Figueira de Cavaleiros, sede da Freguesia com o mesmo nome e fica a meio do caminho entre Stª Margarida do Sado e Ferreira do Alentejo. Terra de regadios, de arroz, tomate e melão, ilha de pequenos agricultores no meio dum oceano de grandes herdades. Vivi lá uns anos, por mor dos encantos da Zeza que a terra tem como sua. Já lá vão tantos invernos como os que o meu filho Frederico tem de vida, vinte e quatro e mais umas luas.
Naquela altura acreditava na reforma agrária como reabilitadora de injustiças e alavanca que possibilitasse ao Alentejo sair da pobreza e do marasmo. Tal como no presente continuo a ser um crédulo. Contudo, se o desenho da dita for novo e à semelhança do sentir e do pensar dos alentejanos.

E assim aconteceu que por um par de anos, no Monte Branco da Loira, ali, como quem vem de Grândola, fui trabalhador rural e cooperativista. Lavrei, semeei e colhi, tratei do montado e do gado, passei noites de guarda ao monte com o Zé, o Chico Gaio, o tio Zé Ângelo e muitos outros companheiros de lida. Com eles aprendi outros segredos, até aí desconhecidos, da vida da terra e dos homens. Com eles fui aos pássaros ao candeio e aos cogumelos. Na sua companhia aqueci a tripa com cálices nocturnos de aguardente, no Pau de Lenha, em Stª Margarida. A recruta destes andares, tinha-la feito na famosa Torrebela, cooperativa amaldiçoada pelos senhores do poder da altura. Hoje, na lonjura do dobro de vida abençoo estas academias que tais ensinamentos me proporcionaram.
Tinha vinte e cinco anos e uma sede imensa de tudo perceber. Não resisti, assim, ao cumprimento dos desígnios da minha ascendência camponesa e, talvez, ao honrar da memória do lavrador Isidoro Calado, meu avô e homem republicano de uma vida inteira.
Mas voltando à minha vivência na Aldeia da Figueira... Depois da labuta quotidiana, era costume beber um copo, de vinho ou cerveja, no Zé Luís ou no Luís da Loja. No Zé Luís bebia-se um trago e cortava-se o cabelo, ou serviço completo, barba e cabelo, que tanto pai como filho eram mestres do ofício. No Luís da Loja o copo era à socapa, porque o estabelecimento tinha estatuto de mercearia, ainda que com uma panóplia de produtos capaz de pedir meças, em diversidade, ao mais abastado hipermercado citadino. Ele era mercearias e sementes, roupas, fazendas e calçado, carnes frescas e de conserva, pregos, parafusos e tintas, loiças de barro, plástico ou esmalte, agulhas, linhas e botões, enfim, um mundo de conveniências e serviços que deixariam zonzo qualquer jovenzito formado em gestão comercial. E o Luís, com a bonomia dos profissionais do balcão, lá levava a bom porto o que mais parecia uma caravela das Índias atafulhada de necessidades para a terra. À laia de graçola, ainda hoje desconfio que ele sempre vendeu noventa centímetros de elástico por um metro - aquando da medição, esticava-o, no metro de madeira. Perdoas-me certamente a inconfidência, porque sabes o quanto sempre fui danado para a brincadeira.
E era ali, no canto de cimeiro da loja, como quem sobe para a estrada nova, junto ao balcão de madeira e tomando por assento o que desse mais jeito entre a quinquilharia reinante, que a maltezaria despachava umas minis ou médias, conforme a sede e o prazer da laracha. O Balé Gordo, o Tónho da Lança, o meu cunhado Zé e o Tónho Zé da Água eram os companheiros destas tardadas clandestinas de copos. Para tapar a bebida, sempre havia uns torresmos, uma rodelas de linguiça ou paio, umas lascas de bacalhau salgado ou toucinho da salgadeira, umas fatias de queijo de ovelha que condutávamos com o sagrado casqueiro alentejano enquanto batíamos umas lérias para animar a malta. Depois, ala que se faz tarde, cada um desandava para a janta. Nada melhor que uma reconfortante e quentinha sopa da panela para rememorar estas lembranças quando o tempo vai de rijezas e de invernia.
Sopa da Panela
½ kg de carne de vaca
½ kg de carne de borrego
½ galinha ou ½ kg de peru
120 gr de toucinho de porco preto
1 linguiça pequena
2 dentes de alho
1 cebola
1 colher de chá de massa de pimentão
1 folha de louro
1 raminho de salsa
1 ramo de hortelã
sal
pão duro cortado aos cubos
Numa panela introduza as carnes frescas e a linguiça, a cebola e a salsa, o alho, a massa de pimentão e o louro. Acrescente água bastante para o caldo e salgue levemente. Ponha a cozer em lume médio. Quando as carnes estiverem mais para o cozido, corrija novamente o sal. Deixe cozer completamente e retire a cebola, o alho e a salsa do cozinhado.
Numa terrina, deponha a hortelã no fundo e por cima o pão cortado aos cubos. Deite o caldo onde cozeram as carnes por cima das sopas. Corte as carnes e sirva em travessa à parte.
A sopa da panela tem um odor e um sabor capaz de erguer um moribundo. E se por ventura se acolita do vinho certo que, ao meu ver, deve ser um tinto jovem e leve, então meus amigos a coisa roça o deslumbramento.
O Alentejo e as sopas são uma fraternidade.
Então não querem lá ver que o Colombo era moço chaparrão, e mais, da Cuba. Então não querem lá ver que nem Cristóvão nem Colombo tinha no BI, antes respondia por Salvador Fernandes Zarco. Então não querem lá ver que o moço era nada menos nada mais que sobrinho do rei D. Afonso V. Filho ilegítimo do seu irmão infante D. Fernando e de uma senhora de sua graça Isabel Sciarra da Câmara, filha do também navegador João Gonçalves Zarco. A terra alentejana de Cuba foi o necessário lugar de recato para o parto de um rebento comprometedor.
Coisa de pasmar? Nem por isso! Atulhados de saber que quem conta um conto acrescenta um ponto. E então nestas coisas da produção histórica, os assalariados sempre tiveram e têm igualmente à ilharga, como qualquer refém do soldo, o cepo do desemprego para repousar o cachaço. Ainda por cima num tempo em que ir para o desemprego era uma pena angelical, dado que o mais provável, era perder a cabeça por dá cá aquela palha. Num tempo em que nem sequer o teclado farol dos fracos e oprimidos Barnabé existia. Ou calhando já existia e trabalhava nos subterrâneos da liberdade, sabe-se lá? Uma verve daquelas não se constrói só por alturas dos canapés e das tacinhas de Mateus Rosé nas vernissages literárias.
O certo é que um tal Mascarenhas Barreto, investigador autodidacta e a soldo próprio, conta tudo tim-tim por tim-tim no seu livro “Colombo português, provas documentais”. Aos que o acusam de falta de alicerce científico, joga-lhes ao empinado nariz académico com exemplos de uma tonelada de historiadores do panteão pátrio tão donos de canudo específico quanto ele. Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Armando Cortesão, Jaime Cortesão, João Lúcio de Azevedo e alimpem-se a este guardanapo.
Naco interessante de prosa este, em que a tese se sustenta ora em terrenos mais fundos ora em terrenos mais movediços. Uma coisa é certa, a ser verídica esta pista, o moço Salvador Zarco era um ponta-de-lança de alto quilate. Infiltrado na corte dos reis católicos, a mando de D. João II real senhor que não brincava em serviço, para preparar e capitanear uma ardilosa epopeia que aplanaria o terreno para o tratado de Tordesilhas. Acordo altamente favorável a Portugal que, de uma penada, enrolou os católicos com a bênção papal.
Será mesmo que de Génova o moço Zarco só tinha conhecimento pelas cartas marítimas?

