abril 30, 2004

Com o demo debaixo d’olho...

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Recolhi esta rara e curiosa imagem na Igreja do Mosteiro de S. Miguel de Refojos, Em Cabeceiras de Basto.
É o demo sem tirar nem pôr – atente-se nos pezinhos de chibo e nos corninhos - que carrega simbolicamente a estrutura do órgão. Interessante a ideia dos monges ao terem o demo das portas para dentro na casa do senhor. Possivelmente preferiam tê-lo debaixo d’olho.

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abril 29, 2004

O Lopes as gajas e o túnel...

O tribunal que manda nos outros tribunais mais putos que só servem para atazanar o major batata mais o outro gaijo que manda nos apitos e parece que também negoceia em apitos o tal big tribunal de casos grossos proibiu o Lopes de cavar melhor dizendo os cabo verdianos e os ucranianos e mais outros bigs de louros e bigs de grandes que parece que agora vivem cá contra a vontade do pastilha elástica ou do potas evolucionista trapezista contorcionista mas ao menos servem para cavar.
O Lopes diz que mandou investigar a Barcelona Paris Londres Bruxelas e mais uma resma de cidades acima de qualquer suspeita na questão dos procedimentos e em nenhuma foram detectados impactos pactos patos ambientais tais e quais é tudo na base do entra porco sai chouriço.
Depois aparece um gimbrinhas que se diz secretário de estado de qualquer coisa relacionada com o estado cá pra mim o homem não tem estudos pra isso dá aos pedais e sai de cena.
Deixem cavar o homem deixem cavar à vontade o rectângulo bananeiro calhando o Lopes ainda descobre debaixo do marquês o petróleo que outrora fez negaça no Beato que raio de empatas que só querem involução porra e até era giríssimo (a Lili não entra nesta estória ainda que seja amiga do Lopes) a cidade cheia de túneis e buracos para a rapaziada jogar melhor às escondidas com o fisco e o governo brincar melhor às escondidas com a gente e depois evoluir dum buraquinho a dizer uh, uh estou aqui olha esqueci-me da oposição mas prontos o governo também os deixava reinar nos buracos e túneis do Lopes.
As gajas... na sei por mou de quê falei nas gajas... ora assim como assim sempre remendo a coisa com uma graçola a propósito das gajas e do Lopes...
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(à laia de homenagem ao Stau Monteiro e à sua Guidinha do saudoso Diário de Lisboa)

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abril 28, 2004

Bush & companhia

No Iraque, os américas, voltam a injectar nova dose reforçada de democracia.
O outro moço, dono de uma zarolha subtileza paquidérmica, mais conhecido por Sharon, bate palmas!

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Nada se perde, tudo se transforma...

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O mundo desenvolvido sempre abusou do mundo em desenvolvimento ao escoar para lá os seus artefactos excedentários. É evidente que com a cumplicidade dos governantes e pensantes locais – outros valores mais altos se levantam!
Da enxada para o tractor, assim de repente, ninguém passa sem convulsões. No meio ficou esquecido o domínio e o uso da tracção animal. Há, incontornável, um caminho de habituação e conhecimento a percorrer. É nesse saber e sua consequente apropriação que se deve sustentar o desenvolvimento equilibrado e harmonioso.
Na década de 80, em Moçambique, a região do Chokwé fervilhava de planos desenvolvimentistas. Um porradão colossal de hectares para a produção de arroz. Para tantos hectares de arroz havia que ter um porradão de tractores e auto-combinadas (ceifeiras debulhadoras). Lá se adquiriu a magnifica maquinaria. Só que a rapaziada local foi paulatinamente descobrindo da utilidade, para a sua vidinha, de algumas componentes da dita maquinaria tecnologicamente desenvolvida. Daí até uma parte substancial do parque de ceifeiras estar impróprio para cumprir a sua obrigação, foi um abrir e fechar de olhos. A rapaziada tinha descoberto uma certa corrente que as ditas ceifeiras tinham como necessária ao funcionamento do maquinismo de recolha do cereal. E as ditas correntes serviam às mil maravilhas no maquinismo de tracção das suas gingas (bicicletas pedaleiras).
Assim como assim, valha o sábio combate ao desperdício: nada se perde, tudo se transforma.

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abril 27, 2004

O vento é nosso inimigo

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Lavar as mãos com sabão... Comer pão com azeitonas... Ter a cama junto duma parede, branca, onde eu possa encostar as mãos, e sentir fresco...
Vem depois o vento, e leva-nos... E só deixa ficar a recordação.

Raul de Carvalho

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abril 26, 2004

Ainda o vinho...

(...)
Por carta de 4 de Maio de 1221, D. Afonso II determina a plantação de vinhas, cujo produto se aplicará à fábrica da Sé de Évora. Na Idade Média a vinha estava disseminada por todo o Alentejo, tendo o clero e a nobreza a predominância da cultura e produção de vinho. Houve períodos de grande desenvolvimento da vinha, como refere Barata, durante o período de dominação espanhola. No entanto, com a Guerra da restauração houve grandes destruições, conforme se refere:
“Até ao ano de 1663 povoados de vinhas eram os coutos da cidade; neste ano, porém, foram elas taladas dos hespanhoes durante o cerco que puseram a Évora, e, de tal forma desfeitas que boa parte só nos conserva hoje a memória o poço entre as vinhas, a sueste da cidade. Uma parte há, porém, a oeste dela, que medirá três quilómetros de largo sobre outo o dez de comprido, a começar para lá da Cruz da Picada até entestar com a Ribeira de Valverde, sítio paçal dos Arcebispos de Évora, a qual em toda, ou na maior parte, é povoada de vinhas, pertencentes a muitos senhorios. Peramanca se diz toda esta região de excelentes vinhos. Tão estimados eram ainda no século XVI estes vinhos, que diversos escriptores se lhe referiam, sendo um dos mais antigos a paródia bacchica ao Canto I dos Lusíadas escrita por alunos da Universidade, Manoel Luís, Luís Mendes de vasconcellos e outros, na qual se lê:

