As mãos do vento sul que traz a chuva
são mornas mãos de amante ou de viúva
que acaricia uma visão amada
temendo vê-la ir evaporada...
É um vento que passou por muitos ninhos
invisíveis e cheios de carinhos,
e guarda em suas mãos a calentura,
a maternal, a irreal ternura...
As mãos do vento sul sabem a azul,
ao longínquo azul dalguma Thul
duma cidade que só as nuvens viram
em músicas de luz que sempre expiram...
As mãos do vento sul levam perfumes,
levam perfumes de mil rosas mortas,
como as ondas arrolam vagalumes,
como as saudades vêm abrindo portas...
As mãos do vento sul são a asa triste,
profetizando as lágrimas veladas
de nuvens que viajam desgraçadas...
As mãos do vento sul vão pentear
a cabeleira fulva das estrelas,
e não têm medo, não, de se queimar,
só pelo gosto de ir adormecê-las...
As mão do vento sul têm meiguice
dum deus que beija e que perdoa
não sei que leve e pura criancice
quando o cabelo, entre os seus dedos, voa...
As mãos do vento sul são mãos amigas,
não são as bruscas mãos do vento norte,
trazem poeiras de ecos de cantigas,
falam de rondas para além da morte...
As mãos do vento sul à terra fria
fazem promessas, vão, cariciosas,
dizer-lhe uma voz de ave-maria
futuros de colheitas e de rosas...
As mãos do vento sul quando desfolham
são como as mãos das noivas a despir-se,
e de repente se comovem, molham
as pétalas que vão despedir-se...
As mãos do vento sul eu as bendigo,
eu as beijo no ar em que me beijam,
são como a alma dalgum morto amigo,
mãos de saudade que no ar voejam...
António Patrício

Estas sábias mãos que vês nas coisas transformadas!

Ferreira do Alentejo, Canhestros – Mobiliário

Alentejo – Gatos de lareira
Desenhos etnográficos do grande mestre Fernando Galhano
É uma constante a interrogação e a opinião divergente, mesmo entre os entendidos, no que à história do sul da península diz respeito. E a velha querela volta, de tempos a tempos, à tona da inquietação. Influência muçulmana ou influência cristã. À laia de exemplo, no que ao nosso sul diz respeito, recordo a latente guerrilha opinativa sobre os fundamentos e influências que modelaram o cante alentejano. Uns defendem a dama do cântico gregoriano, outros, uma dama de raiz mais arabizante. Possivelmente, muito possivelmente, na minha condição de leigo, disso estou convencido, para além da progenitura una, foi criado a pé descalço nas ruas de uma vizinhança colorida e de cantadores.
Com os tapetes de Arraiolos, a altercação opinativa tem ecos semelhantes. Monjas artífices, ou artífices mouriscos. Serenas oficinas conventuais, ou fervilhantes ruas coalhadas, porta sim porta não, de bordadoras ajoujadas em rústicas cadeiras de buínho. Duma coisa não restam dúvidas, a avó sabedoria da tapeçaria está reconhecidamente nas margens sul e este do mediterrâneo. Contra isso batatas! Como, ainda hoje, vislumbramos à saciedade por esse Marrocos fora, um labor tintureiro com usança de covas análogas ao que a arqueologia destapou recentemente na Praça de Arraiolos. Que os sábios e o carbono 14 cumpram a sua tarefa, e dela nos dêem vaia!
Da ideia ao tapete há uma obra manipulada. Obra que vai do tosquiador à bordadora. Epopeia que vai do tosquiar da lã até ao cose cose da agulha pelas mãos instigada. Das mãos, do contributo de muitas mãos anónimas, mãos de trabalho e de ternura, mãos desembaraçadas e também mansas, todas seguras e obrigatórias, ainda que umas rudes e outras mais delicadas. Umas, tosquiam, cardam, fiam, lavam, dobam e tingem. Outras, bordam maravilhas!
Os Tapetes de Arraiolos são uma das mais belas homenagens às mãos laboriosas!

Esta barbuda epiléptica que vai cá pelo balneário tem alguma coisa a ver com aqueles caceteirões que abalaram do Jamor com o monco em baixo?????
Será que agora o gimbrinhas para provar que não é panilas desata a violar as manas do pagode inteiro?????
quando te escavaram o ventre encontraram traços adormecidos doutros povos
enigmáticos colares, pérolas corroídas, aços imutáveis, escritas duma outra idade, vestígios de insones navegações
da terra sobe um murmúrio de húmido coração
os vermes vão tecendo a recordação dos mortos para que possamos sobreviver ao estrondo da pólvora e da dinamite
as máquinas quase destruíam as torres duma cidade imaginada, submersa, inacessível, que eu suspeito ter sido construída com vento-suão
mas, é o negro ouro que atravessa os teus metálicos intestinos
com ele vais refinando a morte das aves e esquecendo a vida dos peixes
digo, das águas enfurecidas irromperá o desastre
se por qualquer razão te esfaquearam de novo, nada mais encontrarão que pequeníssimos cadáveres de saudade
ouço o resfolegar de remotos náufragos... lembro-me das pedras mortas dos teus pulsos
o peito rasga-se-me, uma lata de óleo trabalha o sangue
no céu terei sempre um pedaço de lua de açúcar, e uma estrela para iluminar teu rosto de árabe antigo
Al Berto

Ao dar a volta a uma tralha esquecida numa gaveta, dei de caras com esta preciosidade. Um postal de Boas Festas produzido e realizado pelo artista plástico Pedro Portugal, no ido ano de 96 do ido século, para a ACOS – Associação de Criadores de Ovinos do Sul – no âmbito do projecto “Além da Água” - Beja. No verso reproduz uma frase que, na altura, trespassava a ideia da maioria dos alentejanos: Esperando pela água do Alqueva.

E agora que aquilo está raso de água? Pescamos, tomamos banho e vemos passar os alarves dos motonautas. Dizemos que o clima se está a alterar por mou dos nevoeiros. Calhando um inverno destes ainda nos sai na rifa o D. Sebastião. Assistimos a uma danação tremenda entre autarcas, manda-chuvas lisboetas e cá da província, especuladores, empreiteiros e outros empresários de minudências, por causa do ordenamento que está ordenado demais e precisa ser desordenado. Hotéis, feiras de barcos e ski, condomínios fechados e abertos, nadadores salvadores, achigãs grelhados e de escabeche, ancoradouros, restaurantes, casas de alterne, cursos de marinheiros de costa, aldeias de água, lagostins vermelhos, toneladas de megawatts (vá lá sempre poupamos no pitróli)... e mais um formigueiro de idiotas a bolar ideias para sacar uns patacos à má fila.
Desculpem lá qualquer coisinha, mas então aquilo não era fundamentalmente para impulsionar a agricultura alentejana. Bem sei que há já uns quilómetros de canais principais e secundários, umas estações de bombagem e mais umas infraestruturas ligadas ao assunto da rega. Bem sei que há muitos mapas, cartas, levantamentos, planos, programas e quadros estatísticos. Sei igualmente que de vez em quando aterram uns helicópteros que trazem no bojo uns papagaios, que papagueiam mais umas afirmações, juras, promessas e outras bocas de circunstância e bem parecer. O pagode bate palmas, bebe e deglute uns brancos frescos e uns canapés servidos por uns gajos fardados à maneira que aterraram igualmente sabe-se lá de onde, vê abalar os ditos papagaios fazendo reverências, de costas, até à portinhola do dito voador, tira a gravata, despe e arruma o fatinho, e espera sentado até ao próximo zaronzel de Mercedes, helicópteros, batedores da gnr, bombeiros, câmaras de tv, palanques, fitas, tesouras e microfones para os discursos. Sei igualmente que na entrada de Beja há uma tabuleta envergonhada que diz COTRE – qualquer coisa como centro operacional de tecnologias do regadio... nem lá quero ir para não me passar dos carretos... certamente iria encontrar uma administrativa sonolenta... muitos mapas nas paredes... uma telefonista entediada porque o artefacto não toca... um engenheiro coçando a micose e um subdirector de passagem... os outros técnicos estavam ausentes em trabalho de campo.
Desculpem lá mais qualquer coisinha, mas o que é que vamos produzir para além dos achigãs? Com quem? Com que formação? Com que tecnologias? Com que associativismo? Com que redes de armazenamento, distribuição e comercialização? E quem é que são os potenciais compradores?
O Pedro Portugal, agora, faria seguramente um postal com a menina e a ovelha caniche, rebocadas por um gasolina, a andar de ski.

