Longe? Não, ali perto! Cabeço de Portel, lisos arredores de Beja, campo branco de Castro – adeus ao Feira de Castro/ que de longe te estou vendo/ já levo a ponta do pau gasto/ e as bordas do cu ardendo; verso a preceito congeminado pelo pastor que abandonando a Feira de Castro Verde depois de feirar, rimar o despique e despachar umas cartuxadas de pinga, constata que leva a ponta do bordão gasta e o cu doído de tanto se apoiar e estar sentado na companhia dos amigos -, terras já dobradas de Almodôvar a entrar pelo Caldeirão adentro. Negoceiam-se uma a uma, por cada uma ser diferente da outra, um ror de curvas e de repentemente Alportel, aldeia que empresta o nome a S. Bráz mas o olha do alto da aristocracia serrenha.
Por Alportel fiquei na casa do mê João, companheiro andarilho de jornadas africanas. Serão escorrido a medronhos e a converseta mole versando antigas andanças tropicais. Converseta mole que a páginas tantas foi parar a outro andarilho, companheiro de iguais jornadas.
O sinaleiro das pombas
Transistorizado odre de consequências
regulo o trânsito... ordens superiores.
Assim fardado, sou já farda (... as dores
nunca se fardam, seio-o, são aderências
são galões, são outras frequências
insuspeitadas, são as surdas cores
suspeitas, e até são ordens superiores...)
Tatuadas nos olhos, tenho extensas
ordens do dia regulamentares.
Regulo, ordeno, sou preciso. Os mares
irespeitados da infância, afogo-os
zeloso e em cada gesto. Cumpro mal
a tarefa de ser. Do pedestal
regulo tudo, e até, adentro, os vôos.
O sinaleiro das pombas
Soneto 16
António Quadros
Por mou de não querer ser bonzinho, lembrar os coitadinhos dos pobrezinhos (agora excluídos), aturar o Pai Natal, achar ternurentos os velhinhos e as criancinhas, pressentir o Natal dos hospitais, de beiçola arreganhada desejar as Boas Festas, suspeitar que dou de caras na TV pela enésima vez com o Música no Coração, ser submergido por 50 arrobas de comida, encontrar encerrada a loja dos jornais, ver o Figueiredo Lopes patriotinha e contentinho a caminho do Iraque com um bacalhau de plástico debaixo do braço, desejar paz na terra aos homens de boa vontade, ver uma horda de criancinhas escarranchadas em trotinetes eléctricas a pilhas ziguezagueando pela cretinice dos papás, uma vez por ano, com data marcada, no Natal!
Assim, para os devidos efeitos, informo que passei à clandestinidade!
Voltarei à legalidade assim que no reino for reposta a normal imbecilidade.
De Bebo Valdés y El Cigala, o trabalho Lágrimas Negras. Uma amiga espanhola do meu filho, fez-lhe chegar às mãos este excelente trabalho. Abençoado computador que está artilhado de um não menos abençoado gravador de CD. Pensar eu que, há não muitas luas, não ia à bola com estas modernices. Felizmente passou-me essa manifesta reaccionarite.
As pianíssimas mãos do cubano Bebo Valdés, já eu conhecia de ginjeira. A estimável goela flamenca do andaluz El Cigala, nunca me tinha passado pelos tímpanos. Em boa hora aconteceu esta soberba revelação.
A vocês, resta-lhes a candonga. É o prazer dois em um: ouvem um excelente som e não são esmifrados, pela contabilista Manela, do ivazinho cultural.

El Cigala
Simpatizo com o homem. Penso até ser o único presidente digno desse nome entre os caceteirões dos megas da bola cá do rectângulo.
Hoje, ouvi o Dias da Cunha dizer que o Sporting tinha dado um banho de bola no Leiria. Eu vi o jogo. E daí que seja levado a pensar que pôr um pé no mando de uma agremiação da bola, é fatal como o destino! Ensandece qualquer um!

