O Agapito Santander, um amigo chileno que fiz em África, disse-me um dia que sempre que se acercava de uma terra estranha, o primeiro sítio que visitava era o mercado. Entre dois tragos de chá-mate, concluía: é no bazar que palpita intensamente a vida do lugar, é lá que se toma o pulso aos usos e costumes das gentes. Achei sensatez na tese do Agapito e dela me tornei praticante quando lanço âncora em terra desconhecida.
Vem isto a propósito da costumeira rememoração da minha vida maputense. Vai-não-vai, ando por lá sonecando memórias. Nessas deambulações é certo e sabido que, após derivar o Alto-Maé, esvoaço pelo bazar do Xipamanine adentro.
Na década de oitenta, nos anos da penúria total, quando no bazar Central só havia folha de mandioca, mafurra e os célebres carapaus soviéticos de dentes arreganhados, no Xipamanine havia sempre outras franquezas para o conforto da tripa. Por minguado que fosse, por difícil que fosse a negociação com a mamana, sempre haveria alguma coisa para reciprocar pelo descotado metical. E depois havia sempre uma catrefada de outras mirabolantes mercadorias. Então na área dos produtos de curandeiro e para armar xicuembo – lugar onde branco sempre era olhado de soslaio -, era um mundo de manigâncias fantasiosas para os meus olhos de deslocado.
Retornarei sempre à desordenada ordem mercantil do Xipamanine. É o bazar da minha vida!

Se não estou em erro, por alturas de 82, quando o Zeca Afonso – já doente ao tempo – revisitou Moçambique, pediu-me para o levar ao Xipamanine. Ficou esfuziante. Fez questão de bem no meio do bazar cantar a “Carta a Miguel Djéje”. Foi uma festa do caraças.
Diga amigo Miguel
Como está você?
Em todo o Xipamanine
Já ninguém o vê
Vou dar-lhe a minha viola
Para tocar outra vez
(...)


A Esteva
Digo: Esteva!
Não se cultiva a esteva, é planta brava.
Em latim, chama-se Cistus laudaniferum.
A flor é branca, amarela ao centro
e vaporosa, corra ou não a brisa...
As veredas estão cheias de esteva,
quando pela estrada passo, de automóvel.
Nos campos é vulgar, se abandonados.
Tem um cheiro pungente, masculino, urgente,
que lhe confere ardores afrodisíacos
e nada há de mais fascinante
do que um rol de esteva alentejana.
De resto, há muita esteva, lá não faltam
outras estevas menos agressivas,
como a esteva de flor cor de púrpura,
em tudo uma esteva feminina.
Digo: Esteva!
Sob o sol ardente, pétalas de neve
e uma abelha ao centro
e folhas verde-escuro, túrgidas de láudano.
Se queres subir ao céu,
põe o pé na esteva, a mão no sargaço:
Ala que é palhaço!

Ruy Cinatti
A corrida do tempo contínua inexorável, o galope da Primavera reveza o passo do Inverno. A vida renasce impetuosa, e, tal como dizia o meu avô Isidoro, até se ouve a erva crescer. Sem desdenho pelas outras estações, considero que o real passe de mágica do mago da vida é a Primavera. Mais a mais, aqui, na terra transtagana ela representa o suave trampolim que balança o salto sobre a rudeza do estio. É como que ouvir o doce Vivaldi preparando o ouvido para o tempestuoso Wagner.
Quando ainda de calções ou mesmo já no empertigar da calça comprida, saboreava com especial deferência o interlúdio das férias da Páscoa. Era o sempre desejado intervalo no pesado fardo da penitência escolar. A regalada aberta na chatice da padeira de Aljubarrota que desancou os maricas dos espanhóis à pazada, do glorioso Mouzinho que ajoelhou o colonizado Gungunhana, da geografia do arquipélago dos Bijagós que, no desvario da imaginação do estou aqui mas não estou, comparava às Berlengas a abarrotar de uns gajos mais tisnados do que eu. A Páscoa, era o tempo da escola alternativa que, no meu entender, era substancialmente mais sumarenta dado o manancial de matérias finalmente interessantes; Zootecnia da caça aos grilos e da descoberta dos ninhos da passarada; Ecologia na inspecção do habitat do rio Xarrama; Sociologia Rural in loco na Aldeia de N. Sª. de Machede; Psicologia com o Estronca, maltês nómada de circuito curto que cirandava em volta da terra, (maltês, que hoje seria mais um excluído na nomenclatura do rendimento mínimo); Física aplicada nas fisgadas aos peixes-sapos na lagoa por trás do cemitério; Geometria Descritiva dos jogos do berlinde e do pião; Medicinas Alternativas na observação dos curativos ao cobro, com o óleo de trigo tremês aquecido na forja do mestre Medinas; e ainda havia as aulas de Filosofia que, a pretexto dos cromos da bola, frequentava à socapa na taberna do Armando.
Uns anos, bastantes anos mais tarde, o Mestre Agostinho da Silva deu-me inteirinha razão quanto à maçada da escola. 1+1=2, 1+2=3, 1+3=4, 1+4=5, 1+5=6. Ainda se fosse na ribeira a contar rãs, a coisa compunha-se, agora assim a fazer coro com mais trinta condenados transidos de cagaço e com a alma mais negra que o quadro de ardósia, só apetecia mesmo deitar-me ao relaxo.
Mas adiante que tristezas não pagam dívidas. Mau grado o soturno roxo da sexta-feira Santa e os crisântemos da mesma altura, na Praça do Giraldo,- jamais gostei do roxo e de crisântemos, possivelmente porque sempre esconjurei o masoquismo e, angústias, na velhice teria tempo para as ter -, mas não perdendo o fio à meada, a um passo da sexta-feira santa vinha o sábado de aleluia que ficava na esquina da segunda-feira do borrego, segunda-feira esta que desvairadamente alargava os horizontes da minha academia alternativa, introduzindo-lhe a saborosa matéria gastronómica e as rosadas moças com os peitinhos a desabrocharem.
Mandava a tradição que a seguir à paixão se seguisse a degustação do borrego e dos bolos fintos da Páscoa num almoço campestre. Era o dia do retorno das gentes às origens. Despovoava-se a urbe em carreiros de gentio, com cestos, buscando as melhores sombras do seu imaginário camponês. Fatiotas já leves e garridas, mais atrevidas nas moças que já tremelicavam da líbido nos namoricos da primavera. Corte feminina a que os moços não eram avessos corricando rubores de azinheira para azinheira, quais sentinelas vigiando as suas mouras encantadas. Os adultos, mais comedidos nos devaneios não fosse a comadre estar d’olho nos atrevimentos, entre um tinto e a fatia de borrego davam largas aos seus conhecimentos do meio físico. Elas, as mães e funcionárias do doce lar, sonhavam com a multiplicação deste doce remanso pelos restantes trezentos e sessenta e quatro dias do ano.
Perna de borrego assada em forno de lenha
2 pernas de borrego pequenas
200 gr de banha
2 folhas de louro
½ dúzia de grãos de pimenta branca
2 cravos de cabecinha
1 ramo de salsa
6 dentes de alho
2 cebolas grandes
2,5 dl de vinho branco
sal q.b.
1,5 kg de batatas pequenas
É na Páscoa que a carne do borrego de erva se encontra na sua plenitude de textura e sabor. O recipiente, para a confecção deste prato, deve ser uma assadeira de barro e a assadura deve ser feita em forno de lenha.
Arranjam-se as pernas de borrego, golpeando-as dos dois lados. Deixam-se na assadeira a marinar, de um dia para o outro, com todos os condimentos incluindo o vinho branco. Deposita-se a banha, acrescenta-se um pouco de água e leva-se a assar em forno brando com toda a marinada. Durante a assadura deve-se ir voltando a carne de forma a que esta seja uniforme. Na ponta final da assadura, deitam-se as batatas na assadeira em volta do borrego, salpicadas de sal.
Serve-se neste recipiente. Há quem acompanhe com uma salada de alface temperada com hortelã e coentros.

