Ontem uma televisão apresentou uma sucessão de entrevistas de rua sobre a retirada estratégica do Barroso. Népias de juízos sobre o assunto. A política e os políticos que vão dar uma volta ao bilhar grande, todos, sem excepção!!! Aliás, era do caraças que os estranjas enviassem convites para presidir a qualquer coisa, desde que longe cá do estádio, ao Sampaio, Ferro, Portas, Carvalhas, Louçã, Monteiro e a todos os outros que nos queiram largar a braguilha... desamparar a loja... etc e tal.
A rapaziada está é francamente preocupada com o jogo da bola e os artistas que driblaram a neurose colectiva. As lesões do Nuno Gomes e do Jorge Andrade e a baixa de forma do Pauleta, essas sim, são fontes colectivas de preocupação. E, já agora, que não se esgotem: a boa forma da Nossa Senhora de Fátima (acrescente-se essa tal de Caravaggio); as bandeiras com e sem suporte para o vidro da lata; as bijecas, os couratos e as bifanas e os inevitáveis cornetos prós putos.
Em síntese, a táctica nacional é mais ou menos esta: pontapé para o meio campo e depois esbandalhar (ou seja: depois logo se vê).

“Os vinhos são como os homens: com o tempo, os maus azedam e os bons apuram.”
Cícero
“Onde o vinho falta não há lugar para o amor.”
Eurípides
“O doce beber que nunca me teria saciado.”
Dante
“É preciso estar sempre embriagado. Para não sentirem o fardo incrível do tempo, que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia, ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.”
Baudelaire
“O vinho que se bebe com medida jamais foi causa de dano algum.”
Miguel Cervantes
“Conheço apenas duas coisas que melhoram ao envelhecer: o vinho e um amante.”
De Vega
“Agora que a velhice começa preciso aprender com o vinho a melhorar envelhecendo, e sobretudo, escapar do perigo terrível de ao envelhecer virar vinagre.”
Dom Helder Câmara
“A vida é curta demais para beber maus vinhos.”
Duijker
“Se ao envelhecer em vinagre me tornar, pelo menos que seja um bom vinagre.”
Isidoro de Machede

Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e tudo a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma a expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta à origem
Dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clítoris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.
Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como activa abstracção que se faz carne,
a ideia de gozar está gozando.
E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro,
no húmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
(do livro “Amor Natural” de Carlos Drummond de Andrade)

Cegonha, ou:
balança
bimbarra
burra
burra-cega
cambão
picanço
picota
saragonha
varola
zabumba
zangarela
A cegonha é um aparelho de elevar água que, até muito recentemente, era usada de norte a sul do país. Hoje, restam algumas, essencialmente em poços, com pouco ou nenhum uso, que ainda resistem ao popular moto-bomba.
Utilizadas por diferentes povos desde tempos muito recuados, foi usual não só em Portugal mas também na Espanha, na França, na Grécia, no Egipto, e daí até ao Japão, sem quebra de continuidade.
De uma vara comprida que balanceia sobre uma forquilha está pendurado, de um lado, o balde que se mergulha na água. Do outro, um contrapeso vulgarmente de pedra faz subir o balde cheio de água.
A forquilha é geralmente de madeira. Mas na Beira Alta, onde intensamente se praticava a rega à picota, usam-se, a par da forquilha de madeira, um ou dois esteios de granito, mais baixos e mais largos que os da vinha, onde gira a vara que forma o balancé.
A invenção da roldana, que parece ser muito anterior a 1.500 a.C., simplificou grandemente a tarefa de tirar água de poços. Contudo, só se conseguia um trabalho lento e intermitente.
Um melhoramento, usado desde tempos muito antigos, é a cegonha ou picota. Engenhos deste tipo são já representados em antigas pinturas egípcias desde 1.500 a.C., podendo levantar água a mais de metro e meio. Em Babilónia, na Mesopotâmia, o seu uso é mais antigo, sendo já testado no terceiro milénio a.C.

