minha eterna adoração – melancias e cerejas, decididamente, a minha fruta feminina. E, tal como víamos fazer aos adultos, vá de galar as ditas na busca da suprema madureza. Acontece que a investida pecou por demasiado temporã, e a cada peça ainda verdoenga, por mou de apagar o rasto, vá de virar o galo para baixo. Resultado, um meloal galado de cabo a rabo que, meia dúzia de dias mais tarde, deu de si completamente putrefacto.
Percebi por essa altura o respeito que era devido a um avô artilhado com um bigode republicano!

melancia3.jpg
(imagem sonegada do blogue do filho da minha professora da escola primária)

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julho 26, 2004

Dúvida pertinente

Será que à semelhança da polivalência dos secretários de estado, os submarinos também terão a valência de apagar fogos?

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Genocídio no Darfur = menos miseráveis de mão estendida

Lá não ordenham um mililitro de petróleo. Outras riquezas estratégicas, aparentemente, também não haverão para usurpar. Geograficamente não tem interesse por aí além. Assobiamos para o ar e entretanto vemo-nos livres de mais uns largos milhares de hiper excluídos, sempre é um peso a menos na nunca graciosa ajuda internacional. Discurso cínico? Não, apenas constato das orientações da real política internacional.
Com imensa tristeza constato, igualmente, do criminoso uso das populações ao belo prazer dos interesses dos caciques e ditadores regionais. Mas então se uns fabricam e vendem armas, alguém as terá de usar!

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julho 25, 2004

Canícula

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Enquanto houver uma nesga de sombra, vamos safando. Temos, no entanto, a noção que expiamos penas alheias, precisamente, porque nos sabemos pouco maldosos para com a mãe terra.
Se o divino mestre for justo, quando chegarmos lá acima, teremos a folha limpa!

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julho 24, 2004

Le Deserteur

Regiani.jpg


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A secretaria de estado da cultura cá na parvalheira, cá com ela! Assim como assim, como é da cóltura sempre é capaz de dar um jêto no tramenho dos bácoros pretos que na passam duns sulistas elitistas. Calhando ainda os enduca e enstrói que os bácoros brancos tamém têm direito à vida. E depois sempre é um ganda empurrão na economia, atão na é, aquelas tias todas prantadas a boerem cafés e a comerem queques e a irem e a virem de Lisboa por dá cá aquela palha.

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julho 23, 2004

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Emudeceu a guitarra do povo.
Não mais ouviremos os verdes anos, o canto do trabalho e as asas sobre o mundo. O homem dobrado sobre a guitarra, completamente absorto na sua arte, jamais tocará a dança dos camponeses, o canto do amor e o desenho de uma melodia. O génio que a nossa mediocridade obrigou a ganhar a vida como manga-de-alpaca, partiu nas asas da saudade.
Um dia destes, a nossa hipocrisia oportunista lembrar-se-á que ele existiu!

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julho 22, 2004

Competência

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Há três décadas que reconheço neste americano uma elevada competência profissional. Tenho-o mesmo por um dos grandes mestres do contrabaixo. Sei igualmente do seu carácter preocupado com as injustiças sociais. Soube que existia no longínquo Cascais Jazz, se não estou em erro, de 1973. Durante a actuação, dedicou uma composição aos movimentos de libertação das colónias portuguesas. A pide tentou de imediato subir ao palco e detê-lo. Hesitaram perante a determinada oposição de Luis Vilas Boas. O músico tocou furiosamente até ao final do seu desempenho. Depois, de ramona, foi directo de Cascais para o aeroporto e compelidamente embarcado.
Já depois de Abril, nem outra coisa poderia ser, tocou na Festa do Avante. Nunca mais lhe perdi o rasto!

Este trabalho, a duo com o pianista Kenny Barron, é um dos que mais prezo ouvir.
Haden.jpg

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julho 21, 2004

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(imagem oportunamente surripiada ao parente GASOLIM ULTRAMARINO)

Quantos e quantos monumentais cozidos de grão não terão sido deglutidos sob este magnífico telhado de quatro águas? Que litros e litros de aprazíveis pomadas terão dessedentado a goela dos empoeirados viajantes? Quantas e quantas vezes se elevou a voz do alto para dar azo a que a maltesaria entoasse o telúrico cante da planície.
Para além do despovoamento, também despovoámos o prazer!!!

