janeiro 31, 2004

A coisa assim fica que nem uma estrada nova!

O Expresso especula a rendição do Mota Amaral pelo Alberto João. Que nem ginjas!
O grande espectáculo trágico-cómico, com uma vedeta deste calibre em primeira figura, ganha outra magnitude. Assim, desta maneira, parece-me que os espanhóis não vão recusar a absorção desta magnífica e enorme companhia teatral.
Os australianos, pela primeira vez, cotaram na bolsa um sofisticado bordel. A península pode debutar a cotação de uma promissora companhia de teatro. Até que enfim, começa a aparecer um holofote ao fundo do palco.

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ARQUÍLOCO

1.
Tinha na mão um raminho de mirto
e uma linda flor de roseiral e com eles
se comprazia. Os seus cabelos
cobriam-lhe de sombra os ombros e a nuca.

2.
Do seu cabelo perfumado e do seu peito
até um velho se teria enamorado.

3.
Jazo infeliz, sem vida, pela paixão
vencido, trespassado até aos ossos
por dores acerbas, obra dos deuses.

4.
Coração, coração, de irreparáveis males
agitado, levanta-te, defende-te
dos inimigos opondo-lhes
o peito e nas ciladas
dos contrários mantém-te
firme. E nem, em caso de vitória,
te ufanes em demasia, nem, vencido,
te arrastes em casa, com lamentos.
Nas alegrias alegra-te, e geme nos pesares,
sem excessos. Acostuma-te
aos altos e baixos da fortuna.

5.
Na lança tenho o meu pão
amassado, na lança,
o meu vinho de Ismaro, e bebo
apoiado à minha lança.

6.
Sei uma coisa importante: respondo
com males terríveis a quem me faz mal.

(Arquíloco – Séc. VII a.C.
Poeta Grego Arcaico)

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janeiro 30, 2004

Suite africaine

suite africaine.jpg
Estou a ouvir este fabuloso disco de jazz. A coisa conta-se de uma penada. Cinco maduros, três músicos, um engenheiro de som e um fotógrafo, abalaram pela África abaixo a tocar e a fotografar ao deus dará. Etiópia, Uganda, Quénia, Ruanda, Moçambique, Namíbia e África do Sul. Bateria, clarinete e sax soprano, contrabaixo e uma leica, como fazem questão de frisar. No fim produziram esta belíssima “suite africaine” e um igualmente bonito livro de fotografias “carnet de routes”. Pelas imagens e pelo som curtiram certamente que nem uns nababos. E eu aqui rasinho de cobiça. Pelo menos tenho o som e as fotos, valha-me isso!
Estejam à vontade, sentem-se e apurem o ouvido. O tinto e os copos estão aí ao alcance da vontade!
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janeiro 29, 2004

Pasmo no país do espanto

De quando em quando não resisto ao desabafo sobre a política do rectângulo. Desabafos ralos, cada vez mais ralos que o alentejanando é antes uma barca a bolinar pelos prazeres. Para além disso, bastos há que passam todo o santo blogue a engordurarem-se na gamela da crítica política ou da política crítica. Ao centro do meio, à esquerda do centro, à direita do meio. É um acertivo ver-se-te avias de arreganhanço, de opinanço e de ranço em bicos de pés. Uns do lado da situação. Outros na esperança que o seu lado encontre a situação. E ainda uns e outros que dão o cu e mais oito tostões para se colar a uma qualquer situação.
A propósito da situação, hoje, não resisto: foi com um misto de assombro e de riso que vi o Portas de camuflado, rodeado de generais e outros que tais, enquanto as garbosas tropas evoluíam em mais um exercício nocturno, ali para as bandas de Vendas Novas. O cabotinismo é infinitamente elástico.
Pasmo no país do espanto!

Publicado por machede em 08:48 PM | Comentários (2) | TrackBack

Aquário

Daqui a um molho de madrugadas, se entretanto a coisa não descarrilar, credito mais um na já extensa contabilidade.
Nunca me preocupei muito com a questão dos signos, a bem dizer, nem com o dia do aniversário. Dando asas ao pragmatismo era costume dizer que o galope do tempo é um problema incontornável e daí ser um assunto arquivado.
Continuo ainda sem me emocionar grandemente com a questão de picar o ponto no aniversário, a não ser quando olho para trás e tenho dificuldade em enxergar a linha de partida. Como não sou funcionário público e não tenho grande esperança na segurança social, não passo a vida a almejar a reforma. Aliás, para que a coisa continuasse a decorrer a desejo, gostaria que a mesma fosse momentânea com o patinar.
De há uns tempos a esta parte, comecei, no entanto, a achar graça a esta coisa dos signos. Acho que, no geral, tenho muito a ver com a caracterização comportamental do aquário. Agrada-me sobretudo a auréola de inconvencionalidade!

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Aquário é representado pela figura de um jovem com uma ânfora; é a figura de Ganímedes, um príncipe de tal perfeição e beleza que mereceu a atenção dos imortais. O poderoso Júpiter – que cometeu todos os pecados humanos – quis ter Ganímedes a seu lado, no próprio Olimpo, apesar do jovem ser apenas um mortal; assim, transformou-se numa águia e levou Ganímedes para a morada dos deuses, dando-lhe a incumbência de servir o néctar nos banquetes olímpicos. O néctar que jorra da ânfora de Aquário lembra uma promessa de Júpiter; aquele mortal que beber da ânfora de Ganímedes poderá sentar-se ao lado dos deuses. Essa é a razão porque Aquário é um signo de aspirações elevadas, de idealismo e inspiração. E essa também é a razão porque os aquarianos são excêntricos e inconvencionais...

(mitologia dos signos)

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janeiro 28, 2004

..da-se!

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Há meio século a Europa lambia as feridas mas revivificava as ideias e os espíritos.
Cá, um qualquer escriba zelota molhava o aparo e a mente bolorenta no tinteiro da sacristia e velhaco rabiscava coimas para “aquilo”. Escondendo hipocritamente ser filho “daquilo naquilo”. Mascarando hipocritamente também ele gostar de pôr a “mão naquilo”. Dissimulando hipocritamente as vezes que fantasiou “aquilo atrás daquilo”. Após rubricar a proibição das suas fantasias, passou-lhe o mata-borrão, cujo movimento baloiçante lhe recordou novamente “daquilo naquilo”. Cinicamente sorriu libidinoso!
Não acredito que a sua pequenina e sacrista mente se atrevesse a fantasiar o Parágrafo único. E daí?