(o moço Zarco após beber umas cartuchadas na taberna do Lucas)
COMUNICADO OFICIAL
La ASOCIACIÓN NACIONAL DE PROSTITUTAS, el CÍRCULO DE CASAS ESPAÑOLAS DE MASAJE, el CLUB PRIVADO DE MERETRICES DE ESPAÑA, la AGRUPACIÓN DE DUEÑAS DE PROSTÍBULOS DE LA MESETA, la COOPERATIVA DE “CAMINANTES NOCTURNAS” de la carretera de Martorell, y demás ramas anexas sin representación legal (léase: las leonas de la línea del tren), desean aclarar a la opinión pública que aunque todo el pueblo español piense lo contrario...
ESTE DESGRACIADO

NO ES HIJO NUESTRO!
Se o jogo fosse com o Bétis de Sevilha, sei perfeitamente para que lado penderia a minha emoção. Para os lados de Triana, sonhando saborear lentamente umas tapas enquanto bebericava umas manzanillas, isto até às cinco en punto de lá tarde, porque depois haveria de ir à Maestranza aprazer-me com o mestre Curro Romero a desenhar arrimados passes de peito.
Com o Manchester United da velha e chata Albion, a porca torce o rabo dado a pouca paciência que tenho para aturar british e muito menos very. Que me perdoem o mago Merlin e a fada Morgana. No entanto, aquela rapaziada dos prognósticos só no fim do jogo, cheira-me a invasão da barbárie façanhuda a espadeirarem moirama a torto e a direito enquanto espumam aleivosia e insolência. Que pena que eu tenho que o Dias da Cunha não seja maioral do meu Glorioso. Simplesmente porque os tem no seu sítio!
Vou antes a Beja comer em directo uma sopa da panela na serena companhia do Al-Mu ‘Tamid que, após a janta, se fará à estrada a caminho de Sevilha onde é rei.
Entre os festejos fixos anuais, o carnaval ou entrudo é o que apresenta a maior diversidade de sentidos. Possivelmente, o mais legítimo, será a celebração do fim do inverno e início da primavera tal como a entendiam os romanos, ou, quem sabe, a origem pode ser ainda bem mais antiga.
O termo entrudo terá origem em “introitus” que significa entrada. Já quanto ao termo carnaval as opiniões são diversas: para uns é uma sucessão de “carnevalemen”, cujo significado será “o prazer da carne”; para outros surgiu do latim “carnevale” como o “adeus carne” e alvíssaras de que a terça-feira gorda é o último dia em que é permitido comer carne no calendário cristão; outros ainda pendem mais para as festas em honra de Dionísio nas quais o “carrus navalis”, não era mais que o carro que transportava um enorme tonel que dessedentava os foliões da excessiva Roma.
A licenciosidade do entrudo era o momento anual de uma certa permissão da troça conduzida aos poderes, à moral e aos costumes. Tenho bem presente as tradicionais brincas do entrudo da minha região. Que não eram mais que a crítica cerrada e escarninha encenada, no segredo, por um grupo de foliões que no entrudo a teatralizavam na rua para gáudio dos outros cidadãos.
Hoje tudo isto foi desvirtuado. Realizam-se uns cortejos bacocos a puxar à telenovela e ao samba. Chamam-lhe O Grande Carnaval não sei da onde. O Senhor Presidente da Câmara, as autoridades e outras individualidades aplaudem os cus das brasileiras, ou, das nativas que lhe copiam o menear da anca. O povo regozija.
Muito circo e pouco pão. Eu passo!
Continuo a gostar mais das festarolas autênticas e sem arrebiques que ainda vão acontecendo por aqui e por ali.

photo José Manuel Rodrigues

Luís Filipe Duarte nasceu no ano 49 em Santiago do Cacém. Alentejano da beira de água, marinheiro em mar de espigas e sobreiros, cantador e contador de histórias no silencia que só a escrita lhe permite...
Dêem asas ao sonho e voz às gentes
Dêem asas ao sonho e voz às gentes.
Repovoe-se a vila abandonada
e emprenhe-se a terra de sementes.
Plantem-se sebes de urze e jasmim
dividindo imaginários lamaçais.
Faça-se tudo o possível e mesmo assim
Se necessário faça-se mais
para dar água ao deserto e sol à eira
mobilizando a esperança por decreto
se não houver então outra maneira.
Invente-se a forma mais expedita
de deixar escrita a tradição
de como criar gado e fazer queijo
retirar o mel e fazer vinho
jogar ao chinquilho e cardar lã
bordar o lenço a ouro e tecer linho
de guardar o cheiro intenso da maçã.
Se preciso for chamem-se os homens
que vivem p’ra fazer viver o sonho
se preciso for gritar então que eu grite
até que a voz me falhe e fique rouco
se preciso for voar que cresçam asas
e se loucura é isto que eu seja louco.
(do livro “por dez réis de mel coado”)

O borrego é carne de excelência e sustento que por si só faz a alegria da casa da malta. E que diríamos se irmanados com o chispe, o toucinho, os ossos e o rabo do porco, vindos da salgadeira, mais o acrescento das peças de carne da chaminé. E porque não folgar a entrada nesta comezaina a um viçoso e tenro molho de cardinhos, que ali, na beirinha da seara, pediam participação na festarola. Dia de esmero para a cozinheira, que de qualquer maneira é pessoa opiniosa mesmo nas açordas de alho. Cozido de grão, pitéu de fazer assobiar um moiral!
Manda a tradição e rezam os mestres que o dito cozido se sustente unicamente na carne e sucedâneos do porco, no entanto, a nossa cozinha sempre foi aberta à introdução de novos ingredientes e só assim construiu a diversidade e a riqueza de sabores que hoje ostenta. Continuando a fazer uso dessa folga, sempre na minha casa paterna se irmanou o porco com o borrego no cozido de grão. O mesmo se passa no tempo dos cardos, planta espinhosa, espontânea, de que se aproveita o caule depois de ripado. O mesmo acontece com os canudos das favas, quando ainda tenros.
A casa da malta, era uma divisão geralmente existente nos assentos de lavoura, nos montes, onde os ganhões contratados a de comer satisfaziam, às vezes, as necessidades do estômago. Casa ampla, de telha vã, que tinha na chaminé, enorme, onde ardia dia e noite o azinho das limpezas e desbastes do montado, e numa plateia repleta de mochos, o conforto singelo da casa da malta, mais ou menos a meio da divisão, uma mesa tosca, imensa, com dois bancos corridos igualmente toscos, completavam a frugal mobília. O mérito da funcionalidade, geralmente aliado à beleza estética de tais peças, tinha nas mãos do abegão o seu legítimo dono.
Estes espaços de sociabilidade da ganharia eram uma continua revelação, o ponto comum entre a utopia duma vida melhor e a crueza da realidade, a afeição e a aversão, a vida real e a fantasia, a submissão e o gesto de revolta. Ali se ajustavam combinações seladas pela honra da palavra, se chegava à jura ou à vingança, se contendia a perfeição nas tarefas da lavoura e a pujança física, se carteava uma bisca ou uma sueca, se combinavam as idas aos bailes, se anunciava a festa. Era na casa da malta onde, de quando em quando, por mou das mãos largas ou algum contentamento do lavrador, as comedias eram melhoradas. Na hora da ceia, a costumeira açorda poderia dar lugar a um cozido de grão.
Cozido de grão com cardinhos
0,5 Kg de grãos
1 molho de cardinhos
0,15 Kg de feijão verde
1 molho de hortelã
0,5 Kg de carne de borrego
0,5 Kg de chispe fresco ou salgado
1 linguiça pequena
1 morcela pequena
1 farinheira
0,15 Kg de toucinho fresco ou salgado
0,5 Kg de abóbora
pão duro
sal
Na véspera põem-se de molho os grãos e as carnes, as que forem da salgadeira. Cozem-se os grãos com sal. Quando estiverem em meia cozedura, junta-se a abóbora cortada em cubos, o toucinho, as restantes carnes (com excepção da farinheira), o feijão verde e os cardinhos. Quase no fim, junta-se a farinheira. Quando estiver tudo cozido, verte-se o caldo numa terrina, sobre o pão cortado em cubos e coberto pela hortelã. Os vegetais e as carnes são servidos em travessa à parte. Nalguns sítios, este prato também se denomina por cozido de verão.
Onde quer que estejam estes heróicos produtores da planície, que nunca lhes falte o cozido de grão, com ou sem cardinhos.