www.xitizap.com
O XITIZAP é uma ousada iniciativa editorial que põe o dedo nas feridas abertas pela fraudulenta e impostora “cooperação para o desenvolvimento” dos poderosos com a África pobre. A denúncia de um mega embuste que, em “cooperação” com as corruptelas locais e o silêncio das Agências Internacionais, rapina, depaupera e mantêm os africanos amarrados ao empobrecimento.
Na edição 9 o destaque para estes dois interessantes assuntos.
os donos dos rios
num mundo onde a água já escasseia, há muito que os rios deixaram de ser coutada privada dos construtores de mega barragens.
criadores de vida, os rios têm vindo a merecer progressiva atenção e, hoje em dia, raros são os casos em que se toleram estratégias mono-centradas em hidro-electricidade.
infelizmente, este nível de consciência pública só pôde ser atingido à custa de vários desatinos ambientais – e muitos desastres sócio-económicos.
e, de certo modo, Cahora-Bassa é um exemplo de ambos. Não só porque se transformou num pesadelo financeiro, mas sobretudo porque, durante décadas, ao invés de valor, Cahora-Bassa apenas trouxe danos ao rio Zambeze.
a guerra a criou... a guerra a sufocou.
(...)
plantações de alumínio


Infalivelmente, todas as terças-feiras, quer chovesse quer fizesse sol, a Praça do Geraldo abarrotava de gentio. O café Arcada formigava de bonés e chapéus descaídos para a nuca. Capote, samarra ou pelico e safões pela rijeza do inverno. A singeleza da camisa e colete pela calma do verão. Era o dia dos negócios da lavoura. A «bolsa informal» do gado, da cortiça, das leguminosas, dos cereais e da palha. Entre cafés e aguardentes concertavam-se negócios, apalavravam-se arrendamentos, compras e vendas de herdades, emprestava-se e pedia-se dinheiro. Pela hora do almoço terminava a trabalheira e desandava o gentio para as casas de pasto em redor da praça grande. De roda da terrina fumegante e do jarro de vinho remoía-se intimamente a boa ou má sorte dos ajustes. Da cara pra fora nenhum sinal trespassava. Era o fervilhar natural da capital de um distrito que tinha na agricultura a principal azáfama e alguma riqueza.
Esta semanal invasão de campónios, incomodava a envernizada soberba dos habituais gentios citadinos. Como se a sua proveniência fosse de Marte. Por esse dia, abandonavam o Arcada indo esparramar a impostura pelas mesas do Portugal ou do Estrela d’Ouro. Apelidaram então as terças-feiras de dia de São Porco.
Há uns pares de anos, com o Arcada fechado, a «bolsa informal» desenrolava-se em pleno tabuleiro da praça grande. Com uma residual afluência que, a famigerada PAC, os sucessivos erros de planificação e o atávico temor empresarial alentejano, há muito que tinham traçado a sorte da agricultura.
Na manhã da passada terça-feira, passeei a curiosidade pela praça. Apenas para constatar o já sabido. A «bolsa informal» fechou à semelhança do fecho anunciado da agricultura.
Agora, toda a santa semana, apenas deambulam, em mansa conversa, os habituais bandos de reformados. Sinal dos tempos.
Resta-nos esperar que as ainda recentes palavras do meu amigo Castro e Brito se concretizem: que venham os espanhóis que têm uma noção forte do uso social da terra.
Festa é festa e a consoada sempre foi motivo para alargar os cordões à bolsa. Era caso para aprovar um avio melhorado. Lá ia a mulher, passo contente, a caminho da loja da aldeia. A filharada ainda teimava em vir até à extrema da herdade, mas que remédio senão recuar para o monte, caso contrário, era certo e sabido que dava pedinchice de rebuçados de meio tostão. Voltava a mulher com a alcofa atulhada de mimos e era o cabo dos trabalhos para afastar o cacho de gaiatos que queriam dar fé das novidades. Como a jorna não estica, as lambarices eram um bocado ralas – umas broas de mel, uns rebuçaditos e uns chocolates para as prendas do sapatinho. Faltava um bolito que desse para acompanhar com a garrafita de anis. Sempre alegrava a goela da rapaziada que se haveria de sentar junto da chaminé, a cartear uma bisca lambida. Não é tarde nem é cedo, então os condutos da matança não haveriam de dar substância a uma guloseima caseira? Da massa de pão e das vitualhas porcinas, transformadas pelas mãos da mulher, nasceu um belíssimo bolo de torresmos que alegraria a consoada da família.