- Aqui no Maputo o Manhiça é o Eusébio limpador nos vidros!
Na avenida Lenine, quase no cruzamento com a avenida 24 de Julho, tinha porta aberta o Salão Azul. Era o meu baeta preferido. Da barbearia do Hotel Polana para lá fiz transferência quando alcancei o que lucrava em boa disposição.
O mestre Luis Macuacua atirava, logo de entrada e à queima-roupa, o quanto o alegrava meter a tesoura em lã genuinamente passada a ferro. Depois era um ver se avias de imaginárias futeboladas, sempre concluidas com o capitão Coluna a desmarcar milimetricamente o pantera negra. Após o intervalo na tosquia - pausa esta aproveitada para me cravar um Palmar - mudávamos de tércio para a lisonja ao tintol da metrópole – fazia questão de dizer que metrópole só dos vinhos, do resto era o Portugal dos portugueses. De saída rematava com a sua coroa de glória, segundo ele também minha, de que naquela mesma cadeira do seu ofício, tinha honrosamente acertado as patilhas ao camarada Samora.
O Manhiça, funcionário menor e para toda a obra no Salão Azul, vinha, habitualmente, acompanhar-me até à rua, com a ideia na gorda gorja e aproveitando igualmente o momento para efectivar o marketing dos seus préstimos. Já comigo do outro lado da rua, ainda gritava: patrão, também vidro do mova.
O gaspachinho alentejano é comida de maiorais e lavradores, ganhões e artífices, funcionários e donas de casa que, nisto do sustento o que é bom todos gostam. Assim acontece naturalmente com o nuestro hermano gaspacho andaluz, comida de uns e de outros, de pobres e de ricos. Sopa fria, prato para os dias calmosos em que apenas a mana cigarra se atreve a serrazinar a quietude. O local de nascimento e o berço se, foi aqui ou do outro lado da raia, é coisa que nos tempos que correm nem adianta nem atrasa. Devemos é dar graças ao Criador pela sua existência.
Sendo uma receita com uma matriz comum a todo o sul da Ibéria tem, no entanto, de lugar para lugar (mesmo na região alentejana), naturais diferenças de confecção, de alguns ingredientes e mesmo de chamamento. No Alentejo – gaspacho, caspacho e vinagrada. No Algarve – arjamolho. No sul de Espanha, que eu saiba, responde apenas por – gaspacho. Saboreio com igual prazer tanto uns como outros.
Assumidamente tradicionalista (por vezes até me dá que pensar), defendo, no entanto, que o mundo só anda sabendo conciliar harmoniosamente, tradição e inovação. Verdadeiro lugar-comum este paleio cá do rapaz que, no caso, me serve de acto de contrição para o atrevimento de tentar novas variações à volta do gaspacho. Posto isto, caldeei as duas variedades principais conhecidas (a de cá e a de lá), e misturei-lhe um ingrediente exótico.
Já testei o projecto no meu painel de provadores privado e, passe a verdade, não levei uma pisa de porrada!

Gaspacho com caviar
6 tomates maduros
½ pepino pequeno
¼ de pimento verde
4 dentes de alho
100 gr. de caviar preto (de sucedâneo, que é mais em conta para o bolso)
250 gr. de presunto
8 colheres de sopa de azeite
orégãos
vinagre
sal grosso
cubos pequenos de pão frito
cubos de gelo
Com a varinha mágica liquefaz-se o tomate que foi previamente pelado e retiradas as sementes. Com o pepino cortado longitudinalmente em quatro, corta-se em lâminas finíssimas, o mesmo acontecendo ao pimento e aos dentes de alho. Numa tigela média deita-se o azeite e o tomate passado, acrescenta-se o pepino, o pimento, o alho, o caviar e os cubos de gelo. Mistura-se tudo muitíssimo bem, temperando de seguida a gosto, com o sal, o vinagre e os oregãos. Deixa-se descansar a mistura e paralelamente derreter o gelo. Entretanto corta-se o pão em cubos e frita-se levemente. Na altura de servir junta-se o pão frito ao gaspacho e acompanha-se com o presunto em prato à parte.
Figos frescos e uvas também calham bem como acompanhamento.
Enquanto vai deglutindo esta maravilhosa sopa fria, vá bebericando com infinito consolo um branco fresco da Granja.
Para sobremesear, abata positivamente um creme frio de abacate com natas, açúcar, limão e um farrapinho de rum.
À sesta rapaziada!
Quando em 1955, no Egipto, um grupo de oficiais livres forçou a demissão do rei Faruk, este vaticinou ironicamente: “na entrada do século XXI restarão apenas cinco monarquias no mundo, a de espadas, a de ouros, a de copas, a de paus e a Inglesa”.
Errou o libertino soberano ao esquecer que monarquias e contos de fadas são as duas faces de uma mesma moeda.

Um céu abafadiço, um mar de ausência
esperando nuvens imóveis no céu baixo.
A terra, já das ceifas recolhida,
alonga-se manchada a flores tardias,
roxas, vermelhas, amarelas, brancas,
como penugem da esquecida Primavera.
Por entre os campos, os cordões rugosos
dos caminhos para toda a parte,
menos para os campos, que pacientemente evitam.
Na linha do horizonte próxima ou distante
Conforme as ténues cristas da planura imensa,
um claror de céu, um tufo de arvoredo,
alternadamente se tocam e se afastam.
De súbito, num alto que a planície esconde,
As casas surgem brancas e compactas.
Como surgem, mergulham
na sombra poeirenta de azinhagas em ruínas.
Ainda se demora uma torre antiga,
escura, com ameias e janelas novas,
caiadas.
Um rio de adivinha. Mas, de ao pé da ponte,
de novo apenas o ondular da terra,
um crespo recordar só de searas idas.
Jorge de Sena - 1950

