
Este amarelo que de criança me extasias.
Amarelo que te pintaste sobre o verde do começo.
Este amarelo que amareleceste no zénite da sabedoria.
Amarelo que te sabes fugaz e sempre reincarnado na matemática da vida.
Este amarelo que de muito tempo me insistes deslumbrar.
Amarelo que na acompanha amareleci.

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder


Para esta gente os deuses são a mais.
A mais lhe é tudo o que for abstracto.
Nada que exista lhe provoca espanto,
nada a que aspire o considera errado.
Ao esforço dela, vergam-se os elementos,
a razão se lhe amplia, a treva se acende.
Feita de carne e osso e sentidos despertos,
ás suas dimensões reduz tudo esta gente.
Armindo Rodrigues
Um fabuloso trabalho de fusão do cante alentejano com uma orquestra clássica. Um harmónico encontro cultural da vizinhança do Sul, manifesto na contracapa do cd: «Alentejo com as terras da Andaluzia aqui ao lado e a cultura Árabe no coração». Uma audaz aposta, plenamente vencida no meu entender, do “Ronda dos Quatro Caminhos”.

Na brochura de apresentação, diz-nos António Prata: «Da terra nasceu o canto de todos os homens. Da terra nasceu também a música que a todos alimenta. Outros rumos levaram outras melodias. Palácios e eiras, salas de concertos e campos de lavoura. Nas memórias se perdeu o que hoje só se perde se assim quisermos. Violinos encantaram reis, imperadores e presidentes. O canto da planície calou mágoas, clamou trigos, arrojou esperanças».
Ainda do opúsculo de apresentação, cala-me fundo o génio de dois homens poetas, um andaluz, outro alentejano. Federico Garcia Lorca e Manuel da Fonseca, um titulo único para dois poemas.

Aldeia
Sobre o monte nu
um calvário.
Água clara
e olivais centenários.
Pelas vielas
homens embuçados,
e nas torres cata-ventos girando.
Eternamente
girando.
Oh aldeia perdida
na Andaluzia do pranto!

Aldeia
Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.
Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para
longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