Ia e vinha a mulher, a pé, de alcofa na mão, às compras na aldeia, enquanto no seu mesmíssimo tempo e mundo mas bem ao largo da sua preocupada sobrevivência, o cineasta Stanley Kubrick especulava no écran, um futuro, já ali no 2001, de aventuras espaciais com outros mundos. Este passado da mulher e do filme do Kubrick, está a um recuo de tempo de apenas três décadas e mais uns pares de dias. Coisa de pouca monta se comparado com o desvario tecnológico de então para cá e que a ficção cientifica do Stanley nos induzia a suspeitar.
Nesse tempo, com uma barba rala de imberbe cinéfilo, extasiava-me com tanto futurismo ao mesmo tempo que convivia com uma realidade feita das vidas de tantas e tantas mulheres igualzinhas aquela que, pela consoada, se permitia fazer um avio melhorado na loja da aldeia. Nesse tempo em que também me sentava na chaminé do avô Isidoro a vê-lo cartear biscas lambidas entremeadas de cálices de aguardente. Em que os rebuçados de meio tostão serviam para acertar o troco do avio semanal e, os homens do campo usavam botas de atanado e capotes aguadeiros em vez de galochas e impermeáveis de borracha.
Nesse tempo em que o meu pai fazia contas numa máquina de ferro, movida à força de manivela, enquanto noutras terras o mundo pulava e avançava. Paris, cobria-se de barricadas e revolta estudantil enquanto sacralizava Guevara ao som de Bob Dylan. Em Praga, os tanques soviéticos violavam a primavera. Em Buenos Aires, García Márquez acabava de lançar Cem anos de solidão. Os Beatles retiravam-se de cena, depois de se terem tornado num símbolo de várias gerações e de encostarem às cordas o rock and roll americano. No Vietname, a coisa começava a ficar preta para os américas, ao mesmo tempo que se viam livres, a tiro, do insolente Luther King. No nosso jardim à beira mar plantado, Marcelo Caetano substituía um já virtual Salazar e dava início à evolução na continuidade. Na mesma linha de continuidade os jovens continuavam a embarcar, cantando e rindo, para a guerra colonial.
Eu, abnegado insurrecto do reviralho, fazia figas e outras coisas mais para derrubar a primavera marcelista, enquanto ruminava uma sociedade de felicidade plena anunciada lá por alturas do 2001. Calendário esse que, somente esperava concretizado para de aí a muito tempo. Só mesmo depois de estatisticamente os maus serem residuais face aos bons.
E pronto, vertiginosamente aqui cheguei à beira do novo século, apenas com as certezas de que afinal ter aventuras no espaço não será coisa do meu tempo, que os maus continuam na mesma se não mesmo piores, que continuo a gostar imenso de bolo de torresmos e que ainda há mulheres que apenas fazem um avio melhorado pela consoada. Outras, nem isso!
Bolo de torresmos
1 kg de massa de pão
400 gr de torresmos
8 ovos
600 gr de açúcar
raspa de 1 limão
canela
banha
Na padaria, adquire-se a massa de pão. Na máquina de picar passam-se os torresmos. Envolve-se a massa de pão com os torresmos picados, os ovos, o açúcar e a raspa de limão. Depois de misturar convenientemente o preparado, verte-se num tabuleiro de ir ao forno previamente untado com a banha. Polvilha-se com canela.
Leva-se a cozer no forno até ficar bem corado.
Tenho como lema: o belo é o simples. Daí que afirme: este bolo é a prova provada da simplicidade da cozinha da planície.
Cá com o XXI!
do livro “Alentejanando”
Por pertinente, transcrevo a polémica lançada pelo MINISCENTE, blogue do meu amigo Luis.

