Sem ser à laia do “citam-se mutuamente” não resisto a transcrever “Os bandos”, texto escarrapachado no macacos_deuses, blogue singelamente desalinhado. Cada vez gosto mais dos Fernãos Capelos Gaivotas!
«Como primatas organizamo-nos em bandos, é assim que nos sentimos bem, é a escala que dominamos.
Os problemas e o mal estar surgem quando se pretende construir o “bando global” bem contra a nossa natureza e os nossos interesses e reagimos, naturalmente, organizando os nossos próprios bandos, de interesses, de conformidade de ideias, estilos de vida etc,
O fenómeno é bem nítido na blogosfera: há um grupo de notáveis que se conhecem todos pelo nome, se encontram em jantares e reuniões sociais, “lincam-se” (perdoe-se-me o estrangeirismo, inevitável) e citam-se mutuamente, vão quase todos às FNAC e outros centros de cultura, têm o culto da escrita, escrevem geralmente muito bem (é essa estética que me atrai neles), rondam a medicultura, aquela franja que procura mimar o génio que lhes falta, são light, light, light., interessam-se vivamente por coisa tão diversas como animais domésticos, DVD, política, quanto baste, livros, muitos livros, lugares do mundo, futebol também, um pouco, outros desportos, centros de lazer, restaurantes “in”, não os de verdadeiro culto à gastronomia e dão a tudo isto o mesmo peso e a mesma medida.
Gosto imenso de os ler, não são bons nem maus mas não são, decididamente, não são macacos do meu bando.
Os macacos do meu bando não têm ainda muitos blogs.»
Política florestal sustentada... ordenamento florestal... foram sempre assuntos que puseram os responsáveis a assobiar pró ar. A não ser a brilhante ideia do “petróleo verde” do inteligente Mira Amaral, que descaradamente incentivou a eucaliptização. Tal como outros, do antigamente ao actualmente, já tinham feito a mando das omnipotentes celuloses. No que respeita ao Montado, então a coisa ganha contornos de crime público. Para além da vital importância da floresta mediterrânica no combate à desertificação deste imenso sul, até parece que a cortiça não é um produto estratégico e que não somos os maiores produtores mundiais. Mais que não fosse, pela auto-estima de sermos importantes nalguma coisa?
Depois da onda calamitosa de incêndios que deixou a irresponsabilidade completamente nua, foi uma correria de promessas e, entre elas, a bazofiada criação de uma Secretaria de Estado das Florestas. Para a dirigir, meteram a mão na viciada cartola, e eis que surge... um reputado técnico... ligado desde a instrução primária... à porra das celuloses. Na continuação da saga... o pardo Theias bispa uns documentos... Parques naturais pró das celuloses... ICN fica com a responsabilidade de contar a população de grilos... o Theias faz peito ao Sevinate e ameaça com um golpe de estado... o Sevinate embatuca e dá aos pedais... até que, por correspondência, o primeiro Barroso manda dizer que tudo como dantes quartel-general em Abrantes. Especulo que, nesta balbúrdia do golpe e contra-golpe, o reputado técnico das celuloses estaria atrás da cortina, de calculadora em punho, a multiplicar eucaliptos. Eu seja ceguinho!
Para desanuviar deste filme trágico, retirei da estante a fabulosa história do camponês Elzéard Bouffier, “O Homem que plantava árvores”, escrita com a simplicidade das coisas excepcionais por Jean Giono. Editada entre nós pela Associação Vicentina, entidade fazedora de desenvolvimento rural com sede em Bensafrim/Algarve – por desventurada coincidência, numa das zonas mais afectadas pelos incêndios do verão passado.