Rui Knopfli nasceu em Inhambane em 1932. Morreu em Lisboa e foi enterrado em Vila Viçosa, possivelmente, pelo desejo escrito no poema: “Afinal tudo principiou aqui”.
As Origens
Paro diante do jazigo de família,
Vila Viçosa, Alentejo profundo. Afinal tudo
principiou aqui. O apelido seria,
puramente como outros, alentejano,
não fora a incursão oportunista
do estrangeiro, que perturbaria o resto,
confundindo o futuro e as interpretações.
Aqui, neste silêncio solar e vertical,
Estou apenas diante de um jazigo modesto
que, humildemente, reza ser o de Angélica
da Boa Morte Rosa (com o acrescentado
apelido). Aqui onde tudo terá começado,
ou novo ciclo se iniciaria. Feita de lavras
em pousio e esperança adiada,
pertencemos todos a esta África lusitana
que pelas outras se expandiria. Por estas
andámos perdidos, ignorando então
que a passagem obrigava ao regresso. Não
fora isso e seria apenas o poeta local, sobrenome
Rosa, aguardando o lugar que lhe caberia.
(do livro “O monhé das cobras”)
Dizem de Maputo que morreu o Prosperino.
Prosperino Gallipoli, italiano, missionário capuchinho, matreiro e hábil comunicador e ao mesmo tempo dono de um carácter impetuoso. Chegou a Moçambique no ido ano de 1958. Apostolou anos e anos na Zambézia. Não escapou da turbulência do pós-independência e foi expulso de Moçambique. Com a caturrice que lhe conheci, ficou por ali, penso que na Suazilândia. Segundo se dizia, o próprio Samora Machel convidou-o a regressar à terra que também tinha como sua. Voltou ainda mais teimoso.
Por volta de 80 encabeça a defesa dos camponeses pobres, da cintura de Maputo, contra a forçada estatização da produção. Consegue movimentar milhares de mulheres. Esmola – eufemismo nos métodos do Gallipoli – fundos da América à Itália. Não há cofres que escapem à lábia da sua gazua. Formam-se dezenas e dezenas de cooperativas agrícolas. Nos tempos da penúria alimentar, carne de porco e hortaliças, só do Prosperino e da Celina Cossa então presidente da União das Cooperativas de Maputo.
Trabalhei com ele durante dois anos a soldo da UNICEF. Tivemos pegas furiosas. Quem não tinha. Certa vez, verde de cólera, gritou-me: Isidoro, tu és um rebelde, mas és um dos bons técnicos que eu tenho. Fiquei vaidoso com a avaliação.
Vivia sozinho ali para os lados da Mafalala. De vez em vez ia a sua casa dar uma léria e bebericar umas bijecas. Quando estava de boa catadura tinha a bonomia dos gordos e era um bom conversador naquele seu arrazoado italiano, português e changane.
Tenho saudades do Prosperino! Agora que está no seu segundo reino, o S. Pedro que se cuide!

Prosperino primeiro da esquerda

Não me recordo quanto era, todavia não seriam mais de duas dezenas de tostões. Évora a Nossa Senhora de Machede. Depois, da estação até à aldeia, não mais que três quilómetros, embalávamos no trote largo da charrette do tio José. No regresso ao burgo eborense, nova viagem na tracção animal e na tracção a vapor. Eram um delírio estas jornadas familiares à aldeia. O senão, morava nas esfregas beijoqueiras das velhotas – ai mê rico menino. O contrapeso dos lambuzados beijos, esmiuçava-o nas tardadas de fisga no bolso a zunir pelo o campo. A penantes ou numa pedaleira alugada ao Fitas a dez tostões à hora. Pelo fim da tarde, antes do regresso ao Monte do Monviso, ainda havia uma nesga de tempo para despachar umas gasosas na Sociedade da Música. Ala que se faz tarde, corria desalmadamente para a vacaria a tempo de, desajeitadamente, tentar aprender a ordenhar sob os ralhos do avô Isidoro. Puxava igualmente a mim, a tarefa de despejar nos caqueiros a comida que haveria de saciar os rafeiros do Monte. Muito vagamente, ainda mantenho uma lembrança fugidia dos malteses a pedirem ao avô para dormirem no casão da palha. Depois eram as noites diferentes das da cidade, alumiadas pelo petróleo, e dormidas com o olho na telha de vidro do telhado de telha vã.
Como gostava de fazer a viagem, de cabeça de fora, a saborear o cheiro do carvão ardido na fornalha da locomotiva e a ver desfilar as azinheiras numa correria louca às arrecuas. Como gostava de ir sentado no banco forrado com pele de borrego, ao lado do tio José, a observar o movimento vigoroso do trote largo da égua sob o silêncio da charneca que só as ferraduras e o deslizar das rodas, nas estrada de terra, se atreviam a cortar. Como eram saborosas as açordas, com bacalhau e figos de S. João, no Monte do avô Isidoro. Como gostava de ter agora uma máquina de viajar no tempo!
Verdadeira bíblia para os estudiosos ou simples curiosos do tema. Obra da autoria do saudoso Mestre Eugénio de Castro Caldas. Professor que contribuiu dedicadamente para a formação de inúmeros agrónomos. Mestre que, durante uma vida cheia, reflectiu e cultivou um desenvolvimento sustentado para este país.
À laia de notificação sobre o conhecimento, e direi mesmo o respeito, que nos merecem os nossos melhores pensadores, rabisco dois eloquentes exemplos de percepção oposta: dos vários professores das academias portuguesas a quem da obra falei, poucos a conheciam ou dela tinham alvíssaras; de uma académica catalã que por aqui andou colhendo um doutoramento sobre o uso agrário alentejano ao longo dos tempos, trazia a sua referência na bibliografia a consultar. Sinais de uma herança salazarenta que escondia no vão da escada – não poucas vezes em sítios mais esconsos e gradeados -, os que não reverenciavam ou até cometiam o supremo sacrilégio de se atrever a discordar publicamente.