P. SloterdijK afirmou, no livro de entrevistas Ensaio sobre a Intoxicação voluntária (conversas com Carlos Oliveira), aquilo que eu penso ser a mais original e verdadeira teoria dos média:
(finalmente), “na televisão, a história da redenção da humanidade chega ao seu termo” (...) “a televisão informa-nos sobre o facto de, no fundo, tudo ser apenas imagens” (...) “Qual a diferença entre um televisor ligado e um televisor desligado ?” (...)“não há diferença nenhuma, é só ritmo, tam-tam, som-pausa, ligado-desligado, é o mundo tal como o conhecemos. Olhar, não olhar, acontecimento, não acontecimento, imagens, não imagens” (...) “A televisão é a última técnica de meditação da humanidade na era que se segue às altas religiões regionais” (...) “Este (redentor), a televisão, é o primeiro que nos deixa realmente livres” (...) “os indivíduos querem que os deixem em paz; e esta tranquilidade é uma coisa que agora podem ter de uma vez por todas”.
Concordam?

Fim
- Quando eu morrer batam em latas,
rompam aos saltos e aos pinotes –
façam estalar no ar chicotes,
chamem palhaços e acrobatas.
Que o meu caixão vá sobre um burro
ajaezado à andaluza:
a um morto nada se recusa,
e eu quero por força ir de burro...
Mário de Sá-Carneiro
Nossa Senhora da Encarnação e Santa Maria. Vila Ruiva (Alentejo) e Marco de Canaveses (Minho). Dos inícios do século XVI aos finais do século XX. Quinhentos anos separam estas duas magníficas obras. Dois prodigiosos mestres do traço, um cujo nome se perdeu no tempo, o outro, Siza Vieira, continua a arquitectar maravilhas.


Nossa Senhora da Encarnação, Igreja Matriz de Vila Ruiva. Caracteriza-se por um estilo gótico-manuelino com influências mudéjares. É igualmente repositório de um dos mais importantes conjuntos fresquistas do Alentejo.
Gosto sobretudo do despojamento das suas linhas, da sua arquitectura chã de coisa elementar que não se põe em bicos de pés, irmanada com a singeleza do carácter das gentes que aí alimentavam e alimentam a sua fé. Sendo marcante, permitiu que o povoado crescesse cosido com a sua sinceridade.
Santa Maria, Igreja de Marco de Canaveses. Uma obra evidente, quase me apetece dizer de ruptura, na arquitectura religiosa actual. Gosto globalmente do conjunto, há, no entanto, dois pormenores construtivos que realço, o peso majestático da porta principal na fachada principal do edifício, e a enorme, rectangular e branca fachada de sueste com uma abertura estreita e horizontal quase no rodapé. Uma vez da porta para dentro, estamos no interior de uma caixa quase vazia mas cheia de luz, onde não há supérfluo mas apenas uma tranquilizadora ordem no que é necessário. À parte a fé inconclusiva dos homens da planície, eu, que sou insuspeito quanto a questões de religiosidade, senti um penetrante bem estar.
Como diria Alexandre O’Neill: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. É assim essa exuberante arte da Andaluzia.

“La leyenda del flamenco” é Camarón de la Isla. José Monje Cruz nasceu em 1950 em San Fernando (Cadiz). De la Isla, precisamente pela terra de nascimento, Camarón, pelo cabelo ruivo e pele branca, verdadeira contradição com a sua condição de Gitano. O reconhecimento da sua mestria veio quando tocava com outro fabuloso guitarrista Andaluz, Paco de Lucía. Entre os muitos que o consideravam um mestre, tocou ainda com Tomatito, que o acompanhou até ao final em 1992. Estava melhor que nunca. Viveu numa vertigem, o flamenco e tudo o resto.

Ouço dizer que os amantes do vinho serão condenados.
Não há verdades, mas mentiras evidentes.
Se os amantes do vinho e do amor forem para o Inferno,
deve estar vazio o Paraíso.
Omar Khayyam

As Rubaiyat são um belo conjunto de poemas atribuído a Omar Khayyam. Habitante da Pérsia Muçulmana, data-se a sua existência entre meados do ano 1000 e o final do primeiro quartel do ano 1100. Khayyam era um homem de grande cultura e sabedoria: matemático, geómetra, astrólogo e filósofo reputado e respeitado. Acima de tudo: cultivava a amizade e o gozo do intelecto e da estética como compete ao homem livre. As Rubaiyat, representam o único sinal conhecido da sua obra poética, mas indiciam a companhia íntima das Musas e a frequência imoderada dos prazeres do vinho e das mulheres.