«(...) Chegado ao sítio pretendido, enfiou o varão de ferro na terra. Fazia assim um furo onde punha uma bolota e depois voltava a enchê-lo de terra. Plantava carvalhos.
Perguntei-lhe se aterra lhe pertencia. Disse-me que não. Sabia a quem pertencia? Não sabia. Seria terra comunal ou propriedade privada? Ele não estava interessado nos proprietários.
Plantou as cem bolotas com um cuidado extremo.
Depois do almoço recomeçou a escolha das sementes. Fui bastante insistente nas minhas perguntas, creio eu, uma vez que ele me respondeu. Há três anos que plantava árvores nessa solidão. Já tinha plantado cem mil. Dessas cem mil, vinte mil tinham vingado. Dessas vinte mil contava ainda perder metade devido às tempestades e a tudo o que é impossível prever nos desígnios da Providência. Sobravam dez mil carvalhos que iriam crescer nesse lugar onde antes não havia nada. (...)
Fiz-lhe notar que daí a trinta anos esses dez mil carvalhos seriam magníficos. Respondeu-me que, se Deus lhe desse vida, daí a trinta anos teria plantado tantas outras que essas dez mil seriam como uma gota de água no oceano. (...)
Separámo-nos no dia seguinte.
No ano a seguir houve a guerra de 14 na qual passei cinco anos. Um soldado de infantaria não pode pensar em árvores e para dizer a verdade a história não me tinha impressionado muito. Considerava aquilo uma patetice, ao mesmo nível de coleccionar selos, por exemplo, e não pensei mais nisso. (...)
Eu tinha visto morrer demasiadas pessoas durante cinco anos para poder facilmente imaginar a morte de Elzéard Bouffier. Além disso, aos vinte anos pensamos em homens de cinquenta como velhos a quem só resta morrer. Este não tinha morrido, estava até bastante rijo. Tinha mudado de trabalho. Tinha agora só quatro carneiros e, em vez dos outros, arranjara uma centena de colmeias. Livrara-se dos carneiros que punham em perigo as plantações de árvores. Pois que a guerra, disse-me ele (e eu podia constatá-lo) não o havia incomodado; continuara imperturbavelmente a plantar. (...)
Os caçadores que subiam aos ermos, à caça de lebres ou javalis tinham reparado na abundância de pequenas árvores mas julgavam tratar-se de um capricho da natureza e foi por essa razão que ninguém tocou na obra do homem. (...)
A partir de 1920 nunca mais passei um ano sem ver Elzéard Bouffier. Jamais o vi fraquejar ou duvidar. E só Deus sabe, como até Ele próprio, por vezes não ajuda. (...)
Em 1933 recebeu a visita de um guarda-florestal atarantado, que lhe disse que tivesse cuidado com o fogo, não fosse pôr em perigo o crescimento dessa floresta natural. Era a primeira vez que se via uma floresta a crescer sozinha, acrescentou este homem ingénuo. Por essa altura já o pastor ia plantar bétulas a doze quilómetros de casa. (...)
Em 1935 uma verdadeira delegação administrativa veio admirar a “floresta natural”. Entre eles estava um alto funcionário responsável pelas Águas e Florestas, um deputado e vários técnicos. Fizeram-se discursos inúteis. Ficou decidido fazer-se qualquer coisa mas, felizmente para todos, ninguém fez nada a não ser a única coisa útil: pôr a floresta sob alçada do Estado e proibir que alguém viesse fazer carvão. (...)
A obra só correu um risco sério durante a guerra de 1939. Como os automóveis na época andavam a gasogénio toda a madeira era pouca. Começou-se a cortar carvalhos plantados em 1910, mas essas paragens ficavam tão longe de todas as estradas que a empresa não revelou qualquer viabilidade financeira. O projecto foi abandonado. O pastor não tinha dado por nada. Encontrava-se a trinta quilómetros dali, e continuava tranquilamente com a sua tarefa tão ignorante da guerra de 39 como antes estivera da guerra de 14.(...)»

Coisa que não se explica, nem agora quero já explicar. É vero que desde que tive ordem de soltura e chave na mão, a noite foi sempre uma paixão dominadora. Tão avassaladora que, por alturas da adolescência, os dedos das mãos são quantidade suficiente para contar as noites que me quedei no regaço da família.
É usual a representação simbólica “vi a luz do dia”. Eu, pus a tola de fora faltavam escassos minutos para a meia-noite, e vi naturalmente a luz da noite. Amor à primeira vista!
No meu burgo e depois nos outros mundos onde gastei a existência, sempre fiz da noite a minha dama encantada. E por ela sempre arremeti ferozmente contra o deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Antes doentiamente noctívago!
As personagens interessantes que fui descobrindo, aconchegavam-se espantosamente com a noite.

Do amigo Monarca, uma alegoria poética às mágicas noites eborenses de sessenta/setenta do século precedente, obviamente!
Vaguear aos sábados pelas travessas
discutir a vida olhando a lua –
que sonhos e promessas
espalhámos pelas ruas...
Raiva e revolta!
Que os miseráveis não têm frio.
Jogar à moeda com o Rosca para a bebida
ouvir os relatos do Perna
seguir o Cachatra pelas ruas desertas
deixá-lo falar do problema das canetas
que o actor nunca morre
o Mangas o dizia.
Os Judeus têm o direito a ter uma terra sua, sem dúvida, não têm é o direito de tratar os palestinianos tal como Hitler os tratou.
O insuspeito Avraham Burg, outrora presidente do Knesset (Parlamento) e da Agência Judaica, escreveu recentemente. “Parece que 2000 anos de luta pela sobrevivência judaica se reduzem a um Estado de colonatos, dirigido por uma clique de foras-de-lei, corruptos e sem moral, que não ouvem nem os seus cidadãos nem os seus inimigos. Israel, que deixou de se preocupar com os filhos dos palestinianos, não devia surpreender-se quando eles vêm banhados de ódio para se fazer explodir nos centros onde os israelitas fogem da realidade.”
Quem com ferro mata, a ferro morre!
Estou no pináculo do quadragésimo sexto Outono. Os plátanos da estrada de Montemor tingiram-se, não há muito tempo, daquele amarelo palha que me extasia desde o tempo dos calções. Agora, depois do cair da folha apenas restam as árvores nuas, despidas daquela maravilhosa cor, mas igualmente dignas como sempre lhes imaginei o caracter, mesmo na nudez. Recordo com a nitidez dos olhos ávidos da infância, de no preto e branco da televisão, ter visto uma peça de teatro - As árvores morrem de pé. E sempre que o caminho dos adultos levava à velha estrada, devorava a imagem nua dos plátanos e matutava na fatalidade vertical das palavras do teatro. Consolava a angustia da morte com a nobreza daquele passamento hirto, como que em prece ao temeroso deus da altura, que também o seria das árvores. Mais tarde, na Escola do Chafariz d’El-Rei descobri com alegria que apenas preparavam a ressurreição pela Primavera.