A logística da tralha, dos comestíveis e dos bebíveis, para uma jornada merendeira com todos os requisitos de malvadez requer conhecimentos de planificação.
Deve ter em atenção as várias necessidades em artefactos, acessórios e algum mobiliário (no meu caso não dispenso a mesa, aliás, não sou capaz de quantificar o ódio que nutro pelas comezainas em pé, e sentado no chão também não dá muito jeito). A manta, a toalha de mesa e os guardanapos, as alfaias, copos e prataria, o balde do frapé, o frasco térmico para o café, a tesoura dos puros, as cadeiras e a mesa de campanha, bem como a tradicional cadeira de repouso com assento em lona (esta deve sofrer uma revisão das costuras porque, se bem me lembro, foi numa cadeira destas que o Salazar se lixou). Deve igualmente pugnar por sacos para o retorno do lixo para não ser exactamente porco como a generalidade dos outros nove milhões que, conspurcam tudo o que é palmo de campo e de praia.
Relativamente aos comestíveis, à parte os já citados borrego assado e bolos de massa finta, deve constituir um lauto e diverso aprovisionamento que contemple: paio, queijo Serpa, pastéis de bacalhau, azeitonas, ovos verdes, cabeça de xara, costeletas de borrego panadas, coelho frito, salada de batata, tarte de espinafres e pão de ló de Alfeizerão. Deve ter em atenção o hermetismo dos recipientes para os molhos, caso contrário, corre o risco de ficar com a traquitana a cheirar eternamente a segunda-feira de Páscoa.
No que concerne aos bebíveis, a coisa necessita de grande apuro técnico, a saber - branco Lagido dos Açores para aperitivo, brancos maduros de Portalegre e da Bairrada, tintos maduros de Évora e de Palmela sendo que os intrépidos digestivos ficam ao vosso critério. Para que a felicidade seja plena não esqueçam o cafézinho do comendador.
De forma a não contribuírem com um extra para o orçamento geral do estado, à cautela, contratem um motorista.
A bem da protecção da natureza humana.
No Público, hoje, Miguel Sousa Tavares, escreve com uma claridade singular.
(...) Há, pois, outro caminho. E esse caminho não é ir ao Afeganistão convidar Bin Laden a sair da gruta e vir negociar a Genebra. Não é disso que se trata, quando se fala em negociações. Trata-se de desarmar a popularidade de Bin Laden no mundo muçulmano, de desarmar politicamente o terrorismo islâmico. Como? Dando passos concretos para ir ao encontro das legitimas reivindicações dos palestinianos. Fazer-lhes justiça e exigir depois a contrapartida. Israel é a chave do problema. Desde sempre. Se isso tivesse sido feito há dez, há vinte anos atrás, muitas tragédias teriam sido evitadas e não teríamos chegado a este ponto. Mais vale tentar agora do que nunca. Porque a alternativa é continuarmos reféns do terrorismo islâmico porque os Estados Unidos são reféns de Israel.
Contra isto, batatas!
Os desenhos de Fernando Galhano são o testamento de uma vida – a vida de uma personalidade de excepção. E são também um testemunho do passado, de um Portugal que acaba.
A casa do sul mostra um carácter totalmente diverso. Térrea e pequena, e em regra esmeradamente caiada de branco, ela é apenas para a habitação das pessoas; o forno do pão e as dependências ligadas ao trabalho da terra localizam-se em anexos independentes, dispersos à sua volta. Como materiais tradicionais de construção, usava-se o tijolo, o adobe e a taipa. No Alentejo, a casa mostra uma grande fantasia de formas e variedade de elementos – planos e volumes que a caiação define com toda a nitidez, arcos, abóbadas, terraços, pátios, poiais – combinados diversamente, criando jogos de sombras e luzes e efeitos cenográficos de grande beleza e forte sugestão mediterrânica.

(Serpa, Monte da Cascalheira. Conjunto do Monte: a casa e outras dependências e anexos.)
No Alentejo, de acordo com a tradição local – e aliás tal como sucede nas áreas pastoris de muitos outros países europeus -, objectos de determinadas categorias são decorados profusamente pelos pastores, seja para uso próprio, seja para serem oferecidos às namoradas ou aos patrões: de chifre – cornas, para certos alimentos (azeitonas, sal, etc.), copos, tabaqueiras, polvorinhas, caixas diversas, etc.; de cortiça – tarros, caixas, costureiras, saleiros, tripeças, etc.; de madeira – colheres, forcas para fazer cordão, agulheiros e ganchos de fazer meia, cambitos de tear, fechos de coleira de gado, cabos de chicote de porqueiro, chamarizes para as perdizes, castalholas para a dança, etc.

(Arte pastoril. Chamarizes para atrair perdizes)
(Desenho Etnográfico de Fernando Galhano)
Ultimamente ao dar fé de alguns blogues, tenho cheirosas alucinações. Tenho a profunda convicção que há blogues com odores. Suspeito que o meu olfacto descobriu a máquina de viajar no tempo? Olha o gajo??!! É no que deu a descentralização do meu eu.
Estão perfeitamente identificados os provocadores deste destabilizador caso interno de terrorismo odorífico, são o Ma-shamba, o Xirico e o Xicuembo. As investigações prosseguem!