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janeiro 27, 2004

Tele Escola

Ainda dizem coisas do papel das televisões.
Com o caso Moderna fomos afincadamente instruídos sobre a benignidade das cooperativas de ensino, da humanidade das lojas maçónica e da generosa cooperação das individualidades a bem da edução.
O povo português ficou mais instruído!
Com o caso Casa Pia tem sido ministrado um verdadeiro mestrado sobre a justiça em Portugal e a forma democrática como ela é administrada.
O povo português ficou bem mais instruído!
Com a invasão do Iraque fizemos um doutoramento sobre o direito internacional e da sua aplicação pela diplomacia portuguesa.
O povo português ficou elevadamente instruído.
Com a dramática infelicidade do jogador Fehér assistimos a várias conferências do major Valentim sobre arquitectura dos estádios, ambulâncias, acessibilidades dos hospitais, desfibrilhadores e outro equipamento médico, apólices dos jogadores, prontidão dos bombeiros, considerações avulsas sobre a morte natural, funcionamento do INEM, a eficácia da Liga, etc...
O major Valentim e as televisões são os grandes educadores do povo português. Bem hajam!
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Do fazer e do beber...

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Há muitos anos, nos tempos do sangue na guelra, trabalhei nalgumas tarefas ligadas à cultura da vinha. Era no entanto um facto que da poda propriamente dita, não enxergava patavina. Na adega, das portas para dentro, conhecia de cor os fazeres do antigamente, agora, com as novas tecnologias, apenas sei dos processos pela rama.
Fui ontem ajudar um amigo vitivinicultor na primeira poda de uma vinha implantada o ano passado. Cepas Arinto e Antão Vaz nas castas brancas, Aragonez e Alicante Buchê nas castas tintas. Trabalho duro por via da permanente dobra do esqueleto a 90º. Trabalho escultório por demais curioso – entender do ramo com vitalidade e melhor lançado, guardar os três olhos da praxe e zás, cortar a golpe exacto os envolventes. Outros atrás atavam os mais encorpados e espigadotes, poucos por sinal. A porra é as sequelas nas cruzes e o rebanho de borregas na mão por mou da tesoura. Na próxima semana a poda é noutra vinha já produtiva. Nessa, requer-se outro degrau de sapiência. Cá com ela!
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Gosto dos saberes e dos fazeres do campo - sempre gostei! Tenho até para mim, que nada de mais nobre há do que produzir o que se come. Então na questão da pinga, essa é uma suprema satisfação!

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janeiro 26, 2004

Os gladiadores da bola também se abatem

O Fehér perdeu o derby com a morte. Acontece a todos os mortais, mesmo aos que de vez em vez se cobrem de glória.
Os gladiadores do meu Benfica, hoje, tiveram uma vitória amarga, profundamente amarga.
Vou cumprir umas horas de silêncio pelo Fehér!

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janeiro 25, 2004

Avó do tempo

Muito tempo.jpg
photo Ana Esquível

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janeiro 24, 2004

Antropófagos

Do baú retirei uma antiga revista brasileira que guardei já não sei por mou de quê. Folheei-a em velocidade de cruzeiro e o enigma da reserva manteve-se. Como sou contra o desperdício, apartei uma pequena notícia que faz muito o género brasuca do amigo da onça. Ainda por cima agora que os brasucas andam novamente às avessas com os papa hambúrgueres. Propalava então venenosamente o assalariado escriba:
Se uma tribo de índios antropófagos organizasse um banquete no qual o prato principal fosse a carne de algum norte-americano, todos os seus integrantes correriam o risco de uma violenta intoxicação ou mesmo de morte, em razão da ingestão de uma grande quantidade de DDT.
Essa foi a conclusão de um estudo neste sentido, tornado público pelas autoridades sanitárias dos Estados Unidos.
O relatório diz que a quantidade de DDT ingerida pela maioria dos norte-americanos, ao comerem carnes e verduras, torna-os altamente tóxicos: ela está muito além dos limites considerados toleráveis, apesar do grande controlo imposto ao uso de defensivos agrícolas.

Eu, tóxicos, tóxicos não diria, talvez um nadinha nas miudezas, mas sempre os achei muitos gordurosos e molinhos tal e qual os Obélix dizia dos romanos. Partilho, no entanto, da indignação do chefe antropófago que, rebolando-se verde de cólicas, censurava furiosamente a má qualidade dos safardanas dos américas.
Uma coisa digo eu, jamais um alentejano seria malfazejo à dieta alimentar de um antropófago, mesmo que o dito fosse fraquinho de estômago. Rapaziada alimentada a leite do pêto, posteriormente criada em regime de extensivo e com fartura de campo para dar à perna. De toxidade nula, a não ser o grau alcoólico um nadinha elevado, propriedade aliás benéfica no amaciar da chicha. Daí, uma reconhecida vantagem comparativa insuperável: não trabalhamos nada no estômago!

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janeiro 23, 2004

O leal conduto

Condutava-se o pão conforme as posses. Ao pobre alegrava-o a azeitona e a falca de toucinho da salgadeira, a outros sorriam a linguiça e o paio e o queijo de ovelha ou de cabra.
Hoje, felizmente, a democracia também chegou aos condutos e todos comem de tudo. Mau grado este tudo, por vezes, querer dizer coisas que de alimentos têm muito pouco ou mesmo nada. É a alegada modernidade que introduz novos hábitos, diz-se (dizem eles $$$$)? É a manhosa mediocridade alimentar que nos coloniza dia a dia e, o mais grave, com a nossa vergonhosa cumplicidade, digo eu!
Mas continuando com a escrevinhação sobre os tradicionais e substanciais condutos. Desta vez inclina-se a caneta para os nossos queijos, respeitável companhia de comedor que se preze.
Queijo Serpa.jpg
À laia de entrada, passemos os olhos por um naco de prosa do nosso ilustre Conde de Ficalho, homem de cultura e como tal colaborador da Revista mensal d’ ethnographia portugueza illustrada, «A Tradição», publicação do final do século XIX, editada em Serpa. Sobre o fabrico do grande queijo Serpa, lemos:
(...) Ordenha-se então regularmente duas vezes ao dia, uma de madrugada, a outra ao começar da tarde. (...) O leite passa dos ferrados para os cântaros, e n’ estes é trazido para a rouparia, uma das casas do monte, especialmente destinada ao fabrico dos queijos. Ahi é deitado em um pote pequeno, chamado azado, sendo coado por pannos sobrepostos, especialmente tecidos para este fim, e aos quaes se dá o nome de coádeiros. (...) As rouparias empregam um numero considerável de coádeiros, que todos os dias se lavam e se penduram a secar. D’ aqui resulta um grande estendal de roupa, o que seguramente deverá ser a origem das palavras rouparia e roupeiro.
(...) Quando o leite está no azado, deitam-lhe o cardo, sob cuja influência coalha. O coalho é tirado para cima da mesa de pinho, chamada queijeira, onde o roupeiro e o seu ajuda o trabalham, migando-o, remigando-o, e apertando-o nos cinchos até estar feito um queijo de dimensões ordinárias, chamado simplesmente queijo, ou às vezes de menores dimensões, tendo então o nome de cunca. Depois de um pouco enxutos, os queijos são passados para um caniçado, onde durante quinze ou mais dias sofrem uma fermentação especial, scientificamente bem conhecida, e conhecida practicamente pelos roupeiros, que lhe chamam azedo.