Hoje, de uma notícia vinda no Público Local, retiro uma mão cheia de excertos sobre a deprimente situação da prestação de cuidados primários, sublinhe-se o primários, de saúde no concelho de Barrancos.
«No concelho de Barrancos residem 1921 pessoas. Mais de metade tem idade superior aos 50 anos e quase um terço ultrapassa os 65 anos. Boa parte dos idosos padece de doenças crónicas, sobretudo hipertensão e diabetes. Não têm um único médico de família.
(...) Encinasola é um “ayuntamento” (concelho) espanhol localizado a 10 quilómetros de Barrancos. Tem 1800 habitantes. O perfil etário e clínico da sua população é idêntico ao do concelho português. Tem três médicos de família e três enfermeiras em regime de permanência 24 horas por dia.
(...) Confrontados com uma diferença substancial nas condições de prestação de cuidados primários de saúde, os barranquenhos não hesitam em deslocar-se à localidade espanhola de Encinasola na procura de assistência médica que falta na sua terra. São atendidos no mesmo pé de igualdade que os naturais do país vizinho, a qualquer hora do dia ou da noite e sem ter de pagar taxa moderadora.
No passado mês de Agosto, quando até as pedras da calçada derretiam sob a inclemência dos 45 graus, foi preciso vir um médico espanhol verificar o óbito para tirarem um enforcado da forca. Entre a descoberta e o apear do corpo, mediaram nada menos que 8 horas. Os Centros de saúde de Moura e Beja não tinham disponibilidade, mas vá lá, arranjaram as necessárias vinhetas para avalizar a passagem da certidão de óbito.
Do livro “Elementos para a História do Além-Guadiana Português”, retiro ainda um breve mas interessante excerto: «Como medida preventiva, D. Francisco de Sousa, senhor de Beringel e alcaide-mor de Beja, encontrando-se em Moura com 800 homens que juntara nas povoações de Torrão, Vidigueira e Portel, obteve em Moura o apoio de 200 e nas aldeias de Safara e Santo Aleixo mais outros 200. Em 26 de Junho de 1641, saiu de Moura e dirigiu-se para Barrancos, onde chegou no dia de S. Pedro, 29 de Junho. Como a maior parte dos seus moradores eram castelhanos ou estavam casados em Castela, dando seguimento a directivas régias, despejou o lugar que, de seguida, mandou arrasar, sendo os seus moradores roubados pelos soldados. Apenas se manteve de pé a Igreja e parte dos Paços do senhor de Barrancos, Conde de Linhares.»
Nem mais, calhando uma medida preventiva semelhante deveria ter sido tomada aqui há uns anos atrás, quando aquela caterva de rufias, meio acastelhanados, fizeram finca-pé em manter bárbaras tradições. Desta vez, a prevenção deveria ser ainda mais radical. Nada deveria ficar de pé, nem a Igreja, uma vez que o padre, que Deus tenha a alma em descanso, era igualmente um rufião, nem mesmo o posto da GNR, uma vez que os ditos não cumpriram com o dever de massacrar o maior número possível de contumazes tratantes. Os sobrantes, depois de devidamente espoliados, correriam certamente a refugiar-se, mais uma vez, em Castela.
O mês de Dezembro trás quase sempre à arreata as primeiras friezas sérias. Este semblante sisudo do frio dá-me uma enorme vontade de recorrer aos bons ofícios da fada madrinha para que me remodele em gato. Apetecia-me ronronar junto do aconchego do borralho sem que inevitavelmente fosse taxado de malandro, coisa que apenas acontece aos racionais e não aos gatos. Sempre achei uma perfeita insensatez aquela leviandade do Adão ao abocanhar a maçã! Uma dentadinha na maçãzita e lá se foi o paraíso eterno.
Mas bichanando novamente. Ainda por cima, vai não vai, têm direito a umas festas na lombada e a umas lérias ternurentas. Às quais, nem se dão ao trabalho de responder, mordomias de gato. Este direito de não resposta, este – espera aí que eu já te aturo - também me começa a aliciar sobremaneira. E pronto, por mais surreal e bestiário que vos pareça, esta ambição felina volta todos os invernos, cada vez mais forte, como se crescesse paralelamente proporcional ao escorrega da vida.
À laia de conversa cruzada, mas na mesma linha do louvar a mandriice, veio-me há cabeça o Paul Lafargue, um moço que foi genro do Marx devido a ter dado o nó com a sua filha Laura. Não sei que por carga de água, possivelmente por ter um discurso escorreito, o certo é que representou a Espanha e Portugal na Internacional de Haia. Muito oportunamente, este avisado moço, escreveu «O direito à Preguiça». Obra que não caiu no goto das severas nomenclaturas bolcheviques por não condizer com a moral proletária. É pena, pois caso tivessem dado ouvidos ao Lafargue, e acatado a legitimidade da preguiça, talvez hoje a seca da responsabilidade de ganhar para a papa fosse menos seca. E à sua maneira tinha redimido a inconsciência do Adão. Segundo consta, pôs termo à vida em 1911 com receio da senilidade, ou se calhar, porque estava farto de dar ao dedo para sustentar a famelga.
É também nesta altura do calendário que não me importo de ser anafado. Dá um certo jeito ter uma boa manta! É confortável. Inclusivamente, a tradicional bonomia dos gordos contribui imenso para compensar o cinzentismo dos dias. Mas a propósito de gordos, aliás, mais fortes, toca mas é a não descurar a necessária manutenção da linha, tratando do sustento que a sustenta.
Entrada de pasta de fígado
1 fígado de porco
1 molhinho de salva
1 raminho de rosmaninho
2 cebolas
1 dl de azeite
50 gr de manteiga
3 dl de vinho
1 folha de louro
sal
No azeite refoga-se o fígado cortado conjuntamente com os cheiros, a cebola e o louro. Quando a cebola quebrar, junta-se o vinho a pouco e pouco, deixando estufar até o fígado estar bem cozido. Transforma-se o preparado numa pasta juntando a manteiga derretida, de forma a ligue bem e fique macio. Serve-se barrado em quadrados de pão levemente torrado.

Cação à moda do norte alentejano
1 kg de cação
8 dentes de alho
1 molho de coentros
1 dl de azeite
100 gr de nozes
vinagre
sal
Amanhe o cação e corte-o em postas de dois dedos. De seguida deixe-o submerso em água e vinagre por um par bom de horas. Num tacho de barro, deite o azeite, os alhos picados, os coentros e as nozes antecipadamente picadas na máquina. Deixe refogar levemente, deitando de seguida um pouco de água. Assim que levantar fervura, introduza o cação, corrija o sal e deixe cozer bem. Serve-se por cima de sopas de pão fatiado.
Laranja em mel e azeite
5 laranjas
2 dl de azeite
2 dl de mel
Descascam-se as laranjas e cortam-se às rodelas finas. Aquece-se o mel e mistura-se com o azeite. Põem-se as rodelas de laranja a marinar neste preparado por um bom par de horas.
Dado a frieza reinante, aconselho vivamente que se abram as hostilidades no ataque às comedorias junto da lareira. Sempre é mais confortável. O vinho e os digestivos, hoje, são da vossa lavra. Cuidado que o calor faz trepar os álcoois.
Engordem, tornem-se confortáveis e formosos.