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julho 20, 2004

Infernal demografia do bronze final

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Nem mesmo que se desse o caso de derramadas haver, por aqui e por ali, simpáticas sombras de uns chaparritos. Antes a máquina das tostas e o belzebu de serviço à manteiga!

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julho 19, 2004

Ferragem curta

Há uns tempos que a pátria (cada vez que digo isto sinto-me enfarpelado numa armadura, de cruz ao peito e de lança em riste), desliza alegremente para qualquer coisa que não me cheira a que seja uma grande coisa. Os indícios estão aí à mão ou ao pé do cidadão, são estupidamente visíveis na cada vez mais baixa qualidade do elenco artístico encarregue de pôr em cena um país com um enredo minimamente palpitante.
A irreverente Ana Gomes lançou o mote: uma maioria, um governo e um presidente. Eu arrisco mais uns cobres na cave da profanação: uma maioria, um governo, um presidente e uma oposição. Trocando por miúdos: todos se merecem mutuamente.
A maioria é uma imensa maioria temporalmente adaptada a circunstancialmente pôr o dedo no ar no unanimismo do assalto ao cofre do tio Patinhas. Esquecem-se que o tio Patinhas jamais deixará assaltar o cofre, pela simples razão que é ele que mexe os cordéis do unanimismo. Esta evidência espelha-se no artolas que é agora o secretário-geral. Certamente, Sá Carneiro estará farto de meter petições aos senhor para que o autorize vir cá abaixo vergastar os oportunistas do templo. Sobre o apêndice da maioria não me pronuncio, por uma questão sanitária.
O governo, não me admira porque nada me admira desde que, pelos meus cinco anos, no Circo Mariano, vi um urso a tripular uma lambretta. Até ao seu ocaso, publicamente, a minha boca jamais se abrirá. Tenho o inquestionável direito de assistir ao grandioso espectáculo de ilusionismo em silêncio!
O presidente está preso no labirinto que o seu feitio britânico laboriosamente construiu. Ou muito me engano, ou terminará solitário os seus dias bebendo chá e jogando paciências. Nem o fantasma dissolução o estará para aturar. Roma não paga a traidores!
A oposição maioritária desatou aos tiros a ver se, duma vez por todas, abate o pai ideológico que, de qualquer maneira, já custa a destrinçar. Os gatarrões do centrão apostam em ganhar a interminável fábula contra o rato esquerdista (almejam mesmo mudar o nome do Largo para «do gato»). Entretanto vão sonhando igualmente com a ficção do cofre do tio Patinhas.
A oposição minoritária continua a reempurrar a pedra morro acima à laia de Sísifo. Os da colheita antiga imploram aos seus deuses para que tardem o mais possível em levar-lhe os utentes que restam, caso assim não seja, o quórum das bandeiras, mais ano menos ano, será superior ao dos porta-bandeiras. Os da nova colheita, infelizmente, nasceram portadores daquela doença infantil de que falava Lenine.

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(apetece-me ficar um bocado snoopy)