Há um par de meses atrás, citei aqui na mesa da malta o nome do Mestre Domingos Rodrigues. De singelo, relevei na altura a sua arte no oficiar a bem do palato ao patamar do talento de primeira figura, usando assim, sem pudor algum, a terminologia tauromáquica que distingue os banais dos de excepção para dignificar este mestre.
Em boa hora o ilustre Comedor Alfredo Saramago trabalhou e reeditou o primeiro livro de cozinha publicado em Portugal no de há muito tempo ano de 1693. Com o título, Arte de Cozinha, foi seu escriba o já referido Mestre Domingos Rodrigues, cozinheiro da corte de D. Pedro II. Momento este importante na evolução da cozinha portuguesa da altura, marcando a transição de uma cozinha de acento perfeitamente medieval para uma nova forma, que tinha como referência de vanguarda a nova cozinha francesa de Luís XIV, o Rei-Sol. Cabe ainda aqui sublinhar, o papel da Rainha Maria Francisca de Sabóia, parisiense de nascimento e filha do Duque de Nemours, que necessariamente trouxe consigo novos hábitos e impulsionou em terras lusas inovações da ementa e da etiqueta.
Por estarmos em cima da época de colecta destas plantas expontâneas tão do agrado da malta petisqueira, do dito almanaque do Mestre Domingos Rodrigues retiro uma interessante receita que, para além de secularizar o uso dos nossos plebeus cardinhos, lhes abona um mui honroso titulo de nobreza. E com isto, somamos mais um reconfortante afago no ego gastronómico alentejano.
Cardos de Fernão de Sousa
Depois de cozidos os cardos em água, muito bem picados, afoguem-se com cheiros, e manteiga, temperando-os com todos os adubos, e coalhem-se com gemas de ovos (como carneiro picado); deitem-se em uma frigideira, e com ovos batidos por cima ponham-se a corar, mandem-se à mesa.
Na hierarquia comedora, aqui está uma entrada de eleição que não desmerecerá a também secular companhia de um branco de Peramanca.
De seguida, e usando ainda o referido almanaque, não destoariam umas Perdizes à Miguel Dias, escoltadas por uma sobre-a-mesa de Tigelada de Leite. A explanação destas receitas fica para uma próxima oportunidade, quando voltar a citar o magnifico Domingos Rodrigues.
Glossário:
Adubos (todos os) - Pimenta, cravo, noz moscada, canela, açafrão, coentro seco....
Afoguem-se - O mesmo que refoguem-se
É evidente que, no relativo aos adubos, à que ter o cuidado de usar apenas aqueles que estão mais de acordo com os nossos actuais critérios culinários.
Amén.


É nesta altura do ano que fico num equilíbrio precário. Fico descompensado. Só me apetece arrumar as meias a um lado, as cuecas no outro, e bazar na gáspea para as bordas do Índico. Coisas sentimentalonas de um coraçãonito afro-alentejano – eu sei que isto é uma máquina de bombear sangue e não sentimentos!!!!
Por mou da falta de tempo e do vil metal resta-me prantar no prato um vinil do Fany Pfumo, ligo o aquecimento no máximo, dispo-me em pêlo, enrolo na cintura uma garrida capulana e rebobino a memória. A música da Gazalândia toma conta da casa e de mim.
O doce odor inebriante das massalas maduras nos matos de Chicualacuala. O som longínquo e minimal do pilão na Vila de Mutuali. A mística das missangas nos longilíneos pescoços das belas mulheres da Ilha de Moçambique. As tangerinas de Ilhambane amontoadas em geométricas pirâmides na beira da estrada de Homoíne. O êxtase dos tambores nas noites de Changara. O grito das acácias e dos jacarandás nas ruas de Maputo. Os vicejantes verdes das machambas do vale do Xai-Xai. As ritmadas timbilas no Msaho do Tunduru. A viola de lata nas mãos do menino solista da Mafalala. O Machimbombo vergado sobre o peso de um mundo de haveres a caminho do Chibuto. As mamanas garridas com o avio das necessidades no batelão do Zambeze. O cheiro intenso dos frutos do caju espremidos pelas mãos da mãe do Darsam na machamba da Matola.
A voz do Fany cantou a Georgina na última volta do vinil. Abeirei-me da janela. Chove uma fortíssima bátega. Está frio, o frio eborense dos Dezembros. Da cozinha vem o cheiro do alho e do coentro a serem pisados no almofariz. Hoje é uma açordinha com bacalhau. Sempre gostei dos odores fortes. De cá e de lá!