Da introdução deste faraónico trabalho, retiro um excerto que, penso, aquilata do rigor do Mestre.
(...) Quando a Vida Rural solicitou ao signatário que elaborasse uma série de Artigos de Informação Cientifica de Base ligados ao seu Ensino não lhe pareceu possível tentar a História da Agricultura, embora tivesse regido Disciplina subordinada a este título, sem que se considerasse historiador. Verificou que recorrera à história como instrumento científico que provinha de raiz Pré-histórica na Arqueologia, Antropologia, bem como na Geografia Física e Humana, Etnografia, admitidas, quanto muito, como História Natural, onde vem inserir-se a História de Portugal. Todavia, quando, no decurso da elaboração dos referidos artigos, foi resolvido publicar um trabalho, não pareceu ao signatário que a referência à História fosse adequada, dando preferência à designação de “Agricultura portuguesa através dos tempos”, visto que a Agricultura precede a “História de Portugal”. Não deixávamos de admitir a inexistência da coordenada “tempo” na realidade da dimensão do Universo cientificamente compreensível, presumindo-se apenas a evolução da “vida”, feita a partir da base da Energia que se encontra na origem e na adaptação às transformações naturais do Planeta Terra. Nos “Reinos” mineral, vegetal e animal existiria longo “período” Pré-histórico, na Natureza ainda não humanizada, sendo encontrados na evolução das “Espécies” os vestígios da presença Humana de que trata a Antropologia em função das condições Geográficas e Comportamentais dos Primatas. Pelo motivo de se pretender a descrição da Agricultura no espaço Geográfico onde Portugal acabou por ser implantado como orgânica política, recebendo naturalmente influências do exterior, volta a preferir-se a designação de “História de Portugal” embora se não recorra à metodologia desta Ciência no que se refere à documentação dos factos que registam os acontecimentos. O que se pretende, partindo das circunstâncias Pré-Históricas explicativas da evolução futura da Agricultura, é encontrar o momento em que o “mistério” do longo e insondável processo de Humanização do Universo, o Trabalho se implanta como nítido alicerce da Vida Sociológica. Regressamos, por isso, sem qualquer sombra de dúvida à reedição do que possa ser considerado interpretação de conteúdo Agronómico de “Agricultura na História de Portugal”, visto que nunca poderíamos apresentar aos nossos Leitores a “História da Agricultura Portuguesa” dotada de metodologia apropriada no que respeita à fundamentação científica dos factos comprovados adequadamente. Foi possível basearmo-nos em Historiadores que promoveram o aprofundamento e a análise de documentos referentes a diferentes Idades e Épocas, sendo as lacunas preenchidas por especialistas de outros ramos das Ciências Sociológicas, completando-se tal conjunto com deduções de Agrónomo que, por vezes, representam interpretações científicas de factos Humanos e de acontecimentos nebulosos, induzidos por circunstâncias Ambientais inesperadas. O texto representará Antologia, Memória e Lenda, ficando longe da forma de Romance que se pretendia elaborar, de acordo com o Processo Agrário tanto quanto possível investigado.
Casa da Andorinha, 1998

Na Índia o homem toca para encantar a serpente. Cá o amola tesouras tocava para encantar os clientes. Outros ainda havia que encantavam tamborilando o martelo na bigorna que, aquando dos consertos, espetavam entre as pedras da calçada. E eu ficava por ali vidrado na habilidade manual daqueles homens de avental de couro que ganhavam a sopa andarilhando a profissão.
Há dias ouvi o toque corrido da gaita do amola tesouras. Raros devem resistir. O consumismo descartável empurrou para o museu da arqueologia o gatar da racha do alguidar, o amolar do fio da tesoura ou da faca e o conserto do guarda-chuva. Era muito mais do que um serviço de proximidade. Era o verdadeiro serviço sazonal do porta-a-porta. Passava de tempos a tempos, dando prazo ao fio da tesoura ficar rombo de tanto tesourar.
Geralmente artífices espanhóis, galegos, dizia-se. Asturianos, digo eu, por as Astúrias serem a terra de tudo o que tenha corte afiado. Possivelmente homens refugiados da guerra civil.

Terminou ontem em Montemor-o-Novo o Congresso Alentejo XXI. Registo com agrado a presença de alentejanos representantes de todo o espectro partidário. Não me recordo de semelhante desde o Congresso de Sines.
Agora que o Congresso se partilhou efectivamente, há que achar alternativa ao actual modelo de comunicações e debate. Este já não é mais que uma maratona de comunicações que às tantas ninguém ouve. Depois, há que inventar uma fórmula para transmutar o potencial interventivo do congresso num lobby regional efectivo.
O trabalho de síntese, apresentado aos congressistas, mostra uma radiografia de uma região em estado crítico. Neste quase um terço do território residimos agora apenas 5,2 % da população nacional. Nos meados do século passado o Alentejo era habitado 802.547 almas. Em 2001, éramos 535.753. Hoje, somos ainda menos. Caso não fosse o fenómeno da imigração – cresceu 31,6 % entre 1999 e 2002 – e já não atingiríamos os quinhentos mil. Grosso modo, em cada quilómetro quadrado de território, habitamos somente 19,3 pessoas. Apenas sete dos quarenta e sete concelhos da região viram crescer a população. A análise efectuada “indicia que a população cresce” nos concelhos que estão a apostar numa economia diversificada.
Neste momento temos a taxa de desemprego mais elevada do país, 9,7 % da população activa. Temos por outro lado o PIB “per capita mais baixo do país. O Produto Interno Bruto gerado na região representa apenas 4,1 % do total nacional.
Diz-nos ainda a radiografia que na última década extinguiram-se 11 mil pequenas e médias explorações agrícolas. O documento especula que “a manter-se a actual política agrícola e a concentração de terras, de ajudas e subsídios comunitários, é de prever que na década em curso desapareçam 35.906 explorações agrícolas”.
O cenário é suficientemente negro para reflectirmos. Acredito, no entanto, na nossa capacidade de dar a volta a este prometido destino.
Poderia ser uma festa, mas não! Como pode haver festa quando do outro lado está um chefe que açula às canelas dos adversários os sentimentos mais medíocres dos seus correligionários. Como pode haver festa quando se joga contra o treinador em causa. Um imbecilóide que há tempos numa entrevista disse que era de direita por pertencer a uma família tradicional. Independente de ter o direito de ser do lado que quiser, não tem é o direito de o justificar com baboseiras para menores mentais.
Com a serenidade do sul, aguardo a vitória do meu Benfica.
Já por vezes tenho dito que a gastronomia é uma arte esteticamente tão sublime que, mestres como Domingos Rodrigues ou João Ribeiro têm tanto direito às mordomias da história como a pintora Vieira da Silva, a fadista Amália Rodrigues ou o matador Manuel dos Santos. Tanto uns como outros, criadores de genialidades, quiçá mais perenes ou mais efémeras, mas todas com o condão da sedução e deslumbramento dos que a elas se rendem. Uma tela, um fado, um passe de peito, podem, se executados com mestria, produzir agradáveis sensações tal como uma iguaria as pode despertar. Todos estes actos têm, como fim último, o objectivo de proporcionar o maior prazer aos que com sentimento os vivem.