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julho 18, 2004

Tudo tem o seu tempo

Hesitei, mas aqui vai! Também esta confissão teve o seu tempo.
Há uns pares de anos atrás coordenei uma visita técnica a Moçambique na área do desenvolvimento rural. Dado conhecer os cantos à casa, estabeleci antecipadamente o roteiro das visitas e contactos que interessavam ao trabalho em causa. No entanto, a nossa delegação deslocava-se também a expensas do Ministério da Agricultura de Portugal, daí que as regras da cordialidade e de algum protocolo impunham uma visita de cortesia à embaixada portuguesa. Fomos recebidos por a, b e c e também por um sujeito do sector cultural da embaixada. Lembro-me perfeitamente de ter pensado: só me faltava mais esta de ter de aturar um manga-de-alpaca da kóltura tuga a fantasiar um filme a preto e branco. Lá fomos recebidos por um sujeito jovem e a raiar a informalidade – coisa rara nestes filmes. Cortesia para aqui, simpatia para acolá, imensamente gratos pela recepção, tome lá um CD de cante alentejano para quando tiver saudades da pátria e por aqui nos passamos após uma rodada de calorosos bacalhaus que a rapaziada tem mais que fazer. Recordo-me ainda de no fim da estadia ter telefonado para a embaixada para cumprir-mos a parte das despedidas. A secretária informou que sim senhor seria recebido pelo senhor doutor da cultura. Minha santa senhora deixe estar o senhor doutor na paz do senhor, diga-lhe apenas que vamos bazar pelo que apresentamos desde já os nossos mais cordiais cumprimentos, extensivos, é evidente, ao senhor embaixador e demais funcionários. E pumba, lá nos safamos a mais uma xaropada acompanhada de uma ou várias rodadas de bacalhau a pataco.
É evidente que comentei estes factos com alguns amigos moçambicanos, conhecedores destes meandros. Este gaijo para aqui, aquela fulana para ali, mas ó Isidoro, olha que esse artista da cultura até é gaijo bom de aturar.

A vida tem destas coisas. Há bem pouco tempo, já depois de ter enveredado pela profissionalizante via de escriba blogueiro – acho até que o Querido Paulo devia reivindicar algum ao Bagão para pagar a mesada da rapaziada -, descobri que o artista da cultura não era mais que o José Flávio do Ma-Schamba. Vale dizer que para chegar a esta conclusão, socorri-me da rede informativa que mantenho nas bordas do Índico.
E pronto, o José Flávio decidiu fechar os taipais da Loja – tudo tem o seu tempo. Reclamando-me de tóxico, mas independente, tenho a noção que perdi a dose diária do naco de prosa do Ma-Schamba. A escrita do José transpira uma paixão moçambicana lucidamente desapaixonada. O meu cordão umbilical revê-se nessa lucidez.

Um dia destes varremos uns sete ou vinte e três tintos, logo se vê?
Que as musas da fonte do Tunduru não te abandonem compadre.
Tunduru.jpg

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julho 17, 2004

1 caracol, 2, 3, 4, um rebanho de caracóis

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Decididamente os alentejanos gostam de caracóis. É um óptimo petisco. Também não antipatizamos com os bichinhos vivos. È uma bicheza assim a modos que tipo autocaravana, nada virada para correrias e daí pouco atreita a doenças do foro neurológico. Por ventura uma das fortes razões para a sua carne ser macia.
Existem alguns alarves que, gostando de dar azo à sua acefalia galopante, são danados para tentar jocosas analogias entre alentejanos e caracóis. Graçolas, para atrasados mentais à sua semelhança, que contam alarvemente de dentuça arreganhada à boa moda troglodita.
Adiante. Sendo rapazes e raparigas assim tudo ao molho, hermafroditas portanto, é interessante que lhe atribuam propriedades afrodisíacas. No que se pensa ser o mais antigo livro de culinária do mundo «De Re Coquinaria», redigido pelo velho Apicius, constam quatro receitas de caracóis, entre elas a dos famosos caracóis engordados com leite. Leonardo da Vinci, tinha entre o seu enorme génio uma grossa fatia de gastrónomo e de príncipe dos tachos. Também ele prestou atenção minuciosa a esta rapaziada de baixa velocidade. Nas suas notas de cozinha, dedica uma ao modo de servir caracóis, apresentando inclusivamente duas sopas dos ditos.
Mas a sua glória gastronómica é, sem dúvida, da responsabilidade de Talleyrand quando pediu a Antonin Carême que os inclui-se na ementa de um jantar em honra do Czar da Rússia. Possivelmente o Czar desbundou uma caracolada à moda da Borgonha, iguaria pela qual os franceses salivam que nem buldogue. Vale dizer que os franceses são cultores da espécie que nós denominamos de caracoleta. Espécie que eu pessoalmente aprecio mas não é muito consumida aqui na planície. A rapaziada gosta de se lambuzar com o pequeno caracol português, espécime à nossa semelhança, barrigudo e atarracado.