Reproduzo o diálogo mantido, esta manhã, com a empregada de uma baiuca, a puxar ao modernaço, que tem porta aberta na zona histórica aqui do burgo.
- Um copo de leite frio, uma fatia parida e um café – isto após o cordial cumprimento matinal.
- Fatias paridas não temos!!! – retorque a empregada com acentuada rispidez.
- Minha senhora estão aqui no expositor!? – dei de volta, com um meio sorriso, apontando as ditas.
- Isso é fatias douradas, paridas são lá na minha parvónia – atirou brusca com metade da face, enquanto a outra metade se desfazia em salamaleques para uma madame que de beiços esticados pedia um duchaise num francês do ciclo preparatório.
- Então fico-me pelo leite e pelo café – rematei de sorriso escancarado.
Pobre gente que, com verniz citadino de má qualidade, tenta varrer para debaixo do tapete a cultura da sua “parvónia”. Aldrabada gente engavetada nas amadoras deste país de contentinhos, deitando diariamente os bofes pela boca numa correria louca atrás duma velhice ensanduichada numa marquise de alumínio cheio de artrites. Ludibriada gente que cuida ter subido ao 1º andar da vida enquanto os da parvónia ficaram pela cave. Calhando serão enterrados no engodo que o cemitério da cidade tem um estatuto superior ao da “parvónia”!
Eu já pedi os bons ofícios familiares de me meterem no forno de Ferreira do Alentejo. Em termos de quilometragem sempre fica mais em conta, e depois estão ali à mão os barros de Beja para espalharem as cinzas. Isto, caso o senhor da Taifa Ferreirense não se oponha a grelhar lá um gajo do Alto Alentejo. Até lá, vou continuar a comer fatias paridas! Caso não vendam, cozinho-as eu!!!
Prólogo (por via das dúvidas)
Sou contra todos (repito: todos) os fundamentalismos. Este todos, inclui os pequenos nadas que, para mim, são grandes tudos. Sou contra todas as formas de ditadura, mesmo a das maiorias.
Os senhores Bush e Saron estão à frente dos destinos dos seus respectivos países por via do voto. Daqui se infere que a maioria dos americanos e dos israelitas reconhecem neles os homens certos para conduzir os respectivos países.
Estes dois senhores têm práticas profundamente fascistas. Daí que no momento presente – e até mais ver – mantenho um sentimento profundamente anti-americano e anti-israelita.
Esta Quinta-Feira assinalada no calendário cristão como da Ascensão, é igualmente o dia em que tradicionalmente se ia ao campo colher um ramo em que a espiga de trigo era o elemento mais simbólico. Compunham igualmente o ramo, um malmequer, uma papoila, um ramo de oliveira, um ramo de parreira e um pé de alecrim.
Simbologia associada a cada elemento:
Espiga – Pão
Malmequer – Ouro e prata
Papoila – Amor e vida
Oliveira – Azeite e paz
Videira – Vinho e alegria
Alecrim – Saúde e força
A UÉÉzinha acaba de abrir as pernas ao milho transgénico.
Agora, quando se disser, do marmanjo, «que foi preso por andar a dar milho aos pombos», deve-se constatar in loco se o dito é transgénico. Em caso afirmativo, deve-se dizer «que foi preso por andar a dar milho transgénico aos pombos».É uma questão de rigor e de atenuante aos olhos da OMC!

Com todo este zaronzel a propósito da clonagem a ti clonagem a mim, uma questão pertinente, acossa-me a curiosidade:
- O(A) cidadão(ã) que tenha relações sexuais com o seu próprio clone, comete incesto, é gay ou está na punheta?!?
(fonte: Tininha)
O supremo tribunal de justiça de Israel - não merece letras maiúsculas – caucionou, garantiu, afiançou, avalizou, abonou ao exército, a elevada tarefa de continuar a arrasar habitações palestinianas na faixa de Gaza.
Na fachada do seu edifício/sede deverá passar a ler-se: Empresa Estatal de Demolições. No seu objectivo social deve passar a constar um ponto onde se lê: a concessão de subempreitadas é única e exclusivamente atribuída ao exército. Em todos os seus produtos de marketing deverá ler-se: realizamos trabalhos de demolição em todos os países do mundo e particularmente na Palestina, sem anuência dos proprietários, sem habitantes inclusos mas preferimos com, e sem a supostamente necessária autorização dos americanos. Nota de rodapé: dos americanos apenas necessitamos da regular aprovação pelo congresso e respectivo envio atempado das substanciais tranches financeiras para a aquisição de bulldozers, explosivos e outros equipamentos necessários ao funcionamento da empresa.
Calaram-se as aves para a sesta
e, no silêncio palpável e viscoso,
a terra pulsa e lateja, transpirada,
como um corpo febril e decadente.
No braseiro do mar fulvo das searas,
aqui e além, sobre vagas de amarelo,
o mastro ensanguentado dum sobreiro
com a âncora desgrenhada à superfície.
As algas de restolho estão sedentas.
O farol gigantesco está a pino.
E, ávidas de verde, tombaram as gaivotas,
nesta marinha imensa e ressequida.
Só o motor das traineiras, insistente,
no tac-tac sonolento das cigarras,
como nota de vida no ar quente!..
Luísa Freire

mar de trigo com traineira ao longe
«Portugal é mediterrânico por natureza, atlântico por posição»
(Pequito Rebelo em “A Terra Portuguesa” – 1929)
O que se come, a mesa onde se come e os modos como se come, são o reflexo fiel das mestiçagens, reivindicações, questiúnculas religiosas, derrotas e conquistas. É, sem margem para dúvidas, um soberbo indiciador da identidade cultural de uma região.
Que outro poderia então ser o rumo deste povo guardião do imenso portão, de entradas e saídas, desse cálido e luminoso Mare Nostrum entalado entre bastas terras de gentios de muito tempo e de muita sabedoria, que mais parece um imenso largo onde desembocam todas as ruas da aldeia. Mais não seria que continuar a morar com frontaria para austero e imensurável Atlântico, mas, a comer, no quintal, debaixo da figueira, virado para a azinhaga, sentado à mesa da tradição alimentar mediterrânica. Gentes que nestas praias se afizeram a ver chegarem outras gentes que por aqui almejavam uma terra de conveniências. Fenícios, cartagineses, romanos e árabes, aqui aportaram e por aqui entrançaram costumes e modos de comer.
Em similitude com o restante sul da Ibéria, também neste território com serra, barrocal e beira-mar aconteceu a tranquila junção entre a cozinha civilizada e a cozinha bárbara. A primeira, fundamentada na hoje tão reverenciada trilogia mediterrânica – pão, azeite e vinho – a segunda, pelo profuso uso de produtos colectados no deus-dará da natureza – pesca e caça, sementes e mel, frutos e plantas selvagens. Depois do despejo do crescente pela cruz, no denominado antanho da “Reconquista” - já para cá dos meados do século XIII – foram ainda insertos nos hábitos uma mão cheia de produtos trazidos de outros continentes. Destes, destaca-se a importância da batata, milho, tomate e pimento. A matriz alimentar que deste caldeamento resultou, se sedimentou e aprimorou ao longo de gerações, podemos dizer com toda a certeza que constitui a trave mestra da cozinha que sobreviveu até aos nossos dias.
Nesta térrea língua toda ela bafejada pelo cheiro da maresia, sempre que o vento para aí virado está, neste território que, para quem do norte viaja, se alonga numa linha imaginária entre a Zambujeira do Mar e a já interior Santa Clara, por aí abaixo, até outra linha, esta bem real, entre Sagres e Budens, passando, de volta arriba, pela terra das boas águas que é Monchique. É dos primores com que estas gentes se saciam que queremos dar alvíssaras.