Borrachas, borrachões assignalados,
Que d’Alcochete junto a Vila Franca,
Por mares nunca dantes despejados
Passaram ainda além de Peramanca
Em pagodes e ceias esforçados
Mais do que permitia a gente branca,
E Évora cidade se alojaram
Onde pipas e quartos despejaram”.

(Colaço do Rosário – Alentejo o vinho e a sua tradição / do livro A Talha e a Sertã)

Ao mestre Colaço do Rosário devemos o trabalho pioneiro no relançamento da nova era dos vinhos do Alentejo. Bem-haja mestre!

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Imagem do livro A Talha e a Sertã

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abril 25, 2004

Um 25 de Abril do branco ou do tinto

Preliminar
Naturalmente também vivo das coisas boas que me aconteceram e o dia 25 de Abril é uma das mais saborosas.
Nunca fui muito de foguetórios comemorativos.

Antes de Abril, durante a “primavera” marcelista, estive presente em alguns jantares comemorativos do 5 de Outubro e do 31 de Janeiro. Inclusivamente, num desses jantares, acabámos detidos pela pide, eu e o velho Galego. A comparência dos jovens, nestes actos oposicionistas, devia-se mais a uma postura agitadora do que comemorativa. Era um dos necessários sustentos da adrenalina da revolta.
Depois foi a radicalização da luta e já não dava para jantares. Depois foi Abril e o saltar da rolha a um país macambúzio. Foi a festa pá. Uma bebedeira tremenda para a rapaziada da minha mocidade. O desfraldar na rua da palavra liberdade que, até aí, apenas alguns escreviam nas paredes pela calada da noite. Fez-se o que se tinha que fazer, aconteceu o que tardava há muito acontecer.
De lá para cá, muitas voltas deu o mundo, muita água passou debaixo das pontes deste país. Tanta água que a coisa pública debotou a olhos vistos.
A rapaziada cá da palhota foi para a rua comemorar. Eu fiquei a comemorar com os meus botões, com as minhas memórias e com a minha música (do meu amigo Zeca). Na companhia de um 25 de Abril de vinho tinto, cheio!
Vale a pena decifrar que o nome de 25 de Abril foi dado, pelos homens da minha terra, aos antigos copos grossos da água quando cheios de vinho, tinto ou branco. Uma sugestiva e distinta forma de festejar a alegria da data encostada ao prazer do vinho. Ainda hoje qualquer taberneiro conhece a nomenclatura.
Vá mais um 25 de Abril.
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abril 24, 2004

Passar do testemunho

Sempre tive uma mágoa imensa de ter umas cordas vocais que mais parecem de azinho. Quando muito, e a custo, apenas servem para acompanhar o coro a meia voz ainda assim não estrague a harmonia dos que têm jeito. Foi a cruz que me calhou carregar para toda a vida, a de ter uma goela que desafina da condição de alentejano. Resta-me o consolo de escutar o prazer do cante. O que já não é pouco, digo eu em abono da verdade.
Vem este desabafo a talhe de uma enorme satisfação. Um contentamento que deveria ficar apenas no armário das coisas íntimas. Aprazimento que, na manêra de ser transtagana, um homem apenas deve conversar com os seus botões. Quando muito, coisas que apenas se desembucham das portas para dentro, na roda de amigos.
Mas então esta transbordante vontade de que não se perca a gesta e o gesto. Esta imensa vontade de contribuir para perdurar viva a identidade da planície e dos homens diferentes que nela habitam. Daí este grande querer dar vaia do contentamento que sinto. Aí vai: o meu filho, que não desafina da condição de alentejano, vestiu o traje do cante e debutou no Grupo de Cantadores do Redondo.
Quando partir somo na coluna do haver terreno mais este contentamento!
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abril 23, 2004

Alterne...

No trigésimo aniversário do 25 de Abril, basicamente, ao país, restam clientes para duas alternativas: a prisão ou o desemprego.
Calhando está a precisar de um 50 de Abril??!!

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Como a vingança, serve-se frio