Com a ajuda da escrita de Mestre Fialho apresentei o Serpa, por ventura o Senhor dos queijos alentejanos. Proveniente de região demarcada, vejamos o que dele diz o decreto regulamentar:
Queijo curado de pasta semimole, amanteigado, com poucos ou nenhuns olhos, obtida por esgotamento lento da coalhada após a coagulação do leite cru de ovelha, estreme, por acção de uma infusão de cardo.
Mais a norte, nas planícies de Évora mora o queijo do mesmo nome. Dele, dizia Rosa Bertha Limpo no seu Livro de Pantagruel:
(...) deliciosos queijinhos entre 125 a 150 gr., conhecidos por merendeiras de Évora ou “Queijinhos do Alentejo”. Em estando curados, com a casca amarela e a alva salgada, picante e aromática massa a estalar em falhas sob a faca, constituem uma guloseima de primeira grandeza para os amadores dos queijos, com aroma penetrante e sabor intenso.
Queijo com denominação de origem, reza a ladainha no despacho que o define:
Entende-se por queijo de Évora um queijo curado de pasta dura ou semidura, com poucos ou nenhuns olhos e ligeiramente amarelada, obtido por escoamento da coalhada, após a coagulação do leite cru de ovelha, estreme, por acção do cardo.
Mesmo ao cimo do Alentejo, na encosta norte dos terrenos dobrados de Castelo de Vide e Marvão, fica a Vila de Niza, terra de bordados e olaria, mas também do famoso queijo do mesmo nome.
Dele dizia João Mota Prego no longínquo ano de 1906 aquando da feitura do seu livro Manteigas e queijos:
O queijo de leite só de ovelha dá azo a um dos mais afamados queijos do Alentejo, fabricado em Niza e seus arredores... a massa é tão fina e saborosa que pode por vezes confundir-se com os queijos da Serra.
Queijo com denominação de origem, do seu bilhete de identidade emitido em 1193, consta:
Queijo curado, de pasta semidura, de tonalidade branco-amarelada, fechada com alguns olhos pequenos, obtido por escoamento lento da coalhada, após coagulação do leite cru de ovelha, estreme, por acção de uma infusão de cardo.
Queijo de cabra.jpg
Seria ingratidão omitir os prazeres da degustação proporcionada pelo alvo queijo de cabra, eterno parente pobre da nomenclatura queijeira alentejana. Como seria injusto não recordar a Aldeia da Luz, a Amieira, Portel, Vila de Frades e outros tantos sítios onde se fabricam estes deliciosos cilindros brancos. Fresco e polvilhado de sal e pimenta, ou seco cortado às lascas finas, não desmerece dos seus primos ovelheiros. Vale ainda lembrar o crucial papel que desempenha na fabulosa sopa de beldroegas.
É este aristocrático alimento que, de entradas ou de saídas, na merenda ou simplesmente como conduto de um naco de pão alentejano, faz assobiar qualquer maltês. Tem igualmente fama de bom companheiro não se fazendo rogado a aceitar a companhia de fruta, doce ou mesmo mel, tal como não se importa do papel subalterno nas famosas queijadas de Évora.
Queijo, pão e vinho tinto, são companheiros ideais para dar início a uma forte amizade alentejana.
Amén.

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Um estalo na hipocrisia

É um imperativo ler no Aviz a língua “Pois tu foste estrangeiro”, sobre a questão dos imigrantes.
Uma verdadeira certidão de menoridade cívica e um forte estalo na hipocrisia. Pobre povo que quer varrer desleixadamente e à pressa para debaixo do tapete as memórias das suíças, das franças e outras andanças na maioria das vezes «a salto». Foi uma viagem colectiva recente, ali ao virar da quina da fresca história do século passado.
Em particular, de dedo espetado, para que não restem dúvidas, acuso de xenofobia os que, hoje, cavalgam o poder.

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janeiro 22, 2004

Do Sul

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photo António Cunha

O branco branquíssimo do muro:
a beleza concreta, acidulada,
do rigoroso espírito do Sul.

Eugénio de Andrade

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Almanaque Borda D'Água

almanaque.jpg

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janeiro 21, 2004

Certamente uma mulher e pêras...

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Há data da implantação da República foram inúmeros os artistas, da época, que quiseram esculpir bustos da república. Mas, segundo rezam os canhenhos, o busto oficialmente adoptado foi obra de João da Nova, pseudónimo do escultor João da Silva. O pseudónimo de João da Nova foi adoptado pelo escultor, dado o facto de regularmente assinar artigos na revista Seara Nova. O busto da República foi inaugurado por Afonso Costa em Outubro de 1911.
A mulher que serviu ao escultor de modelo para o busto, morreu em Lisboa no início da década de 90 com a provecta idade de 101 anos. Era natural do concelho alentejano de Arraiolos. Seguramente, antecessora dos que algumas décadas mais tarde percorreram o mesmo caminho na busca de uma vida menos madrasta, ganhou o pão e a farpela em Lisboa com a profissão de costureira. Obviamente, seria uma mulher lindíssima!
Descobri a pessoa e a sua história quando os jornais noticiaram a sua morte. Em comum, temos o mesmo peculiar apelido. Do qual não se conhecem outros
hospedeiros para além da minha família paterna.
Quis então saber novas desta coincidência. Rebusquei nas memórias dos vivos e nos poucos papéis conservados. Tudo aponta para que o avô da dita senhora seja o meu trisavô. A assim ser, é mais um afago no meu ego republicano.

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janeiro 20, 2004

Ora bolas inginheira...

Quanto ao Algarve litoral, estamos conversados! O que resta, bem, o que resta só a mão do criador o pode salvar. Como? Ora, um pequeníssimo tremorzinho de terra, coisa aí para uns 7,5 na escala de Richter.
O barrocal e a serra eram a luz dos meus olhos. A crença na infinita misericórdia do criador que, há muito, teria dado despacho para o director executivo: Pedro, o macacal apanhou-nos de férias e foi a desbunda que se vê, mas como nós, oficialmente, não podemos pactuar com a licenciosidade das mamas ao léu, deixa-os continuar as diabruras, mas só na praia Pedro, no barrocal nem pó, e na serra muito menos que são os estão mais próximos aqui da gerência.
Acontece que, suspeito eu, os gajos das diabruras (patos bravos de Lineu) têm, belamente, uma infiltração no secretariado e daí conhecerem com rigor o mapa de férias da gerência. Só pode!
Contentinho da vida, ia eu serra acima pela histórica N2, pensando com os meus botões que a coisa ainda tinha jeito, então e não é que ao desembocar na última curva antes de Alportel deparo com um cerro quase careca. O quase tem a ver com uma dúzia de pinheiros e sobreiros que escaparam da hecatombe. No meio dos pinheirítos e sobreirítos órfãos, elevava-se, bacocamente aparatoso, um mastodonte – que me perdoem os mastodontes, mas não achei melhor palavra para descrever aquela coisa a que me coíbo de chamar solar ou palácio, em atenção ao bom nome dos ditos. Em volta das atarantadas autóctones, umas espampanantes exóticas vegetais que, espero, a natureza na sua infinita sabedoria há-de um dia engolir. Tudo isto embrulhado num imperial muro (muro é favor), acolitado por um não menos faustoso portão escudado num aparato de segurança à laia dos filmes de Hollywood.
Soube mais tarde, por fontes seguras da terra: o cabeço careca, a méson, as órfãs autóctones, as exóticas, a muralha mais o portão, são de uma engenheira do ambiente que parece que trabalha no estado.
Eu, se fosse o estado a que isto chegou, pedia transferência!