Quase, quase me arrebatava com a turba ululante e hasteava a bandeira na fresta do covil.
Retrocedi no tempo e vi o jogo de calções e franja à garçonne no preto e branco do mundial de 66. Daí que baralhasse o bater na chicha do cavalheiro Rui Costa com do cavalheiro Eusébio da Silva Ferreira. Só não confundi a prima dona Luis Figo com a humildade do velho capitão Mário Coluna. Até o místico cavalheiro Scolari quase se metamorfoseou na fineza (qual aparado bigodinho) do cavalheiro Otto Glória. Em similitude com 66, a orquestra tocou habilidosamente a sinfonia “A arte de bem tratar a chicha”.
Felizmente, contrariando o destino de 66, devolvemo-los, aos sardónicos, de monco em baixo à ilha do nariz empinado – sempre fui solidário com os estóicos escoceses. Mais que a vitória sobre a Espanha – na companhia de quem habito fraternalmente esta jangada de pedra -, a vitória sobre a velha e enrugada Albion do meu eterno descontentamento, exultou-me o espírito que da tripa se encarregou um tinto Montes Claros Reserva de 91.
QUINA
- TRÊS ELEGIAS BREVES
1.
Na do tempo, breve
foi o trajecto. Nele coube,
porém – pão e vinho -, a intensa
alegria que, em redor,
generosamente partilhavas. Na tua,
principia a nossa morte.
2.
Tinhamo-lo, quiçá, pressentido.
Nunca de forma tão súbita e brutal.
Julguei voltar à alegria do teu convívio.
Engano. Regresso ao teu lugar,
irremediavelmente vazio, ao eco
desvanecido dos teus passos, onde os nossos
se perdem também, ao silêncio
que nos legaste. Este, o lugar de encontro.
3.
Nos caminhos da sua inescrutável
sabedoria, dá Deus com uma mão
o que, com a outra, retira. Da direita
colhemos infinita amizade, só para
que a esquerda, encurtando-nos
a vida, exígua demais a tornasse
para que, numa ou noutra, ambas
coubessem. Perca-se, então, a vida.
Só a nossa morte, da tua nos libertará.
(do livro “O monhé das cobras” de Rui Knopfli)
Jogos rituais ritos aldeãos. Decifrar a vida. Estimular a fertilidade. Assegurar a coesão comunitária. Tornar suportável a morte. O combate pelo poder. Demarcação de espaços masculinos femininos. Demarcação de espaços sociais. O trabalho. Acordeão baile namoro. Casamento enterro. O “Cântico à ordem das Oliveira”. “Sanctu Christii”. “Corpus Christi”.
O cante manchego extremenho alentejano andaluz algarvio ibérico mediterrânico profano e religioso uno e diverso de onde vem?
Construção do barco os artesanais botes pateiras chatas as “modernas” lanchas os remos “la percha manchega” a longa vara de choupo o impulso construção das artes de pesca o tecer das redes artes fixas artes móveis “la rijaca” o mítico tridente “o tenedor” de cinco pontas dos antigos pescadores de Las Tablas a “fisga” ou arpão de dentes de ferro a “meia lua” dos velhos pescadores do Baixo-Gaudiana a pesca ao muge e à lampreia noites de verão as águas do rio o barco o arpão o “pangaio” à proa onde se anicha o “candeio” olhos nocturnos do pescador.
Abegão da minha Aldeia “charrete” trimbolim carro de parelha arado de madeira trilho ancinho forcado. O cheiro reconfortante das aparas de madeira no chão da oficina a magia das ferramentas nas tuas mãos calosas.
Roda de oleiro mãos de oleiro. O barro a argila vermelha. O utensílio feito arte a arte feita utensílio. Cerâmicas pintadas ibéricas cerâmicas envernizadas avermelhadas romanas o vidrado e o não vidrado a policromia o verde e o manganês a cor do mel a pintura a branco o Oriente. A tijela as malgas talhas e ânforas cântaros e barris a telha e o tijolo.
Colher as cores da terra do céu das águas argamassa da vida colorido da vida os dias da Criação.
A navalha. Pastores arte-pastoril. O tarro de cortiça as cornas de chifre as dedeiras e os canudos de cana as tripeças de madeira,
trabalhar a infinita solidão do tempo o teu reino de papoilas e ilusões de fantasias adiadas.
Os trastes a cor da madeira a madeira. Azinho e choupo e loendro ou aloendro,
a alegria possível transgressora o dia do casamento.
A cestaria. O cesto. Cabanejos alcofas canastras tabuleiros. A escolha do material o entrançado a funcionalidade. Harmonia. Podemos evitar a vulgaridade.
Ferreiros da nossa infância. Os grandes e mágicos aros de ferro rodas. O fogo. Ferreiros cutileiros chocalheiros. A foice o machado a enxada as facas as navalhas. Estanho e cobre ferro-fundido ferro-forjado. A espada. Vencer o medo a insegurança a desordem.
Petra. Pedra. Calçada fontanário chafariz lembras-te. Mós moinhos-de-marés moinhos-de-vento. O tempo o que é o tempo. As muralhas os templos as prisões os sarcófagos. Maços e cinzéis ponteiros. O destino. Podemos esculpir o destino?
A lã e o linho. Cultivar cardar lavar branquear tecer. O teu corpo. Branco beje castanho-claro castanho-escuro. Tecelões e tecedeiras tosadores cardadores e fiandeiras pisoneiros e tintoreiros.
Bordados bordadeiras. Artesãs de alinhavados. Tapeceiras. Tela de linho e ponto-cruzado medalhão-central Pérsia. Bichos símbolos. Lendas. Mais reais que a realidade. Um dia saberás porquê Se lá chegarmos.
Peleiro da nossa Aldeia. Cidade deserto. Pelame. Esfolar salgar enrodinhar lavar-com-sabão curtir enxugar raspar-com-faca raspar-com-pedra-pomes enxugar ao sol.
Tingir as cores da terra e do céu as cores,
as botas e os botins das ceifeiras os casacos os pelicos e os safões o correame os alforges as tendas,
a Saragoça e a sarja das tuas calças coletes e jaquetas a chita e o riscado das tuas saias e blusas xailes e lenços de enfeitar e proteger,
frio o ardor do sol porque choras Hânelá?
(do livro “Adeus, Azules” de António Murteira)