Cemitério de Évora-Monte.
Para o caso dos cidadãos andarem distraídos, a divisão de sinalética da Câmara lembra-lhes, através do óbvio sinal, que este caminho não tem efectivamente saída. Dado não haver alternativa, agradecemos o aviso e reconhecemos a competência.

Eu cá pra mim isto dava direito a uma violentíssima manifestação!
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Photo de José Cabral
Ontem, foi noite extravagante.
Suecada até as pontas dos dedos estarem em brasa. Cigarritos, em barda. Digestivos, o suficiente. Ironia, sempre. Atenção, muita, às renuncias.
Hoje, a marinar.
O frugal ensopadinho de borrego. Sopas, caldinho e carne q.b.

Um cafezinho do comendador de Campo Maior. O prazer amansado de um puro, que um dia não são dias.

O virtuosismo de Coltrane.

Assim como assim a coisa ainda se compôs.
Relativamente aos comentários sobre o Alentejo, museu & desenvolvimento, prometo que um dia destes escrevo um texto.
Mas sabem, trabalhei desde sempre em desenvolvimento rural, cá, em África e novamente cá de 1988 a 2002. Até que um dia pifei. Fiz o balanço do deve & haver, e achei que já tinha pago as quotas todas.
Virei o leme e vou bolinando pela tempestuosa burocracia até aportar a uma casa de comes-e-bebes, da qual um dia destes escancaro a porta. Obviamente, cá na transtagânea e numa freguesia rural por mou do feitio. É prá reforma do capado e do espírito e, claro, como não tenho grande fezada no estado, para continuar a ganhar uns tostões para a sopa e para as extravagâncias a que fui dando guarida.
Voltando ao assunto dos comentários, disse um dia destes, porque me acho ainda em período de nojo. Quanto maior é a distância dessa apaixonada mas desgastante labuta, mais afino a reflexão. Um dia destes tiro o luto!
Do Público – “Uma sondagem realizada pela Gallup em Bagdad, cujas respostas foram recolhidas há três meses, já evidenciava nessa altura uma desconfiança generalizada da população face aos norte-americanos. Apenas cinco por cento dos inquiridos disse acreditar que os EUA invadiram o Iraque «para ajudar o povo iraquiano» e apenas um por cento acreditava que fosse para estabelecer a democracia no país”. Tal como eu não acreditaria se fosse iraquiano!
A coisa agora está a ficar muito preta e, como era de esperar para quem está minimamente atento, os Estados Unidos planeiam acelerar a sua retirada. Óbvio. Bush vai a votos em Novembro de 2004 e por cada marine encaixotado, os pontapés na possibilidade de reeleição crescerão exponencialmente. E tal como já assistimos no Afeganistão, os américas preparam-se cinicamente para dar de frosques, atabalhoadamente como é seu apanágio, e jogar a batata quente ao ar para quem a apanhar.
Por cá, do governo, não espero sensatez nem penitência. O outrora aprendiz de “grande educador” e o seu cabo-de-guerra desde a inauguração da cruzada que lhe traçaram o rumo: fuga em frente até ao dia em que batam com a tromba na intolerância da rapaziada. Ainda por cá, dos pensadores e outros escribas acocorados perante a grande cruzada do pateta do Texas contra os infiéis, só espero, obviamente, que continuem a rastejar a sua maleável espinha, babando-se no logro do auto-convencimento. Dos que foram de cá para lá, os GNRs, só lamento que há pergunta sobre as razões do voluntarismo, nenhum tenha tido a coragem de dizer que o arredondamento do salário teve a sua quota-parte na decisão. Solidariedade, a minha, não!
Mértola e Chefchaouen