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Palavras para quê, é um artista português

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janeiro 19, 2004

Uísquezinho saloio...

Drogaria Mata.jpg
Drogaria Martins e Matta, rua João de Deus, Évora
Photo Eduardo Nogueira – 1940

O Fernandinho escorreu a vida sempre Fernandino. Ao casamento, com ou sem papeis, sempre disse nada. Daí o ensejo do amparo da casa maternal lhe ter conservado o chamamento de menino. O Fernandinho aviou, debaixo dos arcos, ao balcão da drogaria Matta, uma siderurgia inteira de porcas, parafusos e outras conveniências. Tinha uma paixão o celibatário Fernandinho. Uma paixão que nutria no Salão Central pela época das rijezas, no Éden Esplanada pela época da amenidade. O projeccionista do cinematógrafo, esperava pelo Fernandinho tal e qual os actores de teatro aguardam pelas pancadas de Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido por Molière. Tinha um vício o solteirão Fernandinho. Acto seguinte ao cenório encaminhava-se para o Café Arcada, ali à Praça do Geraldo. Um uísque saloio, servido com a prontidão do empregado mais à mão ou mais ou pé. Sempre de pé, ao fundo do balcão onde este fazia um gaveto, alimentava o Fernandinho o vício com a precisão de um relógio suíço, enquanto debicava e soletrava as noticias do Século.
Depois, ia dormir na companhia da solidão. Depois, das nove às sete, aviava polegadas intermináveis de roscas, na espera de, na hora a que saem os gatos, defrontar a paixão e o vício.
Quantas vezes se emocionou ao ver a sua própria vida projectada no Salão Central ou no Éden esplanada?
Nunca mais ouvi a voz aflautada do Fernandinho. Certamente morreu, quando igualmente se finou o Brandy Constantino que, em parceria com a água de Castelo, lhe temperava o uísquezinho saloio.


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janeiro 18, 2004

Um tinto pelo Guerra Carneiro

Sueca.jpg
Photo de José Manuel Rodrigues

Dama de Copas

Entre ases e manilhas
Duque e terno da sueca
As damas são maravilhas
Quem as tem que as não perca

Diz-lhe lá então ó mesa
Qual o nome de eleição
Eu quero ter a certeza
Da carta em meu coração

Naipe já tu o disseste
E cortar com espadas não
Nem com oiros me fizeste
Nem paus te chegam à mão

São copas, venham mais taças
Vamos pois brindar à dama
Só não quero que o faças
No meio da minha cama

Muito agradecido fico
Pano verde onde joguei
Em dinheiro não sou rico
Mas levo a dama do rei

Tem cuidado com a sorte
Ó jogador afamado
Pode a dama ser a morte
E depois ficas parado

Não te saia pé de cabra
Ó meu cavaleiro andante
Procura a chave que abra
O seu coração de amante

A dama de copas canto
Bem alto os copos erguendo
Cuidado não seja tanto
Que a percas anoitecendo

Dama de copas é amor
Vence a morte em qualquer mesa
Não tenhas medo ou temor
O vinho deu-me a certeza

Eduardo Guerra Carneiro

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janeiro 17, 2004

Sempre Noiva

Sempre Noiva 5.jpg

Solar da Sempre Noiva, antigo acento de lavoura da Herdade com o mesmo nome. Situado nos termos da freguesia de Nossa Senhora da Graça do Divor, chega-se lá pela Estrada N370 que liga Évora a Arraiolos.
Volumosa construção recolhida no recato de uma cerca murada e aconchegada na imensa planície a norte do burgo amuralhado de Évora. Solar edificado nos finais do século XV, durante a governação de el-rei D. João II, época em que o Alentejo era uma província frequentada assiduamente pelo poder. Edifício de traça manuelina mudéjar, aparenta outros acrescentos posteriores. Evidência o construído um soberbo torreão de dois pisos e encerra um vasto salão térreo entre outras divisões com rasgadas janelas de moldura em bisel. Cosido ao paço, existe um magnífico horto de recreio ao estilo mudéjar.
Tem este solar uma auréola romântica cerzida com o nome e bem ao jeito adoçado da mitologia popular de tradição oral. Corre pelos mais velhos que a morgada donzela foi, no dia da boda e já trajada de noiva, abandonada pelo amado a quem mais amor tinha que há sua própria vida. Donzela que morreu sem nunca mais ter envergado outro traje que o da brancura nupcial. Daí que em certas noites, os que do solar se abeiram, a vêem em janela costumeira de branco vestida e cabeleira solta.
Menos romântica mas igualmente bem madrigal, será a justificação que poderá estar na profusa existência na região de uma planta espontânea, designada cientificamente de “centinodia” e a que o gentio chama de sempre noiva.

Sempre tive uma particular predilecção por este lugar, por ventura inclinado pela magia do drama nupcial e bradada aparição. Bastas noites porfiei em vão pela alva donzela. Talvez bem aquém estaria eu do garbo do seu amado. De vez em vez perco-me ainda pela Sempre Noiva. Paixões!
Sempre Noiva 1.jpg

Publicado por machede em 12:29 AM | Comentários (3) | TrackBack

janeiro 16, 2004

SOFTWARE

(Enviado por uma donzela amiga, recebi este pranto, belamente formatado por outra donzela com uma forte crise existencial. Elas, as santas, as nossas adoradas e belas santas que me perdoem, mas são elas que passam a vidinha a correr atrás de foguetes)

UPGRADE DE NAMORADO 5.0 PARA MARIDO 1.0

Caro suporte técnico,
O ano passado fiz um upgrade do NAMORADO 5.0 para o MARIDO 1.0 e notei uma redução significativa da performance, principalmente nas aplicações FLORES e JÓIAS, que operavam sem falhas em NAMORADO 5.0. Além disso, o MARIDO 1.0 desinstalou outros programas importantes como ROMANCE 9.5 e ATENÇÃO AO QUE EU DIGO 6.5 e instalou aplicações indesejáveis, como SUPERLIGA 5.0. Também não tenho conseguido correr os programas CONVERSAÇÃO 8.0 e LIMPAR A CASA 2.5. O sistema fica bloqueado. Tentei correr o RECLAMAR 5.3 para corrigir esses bugs e não consegui nada. Que hei-de fazer??? Estou desesperada!!!!