Caso o pára-quedas se recuse a funcionar, o que é um direito legítimo, já agora que a logística se tenha igualmente esquecido de pôr as bicicletas no local de aterragem.
À laia de epílogo poder-se-á então titular a acção: “irrepreensível performance com uma não menos incensurável terminação 3 em 1”.
Nota: o terceiro tem a ver com o previsível infortúnio do Pato Donald Rumsfeld, caso não se desvie a tempo, percepção que tenho por infalível. Confio tal-qualmente que seja o George e não o Saddam a cair-lhe em cima.
Há uns anos que o mestre Choca abalou deste mundo. O sapateiro prodigioso que, durante uma vida, teceu da pele à forma o calçado de meia aldeia de Nossa Senhora de Machede. Do calçado fino das bodas ao calçado rude do trabalho. Feito à medida com o desenho do pé gordo modelado pelo lápis na folha de papel pardo. Ao lado do traçado pedonal, rabiscava as medições do peito do pé ao calcanhar e à sola. Caso o calçado fosse caneleiro, lá apontava igualmente o preciosismo da medida da barriga da perna. No canto superior da folha, apontava ainda: fulano de tal, encomenda em tantos do tal para estar a obra pronta em tantos do tal. Rigoroso o mestre Choca.
Até desamparar as ferramentas quase à beirinha do passamento, foi o meu artesão das botas caneleiras. Por mou disso, batemos bastas tardadas de lérias. Era um homem que, tal como amiúde me confidenciava, gostava de dar uso ao cerol que tinha na cabeça. Gostava de pensar este mundo de tristezas e de alegrias. Mais tristezas que alegrias no seu entendimento.
Mesmo no tempo da mordaça, nunca me fez segredo da sua posição oposicionista. Por via de carregar essa atitude, desde novo, se tinha metido a aprender o ofício de sapateiro. Se assalariado rural tivesse sido, tinha a convicção que o chilindró lhe teria carcomido a vida, dizia-me. Antes ganhar mal para a sopa trabalhando por conta própria.
O 25 de Abril era a sua beatitude. Foi ele que anunciou à aldeia a queda do regime do bolor, tal como o apelidava. Contou-me vezes sem conta a sua noite de redenção.
- Fiquei aqui na oficina a fazer serão na companhia da telefonia. Aí pela meia-noite, quando estava quase a deixar a sola em paz, toca aquela coisa do Paulo de Carvalho. Não sei porquê tive um pressentimento. E fiquei por aqui de orelha à coca. Quando tocaram o Zeca Afonso, dei um salto e gritei, é desta! Borrifei-me na arte e fui por aí acordar os camaradas firmes. Olha, pela primeira vez tirei um descanso avultado. Não pus aqui os pés durante uns dias, andei por aí de taberna em taberna a comemorar.

Admirados? Só se têm andado distraídos. A pobreza está aí em cada canto, aliás, sempre aí esteve, nunca se foi embora. Calhando pensavam que a estadia na constelação estrelada da uéézinha era o passe de mágica necessário para desaparecer a miséria.
Já temos dez estádios novinhos em folha. E vamos ter igualmente dois submarinos a luzir. Bandalhos!
Ontem, o padre Agostinho Jardim, presidente nacional da Rede Europeia Anti-pobreza, entre outras, disse certeiro:
- O Governo ataca os pobres;
- O mundo tem riqueza suficiente, só que está mal distribuída. Há 800 milhões de pessoas com fome (segundo a ONU). Se esta gente se levantasse!...
A Luísa, senhora minha mãe, emérita cozinheira reformada, agora apenas fazedora de mimos culinários para a família. Ainda fazedora? Suprema ironia para quem há muito ajustou contas com o trabalho e com língua de palmo. A Luísa, senhora minha mãe que na contabilidade da vida já só deveria ter coluna do haver. Parte das contas ajustadas à volta do fogão de lenha, na enorme cozinha do Monte do Bussalfão onde, no dia a dia do ganha-pão, temperou iguarias que a outros serviu de deleite. Iguarias, umas, do saber fazer vivido na paternal casa do avô Isidoro, outras, do saber fazer experimentado e inovado junto da Tantinha, sua patroa e amiga de um ror de anos.
Um poço largo e fundo de sabedoria gastronómica esta senhora minha mãe. Poço onde aprendi a beber, como se duma escola se tratasse e eu tivesse voltado ao tempo da bata de xadrez. Escola dos usos e costumes da minha terra ensinados por esta mestra, a minha Luísa, que de certezinha tem a sabedoria de todas as mães Luísas do Alentejo.
Noutro dia, disse-me: - filho, voltei a fazer uma receita que não cozinhava desde o Monte Bussalfão, coisa prá aí dá uns cinquenta e tais anos. É deliciosa filho, tens de experimentar!
Admirei-me com a memória dos cinquenta anos, mas não há dúvida, se eu levo cinquenta e um e já nasci perto do fogão de Évora, mas bem longe do fogão do Bussalfão. Admirei-me ainda mais com o rigor da memória da minha Luísa, que de carreirinha enunciou a receita original e os acrescentos da sua lavra.
Experimentei o original, belíssimo, muito bom mesmo! Experimentei novamente com as inovações da minha Luísa e já agora com as minhas. Sem modéstia, divino, simplesmente divino. Mas vocês que experimentem e julguem a comedia.