Caracóis
Azeite
Vinagre
Alhos
Salsa
Orégãos
Caldo de carne
Louro
Sal e pimenta

Convêm deixar o gado sem comer uns bons pares de dias antes de os cozinhar. Depois devem ser infinitamente bem lavados em várias águas. Deixam então de molho em água com sal e vinagre durante umas horas. Durante este tempo é aconselhável mexe-los de vez em quando. Passadas as tais horas, lavam-se novamente em várias águas e muito bem. Panela com eles juntamente com água, azeite, alhos (dentes inteiros), salsa, pimenta e o louro. Salgue levemente. Após ferverem um pouco, deite o caldo de carne e os orégãos. Enquanto fervem vá retirando a espuma com uma escumadeira. Por fim corrija o sal.

Caso queira beneficiar das suas propriedades afrodisíacas, seja contido nas cervejolas ou no vinho branco.

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julho 16, 2004

acima das nuvens.jpg

O Miradouro

Temi o verão, o tempo. Aproximava-se.

Vi-o transparecer do que é parado,
de bermas e de vistas.
As pedras de Marvão estavam ligadas,
no miradouro, às pedras
de paisagem. Em tudo era a passagem
da temperatura, o verão,
que começava – eu vi – entre muralhas, as aves,
as gralhas do Alentejo transmudavam-se
tão quentes, como poderiam ser os fogos
da vila mais vorazes?
esses fogos nas lajes, a mesma combustão
das pedras, a denegrida pele dessas lareiras
em redor.

Fiama Hasse Pais Brandão

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julho 15, 2004

EURO_VIAGRA.jpg

O Cipras, rapaz que eu prezo dos tempos de andarilho, esteta de mão cheia que não perde tempo com minudências produziu-o e atestou-o, em pé de página, de Euro Viagra. Ele topa-o à légua!

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julho 14, 2004

Ainda sonhoandando pela Terra da Boa Gente

Inhambane004.jpg
(não resisti e gamei a imagem a um mestre desconhecido)

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julho 13, 2004

As mãos de Inhambane

Marcenaria.jpg

As fabulosas mãos dos marceneiros e entalhadores de Inhambane. Os prodigiosos mestres que esculpem outras segundas vidas nas nobres madeiras do Índico.
Na inexistência de uma policopiadora, decidi-me pela apropriada tecnologia do limógrafo. Máquina fundamental na metodologia do pedagogo Célestin Freinet. Imprimia folha a folha, mas imprimia a informação necessária para difundir conhecimentos. E porque não folha a folha se naquele tempo africano tínhamos todo o tempo do mundo.
Expliquei o que queria ao Fernando, mestre marceneiro dono de umas mãos de Inhambane. Mostrei-lhe o desenho das várias peças que componham a maquineta. Fora a placa de vidro e o rectângulo de seda, tudo o resto eram peças de madeira que, unidas, formariam as duas pranchetas de impressão, uma onde se entalharia o vidro, a outra na forma de janela na qual se esticaria a seda. O olhar inteligente e perspicaz do Fernando descansou-me do rigor da obra. Uns dias mais tarde, o Fernando, apareceu naquele seu jeito simpático com a máquina pronta. Fiquei siderado! O Mestre tinha optado pela construção das duas peças compactas, com os rasgos e os entalhes rigorosamente esculpidos manualmente.
Jamais assistirei a semelhante mestria no manejar do formão.

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julho 12, 2004

Sensações

Redes.jpg

Texturas, sim são texturas. Mas, antes de mais, são um amontoado de redes de pesca. Elas, a traineira, a sabedoria e os braços, são o ganha-pão do dia-a-dia dos pescadores de Peniche.
Não, nada disso, hoje não fui às docas. Só estou com um naco de azia.

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julho 11, 2004

Desenjoo da carniça...