Está nas bancas o número dois da Revista Alentejo. Da rubrica “Azeite Pão Vinho”, dou vaia do conteúdo.
O nosso Pão
“A gente precisa de voltar a cozer o nosso pão! (...) Lembras-te como era? (...) O fumo a sair, o cheiro do pão a ir ter com a gente, lá longe (...)”
(da obra Seara de Vento de Manuel da Fonseca)
O pão, o azeite e o vinho – trempe basilar da história alimentar mediterrânica – são o alicerce que dos fundos do tempo escorou esta nossa identidade cultural. Uma singela identidade forjada na manêra de ser de um nunca mais acabar de Homens deste sul.
Conta a história que o trigo - gramínea inequívoca do trigueiro pão alentejano - por aqui chegou, mais coisa menos coisa, vai para meia centena de séculos vindo das terras do Crescente fértil. Aqui chegou e depressa se alcandorou a importante decisor de vidas, de usos e de costumes.
E do trigo nasceu a ideia do pão. Nascença que, segundo os estudiosos do fogo, poderá ter ocorrido no acaso da fermentação de um rudimentar caldo de cereais. Desse pão de antanho até este que agora nos sacia, distam uma abastança de léguas de canseiras e, valha a verdade, também de consolos. Uma abundância de outonos, invernos, primaveras e verões, de lavouras, de semeaduras e de ceifas, de anos de fartura e de anos de fome – paradoxalmente e sobretudo, para os obreiros desse pão mitigador de fomes. E um ror de gentes, uma mão cheia de séculos atulhados de heróis desconhecidos que, charruaram, semearam, mondaram, ceifaram e debulharam, que moeram, amassaram e cozeram.
E agora Maria, José, Antónia, Manuel, Inácia... Para onde caminha o nosso pão? Agora que o vinho é a locomotiva do nosso orgulho. Agora que o azeite tacteia igualmente o trilho da redenção. Neste tempo que sobre Ele se abate uma feroz concorrência de coisas a que me recuso a chamar o que quer que seja. Neste tempo em que a traição chegou ao desplante de apregoar uma funesta massa sem côdea para urbanitas engolidores de quinquilharia alimentar. O certo é que a perfídia não está apenas no pervertido engolidor urbanus insapiens, está igualmente na moagem e no padeiro! No padeiro que, mesmo nas nossas barbas, à custa de manhosos fermentos e outras que tais farinhas, teima em cortar o pescoço à galinha dos ovos de ouro.
E agora? Desonramos a memória das gentes e espatifamos a herança?! Quer-me parecer que não. Quer-me parecer que não estamos para aí virados. Queremo-lo antes e sempre com todo o seu esplendor para companhia da azeitona, do queijo e do paio. Queremo-lo antes como sempre o conhecemos, no ensopado, na sopa de tomate, na açorda e nas migas.
Migas com carne do alguidar
Lombo, entrecosto e toucinho (de porco alentejano)
Banha (igualmente do bicho acima referido)
Dentes de alho
Vinho branco
Massa de pimentão
Pão (de preferência com alguns dias)
Sal
Corta-se o lombo aos cubos grandes, o toucinho em falcas e o entrecosto aos bocados. Faz-se um piso de alho a que se adiciona a massa de pimentão, o sal grosso e a golada de vinho branco. Envolve-se muito bem a carne com esta massa e deixa-se a tomar gosto pelo menos durante um dia. Processo este semelhante ao temperar e maturar da carne para os enchidos, daí o nome de carne do alguidar.
Numa frigideira, na qual previamente se deitou uma colher de banha, fritam-se as carnes juntamente o restos da massa em lume brando. Depois de fatiar o pão, acama-se em recipiente à parte, vertendo-lhe por cima água quente de forma a ensopá-lo. Abafa-se um pouco.
Num tacho, de preferência de barro, deita-se o pingo coado da fritura da carne e o pão húmido. No lume igualmente brando, com uma colher de pau, vão-se batendo e enrolando as migas. Estas vão paulatinamente secando até ficarem em bola.
Serve-se numa travessa com as migas ao centro e a carne frita disposta em redor. Pode-se acompanhar e enfeitar com azeitonas, rabanetes ou rodelas de rábano.
As migas jamais serão um pitéu em vias de extinção. As gentes destas terras do sul não o vão consentir! Tal como não vão autorizar que termine o sonho de uma real partilha do Pão!
Da Declaração de Terena, documento final do Congresso Português de Cultura Mediterrânica, realizado no Monte das Galegas, sede da Confraria do Pão, em Março de 2002, consta o propósito: «A certificação do “Pão Alentejano” é necessidade sentida por várias razões, entre elas: resguardar qualidade e genuinidade de um alimento ímpar; intensificar o seu consumo por seu valor nútrio-alimentar, gastronómico, sentimental e cultural; preservar a cozinha alentejana, infactível com outros tipos de pão; desenvolver as culturas do trigo próprio, levando à multiplicação do número de pequenos e médios empresários, à fixação das pessoas e à criação local de riqueza.»
O Alentejo tem hoje um número apreciável de produtos alimentares certificados e protegidos. Queijos, enchidos, presunto, carnes frescas, vinhos, azeites, mel e frutas, estão, desta forma, defensados e promovidos a produtos de excelência. Paradoxalmente, o pão alentejano – alimento matricial da nossa cultura - foi sendo esquecido. Descuido que perdura neste ano de 2004.
É urgente uma conjugação de vontades na defesa do nosso pão. De montante a jusante. Da indispensável vontade governamental de o proteger – mesmo que ao arrepio das políticas produtivistas da união europeia -, consagrando e incentivando a produção, nos solos com verdadeira aptidão cerealífera, das variedades de trigo tradicionalmente usadas no seu fabrico. Da necessidade de fomentar a existência de unidades moageiras, com a dimensão adequada, que forneçam farinhas apropriadas aos produtores de pão. Da urgência de um trabalho rigoroso de tipificação, certificação e protecção de um produto que consequentemente mereça a denominação de “Pão Alentejano”. Da fundamental sensibilização do tecido fabricante na defesa da genuinidade de um produto que é também o seu ganha-pão. Até à serena mas atenta defesa da sua qualidade por aqueles que dele não prescindem e com um prazer infinito o consomem.
Joaquim Pulga
Confrade – Confraria Gastronómica do Alentejo
O Scolari disse, aos jornalistas espanhóis, não haver lugar para conversa mas apenas para a guerra. Disse mais: sou português.
1. Não custava nada ao Barroso informar a rapaziada que o Brasil é novamente terra pátria.
2. Quem vai fazer o papel de Nuno Álvares Pereira; o Scolari ou o Portas.
3. Quem vai fazer o papel de padeira; a Odete ou a Catalina.
4. Se a malta agora já não namora, só anda... Como é que vão mobilizar uma Ala dos Namorados. A não ser que estejam a pensar ir buscar catraios aquele sítio... Nesse caso; atenção ao Moura e ao Teixeira.
5. Se porventura eu assistir à guerra, pela televisão é evidente, na companhia da duquesa de Mântua e do Miguel de Vasconcelos, sou ou não considerado traidor?
6. No caso de perdermos a guerra, para onde pensam exilar o Madaíl?
No domingo, caso tencionem tratar colectivamente a chicha tal e qual o despropósito da usança contra os Cossacos, é melhor que rezem para que o patriotismo bandeirante se transforme num daqueles gaijos que dobram garfos com a força da mente!!!!!