Mértola Vila Museu
Depois de algumas horas de viagem a subir o rio, eis que, passada a última curva, branqueja mesmo em frente o casario de Mértola. Vencidos alguns baixios e bordejando margens bravias agitadas por intensa vida selvagem, a visão do aglomerado urbano aparece como uma insólita mancha humana numa paisagem de campos abertos tisnados pelo sol. Esta era também, em tempos mais recuados, a visão dos mercadores romanos que a pulso dos seus remadores vinham buscar os vinhos generosos do Alentejo e, bem mais tarde quase até aos nossos dias, a dos embarcadiços que nas últimas canoas de velas esguias traziam as notícias da capital e os adubos para as terras magras da campanha do trigo.
(...)
Cláudio Torres

Chefchaouen, Cidade Branca
Chefchaouen estende-se, branca e imponente, por um dos muitos cerros do Fif, um território montanhoso no Norte de Marrocos. A Chefchaouen chega-se por uma estrada estreita e sinuosa. De Chefchaouen parte-se com pouca vontade, sempre pelo mesmo caminho, encostas abaixo até perto do Estreito de Gibraltar.
(...)
Santiago Macias

Fotografias do mê António Cunha (cantoneiro)

fotografia de maltês
É o copo de vinho que se bebe de um trago. É a mão que alcança o pão e o petisco. É o cigarrito que calmamente se fuma. É a roda de companheiros. Com um súbito entendimento de muito tempo, o silêncio cobre as falas. Vem aí o cante. Sozinho, o ponto rompe com a moda e a voz sobe lucidamente limpa pela noite. Os outros, com os pés agarrados ao chão, compenetradamente sérios, acompanham em silêncio o sinuoso progredir da voz do ponto. Subitamente, o alto, solta a voz, aguçada, sibilante, fazendo o apelo. É então que o coro destapa as gargantas, e o vozeirão dos baixos retribui entornando em entoação majestosa o avançar da moda. E a toada do cante suspende-se na noite como se a voz dos homens tocasse o absoluto.
É a roda de companheiros. É a mão que alcança o petisco e o pão. É o copo de vinho que se bebe de um trago. É o cigarrito que calmamente se fuma. Volta o silêncio a cobrir as falas. Vem aí novamente o cante.
Pagamos com meio palmo de língua de fora os nossos impostos, aliás, como toda a malta do interior. Na linha ancestral do esquecimento, não tivemos direito sequer a um estádiozinho nem que fosse para jogar ao berlinde. E depois ainda nos obrigam a assistir aos dislates das Elisa Ferreira e outros flibusteiros que tais. No mínimo deviam ter cinco tostões de vergonha e recato, mais que não fosse por estarem sentados à manjedoura do erário público.
Segundo consta, os fariseus da comissão europeia estão novamente numa onda moralizadora contra as tradições regionais. São cíclicas estas campanhas ferozes contra a diferença.
Eu, continuo-lhe a alçar um competente manguito que, desta vez, se metamorfoseia num texto que escrevi aqui há já um par de anos.
Nutricituacionistas
Para que conste: o actual conjunto de pessoas encarregadas de tratar em comum dos assuntos da União, vulgo Comissão Europeia, decidiu, profilacticamente, antes de ir a banhos que, após a rentrée, ou seja quando a carneirada voltar a dar à mola que, jamais qualquer cidadão dos 15 poderá pensar em utilizar na alimentação animal, racional ou não, o crânio, as amígdalas e a medula espinal de bovinos, caprinos ou ovinos que apresentem idade superior a um ano. Em Portugal e no Reino Unido (olha que duo), estão igualmente banidos a cabeça inteira, o pâncreas, o baço, os intestinos e a coluna vertebral dos mesmos animais, só que logo após os seis meses de vida. A draconiana decisão tem a ver com a prevenção contra a BSE. E não tinha lá muita piada que os digníssimos cidadãos da circunferência das estrelas, trocassem a massa encefálica pela massa espongiforme, não é que para um razoável número (sempre fui um optimista), a esponja não desse mais jeito. E pronto, tá dito tá dito!
Tá dito, uma ova! Lá que regulamentem os Britishs, vá que não vá que os moços são mais para o steak. Os Italianos é que não devem gostar lá muito do filme, já que sem o seu osso buco a coisa fica uma porca miséria. Agora a nós, magníficos comedores de tudo quanto não se deve desperdiçar, boicotarem-nos o prazer imenso de desmontar à navalhinha, uma belíssima cabeça de borrego assada? Não dá para acreditar. Isto para não falar das tripas à moda do Porto, que não sendo comida de mouros, é comida de gente de espinha direita, e por sinal de se lhe tirar o chapéu. Não, não é decididamente coisa que se faça. E, por muito que nos queiram transformar em engolidores de latinhas assépticas, de mixórdias embrulhadas a vácuo, de mistelas enfrascadas e regulamentadas por burocratas e aconselhadas vivamente a cacete por nutricituacionistas a soldo do que todos nós estamos fartinhos de saber, nós resistimos, resistimos heroicamente sentados à mesa do nosso consolo. Por este andar, não deve faltar muito para declararem proscrita a flora intestinal.
Bom, mas já que por agora outra coisa não nos resta, nós vamos tomar conhecimento dos regulamentos, lá isso vamos porque somos respeitadores. Agora, daí a inviabilizarem-nos o deleite das nossas iguarias, nem que nos metam uma patrulha da GNR em redor de cada mesa, porque o que demais poderá acontecer, é a imediata traiçãozinha dos representantes da lei a amesendarem igualmente de navalhinha em riste.
Para que o apelo à resistência passiva seja tomado à letra, toca a espalhar aos quatro ventos a boa aventurança da alquimia necessária para meter o dente numa cabeça de borrego assada no forno.
Cabeças de borrego assadas no forno
2 cabeças de borrego
6 dentes de alho
louro
banha
vinho branco
sal
Depois de cuidadosamente limpas e cortadas as extremidades das narinas, barre as cabeças inteiras com a massa de alhos pisados, banha e sal. Esmague o louro e espalhe-o por cima. Aconchegue as cabeças numa assadeira de barro ou tabuleiro e leve ao forno a assar com calor mediano. Caso consiga em forno padeiro, está a cumprir na integra todos os requisitos. Quando a assadura se aproximar do desejável, borrife-as com o vinho branco. Deixe terminar a assadura e parta-as ao meio.