Sábado, em Vila Viçosa, na Pousada D. João IV, realizou-se o almoço do Cabido Geral da Confraria Gastronómica do Alentejo.
É o único ajuntamento em que participo com natural prazer.
Cardápio
AntepastosMiolos de tomate
Mogango frito em azeite
Pimentos assados em azeite
Azeitonas retalhadas
Cação de Escabeche
PratosPoejada de bacalhau com queijo e ovos
Lombinhos de porco alentejano com amêijoas
SobremesasQueijos de Évora de ovelha em azeite
Sopa dourada/Fruta
Café com Bolo de Mel
DigestivosLicor de Poejo
Bagaceira de Borba
Como se nota no cardápio, este foi um almoço dedicado ao azeite, e dele resumidamente dizemos: «A oliveira, considerada símbolo da sabedoria, paz, abundância e glória, convive com a história do homem desde a idade do Bronze como comprovam descobertas arqueológicas feitas na Síria e Palestina. Ali, fragmentos de vasos mostraram vestígios da produção de azeite 3 mil anos antes de Cristo. O “bálsamo dourado” extraído dos pequenos frutos alimentava, curava e iluminava».

Quando se quer depreciar nada melhor que o: és um ciganão. Sempre o ouvi como uma imagem de forte desabono. Não foi em vão este ferrete com que desde sempre lhe cunhamos a presença. Uma existência cada vez mais banida. Banida de nós e nós banidos deles. Pior que o pior de nós, só eles. Pior que o pior deles, só nós. É natural a paga!

Connosco na mó de cima, não queria estar na pele deles!
Hoje. Algures. Aqui na santa terra dos brandos costumes, num qualquer lado que bem podia ser em todo o lado, umas centenas que bem podiam ser uns milhares, civilizadamente explicam: «Não somos racistas nem temos nada contra os ciganos, mas não os queremos cá». Hipócrita mas elucidativo!
Não há por aí quem arranje um Hitler a esta gente?
photo José Manuel Rodrigues

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto – não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchts ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E o que elas duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com as mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-se com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminhando por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que não as tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de alguma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês – e que só ela vê, só ela vê.
Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição.
Eugénio de Andrade

Admito em mim um predominante prazer na estética rectilínea. Há no entanto curvas cujo movimento me dá um gozo tremendo. Esta é uma delas!
Sensivelmente a meio do percurso entre Alvito e Cuba, após uma sucessão de manhosas curvas, repentinamente, após esta libidinosa curva emoldurada por um não menos magnifico muro, surge Vila Ruiva.
Ainda por mou das curvas. Os alentejanos vão passar a usar pijama para andar de mota. Só assim tem a absoluta certeza de darem as curvas perfeitamente deitados!
Hoje encontrei uma jovem ex-colega das lides acrobáticas do desenvolvimento rural. Pessoa que tenho por inteligente, desembaraçada, sólida, tecnicamente eficaz. Trabalhou connosco uns tempos largos, desemburrou da inexperiência de recém-licenciada, foi inclusive responsável irrepreensível de um programa. Um dia “entrou para o estado”. Possivelmente farta do incerto e desgastante trabalho associativo. Não a recrimino, antes pelo contrário, que mais poderia ela fazer num tempo em que ganhar com segurança para a papa tem como única saída em bom estado o bocejo do mau estado.
Quantos bons técnicos não abdicam de um percurso profissional interessante, criativo e valorizador de si e da comunidade, para cederem ao desconsolo de uma “carreira” neste omnipotente mau “estado” bafiento e castrador.
Que porra de vidinha que só nos acena com a estabilidadezinha em troca de envelhecermos precocemente no almejo da previdentezinha ADSE e da santa reformazita.
Que porra de “monstro” que só dá gozo aos pantomineiros da política e enfado há restante mole de servos.

Coro dos empregados da Câmara
É tão vazia a nossa vida,
é tão inútil a nossa vida
que a gente veste de escuro
como se andasse de luto.
Ao menos se alguém morresse
e esse alguém fosse um de nós
e esse um de nós fosse eu...
...O sol andando lá fora,
fazendo lume nos vidros,
chegando carros ao largo
com gente que vem de fora
(quem será que vem de fora?)
e a gente práqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados prás secretárias
fazendo letra bonita.
Fazendo letra bonita
e o vento andando lá fora
rumorejando nas árvores,
levando nuvens pelo céu,
trazendo um grito da rua
(quem seria que gritou?)
e a gente práqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados prás secretárias
fazendo letra bonita,
enchendo impressos, impressos,
livros, livros, folhas soltas,
carimbando, pondo selos,
bocejando, bocejando,
bocejando.
Manuel da Fonseca
El-Rei D. Carlos diría: lá voltámos à parvalheira. Cá o Isidoro não o desmente, mas apascenta um imenso prazer, após agradável sortida à estranja, em voltar a esparramar o canastro no torrão transtagano.
Eu e o mê Manel fomos mais no cheiro de deambularmos pela diferença da dita cidade luz. As moças foram no desassossego de gastar até ao último fôlego os lugares míticos da grande metrópole. Com generosidade mútua conciliámos as ambições.
Enquanto elas subiam freneticamente à Torre Eiffel, nós despachávamos uns pastisses, num bistro de ocasião, enquanto dávamos fé da vidinha parisiense. Enquanto elas deram corda ao instinto feminino das comprinhas, nós almoçávamos no remanso de Montmartre enquanto mirávamos os pintas do Pigalle. Ao Louvre fomos de quadra completa. O Louvre é o Louvre porra! Mas atão compadres, fomos submergidos por uma alcateia de japónicos que, babando-se de êxtase, fotografavam até as maçanetas das portas.