Está na Costa Vicentina... venha daí viajante... chegue-se aqui para provar estes príncipes do mar que por nome têm o de percebes. Dizem os entendidos serem crustáceos hermafroditas. Nós apenas dizemos terem um sabor divino... e apenas cozidos na pura água das Caldas de Monchique com o acrescento do sal... olhe viajante, ali está no lugar de Aljezur... por essas várzeas e charnecas é um nunca mais acabar de saborosa batata-doce... como se come... assada no forno até ficar com crosta, amigo... mas também não desmerece no cozido de feijão com couve que se come ali para os lados mais serrenhos... serrenhos esses que não têm mãos a medir nos enchidos... sente-se viajante, de roda desse presunto, dessas morcelas de farinha de milho e de arroz, desse chouriço... ah, já ouviu falar das papas... de xerém também dizemos nós... acompanham o berbigão ou o lingueirão que estiver à mão... peixe, mas que jeito moço, com um mar destes haveria de faltar o peixinho, nem o peixe nem o marisco nem a bicheza de concha... fresquíssimo claro... cozidos de chorar por mais são as cavalas com orégãos e ainda os carapaus alimados... da fama das caldeiradas, sardinhas e carapaus assados está o mundo cheio... lulas ovadas... são de Sagres, do nosso grande promontório que mais parece a proa de um barco da faina... diz que não sabe, ora, tome lá um garfinho e não se faça rogado... cristãs, amêijoas cristãs, são as melhores... e ao natural... o quê... o peixe não puxa carroça... olhe amigo, tem sempre curativo num cozidinho de couve à algarvia, numa açorda de galinha, ou num jantar de milhos... milhos, mas com carne... sobremesas... é só escolher, de figo, amêndoa, mel, ou outra guloseima de colher ou fatiada... espere, não se vá ainda... então desanda sem aquecer o interior... ateste lá que este medronho é mais macio que veludo e mais saboroso que os frutos da serra todos juntos... prove, prove de tudo, lamba-se e volte sempre viajante.
Atente bem compadre, da Zambujeira do Mar caminhando por esses interiores adentro, é um mundo de boa mesa e generosa pinga alentejana, do mar e da terra compadre... a sopa de peixe à alentejana é de estalo... a feijoada, mas com búzios, eu seja ceguinho se só pelo cheiro eu não dava com ela... ateste lá se não é verdade!... fritos compadre... ora essa, atão que fim damos à moreia e ao polvo... ficam doirados e estaladiços como o sol criatura de deus... mas, para que saiba, ainda temos o sargo grelhado, a caldeirada de safio, o fricassé de raia e mais uma rima de bicheza marinha com patas que é um enlevo... carne amigo... é uma fartura... de vaca, de borrego, de caça e do santo porco que é bicho também de guardar para outros condutos... cozidos com mistura da horta, ensopados com o nosso santo panito e assados de forno... calor, então isto é uma terra que às vezes mais parece o inferno... mas o remédio está no gaspacho que é comida fria que arrefece a goela... não me diga que queria que deixa-se-mos os créditos por mãos alheias... não vá embora sem provar o queijo e a fruta que são o conduto final do comedor que se leva a sério.
Abril, 2004
Joaquim Pulga
(Texto produzido pelo signatário para um projecto de promoção territorial do Sudoeste Alentejano, Costa Vicentina e Monchique)
«Se possível for, deve o mosteiro ser construído de forma a ter de portas adentro tudo o necessário, a saber: água, moinho, horta, oficinas onde se exerçam os diversos ofícios, para que os monges não tenham necessidade de andar lá por fora, o que não é nada conveniente para as suas almas – Regra Beneditina: 66 6-7.»
Às vezes ponho-me a pensar que isto se tornou numa confusão do arco-da-velha. O tino retirou-se de mansinho pela porta dos fundos. Pela porta da frente irromperam triunfante uma cáfila de biltres. Com eles assomaram à tona uma multidão de bajuladores e serviçais talhados ao pastoreio e à ordenha. O rebanho dos incluídos vagueia pela pastagem de teta sempre pronta, rezando em surdina para que a hora do matadouro chegue o mais tarde possível. O rebanho dos excluídos, excluído está. Que vá morrer longe que nem no matadouro tem lugar. As ovelhas negras são negras e o negro é ausência de cor.
Pois é, daí que às vezes me ponha a pensar que, andar cá fora, não é nada conveniente para a salubridade mental – fico-me pela mente dado não ter atingido o nirvana da alma. Daí que às vezes me apeteça recolher-me de uns e outros. Daí que muitas vezes me venham à cabeça os cenóbios.
Algumas questões de pormenor ou por maior – dependentes do ângulo de visão - me retêm o desejo. Acrescentaria assim à regra Beneditina: a inclusão do género, a adega, o lagar, o fabrico dos puros, um baralho de cartas e, já agora, o livre acesso ao Corto Maltese sempre que pretendesse visitar-me.

Imagem do Convento da Cartuxa – Évora

(Photo de Eduardo Nogueira – 1935 / Arcada de Paris, Rua João de Deus, Évora)
Cem vezes os afazeres do dedal que as agruras fardadas da criada de servir. Mil vezes o calo da tesoura que a manada de calos e dores das mondas e das ceifas.
Andar na costura era visto como uma notória ascensão social. Ainda que o salário fosse uma gota no mar das necessidades e as regalias sociais iguais a zero, mas tinha o usufruto de um horário com contornos mais ou menos definidos e uma forte dose de moderna urbanidade. Era igualmente um trabalho asseado que possibilitava a vaidade do andar sempre de ponto em branco. Tinha o magala que muito adoçar o estilo e o verbo para embeiçar a moça costureira, senão, a outros de maior patente calharia a sonhada e sonhadora conquista.
O fado, o teatro e o cinema, contribuíram abundantemente para relevar no imaginário popular a personagem da costureirinha.
- Vizinha Adelaide, foi bonita a fita do cenório! Acaba na boda do Xico tipógrafo com a Rosa costureira.
No sábado 15 do andante, no Hotel da Cartucha em Évora, pelas 17,30 horas, acontecerá o lançamento da debutante Revista Alentejo. Lérias sobre a publicação e o que mais aprouver, música e calhando a franqueza de uns tintos e brancos são adubo que baste ao acto.
Alentejanemos!
Sempre gostei de Setúbal. Simpáticos os setubalenses, quiçá, estes alentejanos que se foram encostando à humidade e à sopa da indústria por troca com o sequeiro e a sopa do campo. Boas memórias guardo das estadas na companhia do Zeca e das consequentes deambulações pelas tertúlias do carrapau.
Ontem fui a Setúbal. Valeu a adubada caldeirada, porque de resto não gostei nada do que vi e ouvi. A Setúbal chegou a retoma dos tempos da pequeno-burguesa pecha de desenrascar o estômago no contentor do lixo!!! Enquanto os panilas brincam com submarinos, essa é que é essa!