Não há dúvida que a tradição já não é o que era. O ano de 99, penúltimo do século, quer definitivamente ficar mal no retrato. Tem corrido a modos que manhoso. E vai daí a rapaziada, que não é de modas, diz que o tempo está de todo chanfrado. Para uns, é dos americanos terem ido à lua, para outros mais eruditos, é da poluição. O que não deixa de ser verdade é que estamos em pleno mês de S. João e o calor anda a modos que arredio.
Vem isto a propósito das comedias usuais para esta época de dias calmosos, dias em que nada mexe a não ser a miragem ondulante da linha do horizonte. Dias em que o único som é o das cigarras com aquela cegarrega mínimal repetitiva. Comedias estas que têm um tempo certo, a lembrar um calendário do desejo e do apreço culinário. Tempo certo que, igualmente, tem a ver com a sazonal existência dos ingredientes necessários.
A sopa de beldroegas com queijo, tem o tempo marcado pela incontornável existência das ditas expontâneas portuláceas, tempo que é o do verão e das regas na horta onde nascem e se acolhem as ditas carnudas. Joaquinzinhos fritos com salada de tomate e pepino, gaspacho com figos e uvas, fígado de coentrada com batatas cozidas, frango frito com salada fria de batata, costelas de borrego panadas com migas de batata, achigãs grelhados com salada, são declaradamente iguarias apetecíveis no tempo do calor dada a sua condição de pratos frios.
A receita da presente mesa da malta foi retirada da gaveta comensal do verão. Não sendo nenhuma vingança, trata-se de um sustento para servir frio e em que a chicha é coelho. Não sendo eu um comedor muito dado a esta bicheza considero, no entanto, uma maneira bem interessante de preparar a coelhada bravia ou de criação. Responde a receita por S. Cristóvão, da Freguesia do mesmo nome nos termos de Montemor-o-Novo. Concelho de gentes que nunca deixaram a cozinha por mãos alheias. Recordo a célebre perdiz à Montemor, sustento de deuses, como aos mesmos não desmereceria o láparo tratado pela imaginação e mãos divinas de S. Cristóvão.
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Coelho à S. Cristóvão
um coelho, melhor se for bravo (atenção ao defeso)
um copo de vinho branco
umas fatias finas de toucinho fresco ou da salgadeira
seis dentes de alho
uma cebola
um ramo de coentros
azeite, vinagre e sal para temperar a gosto

Na véspera do dia do consumo, assa-se o coelho no carvão muito lentamente, para não tirar muito suco à carne. Previamente fez-se uma massa com os alhos, vinho e sal, pasta com o que se barrou o coelho para de seguida se envolver nas fatias de toucinho. Quando o bicho está no ponto da assadura, desenrola-se do toucinho e desfia-se com paciência de chinês para uma tigela. Picam-se os coentros e a cebola, tempera-se com o azeite e o vinagre, salga-se a gosto. Mexe-se bem e deixa-se a macerar até ao dia seguinte.

E pronto, os pézinhos para debaixo da mesa. Gosto pessoalmente de aparelhar este prato com umas batatinhas novas, assadas a murro e depois aveludadas com um fio de azeite e com salpicos de oregãos. Esta comedia não desmerece um branco encorpado. Para os postres, saboreie uma meloa fresca de colherada.
Café e um digestivo. Já agora, ainda em tempo do digestivo, acenda um puro e desfrute. Para um bom trabalho na digestão, nestes dias calmosos, nada melhor que uma sesta.

(do livro Alentejanando)

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abril 22, 2004

Soror Mariana – Beja

restolho.jpg

Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nota com algum atraso: por mou das dúvidas, a generalidade das imagens sem nome – tal como a presente - são da minha lavra, no entanto, algumas outras, escassas, são de outros autores cujo nome desconheço.

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abril 21, 2004

Atão na é que prenderam o major batata. Não me digam que só agora o exército deu pela falta dos ditos tubérculos.

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Afinal...

Não é que os moços não tenham a sua graça só que, para o peditório dos artistas da prosápia, já paguei quotas que bastem. E quando assim é, resta-me passar-lhe de largo. Dos Barnabés, ao largo comecei a passar depois de lhe topar a jactância vanguardista. Decididamente, já não havia pachorra!

Sábado passado, após opíparo jantar no Géninho do Fidalgo, remámos por um Bairro Alto virado oceano de putos na busca de um balcão de abrigo para os tragos da abaladiça. Para galo supremo, aportámos numa baiuca atafulhada de bloquinhos louçãs. No meio do zaronzel, entre tragos digestivos e panfletárias conversas cruzadas, fez-se luz: sem tirar nem pôr, ora aqui está a juvenil clientela do infatigável Barnabé.
Brincando com a questão, de união em associação, veio-me à ideia a barnabesca tendência para seduzir os putos. Só pode, quando se tem clientes portadores de esquerdismo – maleita tecnicamente conhecida como a doença infantil do comunismo. Ainda de união em união, mais me sugeri que o foco infeccioso está precisamente no seio dos Barnabés, particularmente no Barnabé Tavarinhos, moço opinativamente precoce que, aos treze anos (repito: treze anos), cindiu com o partidão, contraindo a dita maleita.

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abril 20, 2004

Pisar a terra nua e crua

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Photo de Mariano Piçarra

Há mestres construtores que levantam casas em terra crua. Isto desde o tempo em que Cristo andava pelo mundo. Deitam a terra entre dois taipais de madeira, fecham os topos com comportas, apertam tudo com agulhas de ferro, costeiros e cordas e pisando-a com maços, levantam paredes. Esses especialistas eram – porque hoje já quase não existem – os construtores da taipa, pedreiros que, além desta, dominavam outras técnicas de construção.
A maior parte do Alentejo abrigou as suas gentes em casas de taipa. Casas senhoriais de impressionante traçado foram assim construídas, sirva como exemplo o Paço Ducal de Vila Viçosa. Outras vezes eram construções de somente quatro paredes, quase sem compartimentos, como as pobres casas do Castelo, em Serpa.
Construir em taipa é uma forma de utilizar o mais singelo e comum dos materiais: a terra. A pedra há que procurá-la aqui e ali, ajeitá-la, parti-la. O tijolo há que moldá-lo do barro, secá-lo, cozê-lo, dispô-lo um sobre o outro. A terra, de onde vimos e aonde retornamos, é outra coisa. Está à mão. Existe em toda a parte. Há só que compactá-la para que ganhe resistência. Prensá-la de forma adequada, para que se transforme em barreira contra a intempérie. É uma invenção quase óbvia do homem.
(...)