Guardadores da Seara
Se a lua se põe
e a aragem na noite
adormece e pára,
fica lá o canto
pausado dos grilos
guardando a seara.
Sebastião Penedo
Para um número substancial caçadores, não há muitos anos, digamos trinta quarenta, a prática da caça era uma conjugação de prazer e aconchego no orçamento familiar. Na casa dos meus avós paternos a existência de peças de caça na salgadeira, lebres e coelhos, a par do porquinho da matança, significava a abastança de carne para o dia a dia.
Caçar para comer, era o convénio com natureza estabelecido pelo avô Mário, pelo tio António e por tantos outros, da boca de quem, ainda de calções, ouvi extasiado contar as façanhas cinegéticas. Na condição de mochileiro, de bornal a tiracolo, com um imenso prazer estampado nos olhos escancarados, lá ia, ziguezagueando nos calcanhares do tio António convicto da importância do meu papel no sucesso da jornada. Igual prazer sentia, com a anuente confiança e cumplicidade dos adultos ao participar na preparação da logística para a próxima caçada. Tenho por certo do indisfarçável orgulho que o tio António nutria pelo meu interesse na caça. Aos seus olhos representava a garantida sucessão do nobre vício na família.
Ainda hoje recordo o cheiro peculiar que se desprendia da pólvora nos serões gastos a atacar cartuchos. De olhos vendados seria capaz de retroceder na pista da vida atrás desse inesquecível cheiro. Eram noites povoadas de um universo magnífico de produtos misteriosos, pólvora, escorvas, cartuchos, buchas, e o inevitável chumbo de vários calibres, tudo isto embalado em caixas de cartão de diferentes tamanhos e cores. Depois, era uma panóplia de máquinas e outros artefactos. Agradava-me sobremaneira a balança de precisão e a maquineta de calandrar a borda dos cartuchos.
Com a atenção e a finura de um ourives, seguia aquele ritual mágico de gestos precisos e cautelosos, onde nem sequer a conversa tinha lugar, tal era a concentração. Na adiafa do serão, enquanto o tio António oleava a espingarda eu limpava e arrumava as maquinetas esperando pela recompensa de ataviado com a cartucheira, a carregar de munições. Era um final em glória no sonho de me transmudar num temível caçarreta com um enorme molho de troféus à cinta.
Na véspera mal pregava olho, tal era a excitação, só comparável à dos cães. De madrugada, ainda pelo lusco-fusco, lá começava a caçada no meio de indescritível odor a terra e erva húmida e uma serenidade apenas rasgada pelos passos decididos e, aqui e ali, pelo latir dos cães, entusiasmo canino que era repreendido a meia voz.
Repentinamente o cão parava, hirto, e a uma ordem subtil de saída, um voo rápido em arco, um, dois tiros, e o arco quebrava-se num baque surdo. Uma corrida ao sítio do baque, o faro a trabalhar e o regresso triunfante com a peça abocanhada suavemente. Um breve afago e uma palavra carinhosa pelo rigoroso cumprimento da tarefa e uma alegria incontida feita de latidos e abanos de cauda.
A altura do sol e o relógio da barriga determinavam a folga para a merenda. Do bornal aberto saíam as vitualhas sólidas de comer à mão. Umas goladas do cantil, quando não da fonte ali entre as silvas, e enregávamos para a tardada, fase que já não me entusiasmava tanto. Decididamente, o deslumbramento estava nas manhãs!
Afinal, acabei apenas caçador no prato. Possivelmente para grande desgosto do avô Mário que certamente continuou a alimentar o vício, lá, no campo das caçadas eternas. Hoje, se ainda por cá estivesse, daria com certeza razão ao neto. O acto de caçar tal como ele o entendia, não existe mais! É apenas mais um grandioso nicho de mercado, com um exército de consumo em perfeita desordem que atira a tudo o que mexe. O avô Mário, envergonhado, arrumaria de vez o ferro.