A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é triste como o é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia
Ruy Belo
Mas que botas fashion... O relógio de bolso é bué revival... O Alentejo é giríííííssimo... Olhe, aqueles coletes peludos assim com umas abas no sítio das mangas e corte baixo atrás são um must... Eu adoooro passear pela província... Aquele ambiente play é o máááximo... E já há lugares chiquééérrimos com gente lindíííssima. Eu fico flashada com as cores e com as texturas... Fora do tempo de praia... uns fins de semana por outros... porque viver lá sempre deve ser cá uma seca... assim completamente perdidos sem acesso... Sem acesso à cultura da ignorância, digo eu!
Foi você que pediu esta gente... Não, eu apenas pedi um uísque com gelo e castelo. Mais, entrei aqui apenas para beber um trago, conversar com os meus botões e dar cinco tostões de fé. Longe de mim permutar lérias com quem quer que fosse. Mais ainda, as putas das botas de salto de prateleira é que me traíram. Se não fossem as putas das botas não tinha mamado com os despautérios desta gente muito, muito, muitíssimo guapa.
Dei corda ao duo traidor e abalei na gáspea. Já de cima da ponte, olhei de viés para as dooocas e jurei a mim próprio que para a próxima venho de mules!

A Casa do Alentejo pôs na rua uma nova publicação bimensal com a denominação «Revista Alentejo». A novel revista revela uma apresentação prenhe de modernidade tal e qual como queremos o Alentejo. Do conteúdo tirarei a prova dos noves depois de atenta leitura. O leque de escrevinhadores promete, bem como os temas anunciados.
No respeitante à alimentação, é portadora da rubrica “Pão Azeite Vinho – trilogia mediterrânica na gastronomia e na cultura». Do primeiro artigo dedicado ao azeite dou informe.

Sibarita, eu?
A importância do precioso líquido no estratagema alimentar dos povos da borda-d’água mediterrânea, apenas tinha igualha nos dois outros vértices do triângulo da sabedoria alimentar – o do vinho e o do pão. Mas valha a verdade, nunca a adega ou a padaria tiveram, na boca do povo, o embaraço das artes que sempre querelaram o oficiar no lagar. Percebo tanto disto como de um lagar de azeite – expressão useira e vezeira para leigo declarar que, da coisa em causa, entendia zero. A eleição do lagar de azeite como contraponto à ignorância, deve-se, possivelmente, a uma profunda e capital sabedoria para dos seus engenhos se retirar o almejado líquido.
Só com a farinha de trigo, com mais ou menos farelo, ou ainda de mistura com centeio se fazia e se faz o pão. Da sua maior ou menor nobreza dará vaia a sapiência da boca que lhe meter o dente. Mas pão é com certeza, como outrora o foi das farinhas de fava ou de bolota.
De velhacarias no fabrico do vinho, está a história atafulhada. Conta-se, que, no leito de morte, determinado empresário balbuciou: filhos, não se esqueçam que da uva também se faz vinho. Sendo o santificado líquido completamente promíscuo com a água, completamente indefeso está às leis e manigâncias da usura. Para todos os efeitos, da sua maior ou menor nobreza, ou mesmo da sua progenitura bastarda, dará vaia a sapiência da boca que o escorrer pela goela.
Já bastos pantomineiros o tentaram mas, com o azeite, a coisa fia mais fino. Sem a santa azeitonazinha podem tirar o cavalo da chuva que não há azeitinho a escorrer da almotolia para ninguém. Mas com a mana azeitona, ele aí está com todo o seu esplendor! Com maior ou menor grau, com o sabor mais ou menos acentuado, é azeite senhor! Santo óleo emanado da bíblica árvore, cujos ramos anunciaram a Noé o termo do dilúvio. Pela sua utilidade como unguento curativo, assim como fonte de luz e alimento, para a vista e para o estômago, a matriarca oliveira cobrou ao longo dos tempos um respeito religioso e divino.
És mais fino que o azeite de Moura – louvor transtagano usual para abonar da sagacidade dos conterrâneos, comparando-a com a fama e fineza de um produto de excelência. Mas nem esta reconhecida fineza e o tirar de tantas e tantas barrigas da miséria, impediu, que, lá pelos meados do século que há pouco entregou a alma ao criador, as margarinas e os óleos alimentares empurrassem o azeite das prateleiras das mercearias e das mesas pela força de uma modernice manhosa, muitas vezes chancelada por opiniosos diplomados a soldo daquilo que estamos fartinhos de saber. Olvidaram estes estrategas da colonização do palato que, fabricar açordas ou gaspachos sem azeite, era o mesmo que ir à lua de bicicleta pedaleira.
Lá dizia o poeta: mudam-se os tempos mudam-se as vontades. Agora, que os patrões lhe mudaram a agulha, passam a santa vidinha a abanar o rabo e a cacarejar que a dieta mediterrânea é magnifica e trás benefícios incalculáveis para a redução do colesterol. Nós, bom, nós continuamos paulatinamente a deglutir as açordas, bem olhadas de azeite para que não sejam cegas, e a rir de mansinho como sempre fizemos. Ou não fosse no ano medievo de 1392 que, em Évora, o rei chancelou a primeira regulamentação do ofício de lagareiro.
Para que a coisa não fique só pela retórica, passemos ao que pode vir a ser um frugal e regalado almoço dominical reparador de um sábado de excessos e onde o azeite tem um papel de primeiríssima figura, de cabo a rabo.
Açorda de coentros
Azeite
Coentros
Alhos
Ovos
Bacalhau alto demolhado
Pimento verde
Sal
Pão duro cortado em sopas aos cubos
Numa panela coza o bacalhau com água bastante para a açorda. Depois de retirar o bacalhau escalfe um ovo por pessoa. Num almofariz pise os coentros e os alhos juntamente com o sal grosso. Numa tigela grande deite o azeite, duas colheres de sopa por pessoa, e um ovo inteiro, e acrescente o polme do almofariz e misture tudo muito bem. Corte o pimento em lâminas e deite no preparado. Sobre este deite a água a ferver que serviu para cozer o bacalhau e escalfar os ovos. Misture convenientemente. Com a sopa do ganhão prove o caldo, se for caso disso corrija o sal. Deite no caldo as sopas. Deixe ensopar a gosto. Sirva em prato fundo onde já moram o bacalhau e o ovo escalfado.
Não esquecer a camaradagem da fiel azeitona.
Laranjas em azeite e mel
5 laranjas
2 dl de azeite
1 dl de mel
Canela
Descascam-se as laranjas e cortam-se às rodelas finas. Mistura-se o azeite com o mel, aquecendo-os ligeiramente para miscigenarem na perfeição. Põem-se as rodelas de laranja a marinar neste preparado durante um par de horas. Acrescente um pau de canela.
Sibarita, eu? Não, apenas amante dos prazeres ao natural sustento.
Que mil lagares floresçam!
Conjuntamente com o vinho e o pão, o azeite é parte integrante da célebre trilogia alimentar do mediterrâneo. O azeite é um produto alentejano com uma forte imagem no mercado resultante das especificidades que lhe concedem as peculiares condições edafo-climáticas regionais.
Tem o Alentejo reconhecidas três Denominações de Origem Protegida de azeites.
Azeite de Moura (DOP): produto com odor e sabor a fruta, proveniente das variedades Galega, Verdeal e Cordovil, com cor amarelo esverdeada e acidez baixa ou muito baixa, qualificado pela regulamentação comunitária de virgem extra e virgem, abrange a sua área de produção as freguesias dos concelhos de Moura e Serpa, bem como a freguesia da Granja no Concelho de Mourão.
Azeites do Norte Alentejano (DOP): produtos ligeiramente espessos, frutados, com cor amarelo ouro, por vezes ligeiramente esverdeados, obtidos a partir de azeitonas das variedades Galega, Blanqueta, e Cobrançosa, com dominância da variedade Galega, a sua baixa acidez permitem-lhe a qualificação virgem extra e virgem pela regulamentação comunitária, geograficamente a sua área de produção estende-se aos concelhos de Alter do Chão, Arronches, Aviz, Borba, Campo Maior, Castelo de Vide, Crato, Estremoz, Elvas, Fronteira, Marvão, Monforte, Redondo, Portalegre, Sousel, Vila Viçosa, Alandroal, Nisa e Reguengos de Monsaraz e a algumas freguesias de Évora e Mourão.
Azeite do Interior Alentejano (DO em fase terminal de Protecção): produto de cor amarela dourada ou esverdeada, aroma suave e frutado, alcançado a partir dos frutos das variedades Galega Vulgar, presente em larga percentagem, e ainda Cordovil de Serpa e Cobrançosa, sendo toleradas outras variedades num máximo de 5% com exclusão absoluta das variedades Picual e Maçanilha, estando circunscrita a produção aos concelhos de Portel, Vidigueira, Cuba, Alvito, Viana do Alentejo, Ferreira do Alentejo e Beja, bem como às freguesias de S. João de Negrilhos, Ervidel, Entradas, Alcaria Ruiva e Torrão dos concelhos de Aljustrel, Castro Verde, Mértola e Alcácer do Sal.
O azeite, produto estratégico para a economia regional, maltratado ao longo das últimas décadas por políticas erróneas de quem não conhece a sensatez – até subsidiaram o arranque do olival -, está agora a erguer-se deste longo calvário. Existem uns largos milhares de hectares de quota disponível para o plantio de olival no Alentejo. Assim os agricultores alentejanos o queiram. Os agricultores espanhóis demonstram já a crença que nós titubeamos.
Joaquim Pulga
Confrade – Confraria Gastronómica do Alentejo
Assombrados com as imagens da selvajaria dos Americanos no Iraque? Só agora? Calhando pensavam que Guantanamo era a Colónia Balnear do Século?
Estive pela França o tempo suficiente para saber do arreigado chauvinismo dos franceses. Inclusivamente, trabalhei com alguns nas andanças africanas. Petulantes por vezes. Tenho, no entanto, uma enorme admiração pelo forte sentimento de cidadania dos franceses.
Há uns tempos em Paris, de regresso a Portugal, encalhei numa barafunda tremenda por via da paranóia da segurança nos aeroportos. A fieira do controlo era dacroniana. O engarrafamento de passageiros uma autentica turba em desespero pelos atrasos monumentais. Os polícias de fronteiras faziam render o peixe da arrogância. Molestaram verbalmente um cidadão, ameaçando-o inclusivamente de detenção. Só que o homenzinho não se ficou e puxou verbalmente dos seus direitos, duma forma tão arrebatada, que não tardou cinco tostões para a populaça se arregimentar na defesa do cidadão. Terminou com o patrão dos chuis a pregar-lhe um correctivo público e as enormes bichas a desandarem lestas.
A França sempre foi um país de tribunos. E de pequenino se torce o pepino.