(do livro Margem Esquerda do Guadiana de João Mário Caldeira)

O João Mário é um alentejano meão na altura, mas de grande inquietação. Nasceu na aldeia de Santo Aleixo da Restauração já lá vai um porradão de anos, tantos, que já tem netos. Da academia da cidade grande trouxe um canudo de historiador. A sério, a sério, a história aprendeu-a na sua terra com a sua gente. O João Mário é a modos que um homem observador. Levou a vida professorando a mocidade da margem esquerda do Guadiana. E escreve, escreve magnificamente das coisas da nossa terra. Tem a veia dos dezedores antigos desta transtagânea de poetas. E na esteira destes, gosta igualmente da pinga, do petisco e de afeiçoar a goela ao cante na companhia dos amigos.

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abril 19, 2004

Palpite...

Com tamanhas patifarias cometidas em seu nome, podem esperar sentados que Ele jamais autorizará o seu filho a descer à terra prometida para guiar esta espécie de povo eleito.

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Zapatero

Um político com a verticalidade não deitada!

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abril 18, 2004

Coretos

Coreto Ponte Sor .jpg
Coreto de Ponte de Sor

A par do Cine-teatro, são um elemento patrimonial identificador do labor e apreço das gentes da planície pela cultura. Aos domingos e sobretudo nos dias de festa as bandas, orquestras, tunas e corais habitavam os coretos e o povo entusiasmado habitava as praças e os jardins em redor.
Isto, nos tempos antes de existir aquela trampa de caixa que os estupidifica com golfadas de merda telenovelesca.

(...)
Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à Vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve
o burro da nora da Quinta Nova
espetava as orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.
(...)

(Manuel da Fonseca – Mataram a Tuna)

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abril 17, 2004

Entre Montados

Entre montados, olivais antigos,
laranjais, vinhas, candentes searas,
hortas frescas com as suas noras,
movem-se homens decididos.
Em tudo o que fazem põem gravidade,
serenidade, cuidado, harmonia.
Ao morrerem, morrem sem temor da morte,
que acham natural como terem nascido.

Armindo Rodrigues

Pelico.jpg
photo de José Manuel Rodrigues

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abril 16, 2004

De rija tempera...

Ontem como hoje, o homem é um duro. O bicho não verga, é um rijo. Qualquer dia alista-se na GNR com a condição absoluta de ir para o Iraque ou para outro sítio onde, sem tréguas e de canhota nas unhas, dê combate aos maus! O bicho não esquece os ensinamentos: a depuração é uma consequência da revolução, cuja salvaguarda compete aos verdadeiros revolucionários. Nem mais! Assim se temperou o aço!
Viva Engels, viva Marx, viva Lenin, viva Stalin, viva Mao Tse Tung, viva George Bush!

Hoje (dia 14, editorial do Público), George Manuel Fernandes, senhor da incontestável tempera que desde antanho se lhe reconhece, barafusta:
(...) É este o mundo em que vivemos. Um mundo que exige cooperação e coragem. Um mundo que não autoriza que se enviem aos terroristas mensagens de fraqueza, como as enviadas pelos países (França e Alemanha) que apelaram aos seus civis para abandonarem o Iraque. Ou por Durão Barroso, que fez questão de dizer que não garantia a segurança dos oito (repito: oito) civis portugueses. É isso que os terroristas querem ouvir.
Também o Barroso claudicou, também o Barroso é um traidor à linha justa!

Ontem (lá atrás mas de fresca memória), Mao Manuel Fernandes, revolucionário de incontestável tempera que desde os calções se lhe reconhece, assente na expulsão de João Pulido Valente do seio da UDP. O contra-revolucionário João Pulido Valente, à altura indicado pela organização como representante do povo na Assembleia Constituinte, cometeu a traição de visitar na Prisão de Caxias o fascista Jorge de Brito. O mesmo fascista Jorge de Brito que, no tempo da outra senhora, visitava João Pulido Valente no Forte de Peniche. As recíprocas visitas, do facho ao revolucionário, do revolucionário ao facho, antes e depois de Abril, deviam-se a uma longa amizade contranatura.
Já ontem a linha justa não se compadecia com atitudes contra-revolucionárias.

Mãe, por vezes cresce-me uma vontade de regressar à paz sensata do teu útero mãe. Mãe, eu não quero ir com estes cães à caça mãe. Entram mal nas silvas!