Esta comedoria sempre foi tomada por petisco. Coisa para eruditos, que entre duas goelas de cante despachavam uns nobres tintos aconchegados por umas lascas das ditas. A taberna do João das Cabeças, em Castro Verde, é um magnífico exemplo do que acabo de dizer. No entanto, se a montante das proscritas abrir as hostilidades com uma salada fria de fígado do mesmo animal, acompanhada de umas batatinhas cozidas e temperadas a fio de azeite e orégãos, pode a jusante encerrar com uma fatia de queijo Serpa, isto para que o petisco se transforme num ovialmoço. Escolha um tinto que amancebe na perfeição com estes sabores da planície. Não olvide o café, o digestivo e a pureza do puro que pode ser um Coroa Açoriano.
A bem do Sul, contra desocupação dos prazeres.
PS. A cultura de um povo não se salvaguarda por decreto, é uma verdade inquestionável. No entanto, legislar bases para a sua protecção, ajuda imenso.
A Gastronomia, componente importante e natural da identidade cultural das regiões que dão corpo ao País, que é Portugal, só se preservará genuína se continuar-mos seus amantes, e dessa paixão dermos alvíssaras! É igualmente uma premissa inquestionável.
Vem isto a propósito da resolução tomada em Conselho de Ministros, de 7 de Julho, a qual pretende “elevar o estatuto da Gastronomia Nacional” sendo que esta arte tradicional portuguesa é “um bem imaterial integrante do Património Cultural de Portugal”. Nem a propósito, anote-se a feliz contradição com a soez decisão comunitária, motivo da minha presente guerrilha. A nossa auto-estima também se constrói de pequenos nada. O meu aplauso!