Cara desesperada,
Primeiro, tenha em atenção que o NAMORADO 5.0 é um programa de entretenimento, enquanto MARIDO 1.0 é um sistema operativo. Comece por fazer download de LÁGRIMAS 6.2 e depois digite o comando C:\ EU PENSEI QUE ME AMAVAS, para instalar o CULPA 3.0. Esta operação actualiza automaticamente as aplicações FLORES 5.0 e JÓIAS 2.0. No entanto, lembre-se que o uso excessivo desses programas no MARIDO 1.0 pode activar outros programas indesejáveis, como SILÊNCIO TOTAL 6.1 e FUTEBOL COM OS AMIGOS 7.0, que invariavelmente instala o CERVEJA 6.1. Este último é terrível, pois cria arquivos tipo WAV da versão RESSONAR ALTO 2.5. De qualquer forma, NUNCA instale SOGRA 1.0 ou reinstale qualquer versão de NAMORADO. Estas aplicações são incompatíveis e irão bloquear o funcionamento do sistema operativo MARIDO 1.0. Em resumo, MARIDO 1.0 é um óptimo sistema operativo, mas tem limitações de memória e demora a correr certas aplicações. Para o perfeito funcionamento do sistema, sugerimos que a senhora adquira alguns programas adicionais. JANTAR ROMÂNTICO 3.0 e LINGERIE 6.9!!! Tenha muito cuidado! Algumas clientes instalam o FILHO 1.0 para tenter dar estabilidade ao sistema e muitas vezes isso causa um efeito contrário, acarretando a necessidade de verificação total do sistema para garantir a existência de espaço no disco rígido e, sobretudo, assegurar a existência de um dequado ficheiro de paginação em MONEY 3.0!!
Boa sorte.

Publicado por machede em 02:38 PM | Comentários (1) | TrackBack

janeiro 14, 2004

A maluqueira do rectângulo 2...

Ainda a maluqueira do rectângulo.
Uns e outros, sem ser por acaso, fundiram o Clube Chiado. Moças e moços prantados ao centro do meio mas com um cheirinho de esquerda. Rapaziada prantada pela sábia mão do criador à manjedoura da virtude. Moços e moças prantados cá no rectângulo com a especial missão de pensarem e ampararem esta choldra ingovernável. Rapaziada que quer à viva força «contribuir para a congregação, discussão e promoção de ideias e propostas sobre o desenvolvimento estratégico da sociedade portuguesa».
Na Cuba a estratégia é: quando a ganhar pontapé para a linha que a bola abala no comboio e assim acaba o jogo a nosso favor. Até lá, a táctica é: pontapé para o meio campo e depois esbandalhar!
Quanto ao Chiado estamos chumbados: não tem linha perto e esbandalhar é tarefa difícil que os moços são muito unidos.

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A maluqueira do rectângulo...

Um, que por acaso é o patrão da inducação cá no rectângulo, esquece-se de declarar qualquer coisa como uma porrada de ordenados mínimos ao fisco e, à laia de se ter esquecido dos cinco tostões do troco no balcão da tasca, declara com a leveza dos imperturbáveis que até ganhou com a rectificação.
Outro, que por acaso (acaso, palavra bem dita!) é secretário do estado a que chegou a administração local, de motosserra nas unhas, diverte-se, contentinho, a retalhar o rectângulo em feudo a mim feudo a ti como se isto fosse um lego gigante. Depois, no programa “contra-ponto” sobre o desenvolvimento do interior, com um honorário sorrisinho de chefe de turma, aldraba-nos com um paranóico chorrilho de 817 voltas a Portugal em autarquias, 4213 contactos (possivelmente extraterrestres!) com a sociedade civil, 2017 seminários e 1118 congressos, nos quais, com a visível inteligência superior, debateu o primor do retalho. Sobre o tema disse 0, mas manteve-se gloriosamente em cena anafado de certezas acompanhadas do seráfico sorrisinho.
Uma, que não por acaso é jurista e deputada do partido reinante, incomodada com o regabofe da comunicação social que é useira e vezeira na calhandrice do género tanque de lavar roupa, clama por uma rolha na liberdade da comunicação social. Lá onde está, o botas de Santa Comba jogou-se ao chão a rir a bandeiras despregadas.
Um, por acaso qualquer escriba do telejornal nobre do canal estatal, possivelmente já em conluio com o do sorrisinho de chefe de turma, ou então atacado de dislexia geográfico-administrativa, pranta o algarvio concelho de Aljezur no Alentejo.
Outro, o Lopes das tias e das primas com linha da linha, lançou o primeiro dos 483 livros, almanaques e calhamaços que vai escrevinhar até a rapaziada estar farta de tanta literatura e o envernizar como presidente de Portugal (incluindo as ilhas selvagens) e de todas as discotecas com jet7. Madrinhando o lançamento da obra “Causas de cultura”, Agustina Bessa Luís, disse que o Lopes é “capaz de representar a razão de todos”. Alimpa-te Santana!
Posto isto, no auge desta elevada maluqueira global, nada há como a sadia, benigna e simplória maluqueira regional alentejana. Esta apropriada e respeitável maluqueira que nunca nos deu para sermos malucos.
-Manel, atão ontem ali na taberna do Chico Fofa comeste dois quilos de linguiça e bebeste três litros de vinho?
-Ora, a poder de pão!

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janeiro 13, 2004

Safa...

José Mourinho foi eleito o melhor treinador da Europa, numa votação promovida pela página da UEFA na internet.
Reconheço-lhe o mérito técnico. Reconheço-lhe a habilidade na lidação com os gladiadores da bola da sua equipa. Mas isso é muito curto, curtíssimo, para o tornar num profissional exemplar.
Sinal dos tempos, em que para ganhar até vale empurrar a mãe do cimo da Torre dos Clérigos.
Volta César. O povo quer novamente pão e circo!

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janeiro 12, 2004

Zé Guinapo...

J Carvalho.jpg
José de Carvalho. Na memória do burgo ao Zé associasse antes o Guinapo. Era o Zé Guinapo, um traço esbelto e mais que meão na altura. Personagem forte e desassossegada. Por altura do bulício juvenil deu-lhe para os touros, deu-lhe a paixão de se medir na vertigem do risco em duelos de imensa sedução estética. Vale dizer que o fazia com afoiteza e mestria, daí ser reconhecidamente um dos melhores pegadores de cernelha da altura. Era, sem dúvida, o potencial esteta do Zé a brotar.
Tempos depois pacificou o espírito e entregou-se à pintura. Intenso e inquieto, encontrou no neo-expressionismo a ocasião de reinventar o desenho arrebatado, com traçado informal oriundo dos usos de tintas espessas em suportes ásperos.
Nasceu em Évora. Morreu em Évora no ido ano 1991. O amigo Zé Guinapo tinha 42 anos.
“O meu trabalho é feito à escala universal. O novelo que sinto cá dentro tenho de o revelar, todos nós temos um novelo e, se reunirmos as condições ideais para o revelarmos, somos artistas. (...)”

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José de Carvalho – Série Heróis/1986

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janeiro 11, 2004

Branca e de xisto

(Este texto está datado, foi esgalhado ainda o Guadiana corria livre sem a prisão do Alqueva. É talvez a crónica de uma morte anunciada, pelo menos deste antigo trecho do rio. Interessante o facto, de ainda hoje, os mouranenses, continuarem a referir a Guadiana ou a ribeira e nunca o Alqueva. Estão ainda no período de nojo. Eu, respeito o seu luto!)