Coelho à Bussalfão
1 coelho ( no caso de ser manso deve levar uns raminhos de rosmaninho)
6 cebolas grandes, mesmo grandes
4 colheres de sopa de banha
sal q.b.
acrescentos da Luísa:
4 dentes de alhos
1 raminho de salsa
acrescentos meus:
100 gr. de toucinho fumado
½ linguiça
Como eu faço:
Para um tacho de barro, após deitar a banha, cortam-se às rodelas médias metade das cebolas. De seguida e por cima da cebola, aconchega-se o coelho desmanchado em bocados médios, salpicado da linguiça às rodelas, do toucinho fatiado e dos alhos picados. A tapar este preparado, mansamente, deita-se o resto das cebolas novamente às rodelas e o raminho de salsa. Polvilha-se de sal grosso, e pronto, leva-se ao lume muito brando. Nunca por nunca acrescente água. Por último esmera-se ao paladar.
Serve-se igualmente no tacho. A acompanhar, casam bem umas migas de batata.
Como guarda de honra, um tinto novo de Pegões.
Como suplemento, sobre-a-mesa, umas maçãs assadas com um farrapinho de Porto.
Para giboiar ou iniciar uma mansa converseta, um cafézinho e uma bebida grossa.
Amém.
De manga curta, calções e sandálias e meias calçadas. Tez a modos que vermelho semelhante ao das lagostas, com que se regalam vai não vai. Ingleses, alemães e outros que tais de pardas e friorentas paragens. Dizem-nos reformados de boas maquias a viverem por cinco réis de mel coado. Devem imaginar viver numa áfrica de brancos tisnados que não atinam com a prebenda que Deus lhe concedeu, possivelmente, contra a opinião do S. Pedro, que sempre desconfiou destes borda d’água peninsulares com queda para o pato bravo.
Adiante. Mal o olhinho do sol desponta, enxameiam as esplanadas desta babélica algaramenidade. E ficam por ali a torrar as pelaruncas e calhando os miolos. Os miolos que jamais terão espaço para entenderem a diferença. As diferenças dos pequenos nadas que para estas espécies do norte são intolerantes tudos. Estes altivos alarves que aspiram sardinhas assadas com batatas fritas. Estes bárbaros do norte que nos ocupam por via dos bolsos abonados pelos estados previdência que tenho por socialmente justos. Que paradoxo da porra.
Começa a clarear o espírito. As conversas destes dois dias retornaram-me a lembrança do tio Francisco, pastor de quem me abeirei há uns anos nos campos vizinhos de Porto Covo. Após uns dias a alcançar confiança, inquiri-o da sua teimosa atitude de costas viradas ao mar. Respondeu-me forçado e de repelão: desse cão, estou farto! Recordo-me de, na altura, ter matutado durante uns dias nos porquês dessa má convivência. Hoje, o João, de famoso o Sacas, com casa de pasto ali no Porto das Barcas, disse contundente: por duas melancias e uma ceira de batatas trazia, ali debaixo, o peixe que eu entendia, marisco não, que esse não alegrava a tripa.
Ainda hoje não tenho uma fiável explicação. Agravou-se no entanto a ideia que, por um lado, o medo da liquida planície era imenso, por outro, da pouca estima dedicada aos comes que daí advinham, ou, poderiam advir. Como pôde esta gente embarcar em periclitantes embarcações e lançar-se no oceano do desconhecimento. Que paradoxo imensurável. Quão violento deve ter sido o embarque!!??
Voltando à crónica da paparoca, afinal, motivo nada violento desta andança. Ontem, pelo toque das trindades, perdi-me por Monchique. Amesendámos no simpático José Pedro, moço da minha mocidade timoneiro da Charrette. De entranças: lombo de porco na banha de cor, morcelas de farinha de milho e arroz, assaduras e um respeitável presunto. De prato de substancia: feijão com couve e batata doce com carne de porco. De por cima: queijo de figo, bolo do tacho e pudim de mel. De bebível: Tapada da Torre (Portimão), Lagoa reserva 2000, o inevitável medronho e mais uns licores avulsos. E muita conversa sobre os fazeres e haveres alimentares destas serranias.
Hoje, com o sol a pique, rumámos para as odemiráveis terras de Odemira. No Sacas, enfrentámos de rompante: navalheiras e bruxas (para mim o top da bichesa com casca). De substancia: filetes de peixe aranha, polvo frito e raia de fricassé. De bebível: Planalto. E novamente muita conversa sobre os usos e costumes alimentares destas planícies de terra e água.
Depois de enregar tenho escassez para sublinhar: de singelo um arroz de tamboril. Dentro da infestação dos pratos da gramínea com bicheza marítima, este alombou com pontuação altamente meritória. Nos vinhos, a oeste nada de novo. Espero por alvíssaras de um tal Quinta da Torre, ali para as bandas de Portimão.
Para os lados da conversa a coisa não está fácel… Uma questão candente, com respeito a um passado não muito afastado, relativamente há balança da estratégia alimentar; que pesos para os celeiros marítimo e terrestre? Muitas e discrepantes opiniões. A ver vamos.
Vou-me aguentando heroicamente com os pezinhos debaixo das várias mesas!

Por mou da encomenda de um texto sobre as tradições gastronómicas da Costa Vicentina, daqui a um par de horas, rumo ao sul deste meu sul.
Obsequioso este trabalhinho. Se o mourejar tivesse eternamente tão delicioso embrulho, era caso para aliviar o rancor que ao Adão guardo pelas levianas dentadinhas na maçã.
Com o dito périplo de suficiente amesendação e muita conversa, vou tentar avivar as bastas memórias amealhadas por outras alturas e interesses. Da sabedoria dos mestres Vila, da Mexilhoeira Grande, e Correia, de Vila do Bispo, prescindir não irei. Entretanto, a outros mestres de outros templos culinários apelarei. Os porcinos enchidos de Monchique e a chicha da gadeza bovina que do Rogil a S. Teotónio se estende, são questões proteicas a merecer severa atenção. Mas nunca por nunca olvidando as suculentas feijoadas de búzios e a moreia frita dos casinhotos de bem comer da Zambujeira do Mar.
Se, porventura, as digestões pouco trabalhosas forem e tempo do escrevinhanço apontamental sobrar, dar-vos-ei conta do que interessante acontecer. Prometo!
No Alentejo, é usança dos amantes da carne (uma imensa maioria) achincalhar o peixe proclamando que peixe não puxa carroça. No entanto, tem o peixe na gastronomia regional uma importância substancial, sendo mesmo que alguns dos pratos são verdadeiras jóias da cozinha. De água doce ou salgada, fresco ou conservado, o peixe foi ao longo dos tempos cosendo-se na dieta da região. Diga-se em abono da verdade o Alentejo até tem um bom par de léguas de mar e dele ao interior mais afastado também não é nenhuma lonjura por aí além.
Aos árabes, a bicheza com espinhas não lhe despertava grandes entusiasmos. Os romanos, pelo contrário, eram grandes comedores e a sua avidez era tal, que o abastecimento de peixe ao interior era uma organizada realidade. Para a posteridade e entre outras lembranças da rapaziada das galeras, ficaram os vestígios da importante indústria de salga de peixe, em Tróia. Mas mesmo os maometanos, no que toca aos acepipes de barbatanas, deixaram alguma história gastronómica. Perdurou até nós o famoso escabeche, herança do árabe: sikbâdaj.
É certo que, ainda hoje, não morremos de amor mas é corrente o desabafo: hoje vou no peixinho que é para desenjoar.