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abril 15, 2004

Regar-de-pé

Dos Árabes, coube-nos a herança da sua sapiência no cultivo de hortas e pomares. Esta sabedoria estava em perfeita sintonia com os seus avançados conhecimentos de hidráulica. Elevar e conduzir águas, era uma necessidade ditada pela intensificação de culturas e aumento das áreas de regadio. Assim o exigia o seu apetite pelo consumo de frutas e legumes. As frutas que hoje fazem parte da nossa dieta alimentar, uma grande maioria passou igualmente pela mesa dos Árabes. Consta inclusive que foram percursores da engenharia vegetal, ao inventarem os damascos. Cardos, labaças e espargos eram matéria-prima culinária de apanho ao deus dará que, tal como nós, de maneira alguma enjeitavam. Favas, ervilhas, grão-de-bico, berinjelas, espinafres, cenouras, nabos, rabanetes e pepinos, eram o brio dos seus hortejos e prática quotidiana da sua mesa. Não desprezavam igualmente o alfobre dos alhos, dos coentros e da hortelã. Sem esta última, o que seria da famosa infusão, verdadeira lenda bebível dos povos do Magreb.
Dos tempos do mítico Al-Andaluz até quase ao finar do XX, conservaram-se estes saberes e fazeres. Basta-nos observar os hortejos que pululam por esse sul a fora, nas bordas das cidades e vilas, pequenos quinchosos onde o operário mantém o seu imaginário camponês.
O acto de regar sempre envolveu o prazer de saciar, do dar de beber ao que tem sede. É um acto fraterno muito ao jeito do camponês. Regar-de-pé, é uma expressão comum no vocabulário do hortelão cujo significado se prende com o conduzir da água através de regos, pela força da gravidade, de forma a que a terra húmida e saciada se torne produtiva. É precisamente nesses regos condutores da água, permanentemente húmidos, que cresce uma planta espontânea, em regra prostrada, carnosa e muito suculenta, da família das portuláceas. É essa planta que, no léxico comum, se denomina de beldroega.
Sem saber ao certo das razões do acto, pela necessidade ou apenas a paixão da novidade, o certo é que imagino o hortelão puxando o chapéu desabado para o cocuruto, enquanto coçava a cabeça e remexia com o olho da enxada na carnuda planta, ao mesmo tempo que remoía com os seus botões que a dita tinha pés para andar a caminho da panela. Assim o pensou melhor o fez, possivelmente com a ajuda da mão cozinheira da sua Maria. O alho, mas a cabeça inteira. O queijo, à falta de outro vai o de cabra que também é queijo. E o pão? Claro, atão p’raquê o caldo sem a sopa de pão. E não é que a coisa tinha mesmo pés para andar! Tanto que tinha que, de ideia em ideia, de panela em panela, de sabor em sabor, angariaram as beldroegas companhia de peso e extravagância capazes de se cobrirem de glória.
Quem conta um conto acrescenta um ponto. Calhando, estou a meter a foice em seara alheia... No entanto, atrevo-me a imaginar assim o nascimento da fabulosa sopa de beldroegas.
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Sopa de beldroegas com queijo
2 molhos de beldroegas
1 Kg de batatas
4 cabeças de alho inteiras
2 queijos de cabra
4 ovos
1,5 dl de azeite
sal
pão duro fatiado

Partem-se as beldroegas aproveitando as folhas e os caules tenros. Tiram-se apenas as cascas exteriores das cabeças de alho, mantendo as cabeças inteiras. Aquece-se o azeite e refogam-se as cabeças de alho, juntando de seguida as beldroegas que também se refogam ligeiramente. Acrescenta-se a água (1.5 l ) ao refogado e deixa-se levantar fervura. Deitam-se os queijos cortados aos quartos mais as batatas às rodelas. Quando estas estiverem cozidas, rectifica-se o sal, escalfam-se os ovos e verte-se o caldo numa terrina sobre o pão fatiado. As beldroegas, o queijo, os ovos escalfados, as batatas e as cabeças de alho são servidos como acompanhamento em travessa à parte.
sopa_beldroegas.jpg
Para maior regalo da comedia, acompanhe com um branco maduro alentejano.
Como aconchego para dar azo à trabalheira da digestão, console-se com uns figos de S. João devidamente descascados e bem frescos.
E agora, à sesta malta, que se faz tarde.

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abril 14, 2004

A ler

No Albardeiro há um belíssimo texto sobre a origem da designação Alentejo.
A ser consumido e compreendido???? especialmente pelo autarcas candidatos a novos senhores das Taifas.

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Do elementar...

A casa.jpg

A Casa

Paredes brancas pátios interiores
as mesas largas as cadeiras quase toscas
despojamento de convento e de deserto
a planície prolonga-se na casa
com seu rigor e sua estética
do necessário
do liso
do elementar.

Aristocracia do pobre
com sua manta e com o seu cobre.

Há um cheiro a pão recém-cortado.

A casa alentejana está escrita na planície
como o poema no branco descampado.

Manuel Alegre

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abril 13, 2004

Palermas efémeros

A propriedade é um roubo. Não, eu não. Foi o Proudhon que o disse! Mas, a bem dizer, eu concordo com a premissa. Tanto que concordo que costumo dizer: o transitório néscio que da terra se ergue e abre presumidamente os braços tentando envolver a putativa posse de um chão intemporal, jamais entenderá que apenas tem como moeda de troca um desvalorizado esqueleto.
O mesmíssimo penso dos palermas autarcas que se julgam com a legitimidade – eu não lhe outorguei absolutamente nada, aliás, jamais outorgarei! – de retalharem uma coesão territorial sedimentada na consciência do tempo.