Falam do grande rio do sul no feminino, menorizando-o carinhosamente na hierarquia dos cursos de água. É a ribêra ou a Gudiana. É assim na Vila de Mourão, tratam o seu rio com o mesmo enlevo que dão a um filho, que mesmo depois de grande será sempre o meu menino. No feminino, possivelmente pela via da subconsciente simbologia maternal da mãe-de-água, do grande útero paridor de vida, que ao mesmo tempo dessedenta e contrabalança a rudeza do sequeiro.
Sempre gostei desta Vila raiana, branca e de xisto, onde a estética já se confunde com a da vizinha Espanha, até nas gelosias, que por pudor dos olhares dos de fora e defesa do inclemente calor, cobrem as janelas de sacada. Terras da margem esquerda, de solos delgados com os ossos de pedra lascada à mostra, mas também de campos de vinhedos, olivais e amendoeiras, berços de belas pingas, finos azeites e não menos gostosa doçaria. Basta-nos rebuscar no sabor memória, a encharcada e a meloa, obras-primas da guloseira. O Joaquim Maria, Mouranense dos sete costados que o diga.
Mas voltemos ao grande rio do sul, ou mais carinhosamente à ribêra ou Gudiana se preferirem, pois é dela que sai a matéria-prima que constrói a conversa de hoje. A atracção pelo rio é também ditada pelo valor dos seus frutos, e destes, é rei e senhor o saboroso barbo, peixe que alguns menosprezam à conta das infinitas espinhas, mas que os adoradores contornam com a tarimba da sabedoria. Atentem no facto de os adoradores privilegiarem sempre a parte da cabeça, ao contrário da normal preferência pela parte do rabo. Neste caso é no cachaço do peixe que está o lombo sem osso. E quando grandes, a cabeça são sustento para o entretenimento de comedor iniciado. É esta caldaça engrossada com farinha, cortada com vinagre e aromatizada com condimentos silvestres da região, uma verdadeira obra-prima no mundo das sopas alentejanas.
E já agora que falo do grande rio do sul, cumpre-me o dever falar dos heróicos pescadores das horas vagas mas camponeses de tempo inteiro. São eles, nas suas barcas (novamente o feminino do barco), de desenho muito próprio e por suas mãos construídas, os captores desta variedade de ciprinídeos baptizados de barbos pelas barbilhas que possuem e os caracteriza. São estes corajosos homens que, por vezes sem nadar saber, se aventuram no rio como outrora se aventuravam nas searas de trigo para colher o necessário sustento.

Guadiana.jpg
(O pescador, o barqueiro, a barca, a tarrafa e o Guadiana)
Photo de José Manuel Rodrigues


Açorda de peixe do rio à moda de Mourão
1 cebola
3 dentes de alho
½ ramo de salsa
1 molho de poejos (há quem prefira secos)
1 molho de hortelã da ribeira
1 folha de louro
1 tomate (polémico, mas eu gosto)
8 colheres de sopa de azeite
2 kg de barbos (com tamanho bem acima da medida legal de captura)
3 colheres de sopa de farinhasal q.b.
vinagre q.b.
pão duro (fatiado fino)

Para uma panela de barro (de preferência), verte-se o azeite, e deita-se a cebola picada, os alhos esmagados, a salsa picada, o tomate picado, os poejos, a hortelã da ribeira e a folha de louro. Em lume brando deixa-se refogar lentamente, mexendo sempre com uma colher de pau (artefacto actualmente proscrito por lei). Quando a cebola estiver lourinha, verte-se água que chegue para o caldo. Deixa-se levantar fervura e cozer um nadinha.
Numa tijela, adiciona-se água fria à farinha e faz-se uma papa, acrescentando-lhe umas colheres do caldo da cozedura. De seguida verte-se este preparado na panela, mexendo sempre para não engranitar, deixando-se cozer até engrossar.
Devido ao peixe ser de água doce, deve levar uns cortes no lombo, salgado-o com antecedência de molde a ganhar gosto. Introduz-se inteiro na panela, cozendo lentamente até ao ponto. Salga-se o cozinhado a gosto e tempera-se com um farrapinho de vinagre.
Quando pronto, verte-se o caldo por cima das sopas falquejadas que previamente se cortaram para uma terrina.

Com um branco da zona por companhia, resta-nos atacar a açorda que é de chorar por mais.
Para posterior aconchego dos interiores, ataquemos um dos doces da zona, ou, no caso de ser mais amante de fruta, também vai um melão da Amaraleja.
Um cafézinho e uma aguardente no Café Pipas, ali na Praça Central, levam à prostração absoluta. E, já agora, enrolemos um tabaquinho de onça para fazer tempo para a próxima pescaria.
Que a Senhora das Candeias continue a proteger Mourão e o Grande Rio do Sul.

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janeiro 10, 2004

Brilhante mê Luis Afonso!

Luis Afonso.jpg

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Álbum de retratos

500 Anus.jpg

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janeiro 09, 2004

Energia doce na Amareleja

Nasce o sol todos os dias
do ventre de uma donzela,
ela é mãe e filha dele,
ele é pai e filho dela.

(Quadra repentista que ouvi há muitos anos da boca de um poeta popular alentejano. Esta quadra espelha a íntima, arreigada e respeitosa paixão do homem alentejano para com a mãe natureza)

Há um par de dias tive um arreganho verbal, com um amigo do peito, por mou da energia gerada por fonte nuclear. Dizia-me, ele, que o nuclear faz parte da modernidade que impeliu possibilidades outras para a civilização. Disse-lhe, eu, que à partida nada me move contra o nuclear, a não ser o facto por demais evidente que o homem ainda não lhe domina os formidáveis malefícios. Posto isto, continuem a investigar e experimentar e apropriem-no a uma utilidade ajuizada. Assim, sim!
Vem isto a propósito da central de energia solar que vai ser instalada na Amareleja. Segundo os especialistas, os mais de 100 hectares de painéis fotovoltaicos vão produzir cerca de 64 megawatts de electricidade, que serão lançados na rede eléctrica para consumo público. A instalação desta central vai induzir à localização de indústrias ligadas a esta tecnologia na região. A Câmara Municipal de Moura prevê, no médio prazo, a criação de 150 postos de trabalho directos e cerca de 1000 indirectos.
Os sistemas fotovoltaicos são de elevada fiabilidade, de baixa manutenção, com ausência de ruído e não poluentes. O custo do KWH produzido ainda é elevado, dado o material nobre necessário para a produção das células. Sabe-se, no entanto, que a investigação da indústria automóvel tem já disponível células a mais baixo custo. Estão naturalmente a fazer render o peixe. Lá chegaremos!
Aqui está a demonstração cabal daquilo que preconizo para o desenvolvimento do Alentejo. A isto chama-se desenvolvimento sustentado. A isto chama-se desenvolvimento consentâneo com o respeito que o homem alentejano nutre pela terra durante a sua breve passagem. Já lhe bastou a selvática desertificação proporcionada pelas famigeradas campanhas do trigo.