Dos rios, ribeiras e albufeiras saem entre outras espécies, barbos, bogas, pardelhas, enguias e achigãs. Qualquer terriola que se preze tem os seus especialistas na faina da pesca, artes que, com mais ou menos vulto, pesa no equilíbrio da carteira de alguns. É vulgar ver um tresmalho ou uma tarrafa pendurada no prego e escorrendo pelas paredes brancas da rua de trás, ou da azinhaga se preferirem. Fora da correnteza da rua da frente por mor de não adiantar conversa, embora até a guarda saiba quem tem licença e quem é furtivo. O alentejano, metamorfoseia as mão de lavrador em mãos de pescador quando, com a paciência dos homens do mar, remenda as redes do sustento e do prazer. A minúcia que põe na tarefa quase iguala a dedicação da sua Maria ao fazer renda.
Quem não teve o supremo prazer de deglutir uma açorda de barbos em Mourão, uma caldeta no Alandroal, ou um manjar de deuses que é nada mais nada menos que uma lampreia à moda de Mértola, não sabe o que perdeu. O seu a seu dono, a suculência desta teia de odores e sabores tem obrigatoriamente a ver com os temperos das ervas, os poejos, a hortelã da ribeira, os coentros e os orégãos, são condimentos que qualquer druida não desdenharia.
Não há muito tempo, as mercearias ou as vendas, forneciam o bacalhau e os outros sucedâneos, as línguas e as caras. Depois era um ver se te avias de bacalhau albardado, de bacalhau com feijão, de sargalheta de bacalhau, enfim um mundo de aconchegos para quem tinha de fabricar a diversidade no isolamento e na poupança. Quem não provou o polvo assado no fogareiro de carvão, saboroso camarada dos copos de cinco e mais modernamente das bijecas. Abençoadas feiras que continuam a estimar o vendedor de polvo assado: tiras pequenas, cem escudos, grandes duzentos.
E o peixinho fresco (salvo seja, mas mesmo assim abençoado), que era transportado no suporte da pedaleira, de lugar em lugar, dando o peixeiro vaia da sua chegada com a corneta que premia com a mão que também o escamava e destripava.: o cação, o cachucho, o carapau, a ciba e a sardinha, em regra, peixes gordos para melhor aguentar a caminhada e baratos porque as bolsas não eram muito fartas. No caso, o gordo e o barato, transformaram-se em iguarias de estalo. Veja-se a fama dos preparados com cação. Não há forasteiro nenhum que se diga entendido no Alentejo que, não aperalte, perante os leigos e outros basbaques, a excelência da sopa de cação.
Mas, hoje, estou mais virado para as sardinhas. Aliás, sempre fui um apaixonado das sardinhas. Assadas de lineu com um fiozinho de azeite no lombo, assadas no forno do pão, ou, com o preparo seguinte, são um sabor único que devia estar registado no bilhete de identidade dos portugueses.
Sopa de tomate com sardinhas
sardinhas
azeite
cebolas
dentes de alhos
tomate
pimento verde
batatas
louro
oregãos
poejos ou hortelã da ribeira
sal
pão duro fatiado
Arranjam-se as sardinhas, escamam-se, destripam-se, corta-se a cabeça e salgam-se ligeiramente. Numa panela, de preferência de barro, deita-se o azeite, a cebola picada, o alho às lâminas, o louro e o pimento verde às tiras. Em lume brando deixa-se refogar quanto baste, mexendo com uma colher de pau para não agarrar e introduzindo o tomate arranjado. Quando o refogado o for suficiente, deite água que chegue para cozer as batatas e para o caldo das sopas. Deixe cozer um pouco, deite as ervas e as batatas às rodelas. Após as batatas apresentarem uma cozedura mediana, aconchegue as sardinhas e deixe-as cozer. Corrija o sal a gosto.
Serve-se vertendo o caldo numa tijela por cima das sopas de pão previamente falquejadas, depondo o resto da substância e as sardinhas numa travessa. Pessoalmente gosto de acompanhar este prato com figos frescos.
E pronto, o almocinho está na mesa. De entrada pode perfeitamente despachar umas rodelas de paio de Estremoz. Com a sopa vai bem um branco fresco. Para os finalmentes, uma fatia de queijo Serpa guarnecida por um tinto que pode ser perfeitamente de Pias.

Hoje, depois de cochilar umas horas em vale de lençóis, vou almoçar a Messejana, ou, se preferirem, à Praia de Messejana. O mê Gugas faz meio século de vida, ou, se preferirem, o mê Zé Carlos Albino faz 50 anos.
Não só pelo facto de aniversariar os 50 da ordem, mas o mê Zé Carlos merece os quase 300 quilómetros da deslocação e muitíssimo mais outros merecimentos.
Conheci-o na ressaca de África, por mou do seu convite para integrar a equipa de técnicos que iriam bulir no projecto de desenvolvimento a executar em Messejana.
O Zé Carlos saíra de Messejana para a capital ainda caçula. Estudou e cresceu-se homem a labutar pelos desenvolvimentos cooperativos nos revoltos tempos do PREC. Um dia, cansou a cidade grande e decide voltar há origem. Com ele traz os cordéis do conhecimento para pôr ao serviço da sua terra. Por consequência nasceu o projecto de Messejana que, por sua vez, gerou a Agência de Desenvolvimento Esdime.
Projecto cativante que, mau grado os escolhos, levamos a bom porto. Das 100 pessoas abrangidas pela intervenção, cerca de 65 angariaram actividade, umas por sua conta, outras por conta de outrem. Dentre os escolhos, o maior, calhou ao Zé Carlos. Na ponta final, perante o atraso das verbas vindas da UE, o Zé e o Ruas (na altura presidente da Junta) decidem-se pela não suspensão do projecto. Para que assim fosse, contraem um empréstimo bancário caucionado por bens da sua família e por equipamento da Junta de Freguesia de Messejana. Já após o término do projecto, as verbas vieram finalmente, mas com um corte substancial. Posto isto, parte da garantia patrimonial da família do Zé foi ao ar, não toda porque o Zé ainda tem pessoas a quem pode chamar amigos.
Quando relembro esta história ainda sinto uma certa amargura. Principalmente porque sei, sabemos, todos sabemos como foi (mal) aplicada uma grande fatia das ajudas da união europeia. Mais a que foi “desviada” à má fila do seu intuito. Responsáveis? Estão aí de boa saúde, mormente a financeira. Quando muito, mudaram a cadeira para outra administração pública.
O mê Zé Carlos não tem cadeira, mas tem a consciência tranquila!
Parábola da Praia de Messejana
Consta que a virtual Praia tem ancoradouro na seguinte passagem.
Quando o Brito Camacho foi nomeado primeiro-ministro, os messejanenses pensaram logo em tirar proveito da costela conterrânea do governante. Uma comissão de notáveis foi recebida pelo patrício ministro que, serenamente, ouviu das suas reivindicações. Queremos isto, mais isto e aquilo e ainda isto, olhe, e ainda esquecíamos mais isto. Com a fina ironia alentejana que tão bem soube expor nos seus escritos, Brito Camacho, perguntou maliciosamente se, para além daquilo tudo, não quereriam também uma praia lá para a terra. A comissão de notáveis, empolgada com a abertura do governante, ripostou de imediato: arranje então lá a água, que a areia arranjamos nós!
Durante anos a palavra praia esteve erradicada do vocabulário messejanense. Ainda há poucos anos aquando da construção do depósito de água, a malandragem de Aljustrel comentava: os da praia já tem farol e tudo. Eu, quando chego, pergunto sempre ao Diamantino do café: é pá não me arranjas aí uma casa baratinha para alugar pela época balnear. Depois, bebemos um copo e rimos da graçola!