Não cometo um grande sacrilégio se disser que a cozinha é uma arte que mexe com a totalidade dos sentidos. Ao cozinhar, se o artífice praticar o acto em plenitude, usará certamente os cinco sentidos com que foi contemplado ao nascer. O cheiro e o gosto são importantes, mas não o são menos o tacto, o ouvido e o olhar. Qual o cozinheiro que não sorri de satisfação, ao quebrar um legume, perante sons que indiciam frescura? Não é por acaso que a sabedoria popular evoca com pertinência que – os olhos também comem!
Nunca é demais afirmar a riqueza da comida alentejana, resultante de uma imaginação sem peias e que, ao longo dos tempos, as gentes foram esculpindo como uma arte de primores e fascínios. Eu, na medida da minha modesta contribuição, vou continuando a esculpir, vou continuando a sonhar a permanente descoberta de outras novas e perfeitas gloriosas comezainas.
Há não muito tempo e à volta de uma mesa, dado o tema, em conversa com o Correia, comandante da restauração do mesmo nome, templo ancorado em Vila do Bispo, concluímos que: o acto de criar uma nova comezaina passa por produzir mentalmente um guião como se da realização de um filme se tratasse. Ao filme que vais construir, correspondem imagens, sons, cheiros e sabores que tens no armazém da memória. São essas imagens, sons, cheiros e sabores que vais misturar, ajustar, apurar, até concluíres mentalmente a invenção do projecto. Depois, na frente do fogão, tiras a prova dos nove.
A comedia que se segue é fruto de uma sessão de cinema semelhante.
Amêijoas à Isidoro de Machede
1 kg de amêijoas
2 cebolas
6 dentes de alho
2 dl de azeite
1 folha de louro
200 gr de toucinho
1 linguiça pequena
½ kg de tomate
250 gr de tortulhos (cogumelos)
1 courgette
3 dl de vinho branco
sal
Num tacho, refogo no azeite a cebola às rodelas, o alho picado e o louro. Com refogado a meio termo junta-se o vinho e deixa-se apurar. De seguida junta-se o tomate devidamente pelado e cortado aos quartos. Quando o tomate estiver cozido, com a varinha mágica, transforma-se o preparado em puré. Caso fique muito grosso junta-se um pouco de água.
Junta-se então ao puré o toucinho fatiado e a linguiça às rodelas. Deixa-se cozer um pouco, para de seguida juntar os tortulhos aos bocados e a courgette às rodelas. Por fim deitam-se as amêijoas, envolvendo-as no molhos afim de abrirem. Corrige-se o sal. Pessoalmente gosto deste cozinhado com um pouco de picante. Vícios africanos!

A acompanhar, vá embebendo criteriosamente dos dois lados nacos de panito no molho. Como guarda de honra, um branquinho seco.
Esta comedia deve ser olhada na nomenclatura protocolar como uma digníssima entrada. Mas se a entrada em cena for por outra ordem não será o caso de atrapalhar o papel.
Que o engenho continue a ser irmão do atrevimento.

photo de Gérard Castello-Lopes - 1957
O retrato é dos cafundós do tempo. Mas como ainda não apearam o tontinho das américas, poderia perfeitamente ser um dos danos colaterais da 3ª guerra mundial. E caso assim fosse, era um fartote ver os invertebrados defensores das ADM do Iraque a fazerem pela vida, plantando umas couves no quintal da jóia do império. Isto, porque aqui na terra dos comes, pura e simplesmente fechávamos o taipal da loja a esses gajos. Que fossem pastar demagogia!
Recordo-me de no recato familiar se ciciarem histórias, sempre a meia voz. Sei de outras afirmadas nas tertúlias dos homens. Nas minhas andanças por lugares alentejanos, conheci alguns casos. Uns mais tortuosos e dramáticos, outros de assumidos amores sombrios, outros ainda vividos à luz do dia e permissivamente aceites. Coisas perfeitamente “normais” num mundo de escassos senhores e imensos criados. Coisas de um mundo em que a impunidade de um mando desmedido, coberto pela indulgência da lei, gerava inevitavelmente bastas licenciosidades. Basta consultar os arquivos paroquiais e, mais tarde, dos registos civis, para destaparmos um exército de filhos “ilegítimos”.
Da má fila do direito de pernada, o que sei, ouvi da boca dos antigos. Histórias mais ou menos enfeitadas de tempos há muito idos. Da minha juventude, guardo uma boca corriqueira dita em ambientes a puxar para o marialva: criada em que o patrão não se monte, não toma amor à casa. Não há fumo sem fogo!
Vem isto a propósito do «Senhores e Servas – Um estudo de Antropologia Social no Alentejo da primeira metade do século XX». Livro de David de Morais, dado ao prelo pelas Edições Afrontamento.

O direito do «senhor» usufruir da primeira noite de núpcias das virgens e donzelas dos seus domínios remonta a tempos muito antigos, e parece ter tido origem na prostituição religiosa praticada na Antiguidade: inicialmente seriam os sacerdotes a desfrutar de tal privilégio, mas depois seguiram-se-lhes os reis-sacerdotes, os reis, os nobres e, por fim, os burgueses. Este direito consuetudinário dos nobres teria mesmo levado à sublevação de algumas comunidades ou povos, como terá acontecido na Judeia, no Piemonte, em Montferrat, etc. (...)
Do prólogo do «Senhores e Servas»

encerra uma série de ambientes
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Nasceu em Nova Iorque. Janet Mondlane, Americana, e Eduardo Mondlane, Moçambicano, primeiro presidente da Frelimo, assassinado em 1969 na Tanzânia, são os seus progenitores.
Chude Mondlane tem uma belíssima voz. Cantora com especial apetência pelo jazz, não desdenha, no entanto, planar por outros estilos de raiz afro. Este trabalho “especiarias do coração” é a prova acabada disso mesmo.

Para além de cantar muito e bem, estudou coreografia e dança em Filadélfia e, mais tarde, ballet clássico em Moscovo. Trabalhou com dois monstros do jazz sul-africano, Hugh Masakela e Abdullah Ibrahim (Dollar Brand).
Hoje, depois de ouvir “Cape Town Flowers” de Abdullah Ibrahim, pus a rodar a Chude. São assim os prazeres partilhados com a amiga noite!
O amigo António Cunha (o fotógrafo) ofereceu-me esta verdadeira pérola publicada há nada menos que meio século.

Na condição de alfabetizado, a par da guarda republicana e da polícia, era a menos drástica escapatória para fugir à precária situação da jorna rural, a troco de sabe-se lá quantas horas de trabalho e de submissão. Nos primórdios do século passado, de ar a ar, depois, até às famosas greves do final da década de 50, de sol a sol.
Com jeito o trabalho era num raio próximo da terra. Um cantão (x quilómetros de estrada) por conta a manter em bom estado. Um capataz que vinha de quando em quando medir a manutenção, mas quase sempre estava longe da vista. Uma pedaleira ao serviço como transporte. O único senão, era a mangação generalizada, dos do campo, sobre o célebre suor de cantoneiro. Mangação que incluía uma ponta de inveja por se não alcandorarem a serem do estado, com trabalhinho quer chovesse quer fizesse sol. Uma coisa era certa, passavam ao lado dos rancores reservados aos que se passavam para as fileiras da autoridade. E que rancores!
Voltando ao manual. É justo frisar da sua utilidade como instrumento de formação profissional. Apetrechos que, suicidariamente, os pensantes dos tempos “modernos”, jogaram no baú da história tal como as úteis escolas industriais.
Objecto pedagogicamente bem estruturado, acessível e com as instruções técnicas necessárias à arte. Contém ainda um interessante anexo sobre unidades de medida do sistema métrico e outras medidas diversas, medições de áreas e volumes e as necessárias tabelas de pesos dos diferentes tipos de solos e outros materiais.