A Liberdade Guiando o Povo, 1830 - Delacroix

«Loucura, deboche, amor, jogo e morte...
O tango é um pensamento triste que se dança. De inspiração popular, o spleen bamboleante dos marginalizados argentinos nasceu sobre o asfalto. Muito em breve, deixou os bas-fonds para invadir a “alta sociedade”. E esta tarântula tropical acabou por também atravessar os oceanos. Quem se lembra hoje de que o tango foi considerado, quando surgiu, obsceno e diabólico pela Santa Sé?»
Hugo Pratt
Zé Manuel, caso ache necessário, a carneirada até põe a circular um abaixo-assinado. Coisa que, eu, e até mesmo os seus assessores pensamos desnecessário. Tá a ver a carga de favores que o George lhe fica a dever por mou da carrada de fezes em que está atolado. D’uma coisa pode o Zé Manuel ficar ciente, para a próxima cimeira entre o George e o Tony – uma vez que o José Maria foi dar palha ao burro -, você, não só servirá os hambúrgueres mandados vir do McDonalds da quina e os cálices de Porto – não, não, o George não pode meter-se no uísque senão vai parar outra vez aos alcoólicos anónimos -, como até pode ficar na sala a escutar a conversa – já viu os ciúmes que o Paulo vai ter. Na sala, que será a da sua casa obviamente, lugar, onde ocorrerá a reunião magna como paga do enorme favor que prestou ao George. Em todo o caso, a sua esposa não pode estar por perto, ainda assim não lhe dê para dizer o poema do cherne em frente do Tony e do George, coisa que certamente resultaria na prisão retroactiva do O’Neill pela CIA ou FBI.
Apresse-se Zé Manuel, apresse-se a mandar o recado ao George antes que o homem perca as eleições para o perigoso comunista John – o Paulo está fartinho de o escrever nos relatórios para o Donald. E não diga nada ao Jorge se não ele começa a empatar com a lenga-lenga da necessidade do mandato assinado pelo Kofi. Evidentemente que também não deve dizer nada ao Bosco se não ele vai querer discutir a coisa armado em social-democrata com aqueles mazarulhos de S. Bento.
Zé Manuel, o recado é sintético e objectivo: a carneirada está louca para ser invadida e de carreirinha torturada pelos americanos!
Maio 7, 2004
A cidade de Évora e o Alentejo têm para mim uma importância elementar. Foi por aqui que medrei, me fiz barbado, destapei o prefácio da existência e arquitectei os alicerces da aventura. Por aqui aconteceram os primeiros amores e desamores. Aqui está a matriz da minha nação.
Daí até hoje andarilhei por muito mundo. Mundos de boas e más memórias. Pela vila de Namaacha, terra do sul de Moçambique onde vivi alguns anos, alimento lembrança muito peculiar. Vila situada no planalto dos Montes Libombos de clima miscigenadamente suave e paradisíaco a que, os portugueses, apelidaram de Sintra de Moçambique. Lá, encontrei amancebados com a flora nativa, sobreiros, castanheiros, pessegueiros e videiras – as duas oliveiras que lá moram fui eu que as levei e plantei. Lugar raiano este precisamente na fronteiriça confluência entre Moçambique, a Suazilândia e a África do Sul. Com caminho aduaneiro apenas para a Suazilândia, mas certamente com caminhos de mal andar de e para o país do apartheid – na altura assim era.
Vale situar o tempo nos idos anos de 81 a 83, tempos de terrível guerra civil num Moçambique ferozmente acossado pela república bóer. Daí a Namaacha ser a bissectriz de um mundo de “negócios” onde tudo valia até tirar olhos. Pretos, brancos, amarelos, azuis e mulatos, para todos os gostos e papéis havia actores – moradores, putativamente residentes ou apenas de passagem. Por debaixo da distendida convivência urbana africana, em surdina, a terra palpitava de tudo o que se possa imaginar. Era um perigoso mas ao mesmo tempo estimulante puzzle a que faltavam sempre peças. A vários arrefeceu o céu-da-boca ao tentarem encontrá-las. De alguns houve noticia, de muitos outros nem tanto.
Quando rememoro a Namaacha, - para além das mesas de póquer em plena pista da boite do Hotel Libombos, com os Rochas pai e filho donos do estabelecimento a roubarem fichas ao resto da rapaziada -, lembro-me de imediato dos “Cem Anos de Solidão”.
«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana...» (...)