Para compensar o dilúvio dos amarelos e a falta de comoção perante a Mona Lisa, nada melhor que a ingestão de uns tintoles num bistro – coisa para muitos valores - de que o Isidoro é frequentador, vai já para um par de anos, ali para os lados do Palais Royal.

E pronto, como diria igualmente o monarca D. Carlos: lá voltámos a esta choldra ingovernável.
(O patrão foi dar uma curva à estranja. Assim, para além do encargo de guardar o monte, fiquei também com a possibilidade de bolinar no Alentejanando. Com algum descuido mas aí vai roupa...)

Tu disseste, "vejo uma imagem clara do que já fui, onde? não sei ao certo, talvez na nonagésima poça de água que vislumbrei ontem a caminho de casa, vi altos e baixos, o reflexo da Casa de Mingus. Curiosamente um transeunte passa por mim com um contrabaixo às costas e pede-me lume, forneço-lhe o meu último fósforo e pergunto se porventura sabe tocar alguma coisa de Mingus? O rapaz olha-me fixamente, olha à sua volta, acende o cigarro e responde-me – "esse, existem poucos como ele – no Jazz e fora dele, a forma como passeia os dedos nas cordas, sim! tento escutá-lo a toda a hora, a verdadeira melodia do pensar.., não sei se me faço entender?" mudo, pensativo despeço-me desejando um bom dia a todos os ouvintes da rua e desapareço. Seguindo por uma rua estreita penso que penso, deixo-me, levanto-me do chão, não quero mais pensar, a agressão a que fui submetido deixou-me teso, sem trocos para ir beber um café, porra, chiça, vou ao Príncipe apanhar ar e logo se vê! Não me posso tornar num pedinte! Pedintes e invejosos há muito que existem em todo o lado, o lado negro da lua, esse deixo-o para o homem mau, esse inventor nato. No outro dia fui ao supermercado comprar salsichas frescas, e quando cheguei deparei-me com uma fila de gente à porta, fui ver o que se passava, um senhor diz-me que um rapaz se encontra lá dentro armado com um contrabaixo a tocar junto à secção dos legumes frescos e enlatados, e por isso a policia está a tentar expulsá-lo.
São quase dez da noite, o filme acabou, levanto-me do sofá e desloco-me à cozinha a fim de preparar um café, no caminho ouço um pequeno barulho, passo djô, não me interessa, deixei de fumar, agora só fumo cigarros de mentol, prossigo a minha busca por entre armários cheios de tupperwares, abro uma porta e deixo cair uma caixa amarela no chão, adapto-me à situação ao mesmo tempo que cito uma frase de um outro filme – "O importante não é a queda mas sim a forma como se aterra!" duas colheres de açúcar, redemoinho e pronto, o café está na mesa, "mudo o canal e mudo de vida", penso eu! Rapidamente desloco-me à varanda e vejo-a a olhar para mim sempre com aquele olhar triste, a lua essa bola branca que nos observa à noite a nós, a todos aqueles que habitam a cidade e que gostam de John Zorn a meio da noite depois de se deitarem, de fazerem amor e de secarem o suor do corpo à janela numas noites de Verão indizíveis ao espirito, apenas a matéria, a polpa e circunstância das coisas ainda por definir," o café está estragado, pus pouca água". Nessa noite sai e nunca mais voltei, se calhar comecei a fumar S.G. Gigante outra vez!
Fred