O nosso primeiro e o vizinho primeiro de Castela, rabiscaram os carapaus preto no branco da papelada dizendo que o xitiméla TGV (sinónimo de combóio no dialecto Changane), vai alentejanar malucamente pela Transtagânea com direito a apeadeiro e tudo.
Cá com o comboio apressado, que aquilo da mecha na deve ser coisa que se pegue. E até vai ter a sua graçola comparar a velocidade do comboio maluco com a do cilindro da Câmara, 2 e 4, quer prá dianteira quer de arrecuas. E escusam de estar já a augurar manhosices, cá a nossa medida padrão da velocidade será perpetuamente a do cilindro da Câmara, tá dito. Tinha graça era passar também pela Cuba, havia de ser bonito o bicho naquela doideira toda e a rapaziada a querer jogar-lhe a manta pra cima. Assim é que tinha piada e, ainda por cima, galgava astronomicamente o gozo que vai ser à conta do comboio maluco.
Ainda o interessante termo Changane xitiméla. Experimentem a pronunciar repetidamente, acentuando as sílabas e em crescendo xitiméla. Xi ti mé la, xi ti mé la, xiti méla, xiti méla, xitiméla, xitiméla... Segundo ouvi, os Changanes (Etnia do sul de Moçambique), construíram o termo ao imitar o som produzido, no arranque, por uma locomotiva a vapor.
Mote principal: “Não pagamos”.
É curto, muito curto. Esperava que dissessem que esta universidade não serve porque está desligada da realidade. Esperava que proclamassem que esta universidade não serve porque vive olimpicamente fechada sobre si mesma, ignorando, regra geral, o local e a região onde está instalada. Esperava que se insurgissem contra o facto da maioria dos cursos existentes estarem descontextualizados do mercado de trabalho. Esperava que se rebelassem contra esta universidade por continuar a produzir funcionários “doutores” cinzentos para um país cinzento. Esperava que propusessem uma discussão séria e alargada sobre a universidade que faz falta na construção de um país a cores.
Nada disto, antes pelo contrário. Continuam apenas bem trajadinhos e defensores de práticas iniciáticas do tempo da maria cachucha, verdadeiramente ofensivas da dignidade a que cada um tem direito. Quanto a reclamações, ficamos pelo “não pagamos” aconchegado de mais uma mão mal cheia de ideias atamancadas, manifestas sob a forma de uma fotocópia truncada de um tempo em que ainda não havia fotocópias.
Onde deveria haver pujança, rebeldia e ideias inovadoras, há apenas um reflexo de uma anquilosada juventude desentendida com um país igualmente desentendido consigo próprio. Vamos longe!
Sejamos perseverantes que o prior Baco nos recompensará. Faltam mais umas rijezas, é certo, mas que a fé não nos abandone. Entretanto, serenidade enquanto Ele mansamente coze...

Fotografia de José Manuel Rodrigues
Assim como assim, enquanto esperamos, atentemos nestas passagens chocarreiras que, com a conivência d’Ele, escreveram dois ilustres conterrâneos.
«Essa noite prometera Frei Brás ir papar a ceia à mulher do almocreve. Galinha ao lume, lombo no espeto, arroz de forno e, no respeito à pingota, um vinharrão vermelho e velho, enchendo borracha de almude, pesgada e rotunda que nem a pança do guardião. Assim, o frade, impaciente, tudo era desejar findar-se o dia: e jubilando, o melro, na preconcepção gozosa da frescata.»
Fialho de Almeida no “País das Uvas”
«Quando adregava a nossa visita a Montes Velhos ser ao domingo, o padrinho Joaquim Ignassio, mal acabava de nos cumprimentar, bênção a um, bênção a outro – Nosso Senhor o faça um santo – mandava um creado dizer ao padre Jordão que chegara a família das Mêzas, e que se ainda não estava bêbado, não se embebedasse, para dizer a missa do meio dia.
(...) Quando apareceu para acompanhar o cadáver já estava que nem umas flores. O cemitério era n’uma ponta da aldeia; até lá o reverendo aguentou-se razoavelmente, tem-te não caias, metido entre dois homens fortes, um a bombordo outro a estibordo, que lhe sustinham o balanço. (...) De quando em quando parava o comboio fúnebre; o padre arengava o latim da encomendação nada se entendendo do que dizia. Deposto o cadáver na cova, por meio de toalhas dobradas formando correia, o padre Jordão, sacudindo com demasiada força o hyssope, pegou consigo na cova estatelado sobre o cadáver.»
Brito Camacho no “Por Cerros e Vales”
Jorge de Sena observou um dia: “O nosso mal, entre nós, não é sabermos pouco; é estarmos todos convencidos de que sabemos muito. Não é sermos pouco inteligentes; é andarmos convencidos que o somos muito.”