Preceito culinário da moirama algarvia. Para deglutir frio, daí o estratégico posicionamento desta belíssima comedoria nos dias calmosos desta época de estio. Raia de alhada ou raia alhada, grafia à escolha do freguês que lhe mete o dente e dela se apaixona. Paixão e assolapada pois claro, que é disso que se trata quando um manjar me cai no goto. Calhando pensavam que só distribuía mesuras pelas obras-primas das outras artes. Era o que faltava! Os estetas das talhas e das sertãs calam fundo na comoção deste comedor que se preza. Que obra-prima maior que uma performativa amesendação com pomadas e iguarias de estalo.
Vamos então ao processamento deste aerodinâmico seláquio da família dos Raiídeos que, segundo os especialistas, não deve ser abatido entre Maio e Agosto por mou de algum sabor menos consentâneo com a sua honradez. Tarde piaram os ditos quando o achatado bicho jaz inerte na bancada da oficina. Esperemos então que a haver desgosto não seja coisa de monta?

Raia
Alguns dentes de alho
Azeite
Vinagre
Batatas
Sal grosso (de preferência flor)

A raia é bicho que necessita de tratamento paciente e cuidado, daí uma lavagem aprimorada em água corrente. Escorre-se e salga-se em abundância ficando queda por um par de horas. Coze-se a raia em água fervente durante não mais que cinco minutos. Deixa-se esfriar e desfia-se às lascas. Cozem-se as batatas com casca, quando cozidas arredam-se, arrefecem, pelam-se, cortam-se em cubos pequenos e deixam-se estacionadas. Esmagam-se os alhos com a casca e refogam-se levemente no azeite. Mistura-se este leve refogado com um farrapinho de vinagre e meia dúzia de colheres de água da cozedura da raia. Numa travessa bota-se a raia desfiada misturada com os cubos de batata, mistura esta que se rega com o molho. Corrige-se a salinidade.
Raia.jpg

Caso não tenha uma vetusta alfarrobeira, serve igualmente outra árvore de boa sombra para amesendar. Não vale a pena estar a ensinar o pai-nosso dos aquecimentos do palato com base numas entraditas carnosas e lácteas, adubadas por uns alegres sorvos numa pomada branca mais para o seco. Acolite o assunto Raiídeo de um excelente branco (já não dou para o peditório de aconselhar pomadas porque cada um sabe as linhas com que se cose). Esgueire-se reconfortado e de mansinho para uma fatia de melão casca de carvalho. Café, um??? aveludado medronho e coisa e tal para o desbaste de um puro ilhéu de azulado e serpenteante fumo – uns fazem-nos e outros fumam-nos, como dizia o Júlio Carrapato!

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julho 10, 2004

Recordação sem emoção

A 10 de Julho de 2003 partiu o Alentejanando bolinando na aventura das palavras. Abalou sem cartas de marear nem bússola mas com o tento num rumo de muito tempo. O muito tempo que media entre o admirar-se aparatosamente ao ver, no Circo Mariano, um urso a tripular uma lambretta, até ao ser necessária uma escandalosa admiração para se admirar um farrapinho no hoje. É a vida, diria o engenheiro.
Certo certo, é que já cá cantam 365 dias (= ou – 1 nunca entendo patavina dos bissextos) de navegação por este oceano de palanfrório. Lérias mais atinadas nos dias sim, menos atinadas nos dias em que acordo com o cu prá lua. Positivo ou negativo, mas igualmente palavreado responsável naquela linha (ou arame) de acrobata irresponsável e com sintomas de uma demência fora do alcance da ciência, da ciência clássica evidentemente. Bom bom, vamos lá a acabar com esta treta porque a brincar a brincar é que o macaco foi ao rabo da mãe.