(imagem da rua principal da Vila de Namaacha com o velho Hotel Libombos à esquerda)

Comecei a arrimar-me ao O’Neill já ele empinara a bota. Estive à espera de sapatos de defunto, digo eu. Tarde piaste, diria ele. Tarde ou não, lá vou caminhando alegremente pelas veredas das suas bem esgalhadas e verrinosas tiradas.
A 28 de Dezembro de 1973, no A Capital, publicou uma crónica ajoujada de fina ironia à O’Neill. Nesse pardo e claustrofóbico tempo, soterrado nos seus poluídos vícios o O’Neill conseguia respirar sarcasmos e premonição do avesso ou nem tanto.
Granel das muitas acontecências que não devem ter lugar em 1974
- A Avenida da Liberdade (atenção, Pedro!) ser vendida aos talhões para construções imobiliárias. (Não haverá esse perigo, por enquanto, se vocês se portarem bem.)
- Serem usados foguetes silenciosos nas festas e romarias.
- Um sujeito não ser atropelado no seu corpo e nos seus direitos.
- Ter o seu passamento Inácia Coreto, a ilustre promotora de serões de arte.
- Manuela Fonseca mudar para a Colgate.
- A Rosa casar com o Xico.
- Os paralelepípedos amontoarem-se contra os poetas.
- Os executivos terem um pouco menos de energia e um pouco mais de bom senso.
- Os faróis da costa começarem a piscar para terra.
- Nuno Júdice publicar as suas Viagens Completas.
- Mário Henrique Leiria (um abraço, Mário!) beber menos gin-tonic!
- A força pública começar a usar, nas suas actuações, serpentinas multicores.
- Eusébio jogar com as botas de ouro que ganhou.
- Joaquim Agostinho dopar a sua bicicleta.
- As flores dizerem às abelhas: «Basta!»
- E, já que falei de abelhas, Fernando Lopes sair com outra longa-metragem.
Amália Rodrigues lançar, no Estádio Nacional – e, se possível, para fora – o seu último disco de ouro.
- A nacional-caixotaria deixar de invadir as áreas urbanas, suburbanas e todas as que lhe são intermédias.
- A Televisão oferecer-nos um novo (renovado) Telejornal.
- Rodolfo Iriarte conseguir ter a secretária arrumada.
- O décimo terceiro mês ser logo a seguir ao décimo segundo ou logo antes do primeiro.
- Nixon ver a Lisboa para aumentar a sua credibilidade.
- Visconte começar e acabar “A morte em Beleza”.
- O Parlamento discutir e aprovar a Lei dos Fins.
- Uma produtora de filmes realizar a longa-metragem “A Tudo o Vento a Levou”.
- Os pianos, no âmbito de um contrato para a protecção da natureza, devolverem aos elefantes o marfim.
- Manuel Brito, da 111, abrir uma loja no Cacém.
-Os brasileiros que nos visitam deixarem de dizer que estão encantados ou emocionados por se encontrarem em Portugal.
- Os cultores da incivilidade meterem, em vez de ar, gasolina nas rodas dos seus carros.
- O “Expresso” sacudir os bandos de gralhas que nele pousam semanalmente.
- Lopes do Souto não escrever sequer de ouvido.
- Portela Filho começar a assinar Queiroz.
- Ruben A. publicar “A Retorre da Rebarbela”.
- A Antónia e o Rui Leitão porem todo o país a comer alcachofra.
- O “Cinéfilo” começar a publicar a fotonovela “Simplesmente Mário”.
- O Ritz abrir, no seu recinto, um parque de campismo.
- O Joaquim Botelho de Sousa comprar, para a sua colecção, o relógio da Estação do Rossio.
- O João Charters de Almeida abrir uma sucursal da Mancha nas Cortes, em Leiria.
- Certo locutor da rádio deixar de empregar expressões como “esta jornada revivalista” cada vez que põe a tocar discos de outros tempos.
- Os caixões terem melhor ar.
-A Marquesa de Arrobas lembrar-se (já não seria sem tempo!) da lei republicana que aboliu os títulos nobiliárquicos e passar a chamar-se Maria Teresa Eugénia Vitória da Silva Soares de Souza Rodrigues de Albuquerque e Menezes (Cortical)*.
- A Maria Aguiar deixar de ser uma simpatia.
- O rei Faiçal assinar um contrato com o Hergé para entrar nas histórias do Tim-Tim.
- O Gérard Castello-Lopes abrir uma nova sala de cinema num dos supermercados Pão de Açúcar.
- O José de Athayde deixar de gostar de cavalos.
- Os palestinianos terem a sua terra.
- Ruella Ramos apanhar a Mosca.
- O futuro deixar de ser o que, afinal, já não era.
- Cubillas ter saudades da Suiça.
- Brejnev vir assistir a uma tenta no Ribatejo.
- Os presos serem autorizados a irem a suas casas mudar de roupa.
- O ar ser, finalmente, mais leve que o ar.
É pura coincidência.
Alexandre O’Neill
A seguir ao 25 de Abril tudo era incerto, tudo era discutível. Repentinamente as pessoas aprenderam a interrogar-se e a interrogar. O galope das dúvidas abriu rachas profundas nas convicções e nas crenças. Os mais afoitos partiram a loiça toda. E mesmo os mais acanhados não evitaram partir à desfilada no sonho e na fantasia. O sério e o lúdico ficou unha com carne por tudo quanto foi lugar deste país.
No Alentejo, a corda esticou e os folguedos transbordaram da vasilha há muito rasa de impaciência. Os caciques sentiram o tapete da autoridade, moral e terrena, zarpar-lhe debaixo dos pés puxado pela irreverência da alforria popular.
Numa aldeia do concelho de Ferreira do Alentejo, o Alexandre era um aprendiz de cacique mais ou menos em princípio de carreira. Encostado aos caciques com barbas subia sofregamente a corda do poder. Ele era a direcção Casa do Povo... do clube de futebol... e o mais que viesse à rede da sua desmedida ambição. E, no pós 25, também ele se viu envolvido no turbilhão de um mundo às avessas. E começou a patinar, a patinar desengonçadamente num universo de dúvidas.
Entre tantos contratempos, morreu-lhe o pai, calhando um santo homem – não me recordo da pessoa. Com a casa do velório atafulhada de gente, permaneceu junto do caixão, a noite inteira, carpindo o desgosto em voz alta como era atributo das suas sentenças que todos deviam escutar alto e bom som.
- Ai meu pai que morreste e agora vais para o céu! – Calou-se num repente, olhou em volta demoradamente os presentes e só após algum tempo de circunspecção voltou ao chorado lamento.
- Espera aí pai, já não sei se vás, agora há uns que dizem que há, mas há outros que dizem que não?
Ele de quando em vez compensa o sofrimento, com migalhas, para que os crentes não estiquem de overdose.
Valeu-nos São Moreira, guardião do cabanejo e santo protector de uma dezena de atarantados matraquilhos e de mais uns largos milhares de pagadores de promessas.
Não tive a vaticinada revelação, mas apenas uma vacilante esmola.
Também neste reino os fiéis esperam sofregamente a retoma!