Engenheiro civil e escritor de fim-de-semana, primeiro, depois no exílio voluntário, professor na área das humanidades e escritor a tempo inteiro. Como tantos outros, recusou viver numa sacristia de 92.391 Km2. Abdicou de viver numa pátria povoada de sombrios contentinhos suficientemente «reaccionários» e suficientemente «dos nossos». Partiu com apoquentação de não poder pensar e dizer livremente. Leccionou, escreveu muito, imenso e fabulosamente. Viveu nos Estados Unidos até ao epilogo de 1978.
Homem atento, conheceu e pensou maduramente os americanos. A talhe de foice roubo-lhe um poema lucidamente recidivo.
Ray Charles
Cego e negro, quem mais americano?
Com drogas, mulheres e pederastas,
a esposa e os filhos, rouco e gutural,
canta em grasnidos suaves pelo mundo
a doce escravidão do dólar e da vida.
Na voz, há sangue de presidentes assassinados,
as bofetadas e o chicote, os desembarques
de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança
para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,
e o plasma sanguíneo com etiquetas de blak e white
por causa das confusões.
E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,
de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,
e a mística do povo eleito por Jeová e por Calvino
para instituir o Fundo Monetário dos brancos e dos louros,
a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?
Os corais melosos e castrados titirilam contracantos
ao canto que ele canta em sábias agonias
aprendidas pelos avós ao peso do algodão.
É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,
nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,
nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,
nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,
e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.
E é negro por fora como isso por dentro.
Cego e negro, uivando ricamente
(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam»
sob a chuva de dólares e drogas
as dores da vida ao som da bateria,
quem mais americano?
Jorge de Sena
1964
De quando em vez gosto de passar na Harmonia Eborense. Bebo um copo, dou cinco tostões de paleio com o Naia, observo a fauna e sou observado pela dita. Jovens, uma imensidão de jovens rastas, guevaristas, freaks, aspirantes a intelectual, enfim, várias representações das desalinhadas tribos da terra. Velhos do tempo em que a casa não pactuava com badanais, poucos, escassos mesmo e já do domínio da arqueologia. Usados como eu, alguns, os que restam que para além das pantufas ainda dão algum uso à noite. Por vezes, apetecia-me montar um filme com imagens do agora e outras de há trinta anos atrás. Esta porra parece que não anda mas anda!

Na parede, junto ao WC, está esta tabuleta. Cada vez que vou mictar e encaro com ela, sou afrontado pela ideia de que devia estar uma igual ao lado da porta do governo. Vá-se lá saber porquê? Se calhar coisas de usado que ainda teima em beber copos na Harmonia.

Os romanos baptizam-na de Pax Júlia. Os visigodos não lhe teriam alterado o nome. Os árabes rebaptizam-na de Baja, e é com esse nome que toma o seu lugar no al Andaluz. É neste período uma urbe vigorosa por via da sua importância nas rotas mercantis. É igualmente berço de Al-mu Tamid, rei de Sevilha e um dos mais importantes poetas do mundo islâmico. Através de sucessivas e violentas refregas entre árabes e cristãos, quase não fica pedra sobre pedra e o inevitável declínio acontece. Durante os reinados de D. Afonso III e posteriormente de D. Dinis, paulatinamente, renasce. Com D. Manuel I torna-se, novamente, um burgo com importância regional. O bonito Convento da Sª da Conceição é o cenário de um dos dramas amorosos mais badalados da história portuguesa. A paixão não ousada da certamente bela Soror Mariana Alcoforado pelo oficial francês Chamilly.
O bairro das Portas de Mértola, o primeiro arrabalde quinhentista a nascer fora de muros em conluio com o convento franciscano, transporta a mística da razão primeira do nascimento urbano, a aforrada vizinhança dos produtores e mercadores de indispensabilidades. Almocreves, correeiros, oleiros, tecelões, sapateiros e ferreiros, tinham trato paredes-meias com barbeiros/sangradores, estalagens, açougues e tabernas.
Anualmente, Beja, continua a representar esta efervescente mística pela Ovibeja, a grande Feira do Sul.

A esta cidade céltica chamou Plínio, Ébora Cerealis. No ano 59 a.C, César Augusto outorgou-lhe o nome de Liberalitas Júlia, segundo consta em homenagem ao Deus Júpiter. Aquando da permanência árabe, foi parte do al Andaluz sob a designação de Ebris. Após a tomada pelo Giraldo Sem Pavor, ganha o nome que hoje tem.
A sua existência é inequívoca mescla de muitas gentes de numerosas proveniências. De homens bons e outros que nem por isso, de senhores e de servos, de artífices e de mercadores, de frades e de soldados, de vagabundos e de peregrinos, de saltimbancos e de camponeses. Os diversos agregados urbanos são a representação de um formigar ancestral, mediévico, mourisco ou judaico, justificado pelas Alcaçarias, Alcárcovas e Freirias, Porta de Moura e Porta Nova, Rua do Cenáculo, Beco do Chantre, Travessa da Caraça, Judiaria (Rua da Moeda e Rua dos Mercadores), Bairro dos Penedos e Travessas do Pão Bolorento e Torta. O burgo primitivo manteve uma interessante toponímia, reveladora de tradição e do chiste, de parecença e de narrativa, com alguns termos da herança muçulmana: Ruas do Mau-Mundo (Mahomud), Ancha, Alcatrás, Aferrolhados, Amas do Cardeal, Diabinho, Açacal, Valdevinos, Esnoga Grande, Escudeiro da Roda, Malforo, Balandrau, Beguinos, Malbarbado, Cozinha de Sua Alteza, Cogulos, Frades Grilos, Mancebia Velha, Imaginário, Caraça, Alconchel, Alfaiate da Condessa, Mangalaça, Tinhoso, Selaria, Donzelas, Meirinho, Mercadores, etc., etc.