Caça, a matéria-prima da conversa culinária de hoje, são rolas senhor, elegante ave migratória, abundante (salvo seja) em Portugal, de Abril a Setembro, desandando depois para as Áfricas. Rolas que tradicionalmente são o motivo de abertura da época venatória.
Rolas com arroz
6 rolas
4 chávenas de arroz
½ linguiça
azeite
alho
1 folha de louro
1 ramo de salsa
sal
Depene as rolas com rigor e chamusque-as. Abra-as e corte-as em pedaços não muito pequenos. Num tacho de barro, no qual previamente verteu o azeite, refogue levemente os pedaços juntamente com o alho picado, a salsa, o louro e a linguiça cortada às rodelas. Deite neste preparado a água suficiente para o cozimento da carne e do arroz, que deve ficar bem molhado. Corrija o sal. Sirva em travessa com uns rabanetes a enfeitar.
Ataviada a mesa com um pano branco e guardanapos da mesma igualha, loiça, copos e as restantes alfaias, complete o espaço cénico com a azeitoneira, o pão de trigo, a travessa com o arroz de rolas e um tinto leve como o seu voar. Honremos o momento!
Uns pastéis de toucinho de Arraiolos, docemente empurrados por um digníssimo Moscatel de Favaios, é aconchego mais que suficiente para o sobre.
Cafézinho do comendador de Campo Maior e uma respeitável aguardente a fazer a boca para um puro dos Açores.
Que o Abade de Priscos nos zele pela digestão.

O “Foça Potugal”, chico-espetice do Baoso e do Potas, afundou-se no oceano do descontentamento da topa fandanga.
O outo “Foça Potugal”, está à beia de passa de Gego a usso Banco.

Algures na década de oitenta, do pretérito século, no estádio da Machava. Num jogo Moçambique – Líbia para um qualquer campeonato de países.
Com as lusas cores pintadas na cara, estendeu os braços e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
- És tu Luís Figo, meu amor?
Não era. Era o Karagounis.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e serem felizes.
É o que faz a miopia.
(a pensar na mordacidade do Mário Henrique Leiria)
Parabéns, «noss’povo», você tem civismo!
É o reaccionário quem lho confessa; é o progressista quem
lho assevera
Todos limpam os pés no capacho, antes
de transporem seus umbrais, «noss’povo», para o
cumprimentarem, mas...
... que manifestam eles, a surpresa ou a lisonja?
Se a surpresa, noss’povo», então não o conhecem;
Se a lisonja, ainda menos, pois então, o conhecem.
Que esperava esse naipe de visitadores?
Que você se deixasse alhear, ficasse a olhar para as setas
(as que sobem e as que centram), para a foice e o martelo
(os verdadeiros e os falsos), para o punho fechado,
para a roda dentada mais a enxada, etc.,
como quem vê que boneco lhe vai sair nos rebuçados,
nas pastilhas?
«Noss’povo», quando você se engana, quando você acerta,
gosta de o fazer por conta própria,
não tolera que olhem por cima do seu ombro e lhe guiem
a mão!
«Noss’povo» - dizem – acorreu massivamente às urnas,
como os povos em eleições mais traquejados.
Mas que santantonice vem a ser esta?
Por uma vez, «noss’povo», não deixe que lhe falem assim
Os que julgam que encabeçam o seu destino!
Dê cá a mão que votou.
Alexandre O’Neill