Cozinheira.jpg
(Esta senhora moçambicana está cozinhar com biogás proveniente de um biodigestor instalado pelo ”programa de energias alternativas para o meio rural”, programa financiado pela UNICEF no anos de 1986/1988, do qual fui conceptor e gestor. O dito biodigestor funcionava com dejectos animais)

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janeiro 08, 2004

Óh mãe eu também quero ver o álbum de retratos...

Livrem-se de tamanha algazarra no tempo do botas de Santa Comba! Nunca o moço permitiria aos juízes ridicularizar os poderosos, na praça pública, perante a populaça. Tinham direito ao seu quinhão de mordomias mas não se livravam igualmente do açaime.
Agora é um ver se te avias, nem o cardeal-patriarca se safa ao álbum de retratos da investigação judicial. Eu calculo a regalação dos autores do álbum: este janota pensava que o mel da política corria do beiço de cima para o debaixo, não se safa... olha este passarão fica logo aqui de camisola amarela que é por causa da tosse... olha, olha, este com carinha de sacrista, calhando pensava que passava na peneira... é pá, esse não que é padrinho do filho da...
Será a democracia de lés a lés e sem espinhas? Ou serão os fantasmas dos tribunais plenários a vingarem a abrilada?
O Zé desempregado diverte-se à bruta! A comunicação social factura!

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Maputo Ano Novo

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Fotografia enviada pelos amigalhaços de Maputo. Num repente parece ser um sósia do Mandarim Kok Nam. Mas não, é apenas a permanente boa disposição moçambicana que, quando tem motivo extra para elevar a curtição ao rubro, não deixa os créditos por mão alheias.
No meio deste imenso hospital psiquiátrico, vale-me ainda a mais ou menos equilibrada transtagânea e o seu infinito potencial de ironia guerrilheira. Caso assim não fosse, belamente, já me teria feito implodir no gabinete da gerência do hospital.

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janeiro 07, 2004

Ao natural sustento

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Os astrólogos de adega há muito que o anunciaram. Eu, acreditei piamente! Então nestas coisas de adivinhação da pinga, não há nada mais beato do que cá o parente Isidoro de Machede. Para além desta sabedoria do tempo em que as galinhas tinham serrote, tenho uma crença profundamente religiosa no triângulo da pinga de talha: Cuba, Vidigueira e Vila Alva. Triângulo, que em termos de qualidade liquida, mete o das Bermudas numa garrafita de zurrapa manhosa. Para além de que um gajo às páginas tantas também desaparece, só que volta sempre à tona e sem uma pontadinha de dor na tola, aliás, com uma vontade redobrada de abalar a correr a enfiar-se outra vez no triângulo.
Este ano já peregrinei várias vezes ao triângulo. E afianço que a pinga é de estalo.

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janeiro 06, 2004

Made in embuste

Qualquer dia estão desmontando um franguito no churrasco e no osso têm inscrita a desavergonhada proveniência made in embuste. Não é que agora, mesmo sem a designação da proveniência, essas presumidas aves não sejam apenas e só fruto da nossa treinada imaginação. O problema é que tantas vezes o cântaro vai à fonte que um belo dia, escaqueirasse. Tal e qual o embuste também belamente um dia passa de oficioso a oficial.
Quino 2.jpg
Quino

Não vendemos frangos. Vendemos esta maravilhosa patranha, pela qual vocês e os vossos filhos dão o cu e mais oito tostões. Para que essa maravilhosa subserviência fosse real, investimos, durante anos, uma pipa de massa no treino do vosso palato. Aliás, para vosso pleno conforto, vocês já não têm palato. Têm um aspersor totalmente asséptico com o qual podem aspergir directamente dos expositores de patranhas. Para alcançarmos este maravilhoso estádio do nosso crescimento, contámos com a preciosa colaboração de prestigiados psicólogos, sociólogos, nutricionistas, veterinários, engenheiros alimentares e zootécnicos, técnicos de marketing, legisladores, eurocratas, economistas, gestores e afins. Prestigiados técnicos e especialistas que não são nada mais que os vossos filhos. Filhos, que vocês esforçadamente educaram desde a chupeta com sabor a alpista caramelizada, passando pelos super ténis T$$T, até ao popó artilhado TUNING. Filhos, pelos quais fizeram, muitas vezes com meio palmo de língua de fora, o último esforço do canudo debaixo do braço.
E nós só temos de agradecer essa vossa generosa dádiva deste verdadeiro exército de candidatos a candidatos a nossos servidores. Gratos, juramos que escolheremos os mais capazes. Aos outros, juramos igualmente que o Bagão Félix e o seu respectivo chefe acima lhes tratarão da saúde.

Nota 1: neste momento não sabemos informar se queremos que o chefe do Bagão Félix esteja em Bruxelas se em Washington.

Nota 2: há por aí uns gajos (ainda não conotados verdadeiramente como terroristas, mas lá chegaremos) que insistem em mijar fora do penico, que desde já avisamos que a “nossa democracia” está atenta aos seus vícios antidemocráticos e verdadeiramente atentatórios da “nossa civilização”

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janeiro 05, 2004

Da afeição e da fé

Desde gaiato pequeno que tenho uma profunda afeição pelo Lusitano de Évora. Do tempo em que palmilhava a cidade de este a oeste, aos domingos, de manhã ou à tarde, conforme fossem desafios dos juniores ou dos seniores. Domingos havia com duas viagens dado o calendário futebolístico ser um fartote. Da época em que o Lusitano militava na 1ª Divisão. Em que o futebol era artesanato e os futebolistas artesãos. Os campos dos pobres eram pelados e as botas de travessas. Da altura em que o Lusitano, a CUF, o Barreirense, o Olhanense, o Covilhã, o Leixões e o Seixal se escalfavam do primeiro ao último segundo perante os poderosos. Vital, José Pedro, Paixão, Caraça, Falé, Cardona e Teotónio eram, entre outros gloriosos, os artesãos do rendilhado da bola lusitanista. Proletários do futebol, pagos por dez réis de mel coado e mais uns acrescentados borregos, sacos de batatas, potes de azeite... gentilmente cedidos pelos lavradores doentes da bola e da clubite.
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Pelo Juventude de Évora sempre tive admiração. Sempre era da terra e os sócios tinham no voluntariado uma superior dedicação ao clube. O Sanches de Miranda foi construído tijolo a tijolo, pelos que de mãos gretadas ali doavam e dedicavam as suas horas extraordinárias. No princípio da ilustre década de setenta tive grandes amigos futebolistas do Juventude. Eram os amotinados da bola. O Queiroz, o Máximo, o Vilanova, o Conceição – quase a pendurar as chuteiras depois de épocas de glória na companhia do mano Jacinto João no Vitória de Setúbal -, eram agradáveis companheiros de copos, noitadas e utopias. Jamais esquecerei o dia primeiro de Maio de 73, dia coincidente com uma jogatana no Sanches de Miranda. Então não é que os artistas do esférico fizeram questão de saudar a massa associativa, em grupo e de punho cerrado. O simbolismo da coisa fez cair o Carmo e a Trindade dos pacatos costumes da cidadela, e o Chefe Melo ia marchando com uma pataleta. Era na altura o todo poderoso Big Boss da brigada da Pide cá do burgo. Foi uma carga de fezes para derivar a questão.
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A minha réstia de fé vai no entanto por junto para o GLORIOSO DA LUZ. Desde que me conheço e que conheci as habilidades do Costa Pereira, do Cavem, do Santana, do José Águas, do Coluna, do José Augusto, do Simões, do Torres e do monstro Eusébio. As grandes paixões, comigo, são para a vida inteira.
Ontem, foi um dia menos bom. Mas não jantei feijoada com tromba de porco, continuei apenas com uma réstia de fé nos encarnados.