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abril 12, 2004

Namorei-a uma vida sem ela saber

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Tantas outras que namorei sem elas saberem. Calhando, sabendo, acabava-se o namoro?
Por esta nutri seguramente um deslumbre especial. Mesmo sabendo-a carregada de imperfeições. Diziam-na esquelética, andrógina, libertina, falha de mamas. Nunca apreciei os ingleses e, inclusivamente, sabia-a inglesa.
Nada demoveu esta paixão iniciada por uma voz sussurrada, gemida e atrevidamente explicitada em francês. Por trás, uma música hipnotizadora, capaz de ser reconhecida por um qualquer terráqueo nos primeiros três segundos.
Aquela música espessa de erotismo foi um ganchudo murro no estômago da pudorenta moral reinante. O «Je t’aime… moi non plus» não deixou pedra sobre pedra no muro da vergonha que nos aprisionava a libido. Nada mais foi com antes. Aquele pequeno vinil rodou mais quilómetros que o transiberiano percorreu durante a vida toda, motivando os apaixonados pares da minha mocidade a inventarem uma nova forma de dançar. Não sair do mesmo sítio até ao fim da viagem do vinil.
Depois, no Salão Central Eborense, vi a minha diva contracenar com o Alain Delon e a Romy Schneider na fita “Piscina”. Por mou da displicência de um qualquer pardo mas entusiasmado sensor, penso ter debutado no cenório in loco umas mamas – pequenas é certo mas altamente esclarecedoras. Aí tive a certeza que era um amor para toda a vida. Aí tive a convicção que a Jane jamais me trairia.

Hoje sei que não me traiu. Hoje sei que soube envelhecer com sabedoria, transitando o tempo com a inteligência dos fadados. Continua suavemente bela esta mulher. Este trabalho parido aos 57 anos prova-o!
Um dia destes ofereço-lhe uma rosa e convido-a para jantar num sítio que eu cá sei.
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abril 11, 2004

Distrito de Moçambique

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(photo de José dos Santos Rufino – 1929)

Imála: Um valente «team de Foot-ball» - que ainda ha de batêr-se com os campeões da Europa...

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RAÇAS, USOS, COSTUMES INDÍGENAS e ALGUNS EXEMPLARES DA FAUNA MOÇAMBICANA»

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abril 10, 2004

As casas também se abatem

Portas de Moura.jpg
(photo Gérard Castello-Lopes – Évora, 1956)

A casa da direita, na imagem, foi derrubada por alturas de 1957. O seu desaparecimento deu lugar ao nascimento do Largo das Portas de Moura. O perímetro da casa passa a ser o tabuleiro central do novo Largo. Ainda à direita da imagem existia, por esta altura, o edifício do quartel dos bombeiros. Edifício, um pouco mais tarde, igualmente sacrificado em prol da construção do novo Palácio da Justiça. Aliás, o nascimento do novo largo esteve certamente ligado a uma visão de grande evidência e monumentalidade para a nova casa da justiça. A marcante traça arquitectónica “estado novo” confirma-o. O grandioso epíteto de Palácio da Justiça também.
Foi a grande obra pública eborense da dobra do meio século. Nela trabalharam maioritariamente os presos da cadeia da cidade. Não sei ao certo se voluntariamente, mas, porventura, a troco de meia dúzia de patacos.
Do derrube da casa outrora existente no lugar do tabuleiro não me recordo. Na memória apenas tenho o formato do actual Largo das Portas de Moura. Da existência do quartel dos bombeiros lembro-me perfeitamente. Na portada do quartel habitava um macaco que fazia as delícias de pequenos e grandes. Símio este que acompanhou a mudança da corporação do comandante Assis para o novo quartel ao Chafariz d’El-rei.
O comandante Assis era um homem importante, na pose e nas medalhas que lhe cobriam por inteiro a ampla peitaça. Dava largas à vaidade medalhada, ao volante da sua negra arrastadeira citroen, passeando a importância de chefe de um batalhão de soldados da paz, mas em todo o caso soldados.
Fogos de outros tempos!

Publicado por machede em 01:39 AM | Comentários (0) | TrackBack

abril 09, 2004

Viva o Alentejo vivo...

A comunidade e a escola de Ouguela têm um blogue. Prá frente rapaziada, pra trás mija a burra.
O Alentejo move-se, devagar mas move-se!
Ouguela copy.jpg

Publicado por machede em 08:41 PM | Comentários (4) | TrackBack

Modas...

Dantes, éramos tu-cá-tu-lá com o mano piolho.
Agora, somos tu-cá-tu-lá com a mana bactéria no hospital.

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A propósito do dia de hoje...

Carnes.jpg

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abril 08, 2004

Ainda a sedução da pesca...

Baleal.jpg
(imagem colhida no Baleal)

Esta sedução acompanha o homem desde sempre. Esta embriaguez de capturar a presa pela argúcia da pesca. Esta arte temperada no conhecimento e na sorte. Este ritual que obedece a algumas regras simples, instrumentais e técnicas, aplicadas com maior ou menor eficácia e destreza. Esta volúpia que leva o homem a transgredir-se.
O homem que pesca tem um imenso prazer!

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abril 07, 2004

Políticos...

parlamento.jpg

No tempo da outra senhora, alcunhar um sujeito de político, determinava desde logo que o dito era da oposição. Os chefes e militantes da situação estavam acima da política, conduziam o rebanho em nome dos interesses superiores da Pátria. Fazer política era remar contra a vontade divina. Fazer política era estar contra uma autoridade que, desde cedo, aprendêramos ser indiscutível.
Perante tal carga, para a humilde maioria do rebanho, a ousadia de fazer politica e estar contra a situação, assumia contornos de valentia. Daí que, as pessoas que o ousavam, clandestinas ou não, fossem encaradas intimamente como desapegadas e corajosas. O ser político não era sinal de falta de honradez, antes pelo contrário, era temeridade desinteressada.