Cego e negro, quem mais americano?
Com drogas, mulheres e pederastas,
a esposa e os filhos, rouco e gutural,
canta em grasnidos suaves pelo mundo
a doce escravidão do dólar e da vida.
Na voz, há sangue de presidentes assassinados,
as bofetadas e o chicote, os desembarques
de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança
para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,
e o plasma sanguíneo com etiquetas de blak e white
por causa das confusões.
E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,
de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,
e a mística do povo eleito por Jeová e por Calvino
para instituir o Fundo Monetário dos brancos e dos louros,
a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?
Os corais melosos e castrados titirilam contracantos
ao canto que ele canta em sábias agonias
aprendidas pelos avós ao peso do algodão.
É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,
nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,
nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,
nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,
e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.
E é negro por fora como isso por dentro.
Cego e negro, uivando ricamente
(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)
sob a chuva de dólares e drogas
as dores da vida ao som da bateria,
quem mais americano?
Jorge de Sena – 1964
Gosto de futebol tal e qual como gosto de usufruir dos outros prazeres. Mas tal como nos outros prazeres, detesto o que no futebol vai para além do tino. Daí que não alinhe na presente histeria patrioteira por mou do jogo da bola. Estou decididamente à margem desse eufórico rebanho.
Este vasto rectângulo arrelvado – lembro-me sempre do ex-presidente da câmara de Lagoa que, certa vez, ao atravessar-mos o Alentejo, baboseou que aqui a parvónia devia servir para produzir comida e o seu Algarve devia ser todo arrelvado e acimentado para produzir turismo -, com uma baliza algures em Faro e outra algures em Montalegre, tiritava de ansiedade, de área a área, quase na borda de um ataque de nervos, ante o silêncio majestático do príncipe da chicha do norte.
O homem, magnânimo, dignou-se a abrir a boca: Estou com a selecção de Portugal.
Por todo o arrelvamento elevou-se um clamor de descompressão. O povo deste imenso estádio, a oeste na península, está finalmente sereno e confiante. Pura e simplesmente, as farmácias, deixaram de vender ansiolíticos.
- Com estes dois que a terra há-de comer, eu vi!
O Silva dos Plásticos já tinha avisado que a coisa deveria ser completamente absolutamente espiolhada ao milímetro. E quando o Silva dos Plásticos coloquiava, o assunto era sério, seriíssimo. Até a Genoveva do lugar de hortaliças para quem um tostão era um tostão feirava um dia rasinho de dar fé a tudo quanto luzia no rossio. O Chicha Marrana jurava a pés juntos que eram favas contadas, nem que fosse à custa de literalmente escaqueirar o mealheiro da mana, mas belamente haveria de se lambuzar de pasmo. A taberna do Hipólito pitróleiro batia a semanada com a porta nos gatos, coisa que incomodava a freguesia de dias inteiros a escorropichar copos de cinco e a puxar lustro aos bancos corridos. Mas o Hipólito não vergava, e era vê-lo na barraca de comes-e-bebes que apresenta-se a gaja com as mamas maiores a dar despacho a um batalhão de sagres pelo gargalo, intervalando garfadas de sardinha assada deglutidas à velocidade de um cometa. O Pé de Ginja desarvorava do bairro mal nascia o sol e levava o santo dia mancando entre o Poço da Morte e o carrossel Alverca. Na missa domingueira o sacristão de ocasião corria pelo corredor lateral até à linha de fundo, centrava, e, repentinamente, num arreganho de ponta-de-lança, o prior mandava o sermão para o fundo das redes do fiel rebanho que conivente com o rápido despacho desandava alegremente para o zaronzel da feira. Era verdadeiramente um fartote de animação.
- Hoje, pelas nove horas da noite, o Circo Mariano apresenta um magistral espectáculo com entrada grátis às damas.
A partir daqui tudo era possível. Com os beiços besuntados de algodão doce e os olhinhos mais arregalados que um mocho, dei fé da tenda onde cabia um mundo de fantasia, um mundo que esticava para lá da rábula do palhaço pobre e do palhaço rico. Da trapezista rechonchuda e do contorcionista com costelas que mais pareciam teclas de piano. Do leão desdentado e do macaco macaco. Um mundo tão magistral em que até o urso sabia andar de mota.

(à laia de homenagem à minha Feira de S. João que contribuiu imenso para alargar os horizontes da minha meninice)
Pátria pequena, deixa-me dormir,
Um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coração
Bater ao mesmo tempo e descançar...
Miguel Torga

Ao obrigatório banho nas gélidas águas da Arrábida, contrapunha com subtileza o bluff infantil: estou cheio de febre. Tentava assim subverter o motivo principal das férias familiares - ir a banhos. À parte desta tortura diária, toda a restante vidinha era um fartote de novidades. O excepcional gozo de repentinamente passar a ser residente numa aldeia de tendas com vista para o mar, ali, em pleno areal da Arrábida, tornava-me num Onassis de calções. Completamente regalado, percebi que afinal o mundo ia muito para além das muralhas de Évora. Que afinal o mundo também tinha humanos com outros costumes, entre os quais, a usança despreocupada de diminutos fatos de banho que, positivamente, deixavam em transe o cabo de mar, dedicado zelota da pudica moral salazarista (a última parte percebi mais tarde). Vim depois a perceber que as despreocupadas banhistas vinham de uma terra na qual a sacristia não fazia lei e que os ditos fatos eram, nem mais nem menos que os famigerados biquinis. Assim, candidamente, mas com os olhos mais abertos que um mocho, assistia aos primórdios do turismo balnear.
Continuando na arqueologia balnear. Na década de cinquenta, o acesso a férias e na praia, era desfrute para uma restrita meia dúzia, mas o meu bom pai em atenção aos benefícios do iodo para a saúde das crias, lá ia de chapéu e petição (em folha de papel, azul, de 25 linhas) na mão, pedir a autorização para acampar a S.Ex.ª o Duque de Palmela, dono proclamado da Arrábida aquém e além mar - ditames do tempo em que era perfeitamente normal que o latifúndio também fosse marítimo.
Depois, já moço opinioso e de buço, mochilei as férias à boleia pela costa alentejana. Não era grande a viajem e as gentes continuavam a ser campaniças, só que da borda-d’água. O mar, esse, continuava a arrepiar os ossos e os tomates minguavam que nem dois berlindes.
Mais tarde percebi que, ao sul, havia umas águas tépidas que eram um enlevo. E assim descobri a terra dos homens mais tisnados que os meus. Terra que, por troca de oliveiras e azinheiras, tinha amendoeiras e figueiras, em que as casas igualmente brancas e de taipa, tinham açoteias em vez de telhados, e as chaminés eram redondas em vez de rectangulares. Era um sul mais sul e ameno que o meu, mas onde o pão continuava a ser de trigo. Afinal, não estava assim tão longe de casa como tudo isso!
Hoje, passado por um ror de anos e mau grado o rumo que, durante esse tempo, os homens, insensatamente, permitiram para as terras do Gharb, continuo-lhe estranhamente fiel. E volto, volto sempre que posso, tal como neste Agosto de 00, mais que não seja para pescar e desfrutar do doce remanso das refeições, ali, no pátio, ao lado da casa e da cisterna, debaixo da velha alfarrobeira. Ir à praia, só pela certa de não me inquietar com o frenesim da turba a torrar. Resta, trocar-lhes as voltas e cumprir o papel da formiga no carreiro que andava em sentido contrário.
Insistindo no regalo da mesa debaixo da alfarrobeira. A amesendação e a respectiva nomenclatura culinária, estão apenas à distância do sinónimo: o gaspacho, passa a arjamolho; as açordas, são a algarvia ou a de petinga; as sopas, são de bicheza campestre ou marítima e roçam a raia da infinidade; o ensopado, é o de galo; as migas, são de conquilhas; os cozidos, são de grão, de milhos ou de repolho; a perdiz, é à serra de Monchique. Depois, há ainda um corrupio de novidades com ingredientes filhos doutras necessidades, que passam pela batata doce, pela farinha de milho, e pelos mariscos e peixes do mar que é pródigo.
A presente escrevinhação, permite-me eleger duas comedorias de que gosto particularmente.