Como não poderia deixar de ser, contém, igualmente, a cartilha salazarenta das boas normas de conduta do pessoal cantoneiro.
a)– Apresentação
O pessoal cantoneiro deve apresentar-se na estrada convenientemente uniformizado, de harmonia com o que está estabelecido, barbeado e de cabelo cortado, não esquecendo nunca que deve impor-se pela sua apresentação. Deve prestar a sua colaboração a outras autoridades: polícia de viação, guarda republicana e guarda fiscal.
Em presença de um superior, o pessoal cantoneiro deve estar em atitude correcta e de respeito (posição de sentido).
Os cantoneiros poderão trazer, por debaixo da camisa regulamentar, os agasalhos que lhes forem necessários, não lhes sendo, porém, permitido envergar sobre a farda qualquer outra peça de vestuário, além do casaco e calça impermeável, fato de couro ou fato de macaco, quando estiverem trabalhando com betume. Durante o verão usarão a camisa com a gola aberta nos dois primeiros botões e as mangas arregaçadas, se o calor a isso obrigar. Os chapéus regulamentares serão usados sem a copa e a aba de apresentarem deformadas.
Por mou dos amigos voltei novamente a Mourão. Ao consolo de amesendar na Adega Velha, de roda d’um cozido de grão e d’uma sopa da panela devidamente acolitados por um generoso tinto da lavra do patrão Bação. Antes, iniciáramos a refrega a debicar umas azeitonas novas, uns queijinhos de cabra e uma cabeça de xara. Depois, os mais doceiros, lambuzaram-se com a encharcada e o manjar. Fechámos as hostilidades com o cafezinho e uma sereníssima aguardente igualmente da lavra do patrão.
Ainda tive direito a arremeter a gulodice no petisco dos cantadores, umas garfadas de sumarentas cilarcas assadas, colectadas no deus dará da vontade petisqueira. Que a goela não vos falte para o prazer dos tintos e do cante!

Para esmoer esta santificada trabalheira e por mou de no grupo campearem arquitectos, fomos de excursão ao museu da Aldeia da Luz.
Belíssima obra esta acachapada na terra que desvenda. Só espero que, quando a tutela da EDIA se retirar, os luzenses acarinhem a história da sua sofrida e heróica saga.

Inevitavelmente, mais uma vez, mirámos a magnificência do nosso recente mar. Para além da água, muita ou pouca, ser sempre um regalo para a alma alentejana, incomoda-nos não vislumbrar ainda alvíssaras sérias da sua serventia.

A extremosa proprietária da aptidão leiteira e o consolado utente que se ponham à tabela. A América das evangélicas virtudes tem-nos debaixo de d’olho.
Sou assumidamente um homem do sul. Concebido, nascido e criado aqui, na terra do ocre e da cal, nunca o norte magnetizou a minha bússola. E quando a vida me deu para andar, procurei os caminhos do destino nas rotas mágicas das Áfricas, onde o bambolear musicado dos corpos acrescentou liberdade e fantasia ao temperamento austero do meu sul. Mesmo agora que, novamente sedentário no meu sul sou, quando a vontade ou a necessidade ao norte me levam, estou e gosto, mas o que mais gosto mesmo é regressar e achar que já estou em casa, quando do alto da Serra dos Candeeiros avisto a planície que nem no infinito se perde. É aí que começa o sul da minha geografia sentimental.
Lisboa é a cidade do sul mais ao norte. Na altura, talvez não só por isso, mas o certo é que aí vivi nos loucos anos de brasa, nos meados da década de 70. Para os andarilhos da altura, cirandar a juventude pela boémia da capital era como que partilhar o Olimpo com os deuses.
E foram na realidade anos temerários, numa Lisboa ainda sem correrias e sem os bares do come-em-pé, em que os verdes de dois pisos e os amarelos da carris, rodavam sem desesperos num ronceiro vai-e-vem de citadino prazer. Numa Lisboa pacífica, em que a rotineira desinquietação boémia dos duros jantava na Trave ou no Fidalgo, despachava umas imperiais entre ruidosas tertúlias político-filosóficas na Trindade ou no Convívio, rumava e tentava arrumar umas namoradas no Bolero ou no Bonaparte e ... se sim, sim, se não restavam os copos da sossega no Cacau da Ribeira ou no Mercado do Rego. Nestas coisas da amesendação, dos copos, da animação e da cultura, (exacto, disse cultura, que é palavra bem dita para oficiar tais santos lugares), havia ainda um mar da palha, raso de alternativas populares ou eruditas, às quais, por gratidão profunda, rabisco a minha homenagem.

Atulhei ainda a mente de imensos conhecimentos e sabedorias, no trato com mestres daqui e acolá, de vidas cheias de vida que, das artes à política, me ajudaram imenso a moldar a existência. Foi na companhia dessas gentes que bebi a cidade até ao último trago. Na sua companhia costumava deambular, farejando iguarias que me trouxessem memórias antigas ou novidades saborosas. Dessas andanças gastronómicas guardo na lembrança uma taberna, ali para os lados de Moscavide, em que o chamariz era nem menos nem mais que túbaros de borrego com ovos mexidos. Tratava-se no caso de um aconchego para a memória, já que o petisco em causa era useiro e vezeiro nas casas de pasto alentejanas.
Túbaros de Borrego com ovos
1 kg de testículos de borrego
4 ovos
2 limões
6 dentes de alho
1 cebola
banha
vinho branco
louro
colorau
sal
Arranje e lave muito bem os testículos de borrego. Seguidamente, corte-os às rodelas da largura de um dedo. Tempere-os com o sumo de 1 limão, 2 dentes de alho e o sal. Numa frigideira refogue na banha os restantes alhos e a cebola, os primeiros picados e a segunda às rodelas finas. Junte o louro e uma pitada de colorau. Depois do refogado estar loirinho junte os testículos e deixe-os refogar mexendo de vez em quando. Borrife com vinho branco, deixe apurar e corrija o sal. Bata os ovos. Quando a carne estiver no ponto, junte os ovos batidos ao molho e envolva bem o preparado. Ao arredar regue com o sumo de limão a gosto.
É natural que já não exista a dita taberna. Foi coisa de há vinte e tal anos atrás. Aliás, é melhor nem a procurar, para não ter o desgosto de encarar com uma baiuca a puxar ao pingarelho, abarrotada de um exército de tias frustradas que de beiços estendidos sorvem galões e dão dentadinhas em queques requentados enquanto cospem miolos e asneiras sobre os asnos do big brother. Imaginem ainda que a mágoa me ensandece, entro e peço, com voz de Manuel Alegre, à menina do shoping: - um jarro de tinto e uma dose de túbaros com ovos.
Possivelmente terminaria esta saga entre gritos histéricos e desmaios, numa camisa-de-forças a caminho do Miguel Bombarda, isto, caso não fosse parar às mão de um fanático da protectora dos animais que, de imediato, me despacharia para o Oceanário da Expo como comida para peixes.
O meu coração, é decididamente avesso a tanto progresso!
Nasceu em Lisboa em 1925. Vive em Évora. António Charrua continua a habitar teimosamente na Rua Mouraria, casa que conheço como sua até onde consigo rebobinar o arquivo da memória. Por lá andei, ainda pateta de bibe, pela mão do saudoso amigo João Perdigão que, há altura, ainda sem filhos fazia questão de passear o gaiato. Por aí passaram assiduamente, João Cutileiro (também ainda habitante do burgo), Dordio Gomes, Júlio Resende, Álvaro Lapa e Henrique Ruivo.
Em meados dos anos 60, sem contudo abandonar o informalismo ou o gestualismo, começa a produzir trabalhos onde são visíveis referências à Pop Art, tal como Lurdes de Castro, René Bèrtholo, Sá Nogueira e o também eborense António Palolo.
Em 2001, o Museu de Évora montou uma exposição sobre a sua obra. Nos cerca de 50 trabalhos expostos, trespassava o tempo desde a década de 50 até há última do finado século. Nós agradecemos.