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janeiro 04, 2004

Entre o Alentejo e Nova Iorque

O director do novo Instituto das Artes, vê-o, à laia de metáfora, entre o Alentejo e Nova Iorque. Dado o Alentejo ser uma região e Nova Iorque uma cidade, logo depreendo que, para ele, a cidade de Nova Iorque vale o mesmo que a região alentejana toda juntinha. Olhe que não doutor, olhe que não! Até lhe digo mais, não troco sequer e unicamente o cromeleque dos Almendres por Nova Iorque inteirinha, com museus, teatros, Estátua da Liberdade e restante parafernália e, já agora, completamente desocupada de americanos. Opções doutor!
Pendure antes o Instituto entre o Alentejo e a Ilha de Lesbos, ou Inhambane, ou o Namibe. Mas olhe, sem imposturas solidifique-o entre Sagres e Rio de Onor. Encete a obra sensatamente pelos alicerces!

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janeiro 03, 2004

A matança para a mantença

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Velha como o passado, esta tradição alentejana de matar o bacorinho preto. Matança que assegurava a mantença pela primavera, verão e outono. No inverno seguinte outro sacrifício haveria. Só mesmo as famílias mais deserdadas o não faziam e, infelizmente, não eram poucas. Os outros, era conforme as posses, ia desde as quatro arrobinhas do remediado às muitas arrobas dos vários bichos sacrificados na casa do lavrador.
Cumpria-se assim, anualmente, o ritual da matança em igualdade de rotina e entusiasmo a par de todas as outras tradições, - o alavão dos queijos, as filhoses do carnaval, o borrego da Páscoa, a quinta-feira da espiga, a adiafa das colheitas e a prova do vinho novo -.
Após apalavrar o negócio do bicho e aprazar o dia do sacrifício, convidava-se uma roda de familiares e amigos com fama de entendedores no assunto. Amolavam-se as facas tendo especial atenção na sangradeira, acarretavam-se os tojos, dava-se uma vista de olhos pelo estado da banca e do chambaril. Areava-se o tacho de cobre que, no resto do ano, fazia vista na estanheira. Tinha-se em especial atenção o aprovisionamento do sal, bem como a limpeza do lugar onde ele iria ter a função de conservante, a salgadeira.
E lá chegava o ansiado dia, geralmente um domingo. A alvorada era cedo, até para os gaiatos que de qualquer maneira quase não tinham pregado olho, tal era a excitação. A mesa do mata-bicho era posta ainda com o lusco-fusco, e não lhe faltava a aguardente e as passas de figo. O resto do aparato, da banca às facas, dos alguidares aos tachos, estava tudo impecavelmente arrumado como se de uma sala de cirurgia se tratasse.
A divisão de tarefas, fazia parte de um acordo estruturado há muitas vidas. Cabia aos homens o sacrifício, o musgar e o lavar, o desmanchar do animal e o separar das peças grandes. As mulheres, tinham de cor a sua labuta, aparar o sangue, lavar e preparar as tripas, fazer os torresmos e a banha mais a tarefa incontornável de tratar das comedias para o afago dos estômagos. Migar a carne do alguidar, temperar e posteriormente fazer os enchidos eram geralmente tarefas também suas, segundo a boa mão e o reconhecido saber fazer.
enchidos 2.jpg
O ponto alto, era pelo meio da manhã no tirar da bucha. Molejas, febras e outras peças entremeadas, eram assadas no lume que aquecia o tacho para o fabrico da banha. A mastigação destas premissas, era saboreada com o acompanhamento de copos de cinco, de tinto ou branco conforme o gosto. Ao almoço, entre outros comeres, amesendava-se uma belíssima rexina, prato tradicional comum a todo o Alentejo, divergindo apenas de lugar para lugar o seu chamamento, - no alto, rexina, no baixo, serrabulho ou moleja.

Rexina
coração
pulmões (bofe)
fígado
banha
alhos
louro
massa de pimentão ou colorau
vinho branco
sangue (liquido)
cominhos
sal

Como faço:
Com as carnes previamente partidas em cubos, refogam-se num pouco de banha acompanhadas dos alhos pisados, da massa de pimentão e do louro. Deixa-se refogar bem o preparado, acrescentando de seguida um pouco de vinho, alguma água e o sal. Quando estiver bem cozido, deita-se o sangue com o vagar possível, mexendo sempre com uma colher de pau. Por último misturam-se os cominhos e corrige-se o sal a gosto.

Com os pézinhos debaixo da mesa:
Serve-se, vertendo o caldo para uma terrina onde previamente já estava o pão cortado em sopas. As carnes servem-se em travessa à parte.
Nalguns locais acompanha-se a rexina com laranja às rodelas, como forma de cortar a gordura do prato.
Proponho como guarda de honra bebível um tinto encorpado, que pode ser perfeitamente das terras de areia de Pinheiro da Cruz.
Como sobre-a-mesa, uma talhada do velho melão casca de carvalho, melão de guarda, dependurado da trave mestra.
Um cafézinho e o supremo sacrilégio de emborcar, mas devagar, uma cota aguardente.
Que os Deuses auxiliem a santa trabalheira da nossa digestão e nos guardem da bófia protectora dos lulus e outros imbecis aspersores de douradinhos do Capitão Iglo.
Ámen.


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janeiro 02, 2004

Andar à azeitona

Apanha da azeitona.jpg

Com os dedos gelados rabiscam a vida.
Uma vida rabiscada de cócoras.

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janeiro 01, 2004

Ano Novo a navegar memórias

Esta coisa da mudança dos anos integra também um quinhão retrospectivo. Hoje, lembrei-me abundantemente do Zeca. Das delirantes conversas do Zeca com o bichano Serafim, respeitável tareco da família Afonso. Vá-se lá saber se o Serafim não foi de vez em vez fonte de inspiração do Zeca. O Zeca gostava imenso de conversar com o Serafim e com os outros amigos. Eu folgava imenso em paliar com o Zeca. Certamente que lá onde está, o Zeca tem uma tertúlia e um novo Serafim para cavaquear. Vai uma aposta?

A PALAVRA

A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
investe
perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se organiza-se

A palavra precisa de ternura

José Afonso

Publicado por machede em 10:29 PM | Comentários (3) | TrackBack