Quando gaiato, imaginar a acostagem ao presente ano do presente século, era um futuro tão distante que a minha máquina do tempo desconseguia de o processar. A falta de tempo, também não ajudava ao despacho de devaneios com contornos de ficção científica. Tinha uma agenda de tal forma atafulhada que, conseguir uma entrevista comigo próprio era mais difícil do que pôr a emissora nacional a retransmitir a rádio Moscovo. Mesmo o sagrado cumprimento dos deveres escolares carecia, da parte da gerência, vai não vai, de uns estimulantes safanões. Na falta do rotineiro incentivo, o missionário da tabuada tomava em mãos e na régua o assunto, e coagia psicologicamente o salafrário. O minguado tempo, liberto pelo girar do pião, ocupava-o com os meus botões a imaginar voos loucos escarranchado numa espantosa engenhoca ao encontro de uns gajos esverdeados, mais ou menos esponjosos, a algaraviar uma linguagem parecida com a do Tim McCoy na “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, filmes que devorávamos colados ao écran do ruidoso cinematógrafo improvisado do Juventude, apelidando cruelmente de marreco o desempenado maquinista da cabina de projecção. Depois, a insaciável horda de calções do Poço-entre-as-Vinhas, reunida em assembleia alargada, rebobinava o filme vezes sem conta arremedando os actores e as cenas predilectas. A galope desabrido na sela da fantasia, imitávamos os diálogos das fitas do Gary Cooper. É amaricano, jurávamos a pés juntos!!! Esta linguagem dos camones era, no nosso entendimento, o esperanto que haveria de unir o universo de fio a pavio. Incluindo na clientela do fio a pavio os temidos mas venerados galácticos, e, calhando, não andávamos muito longe do sonho dos américas. Basta ao Bush ajuizar o estilo que os states amandam, caso o amaricano seja o línguarejar daqui-e-além-espaço-sideral, e é só o Colin Powell mandar uma boca ao Pentágono para que uma catrefa de marines, daqueles mascarrados, tratem do assunto, - zás-catrapaz-pás - uns tabefes nos despreocupados verdosos encontrados na primeira esquina da Via Láctea a tagarelar fora do regulamento dos states: agora só falam amaricano, estão a ouvir, senão vem cá o chefe. Isso é que era bué da fixe tudo a papaguear amaricano, dos galácticos à câmara dos lordes passando pelo renitente Saddam.
Ultrapassado – sei lá se ultrapassei - o salutar delírio infantil, cá estou então no dito ano 1 do dito século XXI. Tenho todavia a sensação de não ter percebido lá muito bem o quanto rápido foi acostar aqui. Vale o ter claramente a noção que a paisagem sempre me distraiu imenso! Mas, tendo observado a cédula de nascimento tenho a certeza matemática que a ampulheta continuou a lançar-me na contabilidade, rigorosamente, sem o perdão de um mísero segundo, ano após ano. Está lá preto no branco, ou, em rigor, azul cisne debotado no amarelado do papel almaço a condição de matriculado na década de 50, do pretérito século, com o número de série 2.201.918. Cidadão eborense – o bom filho à casa torna –, por enquanto ainda no activo, mas condenado a engrossar, daqui a não tarda nada – caso a velocidade da viagem se mantenha -, o desactivado exército da 3ª idade. Posto isto, atempadamente solicito à segurança social que amnistie, se possível por despacho do senhor ministro – à cautela prefiro sempre que as altas instancias tenham conhecimento destas petições -, o meu reconhecido peso futuro para as finanças públicas. Mais informo se por azar ou por término de validade, empinar a bota sem o gozo da reforma de nababo, devolverei, intacto, o solicitado perdão aos serviços competentes para que outro sortudo cidadão dele possa usufruir.
Entretanto, enquanto o processo vai desandando qualquer coisinha pelo labirinto da burocracia – o eleitorado sabe que o senhor ministro da modernização administrativa não é omnipotente -, prometo que continuarei a colaborar com o produto interno bruto, não fazendo igualmente segredo da pretensão de me manter um empenhado diletante dos comes-e-bebes e dos outros prazeres em geral. Para comemorar o elevado momento nada melhor que um magnifico cozinhado da altura das matanças, prato tradicional dos barranquenhos.
Jantar de ossos da suã
1 kg de ossos da espinha do porco
½ kg de entrecosto
1 rabo de porco
2 mãos do mesmo animal
1 couve lombardo
3 dentes de alho
1 molhinho de sálvia
1 raminho de manjerona
2 dl de vinho branco
o sumo de 1 laranja
pimenta preta
sal
pão duro para as sopas
Numa panela de tamanho suficiente ponha a cozer os ossos, o entrecosto, as mãos e o rabo, com a pimenta preta, o vinho, a manjerona, a sálvia, e o sumo da laranja. Tempere de sal. Quando a carne estiver bem cozida, junte a couve partida em quartos. Parta o pão em fatias mais ou menos finas e barre-o com a massa de alho que entretanto preparou no almofariz. Deposite as fatias no fundo de uma terrina. Quando a couve estiver cozida, corrija o sal e arrede. Deite o caldo e a couve na terrina por cima do pão. Em travessa à parte sirva os ossos e a restante carne.
Ora nem mais nem menos, aqui está um excelente e caprichoso prato da cozinha alentejana.
Já que é de Barrancos que se trata, como entrada ataque um catalão assado, debicando a espaços umas azeitonas biológicas do Tonico Rações. Seguidamente não tem que saber, faça peito ao prato de substância. Como fica tudo na margem esquerda, prove e vá dando sorvos de prazer num tinto da Granja. Para os postres, coma primeiro com o olhar e depois à colher um doce de amêndoa e gila de Mourão, o resto já é conselho antigo que não vou repetir.
Peço deferimento.
(do livro Alentejanando)
O ciber compadre João Tunes, do Bota Acima, regalou-se imenso com a escrevinhação do alentejanando sobre o túnel do Lopes. E, vai daí, transcreveu a escrevinhação, no apropriado Bota, adornando-a de uma curativa consideração pelo escriba em particular, e outra curiosa consideração pelos alentejanos no geral. No particular que me toca, fico-lhe grato pelo afago no ego. No que toca ao colectivo alentejano, apresenta uma curiosa justificação para a voluntariosa e temporã ascensão aos céus dos alentejanos, vai-não-vai.
Tinha para mim que, este cisma de abalar de viagem quando dá na real gana mesmo sem carta de chamada, era motivado mais por razões de uma farta agastura por continuar a penar as coisas terrenas contra vontade, e, ao mesmo tempo, o de não ficar em favores a ninguém pela burocracia da marcação do despacho. Em suma: ser muito dono do seu nariz.
Mas não só, a coisa pode ter outra leitura segundo o João: (...) (eu acho que, embora não pareça, todos os alentejanos são lúdicos antes de amarrarem uma corda ao pescoço e assim quererem subir ao céu para conversarem com os compadres que já lá estão) (...).
Boa malha João! Esta nova versão vem provar o quanto a rapaziada é danada para a léria, para a brincadeira e da consideração que nutre pelos compadres. Eu, cá por mim, não se dê o caso de ressuscitar, vou de imediato meter uma cunha para descender no mesmo sítio.

Photo de José Manuel Rodrigues
Imagem da tecnologicamente avançada máquina ascensora patenteada e vulgarmente usada pelos alentejanos nas deslocações ao céu.