Photo Gérard Castello-Lopes. Évora.2000
“A minha obra vejo-a como uma pesquisa numa zona marcada pelo gesto expressionista, mas determinada por um certo desejo de equilíbrio, uma certa contenção (...) Contrariamente ao que se possa supor, não se trata de começar no real, ou naquilo a que se chama natureza. Tudo se passa no plano da tela, e, recusada a ilusão, as coisas situam-se na continuidade do sentido estético, que o mesmo é dizer na própria obra de arte. Suponho que toda a pintura dita moderna apela a uma nova construção do espaço que tem a ver mais com o que se sabe do com o que se vê. Mas o real também está presente, na sua indeterminada, fascinante e misteriosa dimensão”.
(António Charrua em entrevista a António Bacalhau)
Segundo o Diário Económico, o “fast-food” McDonald’s vai patrocinar o Guia de Restaurantes representantes da gastronomia portuguesa para o Euro 2004. O Guia é uma iniciativa do ICEP e da Associação Nacional de Regiões de Turismo, resulta de uma resolução do Conselho de Ministros que qualificou a gastronomia nacional como valor integrante do património cultural português e é uma das 37 medidas do Governo para a dinamização do turismo em Portugal.
Estou banzado! Calhando direi mesmo em estado de choque. Que os quequinhos do ICEP tenham orgasmos infantis perante um hambúrguer, não é admiração nenhuma. Tenho mesmo para mim que os artistas em questão acham que um borrego é uma ave com pêlo. Agora os gravatinhas das Regiões de Turismo alinharem nesta pantomina??? A coisa trás água no bico, ou melhor, trás mas é choruda alcavala!
Sobre o governo??? Bom, daquela contabilista que, por vezes, a falta de vista já me leva a confundir com uma slot machine com os olhinhos a sugerirem combinações de melancias com cerejas, quando muito, estará é preparada para nos dar o arroz. Sobre as 37 medidas (diga trinta e sete) para a dinamização do turismo em Portugal. Se na primeira cavadela sai minhoca, na segunda é capaz de sair o Theias a sugerir, para cartaz turístico 2004, uns mega churrascos de helicóptero para a próxima época de incêndios. Antes os turistas a grelharem salsichas que os empregados da Cambra a passear! Sempre entram uns tostões na slot machine.

Lego
Está tudo conformado
ao triste proprietário.
Mecânicas ovelhas,
na erva de plástico,
têm pastor a pilhas
e cão pré-fabricado.
Flores marginam esse
às peças-soltas prado.
Eléctricas abelhas,
obreiras sem contrato,
daquele herbário extraem
um mel supermercado.
A malhada, no estábulo,
quase manga de alpaca
(é A VACA, sabias?),
dá leite engarrafado.
No céu (para colorir)
a nuvem, pontual,
aguarda a vez de ser
chovida no nabal,
enquanto o Sol dardeja
na eira proverbial.
Já tudo afeiçoado
ao bom do proprietário
(ervas, bichos, moral),
ele conta com os seus
e espera sempre em Deus.
(«- Deste corda ao pardal?»)
Alexandre O’Neill
Chamo-me Dinis Albano Carneiro Gonçalves, nasci em Braga, a 11 de Março de 1940.
Cheguei a Moçambique há 30 anos.
Alba era uma canção provençal. Culminava com a despedida dos dois amantes, ao amanhecer. Um dos primeiros poemas que escrevi tinha o titulo “Eu, a canção”. Escrevo com terrível dificuldade: rescrevo, colo, interpolo, publico um poema como quem o espelha. Armo a oficina em qualquer parte, sem tabuleta que o indique. Ninguém sabe, mas ali sua-se.
Sebastião Alba rabiscou o texto acima, à laia de apresentação, aquando da publicação do livro de poemas “O ritmo do Presságio”. Passou-se isto no ido 1981. Pouco tempo depois veio embora de Moçambique. Nunca a ninguém contou o que lhe ia na alma para abandonar a terra da serenidade – como lhe costumava chamar. Voltou ao ponto de partida. Optou – palavra demasiado fria para catalogar a vontade do poeta – por viver na condição de vagabundo das estrelas na cidade dos arcebispos. Continuou a escrever mas sem publicar, quem iria publicar um sem abrigo. Visitava os filhos com os quais nunca quis viver. Já neste século encontram-no morto na rua, na sua casa melhor dizendo!
Fim de poema
Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.
Sebastião Alba
do livro “A noite dividida”
O angolano Manuel Rui foi um militante do MPLA da primeira hora - disse foi por não acreditar que ele continue a acreditar num equívoco. Guerrilhou na mata e escreveu sempre e bem. Da escrita desse tempo publicou, posteriormente, o “Maiombe”. Lúcida descrição do que leva um homem a guerrear e das complicadas relações destes com a casta dirigente.
Pouco tempo após a independência, já profundamente desencantado, volta a fazer da palavra uma arma da crítica e escreve o “Quem me dera ser onda”. Em Angola impedem a sua publicação. É publicado em Portugal. Só uns anos mais tarde sobe ao prelo na sua terra. Imbecilmente dão-lhe um prémio.
Esta escrita é uma festa de uma seriedade tremendamente crua. Esta escrita completamente nua traja uma fabulosa brincadeira.
Este livro é um certeiro presságio do quão rasteiro podem cair os “libertadores”. Com este livro, Manuel Rui, adivinhou-lhes as intenções.
Na primeira vez, li-o de um fôlego!

Redacção
Carnaval da vitória é o porco mais bonito do mundo. Meu pai que lhe trouxe no sétimo andar onde a comissão de moradores é reaccionária porque não quer porcos no prédio e o camarada Faustino tem Kandonga de dendém e faz Kaporroto a cem Kwanzas cada búlgaro. Primeiro o nome dele era só Carnaval. Depois que a gente ganhou vitória contra o inimigo o nome ficou Carnaval da Vitória. O inimigo é um fiscal fantoche ladrão de porcos que lhe denunciámos no prédio onde ele ficou na vergonha. Carnaval da Vitória é o porco mais bom do mundo porque quando veio na nossa escola a camarada professora deu borla. O meu pai é um reaccionário porque não gosta de peixe frito do povo e ralha com a minha mãe. Ele é um burguês pequeno mas diz que Carnaval da Vitória é um burguês. Por isso lhe quer matar só por causa de comer carne. Carnaval da Vitória é revolucionário porque quando meu pai bateu em mim e no meu irmão Zeca ele lhe quis morder. Nós não vamos deixar matar Carnaval da Vitória porque a luta contínua e o responsável da comissão de moradores não sabe palavras de ordem que os pioneiros é que lhe ensinam. E a camarada professora é muito boa porque deixa fazer redacções que a gente quer e até trouxe na escola o primo dela Filipe que veio tocar viola dentro da nossa sala.
Ruça Diogo
Ontem, 2 de Fevereiro, dia de Nossa Senhora das Candeias. Santa padroeira da Vila de Mourão. Três dias de vigorosa festa em que por uma vez não se olha à carteira. Portas escancaradas para facilitar o corrupio pelas mesas fardadas com toalhas de linho, subjugadas pela fartura de doçaria e outras comedorias que mais puxem pela pinga e de carreira pela alegria. E ala que se faz tarde para a tourada do boi do povo que, depois de sacrificado e esquartejado, há-de dar forças para mais um ano a mourejar. Com uma fé que vem do fundo do tempo, num silêncio conhecido desde o parto, aqui e ali adoçado pela música religiosa, o ajuntamento serpenteia pela vila acompanhando a Senhora. É o momento da expiação e da redenção anual dos mouranenses.