Canja de conquilhas
1 kg de conquilhas
4 punhados bem cheios de arroz
0,5 dl de azeite
2 cebolas
2 ovos
sumo de limão
1 molho médio de salsa
sal
Deixe durante 4 ou 5 horas as conquilhas de molho em água e sal. Coza-as em lume forte, retire os bichos das cascas e coe a água da abertura. Noutro recipiente deite o azeite, a salsa e a cebola picadas e refogue até alourar a última. Junte a água das conquilhas ao refogado e deixe ferver um pouco. Junte o arroz. À parte, misture as duas gemas de ovo com o sumo de limão. Imediatamente antes de arredar a canja, junte o creme de ovo e limão, mexendo sempre. Deixe ferver mais um pouco, corrija o sal e sirva quente.
Tradicionalmente usam os bichos das conquinhas para outros afazeres culinários, que pode ser a confecção de pastéis. Eu junto-os à canja aquando do creme de limão e ovo.
Ensopado de Galo
1 galo
¼ de toucinho de porco preto
0,5 dl de azeite
1 kg de batatas
2 cebolas
3 dentes de alho
cravinho
1 pitada de colorau
vinho tinto q.b.
1 folha de louro
1 ramo de salsa
meia dúzia de grãos de pimenta
sal
pão para sopas
Arranje o galo e parta-o em bocados, guardando igualmente os miúdos. Num tacho de barro, deite o azeite e frite ligeiramente o toucinho que entretanto cortou em tiras finas. Junte o resto dos ingredientes, picando a cebola e o alho e misture-os bem com uma colher de pau. Adicione o vinho e deixe ferver ligeiramente. Deite os bocados de galo com os miúdos. Deixe cozer lentamente em lume brando e acrescente água, sempre que necessário (ou só vinho). No momento oportuno da cozedura (tenha em atenção o tempo de cozedura da carne de galo), deite as batatas partidas em cubos. Rectifique os temperos.
Sirva, vertendo o caldo para uma terrina onde previamente aconchegou o pão fatiado. Em travessa à parte, sirva a carne e as batatas.
E pronto, o assunto está nos conformes. Basta cuidar da amesendação e respectivos assentos, tendo o cuidado para que a nobre tarefa da mastigação se processe em ambiente a condizer, ou seja, no pátio de uma casa algarvia (das próprias) e debaixo de uma vestuta alfarrobeira.
Para os primórdios do acto, não ficam mal uns carapaus alimados entremeados por uns goles de branco maduro e que pode perfeitamente entrar pela canja adentro. Com o ensopado, mude de tércio, e sirva um tinto leve e macio. Após um competente intervalo, ataque uns dons-rodrigos ou uns figos frescos.
O cafézinho deverá necessariamente ter como escolta um medronho daqueles aveludados que ainda se fazem nos contrafortes da serra, com verdadeira sapiência.
Goze as férias a sul do sul com natural sustento.
Aquele opinioso moço concessionário para Portugal das injecções de democracia made in América. Moço que, sempre que abro o jornal e encaro com os seus editoriais iraquianos, lembra-me de imediato a do sapo presunçoso.
Ao atravessar a estrada o sapo descuidou-se e zás, foi cilindrado por um camion TIR. O boi que pastava tranquilamente na berma, aproximou-se, e afligido disse-lhe:
- É pá sapo estás completamente feito num oito, tens a tripalhada toda à mostra!
O sapo aviando uma cara de soberba, retorquiu a custo:
- Tripas? A corrente do relógio queres tu dizer!
Pois parece que o dito opinioso foi ao sótão do antigamente, remexeu no baú do espólio da censura, voltou à redacção com os bolsos atafulhados de cotos de lápis, e vá de lhe dar uso.
Pondero seriamente a possibilidade de deixar de pagar diariamente a quota ao Belmiro!!!