A falta de emoção está pendente (leia-se também pendurada) do fato (lá estou eu a pensar naqueles gaijos do fato às riscas), do facto de há meia dúzia de ampulhetas atrás ter sido posto ao corrente que devia antes ter ido pôr a minhoca de molho a ver se enganava uns achigãs em vez de ter ajudado a eleger aquele senhor que agora também quer governar com os outros do fato às riscas. Se não fosse o caso de precisamente agora estar a empatar uns tostões numa baiuca de comes-e-bebes botava as cuecas a um lado e as peúgas no outro e ia ganhar para a papa noutra latitude sem gaijos de fato às riscas e o couro cabeludo escorrido a poder de brilhantina.
Não bastava já esta réstia de vidinha permanentemente ameaçada pelo cutelo das pantufas, senão agora ter de aturar a bazofia destes gaijos que tratam a maralha como se uma linha política fosse uma linha de caminho de ferro.

Sem um pintelho de traição ao meu PREC, mas nestas alturas não deixo de recordar o pide Melo que, enquanto me sovava o canastro e a dignidade, exclamava cinicamente pedagógico: um moço da sua idade armado em comunista, vá mas é a Badajoz comer umas gajas e comprar uns caramelos. Ora deixa cá ver, Herdade Grande, exactamente Herdade Grande. Atesta aí um púcaro dessa pomada tinta Manel!!!

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julho 09, 2004

Aforismos

Diz o povo: ao menino e ao borracho põe-lhe Deus a mão por baixo.
Digo eu: ao tio e à tia pôs-lhe o Sampaio a mão por baixo e, caso queiram uma comenda, também lha espeta nos pêtos.

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Coerentemente chutou para o lado! Tarde demais percebi deste seu fleumático feitio. Em igual coerência solicito-lhe, Senhor Presidente, que retire o meu voto ao seu último resultado eleitoral.

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Dia não

Maltese.jpg

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julho 08, 2004

Ilha de Monsaraz

Podia ser uma imagem da Escócia. Se mais brumosa até podia ser do Lochness.
Fiquemo-nos apenas pela Ilha de Monsaraz no Lago de Alqueva, algures no imaginário do criativo gráfico. Mítica fartura de água que durante décadas emprenhou o imaginário alentejano no paradisíaco contraponto à rudeza madrasta do sequeiro. Ei-lo, o majestático Lago que para todo o sempre nos esconjure a maldição da sede, ou, por punição dos deuses, nos transforme em Tântalos supliciados.

Monsaraz.jpg
(imagem retirada do cartaz do evento)

Monsaraz Museu Aberto
de 17 a 25 de Julho

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julho 07, 2004

Chuta pró lado...

Para decidir ainda tenho que ouvir:

Tino de Rãs (a pedido das bases com prótagonismo)
Machado de Assis (a pedido do Santana)
Zezé Camarinha (por solicitação da Associação de Espectadores do canal 18)
Equipa Técnica da Selecção (em substituição do Conselho de Estado)
Nossa Senhora de Caravaggio (por conselho do Scolari)
Luís Delgado (a pedido não sei de quem???)
Nuno Rogeiro (devido a questões de balística afim de preparar um possível confronto pós decisão – mas porque é que me arranjaram este trinta e um?)
Barnabé (na ausência do meu pipi e devido à importância do share blogosférico)
Rei da Suazilândia (por pressão do D. Duarte de Bragança)
Astróloga Maya (por sugestão do Professor Karamba)
Gigi (por sugestão da Federação de Tias e, quiçá, o único que pode trazer um peixe de confiança para a leitura das vísceras)
Narciso Miranda e Manuel Seabra (em audiência conjunta – esta sugestão do Pinto da Costa cheira-me a esturro?)
Paulo China (por deferência aos nossos craques da chicha)
Senhor José Barroso (um emigrante que solicitou telefonicamente uma audiência – mas eu conheço aquela voz de qualquer lado?)
Dias da Cunha (para tirar a limpo se o sistema tem alguma coisa a ver com isto)
D. Afonso Henriques (para lhe perguntar olhos nos olhos porque é que se meteu naquelas cavalarias e arranjou esta carrada de fezes)
O Grupo de Forcados do Aposento do Barrete Verde (para me aconselharem como é que pego este toiro de cernelha)
Grupo Os Pauliteiros de Miranda (para ver se escrevo o discurso em mirandês de forma a que, desta vez, ninguém perceba mesmo patavina)
Acho que a Maria José ainda tem mais uns nomes no caderno de apontamentos das faltas na cozinha.