Não há mouranense que se preze, que não esteja presente do primeiro ao derradeiro minuto desta festa ancestral. Os que andarilham pela diáspora, nem que seja a pé, mas nem pensar em faltar na festa da sua santinha.
Dá que pensar a postura desta gente. Uma achega magistral para desatar este nó, deu, em tempos já idos, o saudoso amigo Pedro Ferro.
Muitos teimam em ver no Alentejo uma terra árida de religião, sem a capacidade da fé e o chamamento do misticismo. É falso. O alentejano tem a fé dentro de uma carteira de plástico. O alentejano é o único ser do mundo que, sem conflitos existenciais e ideológicos, é capaz de trazer na carteira, ao lado Bilhete de Identidade e da licença do rafeiro, o cartão do Partido Comunista e uma gravura de Nossa Senhora das Relíquias.
Abrir a carteira do alentejano é descobrir-lhe a própria alma. É desvendar-lhe as entranhas. Na carteira do homem das planícies está, como rã dissecada no mármore do bioquímico, a revelação de uma fé maior. O alentejano acredita “haver alguém a mandar nisto tudo” – e alarga o gesto a abraçar o mundo. Mas Deus não é para ele figura de altar. Deus é o que o alentejano sabe estar no crescimento do trigo e na fartura do azeite. Sóbrio em tudo, também na relação com o metafísico, o alentejano é avaro de exteriorização. Deus: questão que o alentejano tem consigo mesmo.(...)
Lembro ainda um interessante pormenor relacionado com o dia de Nossa Senhora das Candeias. Diz a sabedoria das gentes do campo: se as candeias rirem o inverno está dentro, se as candeias chorarem o inverno está fora. Ou seja: se não chover o inverno está para vir, se chover o inverno já passou.
Ontem, esteve um dia lindo, luminoso e aconchegado.
Quando ainda na 1ª classe lançou a intriga generalizada entre os colegas da escola, a professora repreendeu-o.
Após ter convencido a catequista a comprar-lhe um triciclo inglês com o dinheiro da caixa das esmolas, o senhor padre admoestou-o.
Depois de ter denunciado o aborto praticado pela mamã, o seu pai amaldiçoou aquele espermatozóide.
Quando foi empossado ministro das tropas e mais não sei o quê do governo, o seu pai teve o enfarte.
(Colagem a propósito sobre o conto “Carreirismo” do Livro, de Mário Henrique Leiria, “Contos do gin tónico”)

O Eleutério e o Pirata... Qualquer um destes dois cavalheiros que de perto conheci e estimei, representavam para os seus conterrâneos figurões destemidos que angariavam o sustento, do dia a dia, no deus dará da caça e da recolecção. Figurões que aos costumes diziam nada, como nada lhes dizia os aramados das coutadas, o defeso da pesca ou outras proibições de pequena monta que apenas importunava o modo libertário de viver. Existências furtivas em permanente contencioso com os representantes duma lei que não tinham como sua. Pelos seus feitos, que o povo cochichava à boca pequena, eram os símbolos eleitos da vontade colectiva de bandarilhar a autoridade. Entre dois copos de vinho a sua temeridade era elevada à condição poética pelo dezedor das décimas. A taberna inteira rejubilava com a sua mestria: são mais finos que o azeite de Moura. Tinha-lhes, igualmente, calhado em sorte uma mão afinada para a cozinha, verdadeiro ouro sobre azul.
Eram portadores de um aguçado sentido de sobrevivência aliado a um profundo conhecimento da geometria da natureza. A biologia da necessidade ditava-lhes uma dieta do possível, mas, dentro do possível, apenas o melhor. Na míngua ou desenjoo da carne, valia a companhia dos legumes.
Acelgas, labaças, beldroegas, cardinhos, espargos, cogumelos e túberas, são vegetais expontâneos que do fundo do tempo constam dos tratados culinários destas gentes do sul. Quem melhor que estes andarilhos da natureza para tratar por tu esta botânica comestível. O seu território palmilhavam-no de olhos vendados mas certeiros de alcançar o desejo. A rota destas riquezas eram segredos bem guardados só ao alcance dos iniciados.
E aqui chegados, o pitéu supremo desta vasta nomenclatura são sem dúvida as túberas, espécie que no linguarejar de outros povos passa a trufas. Segundo o sabichão «Larousse Gastronomique» ficamos a saber que a trufa é um «cogumelo subterrâneo que vive em simbiose com certas árvores» constando igualmente que, sendo «comestível muito procurado, a trufa (do latim tuber; depois tufers, excrecência) é uma frutificação irregularmente globulosa, de tamanho variável, preta ou castanho-escura, por vezes cinzenta ou branca, que se encontra sobretudo em terrenos calcários ou argiloso-calcários, a pouca profundidade».

Alfredo Saramago, na sua «Cozinha para Homens/A Honesta Volúpia» assegura-nos que desde antanho as ditas são saboreadas com deleite. Os Egípcios consumiam-nas e os Gregos e Romanos conferiam-lhe propriedades terapêuticas e afrodisíacas. No que concerne à última, que eu saiba, nunca ninguém deu por nada, eu pelo menos não dei, mas a ser verdade é mais uma a somar ao lucro do paladar.
Alentejanando novamente o assunto, dentro das sete dezenas de espécies existentes, calhou-nos em sorte meter o dente precisamente na túbera branca. Mas passando à fase da oficina culinária - a palavra à sabedoria.
Manuel Fialho, na «Cozinha Regional do Alentejo», dá despacho com as Túberas de «Fricassé».
1,5 Kg de túberas
2 cebolas
1 dente de alho
½ dl de azeite
50 gr de banha
1 folha de louro
1 ramo de salsa
sumo de 1 limão
6 gemas de ovos
sal
Escovam-se muito bem as túberas. Lavam-se e descascam-se, partindo-as às rodelas grossas. Num tacho deita-se o azeite e a banha, a cebola picada e o louro, deixando fritar um pouco. Juntam-se as túberas com sal, deixando-as cozer. Quando estiverem apuradas, retiram-se do lume. Juntam-se as gemas com o sumo de limão e a salsa, colocando-as no tacho das túberas. Leva-se ao lume para engrossar.
Manuel Camacho Lúcio na «Cozinha Regional do Baixo Alentejo» rabisca de singelo apenas Túberas.
Têm de ser extraordinariamente bem limpas da terriça.
O mais comum é comê-las fritas em banha, às rodelas ou inteiras, ou juntar à fritada uns ovos, como para os cogumelos.
Também é de uso fazê-las de molho de ovo ou fritas em banha apenas com rodelas de linguiça.
Aguentam bastante bem se depois de fritas as guardar numa púcara cobertas de banha.
Alfredo Saramago, prefere de singelo apenas cozinhá-las com ovos mexidos, em cima dos quais deita as trufas raladas, cruas. Pessoalmente, vou nesta, até porque o requinte casa maravilhosamente com o depurado.
A matemática da bola terráquea é infinitamente correcta. Nós, os terráqueos de mentalidade atarracada é que teimamos em desbaratar a sua infinita harmonia.
Bem hajam os frutos do seu ventre!