Em 75, 76 e 77 morei em Campolide, mais precisamente na Arco do Carvalhão lá mais para os lados do arco, quase, quase na fronteira com o Casal Ventoso. Quando o PIB do Ventoso ainda brotava de outros proventos que não do pó, mas igualmente subjectivos é certo. Vivia nessa altura em comunhão de adquiridos com a Nena, professora e empenhada militante do movimento da escola moderna.
Foi igualmente na situação de amancebados que decidimos comprar um transporte. Negócio que fechámos com o Zé Det. Quinze notas de mil em troca de um tarimbeiro e cinzentão 2 CV, de idade indefinida e com uma ronha adquirida no porradão de léguas já consumidas a velocidades estonteantes, 60,70.
Foi fiel companheiro de mais uma barbaridade de léguas, grande parte delas com a lotação esgotada, frete desmesurado que o deixava na estrema com o ataque de nervos. Mas lá resistia, ronronando válvulas e pistons naquela bonomia freak e baloiçante de capota arrepanhada.
O mê calça arregaçada – nome de baptizo – não era manhoso por aí além, a não ser no ódio de estimação que nutria pela ladeira da António Augusto de Aguiar. Pelo cabeço acima se, porventura, pressentia nos calcanhares um verde de dois pisos da Carris, era certo e sabido que o bicho se jogava ao chão. Ali ficava prostrado sem tugir nem mugir com o pulso fraquinho, quase sem vestígios de vida. Só rebocado pelo bigodes da Auto-reparadora de Campolide arredava pneu. Após uns dias de enfermaria e, por troca com umas verdosas de vinte passadas para as mãos do bigodes, lá retornava às lides todo pimpão.
Mesmo descontando estas amenas ingratidões, foi um afeiçoado colega de um
ror de gloriosas andanças. Até que um belo dia pôs-me os palitos. Ficou de volante nos braços da Nena quando a comunhão de adquiridos se esvaiu em aparelhagem a ti, LPs a mim, sofá a ti, artesanato a mim.
Já morreu há um porradão de quilómetros este valentão das dúzias. Certamente terá ido descansar o chassie ali para os lados de Sacavém. Só espero que a Nena, de vez em quando, lhe leve um raminho de flores!
Não tarda está aí a OVIBEJA 2004. Não tarda está aí, mais uma vez, o palpável testemunho que o sonho é possível. De 20 a 28 de Março TODO O ALENTEJO DESTE MUNDO na OVIBEJA.
Uma fabulosa vertigem. A utopia na mão de uma cidade em festa. Nove dias por ano, nove doses de adrenalina ovibejense.
É assim há já muitos anos, como se a OVIBEJA fosse um imenso país das maravilhas. Como se fosse um guloso buraco negro que sorve as gentes das aldeias e vilas de todo o Alentejo. E não só, mais o apenso dos gentios forasteiros que correm a dar fé desta tremenda algazarra. Até zunem!
Ele é o tractor e a charrua, a tia e o tio do chapéu verde com pena, o papagaio e o pintassilgo do Figueira, o polvo assado e a bijeca, o stand da câmara e o stand das mobílias de quarto e da chez long, o presunto de Barrancos e o tinto da Vidigueira, a policia de intervenção e os noctívagos renitentes, a ajaezada cavalaria e a garbosa pega de cernelha, a massa frita e o qué flô, as comezainas do açordário e a disputa do melhor rafeiro alentejano, as bichas do WC e outras bichas putativas, a manta de Almodôvar e o jet set da linha, o touro mertolengo e a longilínea garina da Salvada, o carrossel dos políticos e a cigana a vender balões, os popós do Serrano e a máquina de arretalhar azeitonas, o cante alentejano e os xutos e pontapés, a ovelha campaniça e o galã de Beringel, o ti-nó-nim dos bombeiros e o compadre de patilhas até à boca, o multibanco a cuspir arame e a rapaziada a emborcar shots e a sorver umas ganzas, a bonomia do Manuel Madeira e a impenitência dos profissionais do gelo a rodar no uísque, o Hélio a contar o papel das entradas e o Castro a fazer contas de cabeça. O PIB local agradece!

(imagens do ante e durante a OVIBEJA de 1993)
Tenho um imenso prazer e orgulho em constar do inventário desta maravilhosa aventura.
«Pelo norte fecha o panorama, a breve distância a serra de Montemuro. O cabeço mais oriental da serra tem um aspecto, um feitio que o diferença dos outros; a grande distância, à vista um tanto educada se revela haver ali alteração da curva natural da serra; é um castello, uma altura fortificada por grande trincheira de que restam vestígios importantes; um castelo pré-histórico, mas ainda conhecido em tempos medievaes; (...) a breve distância da egreja da Tourega fica o dólmen do Barrocal; um pouco mais e nas margens da ribeira de Peramanca se encontram vestígios d’outras antas, e duas bem conservadas na herdade de Valverde. Estamos pois em paiz pré-histórico».
(Gabriel Pereira – Estudos Eborenses, 1891)

Menir
Salve, falo sagrado,
Erecto na planura
Ajoelhada!
Quente e alada
Tesura
De granito
Que, da terra emprenhada,
Emprenhas o infinito!
Miguel Torga