A tranquilidade
de quem sabe que infinito só o é a planície,
eles, finitos se sabem,
e encaram-no sem temores,
porque observaram rigorosamente os ciclos da vida.
Nunca inveja tiveram da sabedoria dos outros,
porque que cultos se sabem do que lhes é necessário.
Isidoro de Machede
De um reputado astrónomo das margens do Índico recebi, hoje, bué de encriptada, a seguinte mensagem: “por favor incita o interesse pelo OVNI que paira sobre as tuas planícies - literalmente, pelo menos às 20:00 UT estava longe de ser identificado. Fala-me também dos calhaus que não podem ser OVNIS porque sonoros, e dos bólides que não são talvez porque os texteis já não os possam comprar. Não te esqueças das sombras do Iridium, e do remake da cena possivelmente ainda hoje.
ps - num outro mail segue uma visualização ficcional do OVNI”
Pois, deixaram esquecido o cartão magnético codificado da ignição do zingarelho em cima do balcão do Manel dos Potes e bumba, os putos foram dar uma volta pela galáxia. Tinham ordens expressas para só beber antes de conduzir, e assim toparem dois meteoritos em vez de um e passarem-lhe habilidosamente pelo meio. Depois de conduzir nada de tintos, pois era certo e sabido que iam deixar o cartanito da ignição do zingarelho ao lado dos restos mortais da orelha de coentrada. Estavam mais que avisados que a coisa era ultra classificada. Ultra secreto direi mais. Lá se foi a confidencialidade da coisa para o maneta. Ainda por cima os putos andaram passeando com os faróis ligados, inclusive, os faróis especiais para as poeiras celestes. Agora toda a gente viu, e não há cão nem gato que não bote faladura sobre o OVNI a fazer ralis e piões por cima do Alentejo. Agora cada vez que formos a Marte, a plataforma de descolagem vai parecer o apeadeiro da Damaia cheio de mazarulhos a dar fé e outros a querer embarcar. Calhando ainda o Barroso vai querer inaugurar a coisa antes das eleições, anunciando que o zingarelho é mais um magnifico projecto de investimento no Alentejo, com subvenção a fundo perdido do FEDER.
O Chico do Planície Heróica também tem uma porrada de culpas no cartório. Aqui há uns tempos andou blogando que os alentejanos não sei quê... e que se iam mudar para Marte... e que levavam o Alqueva e mais as ovelhas... que o Isidoro ia lá plantar um olival... e mais não sei o quê... O que é certo é que os gaijos ficaram de orelhas no ar e bumba, já sabem quase tudo.
Se calhar julgam que o pontapé no cu na equipa da Judite que montou a operação “apito dourado” foi por acaso? Tanto que não foi por acaso que, há escassos minutos, recebi um telefonema da secreta militar a dizer que afinal o ministro da defesa já não queria os submarinos e estava antes mais interessado em adquirir dois zingarelhos.
Ontem foi o dia da criança. Nunca tive grande pachorra para o dia disto e para o dia daquilo. No dia reservado somos muitíssimo bonzinhos para o feliz contemplado, nos outros 364 sacudimos a água do capote. Nunca me deu grande jeito esta forma de branquear a má consciência. Recorda-me o dia reservado, pelos benfeitores do antigamente, para os pedintes lhe baterem à porta (na porta de serviço, tá a ouvir!), afim de aliviarem os remorsos com uma quarta de toucinho rançoso e um meio pão a dar para o duro. Lembra-me a generala do movimento nacional feminino, D. Supico Pinto, na tarefa da caridadezinha pelos hospitais da desgraça, a entregar maços de aerogramas e outras bugigangas a magalas amputados da guerra colonial. Traço igualmente um paralelo com o actual filme da beata da Casa Pia que, por obra e graça do santo Bagão, só agora descobriu o drama dos seus meninos e, na busca da redenção, atafulha-os de bitoques e coca-cola, como confessou no noticiário de ontem – trabalha lá há uma vida e, que eu saiba, nunca antes abriu o bico.
Mas a propósito dos putos de cá. Não somos só os cotas na bicha do portão da quinta das tabuletas, também temos jovens que vivem 365 dias por ano com a trepidante alegria dos putos. E, já agora, putos feitos a régua e esquadro!


Carneiro hidráulico montado no Centro de Formação das Cooperativas Agrícolas, onde trabalhei, em Namaacha – Moçambique
Sempre nutri uma grande simpatia pelas tecnologias doces (também denominadas de apropriadas, alternativas, etc...). Em África tive a oportunidade de meter as mãos na massa. Disse meter as mãos na massa porque mais não fiz que colaborar na reactivação de práticas tecnológicas há muito manuseadas naqueles territórios. Vale sublinhar o pioneirismo criativo estimulado pela necessidade desenvolvimentista, particularmente incentivado pelas missões religiosas. Percebi-o razoavelmente e aproveito para o louvar, das práticas profundamente equilibradas (desenvolvimento sustentado no chavão actual), no que à natureza diz respeito, que era usual nas ditas missões.
Vem isto a propósito das fabulosas máquinas de elevação de água que dão pelo nome de carneiros hidráulicos. A simplicidade absoluta traduzida na energia gerada pelo peso dos fluidos – neste caso a própria água depois elevada. Como peças móveis, apenas possuem a singeleza de dois vedantes de borracha, que funcionam como válvulas de abertura e fecho. A restante máquina elevatória é composta por peças perfeitamente estáticas, o que lhe confere uma durabilidade infinita. Com uma manutenção rudimentar – inversão dos vedantes, limpeza da câmara de pressão e tubagens –, esta maravilha tecnológica funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano. Vale acautelar da necessidade de existir um caudal constante a montante.
Quando penso na fabulosa capacidade inventiva dos Homens, irrompe-me, de imediato, a complicada simplicidade do carneiro hidráulico. Quando passo em revista os tremendos inventos do último século – para o mal e para o bem -, escolho sempre como favorito o plebeu carneiro hidráulico. Segundo sei, foi um americano que o inventou – estão a ver como sou magnânimo!
Relativamente aos americanos, segundo consta, até o Salazar era mais céptico do que eu. Aquando de uma audiência concedida ao nosso embaixador naquele país, acautelou-lhe o ímpeto pró americano: o senhor embaixador não esqueça que são iluminados não por Deus, mas sim pela electricidade!