Neste Novembro que hoje entrou, faz quatro anos que o amigo Pedro Ferro abalou. Abalou para onde todos certamente abalaremos. Era escusado ter abalado tão cedo.
O Pedro era curto na altura, enorme na desinquietação, generoso na relação, solidário com o amigo e ciclicamente apaixonado. Belamente caiu no caldeirão da ironia quando de cueiros, daí a inesgotável pilhéria sempre na ponta da língua. O Pedro era um guardião da obra de mestre Fialho de Almeida, e era igualmente um seguidor obstinado do estilo do contador do “País das Uvas”. Era, efectivamente, um dos grandes narradores das grandezas e das desventuras desta República do Gerúndio. O Pedro foi um Homem de grandes e devotadas paixões, sendo a da constância a sua amada Vidigueira.
Aquando da sua passagem pela direcção da rádio Vidigueira, convidou-me para fazer um programa sobre os produtos alimentares do Alentejo. Eu, impus condições e, entre elas, a da escolha do nome do programa. E o Pedro inquiriu: então e qual é o nome? Maroto, disse-lhe: é pá, inevitavelmente tem de ser “alô alô Vidigueira”. O Pedro escancarou o sorriso, meneou negativamente a cabeça e disse-me: é pá, queres desgraçar-me a reputação!
À laia de justo tributo, transcrevo um pequeno texto que publicou, no dia 9 de
Outubro de 1995, no jornal Público.
«Porque sim
Fazer da cal o bilhete de identidade. Comer o primeiro u de Augusto. Às Marias
chamar Bias. Petiscar ao fim do dia. Acreditar em Deus e no Partido Comunista. São coisas dos alentejanos.
Explicar Deus como “alguém que manda nisto tudo”. Casar pela Igreja. Baptizar os filhos. Ser indiferente à missa. Não faltar à procissão. Cantar ao menino pelos Reis. Chamar magana à morte. Dizer dos familiares que morreram: “o meu pai que Deus tem” ou “a minha Joaquina que Deus tem”. Tirar o chapéu diante do cemitério. Crer em virtuosos (bruxos). Temer as trovoadas como os gauleses do Astérix. Benzer o pão antes de entrar no forno. Não derramar azeite. São coisas de alentejanos.
Estar apaixonado quando está triste. “Andar atrás de” quando está apaixonado. Chamar boda ao casamento e ao copo d’água função. Anteceder os nomes dos filhos do pronome possessivo meu ou minha: o meu João, a minha Ana. Da mulher dizer apenas “a minha”, ignorando-lhe o nome. Não ter trambelho para os trabalhos domésticos. Enforcar-se quando se vê viúvo. São coisas dos alentejanos.
Ver cair a geada. Chamar charoco ao frio e busaranho ao vento gelado. Dizer que está aspereza quando há temporal. Ao Sol chamar “o astro”, como se fosse o único no céu. Ao calor chamar calma. Viver com o Suão. Chamar às planuras descampados. Cerros aos outeiros. À floresta arvoredos.
Olhar o horizonte e saber ter vagar. Dizer: estou à espera de me ir embora. Declarar com solenidade: devagar que tenho pressa. Abalar no comboio da Cuba. A Lisboa chamar aldeia grande. Ter parentes na Brandoa. São coisas dos alentejanos.
Estar de roda do lume. Sentar no chão para conversar. Parar no largo ao olhinho do sol. Ter sempre a navalhinha petisqueira no bolso das calças. Condutar o pão, o vinho e a vida. Beber só em companhia. Cantar quando os outros também cantam. À seca chamar desgraça. Querer a barragem do Alqueva. São coisas dos alentejanos.
Porque sim.»