(auto-retrato do pintor)
Comunicou o Alentejo, através da sua pintura, de uma forma sublime. Forma sublime que o pintor um dia caracterizou com a frase: uma expressividade directa e uma vontade de nitidez. É, sem dúvida, na pintura honesta e emotiva do mestre Dordio que eu encontro a expressividade e a nitidez da terra transtagana. Essa emoção fidelizada certeiramente nas palavras de Rui Mário Gonçalves:
Alguém disse que a arte é a natureza mostrada através de um temperamento. Na forma convulsionada com que Dordio Gomes representa um sobreiro alentejano, tanto se sente o vigor da árvore com o ímpeto do pintor. (...)
Natural de Arraiolos, privou o pintor intensamente com a cidade de Évora. Fruto da sua relação com a família de Sebastião Perdigão, deu azo à sua arte tanto na rua da Mouraria como na Herdade do Bussalfão em Nossa Senhora de Machede.
Foi por essas bandas que os meus pais conheceram o pintor. Para minha latente inveja, a minha irmã tem um retrato seu, traçado a lápis vermelho, pela mão do mestre. Eu, não me recordo dele. Mas conheço de cor os bastidores da sua obra, da fase eborense, nas palavras da minha mãe. Há dias mostrei-lhe um livro com pinturas do mestre. Ela, enunciou de carreirinha os sítios e as pessoas que lhe serviram de modelo. Na pintura abaixo está representado o tio Rodrigo, pastor por quem o mestre nutria uma profunda amizade. Segundo a mãe, o tio Rodrigo era um homem de uma sensibilidade e simpatia inauditas. O tio Rodrigo poucas vezes dormiu debaixo de telha, preferia a choça de onde podia ver sempre as estrelas.
Foram estes tios rodrigos, pastores, filósofos e eremitas, que ajudaram a modelar esta nossa manêra de ser!

(Pastor – 1941)
Está agora na moda, vai não vai, a conversa rodar à volta das auto-estradas da comunicação. Assunto deveras candente e actual, cuja modernidade está bem patente nas figuradas autovias da noticiação. Concordo pois que o poderoso esmeril da comunicação se faça acompanhar de um rótulo significativamente condigno.
Quero, no entanto, prestar a minha sentida homenagem às velhinhas redes informais da informação local e regional, redes, que num passado não muito longínquo, supriam localmente a falta de jornais, rádio e televisão, funcionando com base numa vertiginosa tecnologia oral de um exército de zelosos operadores, 24 sobre 24 horas. Sublinho ainda o importante pormenor de este eficaz serviço público funcionar com base no voluntariado, Pormenor maior que, certamente, deixará transidos de inveja o Murteira Nabo e o Belmiro de Azevedo. Sem cair no despudor do excesso, atrevo-me a alcunhar esta sofisticada rede de vaivém da informação.
Velocidade e um eficiente toma lá dá cá noticioso, oficioso ou não, era e é também apanágio do serviço público informativo da minha aldeia e arredores. Aliás, basta recordar a emblemática e usual referência à eficácia do serviço - basta dar um traque na praça que no minuto seguinte já toda a aldeia sabe. Uma verdadeira pérola da sábia criatividade e ironia popular.

(reunião do Conselho de Redacção)
Havia e há os com uma intervenção restritamente local, assumem a incumbência em full time, mas cujo profissionalismo e dedicação os consagrava e titula de: o Século, o Diário de Noticias, a ANOP... Havia e há ainda aqueles que desempenham ofícios (hoje denominados de serviços de proximidade), que estão para a arte de comunicar -como a corda está para o caldeirão – o barbeiro, a cabeleireira, o carteiro, a menina da junta... Depois existiam e existem ainda os de âmbito regional, função que exige uma certa mobilidade e é geralmente exercida em part time porque complementar a uma outra fonte de receita - almocreves, amola-tesouras, motorista da carreira, vendedores ambulantes... E, tal como nas outras profissões, a questão da ética também está presente - o fulano de tal sabe do que fala, ou, não liguem que ela é linguareira e isso são invencíonisses. A notícia investigada, a de fonte fidedigna, a de fonte próxima e a posta a circular por encomenda, constituem instrumentos para um bom ou mau desempenho destes liberais da língua.
No que toca ao lado feminino da função, ela tem geralmente a ver com a dona de casa - passa a vida no laréu a dar à língua de vizinha em vizinha. O perfil masculino era mais abrangente e sofisticado... Na barbearia a coisa atinge contornos de espionagem e contra-espionagem à boa maneira de fita de cinema - o dito sopra a informação com subtileza enquanto acerta a patilha do cliente. Na sacristia, bom ai a coisa assume contornos de serviço especial e só se produz informação classificada e etérea.
Este serviço público voluntário faz igualmente parte da nomenclatura do quinto poder e, como tal, é mais temido e respeitado do que a prometida justiça do Criador no além. Coitado de quem merece tratamento informativo e cai nas bocas do mundo.
Durante as estadias na minha aldeia, basta-me o obrigatório périplo matinal – café e barbeiro -, para me considerar ao corrente dos títulos gordos. Depois, enquanto ganho fome para o almoço e aqueço o esqueleto no borralho da chaminé, a tia Balbina ciranda pela casa nos afazeres domésticos ao mesmo tempo que desenvolve o restante boletim informativo. Só que esta revista de imprensa leva o seu tempo: ai filho que me esquecia do teu almocinho. Olha, vou fazer uma açorda de espinafres que é coisa rápida. Houve uma altura em que não achava muita graça às açordas. Hoje, tal como as noticias gosto delas quentinhas, com muito caldo e um odor intenso a coentro e a alho.
Açorda de espinafres com ameijoas
1 molho de espinafres
1 kg de ameijoas
1 molhinho de coentros
1 cebola pequena
4 dentes de alho
1 folha de louro
1 dl de azeite
4 ovos
sal
¼ de pão duro q.b.
Após lavar as ameijoas, cozem-se com sal em água suficiente para a açorda. Quando abrirem, arrendam-se e retiram-se da água. Numa panela à parte, refogam-se no azeite muito ligeiramente, os alhos às lascas, a cebola picadinha e o louro quase triturado. A seguir refogam-se levemente os espinafres arranjados às folhas. Deita-se neste preparado a água suficiente para o caldo, e deixam-se cozer os espinafres. Quando cozidos, rectifica-se o sal, escalfam-se os ovos e arreda-se do lume. Juntam-se as ameijoas. Verte-se a sopa sobre o pão previamente fatiado.
Com um branco e os amigos por companhia, esta açorda é infalível para abordar a questão do vaivém da comunicação. Aquando dos digestivos já certamente a conversa esbarrondou para as crónicas de costumes. Certo e sabido, compadre Manel!
Que o Criador nos livre de uma paralisia na língua.
De vez em vez frequento e dou fé do Glória Fácil. É inteligente!
Tenho seguido a sua recente costela gastrónoma. Costela estimada por pensar que a comer é que a gente se entende. Costumo, inclusivamente, charlar sobre aquela sumidade americana - certamente paga a peso de ouro e se bem me lembro no tempo do cavaco - que passarou por aí a descortinar o potencial nacional e descuidou a nossa rica e latente gastronomia. Leia-se rica e latente também como factor económico, e, daí, ser um dever do sábio investigador elevá-la ao altar do cluster. Possivelmente, para um papa-hambúrguer, isso não é recurso económico é luxúria.
Transcreveu há umas línguas atrás, o Glória, uma trempe de receitas gentilmente enviadas pelo cidadão Pereira. Caldeirada de mexilhões, sopa de cação e ensopado de borrego. Respeitáveis pitéus que, com excepção da dita caldeirada, são paradigmas da arte alentejana de bem cozinhar em toda a sertã. Venerável a achega petisqueira, mesmo com a inclusão de algumas variantes técnicas menos rigorosas e mais inventivas. Nada a dizer da criatividade. É uma verdade sustentada pela história da alimentação que a arte da cozinha não deve estar esparramada no meio dos velhos do Restelo. Agora daí até o dito Pereira ter prantado na receita do ensopado uma colher bem cheia de margarina e mais não sei quanto de óleo? Já lá vai! A não ser que tenhamos novamente regressado aos famigerados tempos da sanha inquisitória contra o fiel azeite. Em que as multinacionais dos óleos e margarinas empurraram o líquido doirado das prateleiras das mercearias e das mesas pela força de uma modernice colonizadora do palato e da saúde. Margarina é gordura gordurosa que não tem declaradamente lugar no tacho de qualquer comedor que se preze. Muito menos no tacho do meu santo e alentejano ensopado de borrego.
corajoso eu? tem dias!
Outros, tenho medo
do escuro
que está para além do portão da ignorância.