Há uns dias atrás, a meio de uma caminhada para sul, parei em Ourique para desentorpecer as pernas, beber um trago e comer uma bucha. E estive por ali um tempo a dar fé da conversa das gentes do sítio. Entraram e saíram viajantes. Até que entrou um grupo onde pontuava um conhecido figurão da nossa fauna política. Olharam-no como se fosse um vulgar passante. Não despertou o mínimo entusiasmo, tive até a sensação que, propositadamente, o ignoraram mais que aos outros. Saiu como entrou, vulgar de Lineu.
Fiquei mais um pouco, o tempo de outro trago e o entusiasmo pela irónica conversa dos nativos. Ás páginas tantas, abordaram a desfaçatez ministerial ao sacudir a água do capote por mou dos fogos do verão passado. De imediato a assembleia foi unânime em apelidá-lo, ao ministro, de um ror de coisas que só se chamam ao patifes de alto coturno. Terminaram sublinhando que pertencia ao mesmo rol da malandragem do que tinham acabado de ignorar, por sinal de cor oposta ao governante. Mais disse a assembleia que todos votavam (segundo percebi, nem todos no mesmo) afim de os mudar de vez em quando -enquanto o pau vai e vem folgam as costas, concluíram.
Trinta anos volvidos, nem corajosos nem honrados. Malandragem de fio a pavio, nem mais nem menos!

Publicado por machede em 12:23 AM | Comentários (3) | TrackBack

abril 06, 2004

O homem que pesca

A quietude mansa das águas espelha a paz da natureza. Nem a comadre rã se atreve a serrar o silêncio. Nas margens, de vez em vez, apenas se sente o restolhar fugidio do anafado coelho que com o anunciar da aurora põe termo à labuta pela sobrevivência. Está prestes a fechar-se a gaveta do sossego da noite. Está prestes a abrir-se a gaveta do desassossego do dia. É neste ápice que medeia entre o fechar e o abrir, entre o sai a noite e entra o dia, entre o morrer e o nascer, que a vida parece suspender-se como que a reflectir a sua harmonia. É da contemplação desta magia da harmonia que também se alimenta o vício do pescador. É como que um regressar às origens do homem caçador, em que o acto tinha a solenidade da inteira comunhão com a mãe natureza.
Depois, com levantar do sol, com o levantar da impar luz da planície, que se definem os contornos do homem que pesca. Calmo, expectante, atento ao menor indício, pronto a saborear a vertigem do pique e da argúcia e sabedoria na recolha da presa. É este o momento alto do vício, o climax do homem que pesca.
Apetrechado com a singela cana comum, o anzol, a bóia de cortiça e o fio atado na ponta, ou com um estendal de estilizadas canas e demais artefactos e assessórios que mais parecem tecnologia provinda da NASA, o pescador mata o vício hipnotizando a água na iminência de pescar. Se não pesca, é o desalento manifesto na condição de apanhar o chibato. Resta-lhe o consolo de na próxima a sorte não ser avessa, que a parte da comunhão é sempre lucro.
Eu pescador me confesso. A minha paciência piscatória não tem limites, basta-me estar lá a pensar no nada ou em quase tudo, apenas com o enorme prazer de ter pontapeado à saída da cidade os tudo que me preocupam e enchem a vida de nada. É decididamente o meu yoga.
O local onde se pratica o acto, o sítio denominado por pesqueiro, é sem dúvida um pormenor de primordial importância. Sem menosprezar os gostos e as tendências dos meus parceiros de yoga, sou doentiamente criterioso na sua escolha. Selecção que fundamento em dois itens: o palpite na abastança piscícola do sítio e o aprazível e beleza da margem que me dá assento. Os olhos e o conforto também pescam.
Há ainda um aliciante que torna as pescarias em fabulosas folgas. É o inevitável companheirismo que carregam, solidificando tertúlias saboreadas ao longo de vidas. Jornadas quase exclusivamente masculinas, em que a ironia, a critica, a anedota e a mímica redundam em comédias representadas num palco do tamanho da margem inteira. A acrescentar a estes improvisos teatrais de fim de semana, há o copo e o petisco, sustento imprescindível para o estômago e espírito dos bravos do anzol.
Há ainda as subtilezas inerentes ao valor das espécies. Para uns, tudo o que vem à rede é peixe, para outros, apenas conta a pesca dos pontos necessários aos troféus. Eu subtraio da água apenas o que me dá prazer gustativo e me alimenta. Muitos outros haverão para quem a pesca, apenas tem sentido pelo somatório dos prazeres da arte e do palato.
Vem esta lenga-lenga a propósito da minha última jornada piscatória que teve por palco a albufeira do Monte do Vale de Lameira, ali nos termos de Alcáçovas com o Torrão. Pescando furiosamente ao achigã com isco a condizer, embarbelou-se uma admirável carpa que retirei após uma batalha tremenda. A adjectivização excessiva tem a ver com a famosa oralidade dos pescadores, da qual também não estou arredado.
Carpa.jpg
(photo Inês Gonçalves)
Carpa no poial da cozinha perante o espanto da famelga, enquanto eu dava voltas à imaginação para dar um arranjo comestível ao ciprinídeo. Devo informar os leigos que a dita, não é bicho de estimação na óptica da culinária regional. Bom, mas nada melhor do que pedir socorro há cátedra sapiente do Manuel Fialho e do Alfredo Saramago. E pronto, Cozinha Alentejana, página 118, ei-la, a plebeia Carpa no forno.
Mas, como gosto de reflectir as questões e fazendo juz ao meu esforçado amadorismo culinário, dei-lhe o meu toque pessoal que, após experiência feita, aconselho vivamente.