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julho 06, 2004

Naveguemos então!

De Portalegre, sempre com toada, o meu caro amigo Almirante da Marinha, especialista em navegação inter-ilhas, fez-se, desta vez, ao oceano das palavras bolinando suavemente enfunado pelo suão.
Para comemorar aqui vai uma imagem do Príncipe Real do primeiro quartel do século que se finou aqui há uma catrefa de luas atrás.

P. Real.jpeg.jpg

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julho 05, 2004

prozac.jpg

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julho 04, 2004

Laranja + lagarta

Botero.jpg
Botero

Será que a lagarta do Botero também se vai pirar para Bruxelas???

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julho 03, 2004

Alandroal

Se aqui está este calor que fará em Beja?
Fora a calma foi um regalo ir ao Alandroal pela mão do Xico Manel e do Luís Tata, tal pai tal filho, blogueiros militantes.
Reconfortante almoçarada, diversos paleios sortidos e uma organizada conversa blogueira. Bem interessante a conversa blogueira.
Tá-se bem no Alandroal.

Um dia destes amesendamos e paleamos novamente.

Publicado por machede em 09:40 PM | Comentários (5) | TrackBack

julho 02, 2004

Sophia de Mello Breyner Andresen

sophia.jpg

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser vivo e total
À agitação do mundo irreal
E calma subirei até às fontes

(...)

Irei beber a luz e o amanhecer
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Publicado por machede em 09:14 PM | Comentários (1) | TrackBack

Soror Mariana - Beja

Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor

Sophia de Mello Breyner Andresen

Publicado por machede em 09:02 PM | Comentários (0) | TrackBack

Brando

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Ele foi um dos grandes responsáveis pelos meus frequentes depósitos nas bilheteiras do Salão Central Eborense e do Eden Esplanada.
Até um dia Marlon Brando.

Publicado por machede em 08:58 PM | Comentários (0) | TrackBack

Paralelismos...

Aquando do meu capítulo africano, opinei, certa vez, na intimidade da amizade a um responsável moçambicano das finanças:

“ Segundo a regra, o banco central deve ter reservas em barras de ouro que cubram a moeda circulante, certo! Dado o cofre central estar devoluto por ausência da regra, sugiro que o atestem de barras de sabão, produto incontornavelmente valioso para a sobrevivência do povo.
Dado não haver petróleo ou diamantes e para que haja moeda forte para a compra do dito sabão, sugiro, igualmente, fortes investimentos no apoio a uma produção organizada de música e dança, na produção e empacotamento de maços de cigarros de suruma (é só redireccionar o funcionamento da Fábrica de Tabacos Velosa para um produto com outras mais-valias no mercado internacional), na formação de potenciais craques da bola para exportação e, por último, no fomento do turismo eco, cinegético, balnear, etc... Sendo este último recurso um pivot para a atracção de visitantes com picão e para outros consumos in loco.
Todas as actividades citadas são globalmente do agrado porque enraizadas na tradição e no imenso lado lúdico dos moçambicanos”.

O meu amigo responsável riu-se, riu-se, e sugeriu que eu estava cada vez mais na mesma, ou seja, danado para a brincadeira.
Muita água passou debaixo da ponte desta noite de copos, de boa disposição e daquele calor húmido mesmo. Com alguma ironia recordo-lhe, hoje, a prova dos noves da história; a Lurdes Mutola fez mais pela imagem de Moçambique que mil périplos internacionais da comitiva presidencial.

Voltando aos paralelismos. Só não sei é que barras iríamos meter na Caixa Forte do Constâncio? Sabão não que a rapaziada está mais virada para o gel de banho.

Publicado por machede em 12:23 AM | Comentários (1) | TrackBack

julho 01, 2004

Razão & Emoção

Bandeira.Jpeg

Este acantonamento a oeste da península é, decididamente, capaz do melhor e do pior. Do zero ao infinito!!!

Publicado por machede em 02:00 PM | Comentários (0) | TrackBack