O pião, o berlinde, o chinquilho, eram jogados na terra. Nem outra coisa faria sentido! Na terra se desenhava o círculo que balizava o rodar e parar do pião. Na terra se abria a cova onde pela pontaria haveria de cair o berlinde. Na terra escorregava a malha antes de atingir ou não o chito. Era a mesma terra que servia de chão para o jogo da bola e da inteira. A mesma terra que trilhávamos nas idas aos pássaros ou aos grilos. A terra que desde o gatinhar lhe aprendemos a textura. Que aprendemos a moldar e a rasgar. A terra que, mais franca ou mais argilosa, cedo descobrimos ser o suporte da vida. A terra que nos deu a noção do equilíbrio quando no rego aberto corria a água dos engenheiros de calções. A terra que desde logo soubemos ser a mãe da couve do caldo verde e da galinha da canja. A terra que me acompanha até a ela voltar.
eu sou devedor à terra
e a terra me está devendo
ela paga-me em vida
e eu pago à terra em morrendo
(do cante alentejano)
Rouba um pão porque tem fome. É inquestionavelmente um ladrão e não há justiça que lhe valha!
Rouba compulsivamente um batatéu de dinheiro. É presumido suspeito de desfalque, presunção que a justiça irá ter de provar, caso o processo não caduque.
Chama nomes ao árbitro, arremessa uma garrafada ao fiscal de linha e dá uns sopapos num artista idêntico da claque adversária. Leva uns abanões e umas cacetadas da autoridade, é preso, julgado sumariamente e alcunhado pelo juiz, de dedo em riste, de perigoso delinquente e consequentemente nefasto para a sociedade.
É presidente de câmara, dirigente desportivo, militante e membro do senado de um partido, arma uma violenta arruaça ao estilo do quero posso e mando nas futeboladas e na carneirada. É afagado pela autoridade e dele dizem os comparsas que perdeu a cabeça.
Estes são os comparsas que “dirigem” o país! Esta é a merda da carneirada que os elege! Realmente a democracia é o regime menos mau que nos é dado conhecer.

De seu nome Alberto Pidwell Tavares. Nascido em Coimbra, teve em Sines a terra da infância e da adolescência. Andou depois por fora uma rima de anos, principalmente por Bruxelas. Tinha boas mãos para a pintura, arte que estudou um pouco e pincelou mais. Quem lhe conheceu a obra diz que prometia. Dela, fez questão o poeta que nada subsistisse. Depois descobriu-se poeta e prosador. Mas, essencialmente, um poeta que tinha um grande prazer em prosar a poesia.
Após Abril, voltou a Portugal. Entre Sines e Lisboa, andou um pé cá um pé lá. Foi artífice da cultura na Câmara e no Centro Emmérico Nunes em Sines. Em Lisboa escreveu e publicou muito e festejou imenso a sua amiga noite. Ao contrário de muitos outros, reconheceram-lhe a obra ainda em vida. Vá lá! O Al Berto era merecedor. A sua obra testemunha-o.
não cantes
olha em redor dos bosques as veredas destruídas
pela explosão devastadora das minas e ouve
as vozes límpidas morrerem no poema
antes e depois da alegria
antes e depois do pânico
grava na parede esboroada do ar
o sulco ténue da infância – e fala-me dela
aproxima-te
para veres o horror tranquilo das imagens
no fundo dos meus olhos
antes e depois da alegria
antes e depois do pânico
debruça-te naquele terraço virado ao inimigo
onde um rosto de estuque arde e
um ferro reduziu a memória a nada
antes e depois da alegria
antes e depois do pânico
em volta das casas demolidas o anoitecer
o lume incontrolável – e alguém
atravessa o deserto
com uma criança de jade nos braços
antes e depois da alegria
antes e depois do pânico
mas
sempre durante o sofrimento
não cantes
(do livro “Horto do Incêndio”)
Conheci o poeta por intermédio do seu irmão, António Pidwell, meu colega de trabalho no projecto de Messejana e meu amigo. Chegámos à fala na quinta de Santa Catarina. Belo espaço alcandorado no cimo da falésia, outrora existente, há esquerda da praia da vila. No centro do horto, uma magnifica casa de traça colonial. Telhado de quatro águas que cobria igualmente um varandim envolvente virado ao oceano. A voragem do progresso engoliu a quinta e a casa, e não contente, cortou a falésia a meio para deixar passar mais um tapete negro de alcatrão.