Carpa no forno
1 carpa grande (2 kg)
0,5 l de sumo de limão (do meu acrescento ao original)
5 cebolas
6 tomates
1 pimento
6 dentes de alho
1 folha de louro
2 dl de azeite
2 colheres de banha (do meu acrescento ao original)
1 colher de massa de pimentão (do meu acrescento ao original)
sal e pimenta
batatas para acompanhar

Arranje e limpe a carpa. Com uma faca bem afiada, golpeie a carpa em continuo e de enviesado com a proximidade possível e até à espinha dorsal sem a cortar. Repita a operação do outro lado com o enviesado ao contrário. Deixe a carpa de um dia para o outro a marinar no sumo de limão apenas temperada com sal, voltando-a por quatro vezes.
Retire a carpa da marinada e escorra-a. Num tabuleiro de ir ao forno faça uma cama com rodelas de cebola, rodelas de tomate, rodelas de pimento e alho picado. Deite a carpa em cima desta cama, esmague o louro e junte com a banha, com a massa de pimentão e a pimenta e barre a carpa por cima. Regue com o azeite. Ponha no forno em lume brando. Durante a assadura regue a carpa amiúde com o molho e corrija o sal. A meio da assadura junte em redor da carpa as batatas partidas aos quartos.

No meu painel de provadores tenho por figura incontornável a minha mãe, emérita cozinheira com saber feito de uma vida. Expectativa enorme, prognósticos vários e avulsos. Cheiro e aspecto a criar uma opinião favorável.
Assunto pronto na mesa, e sem favor algum a fazer figura de raridade gastronómica. Um branco da Vidigueira a acompanhar a movimentação. A meio da jornada, o consenso estava obtido. A Carpa no forno é sem dúvida uma iguaria que se recomenda.
A bem do Alentejo, pela valorização dos nossos recursos endógenos.

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abril 05, 2004

Abril flores mil...

Abril.jpg

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abril 04, 2004

Xitizap # 11

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Mais um que a arte pictórica lhe transborda soberba e ganha a vidinha nos pardos labirintos da burocracia. Mais um que escorre a vida com o freio e o bridão na criatividade que lhe brota a jorros.

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Cipriano

O Xitizap # 11 está nas ruas da aldeia grande. Para além do depurado grafismo e de uma nesga pictural made in Cipriano, das fotos do Cabral, o Lopes continua a produzir, sem papas na língua, a coragem do verbo:

. lágrimas de crocodilo
. Chongoene Doks
. memórias do Chibuto
. titânio
. elektro papos
. astro stuff
. a raça existe?
. pixels II

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Cabral

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abril 03, 2004

O génio na ponta dos dedos...

Paredes 2.jpg

Nas cordas dedilhou um mundo de pautas de sublimes composições, obras que abriram a fronteira da música erudita à guitarra portuguesa. Paradoxalmente, esta arte maior de Carlos Paredes não o alimentou nem o vestiu. Estupidamente, ganhou o pão que a pátria lhe amassou arquivando imagens dos interiores de milhares de compatriotas no hospital de S. José. Como qualquer manga-de-alpaca catalogava burocracia das 9 às 18. Das 18 às 9 habitava uma genialidade musical imensa. Uma genialidade que, um dia, impeliu Amália a dizer: Paredes é um monumento nacional como os Jerónimos.
Vai para dez anos que, uma doença do foro neurológico, impede Carlos Paredes de perpetuar o movimento dos verdes anos.
Ditosos filhos que suportam tal pátria!

Paredes 1.jpg
(photo obtida em Monsaraz, no último espectáculo do mestre)

Publicado por machede em 12:16 AM | Comentários (2) | TrackBack

abril 02, 2004

Eh eh eh...

1.Escrevam no "Word" em maiúsculas: Q33 NY (o nome do avião que, no 11 de Setembro, embateu no primeiro edifício).

2.Aumentem o tamanho da letra para 72.

3.Mudem o tipo de letra para Wingdings.

Abrenúncio, Satanás, que grã cousa de ver!

Publicado por machede em 10:26 PM | Comentários (3) | TrackBack

Touros.jpg

(...) Separei-me então do perigo embolado do marialvismo para me render às hastes limpas do quixotismo – a pé, já que foi assim que do nada caminharam os que fizeram a história do toureio moderno. (...)

(“Esboços para uma tauromaquia” de Álvaro Guerra)

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abril 01, 2004

Filhos do mesmo Deus?

Velha e burro.jpg
Photo de Rui Mateus
(do livro Encontros com Barrancos)

Ao ver esta fotografia volta-me a vontade de vergastar os “protectores” dos animais que, por mou dos touros, andaram, há uns anos, a apoquentar as gentes de Barrancos.
A minha bitola não serve de todo para medir uns e outros. Alcança naturalmente o tamanho de uns. Humanos e colossais! Os outros, são minguados demais para lhe alcançar a medida. Talvez humanos? Grotescos são seguramente!

Publicado por machede em 12:21 AM | Comentários (1) | TrackBack