Com o Outono chegou o cheiro da terra húmida, revolta pela aiveca da charrua, pronta a acolher o sémen semente que após a modorra invernal se transformará em vida. Depois o semeador, pelo lusco-fusco, voltará a puxar fogo ao azinho para aquecer o corpo, para de seguida dar a vez há vontade de aquecer o espirito. Na companhia dos amigos, com a navalha cortará o pão, alcançará o petisco e verterá o vinho. A liturgia do petisco atingirá a plenitude com a dolente vinda do cante. É a redondilha na vida do semeador. Nas vidas de todos nós!
São estes pequenos nadas, do poeta Godinho, que deslumbram a vida. Este nosso feitio alentejano que sempre fez questão de se seduzir tirando a merenda, aqui, junto da chaminé no recato do mais intimo, ou, ali na taberna em assembleia mais alargada. Das poucas posses da falca de toucinho e da azeitona, aos remediados queijinho e linguiça, até às muitas posses do paio ou presunto, todos fundam motivo para desatar o prazer e a alegria da merenda.
Vem isto a propósito, de uma questão comível que alegra o olho e reconforta o palato e, cai que nem ginjas numa mesa merendeira destes meados do Outono.
Segundo Manuel Camacho Lúcio no seu livro “Cozinha Regional do Baixo Alentejo”, - é um pitéu, talvez de origem francesa, de que se conhecem várias receitas. É também um prato sazonal, pois a matança fazia-se geralmente de Novembro a Abril, isto nalgumas casas, ainda com o tempo sobre o fresco. A origem francesa da receita é possível, tanto que no livro “Carne de Porco”, do autor Joaquim Domingos Borrego, uma preparação semelhante aparece com o nome de “Tête-d’Achar”. A assim ser, mais uma brilhante admissão na cozinha da transtagânea, possivelmente acarretada pelas invasões Napoleónicas. Quem sabe se murmurada ao ouvido de Soror Mariana pelo seu amado oficial francês, e por mou disso assumida temperança do Convento de N. Senhora da Conceição.
Eu fico-me pela receita do Alentejo da minha zona, que grandes contentamentos já proporcionaram nas minhas assembleias petisqueiras.
Cabeça de Xara
1 cabeça de porco preto
½ cabeça de alhos
2 cebolas bem nutridas
1 molho de salsa
1 molhinho de salva
1 molhinho de manjerona
4 dl de vinho branco
1 dedal de vinagre
sal grosso
Depois de bem limpa a cabeça do suíno, retiram-se os miolos (que dão para outro assunto), e salga-se com abundância deixando um par de dias a tomar gosto. Lava-se convenientemente, parte-se em quartos e mergulha-se em água num tacho na companhia dos outros ingredientes. Quando a carne se separar por si dos ossos, retira-se do tacho com a alfaia necessária, cortando-a em pequenos bocados. Coe-se o caldo que entretanto continuou a ferver no tacho, de forma a separar o líquido dos ossos e das ervas de cheiro. Leva-se a carne no caldo novamente ao lume, deixando ferver por uns grossos minutos. Retira-se do tacho e escorre-se o líquido. Deita-se o sólido em cima de um pano que posteriormente se ata em trouxa. Coloca-se a trouxa sobre uma tábua de cozinha com um peso q.b. de superfície lisa em cima. Deixa-se escorrer o resto do líquido para que a massa ligue bem.

Este disco de carne de porco preto, cortado em fatias finas, é um petisco que põe a salivar qualquer maltês. Umas rodelas de rábano cortam a gordura e ajudam a fazer a boca para a fatia seguinte. Há ainda quem consuma a cabeça de xara arregimentada com ovos mexidos.
É evidente que esta dádiva do porquinho preto deve ter a generosa companhia de um bom tinto. E como um dia não são dias, que salte a rolha a um Vila de Frades.
Que o Omar Khayyam convença Alá da nossa pureza.

Uma herança bem antiga, esta do Pão. Tão antiga que, morre nas profundezas do nascimento da civilidade nas práticas alimentares. Será também o pão a fazer a destrinça entre homens civilizados e homens bárbaros. É também o pão que inaugura a época do homem transformador, do homem do saber fazer. Do saber fazer que, para além do pão, também se estende ao azeite e ao vinho, tripeça fundamental da civilização mediterrânea.
Os romanos, grandes difusores da cultura da alimentação tinham no pão um emblema forte da sua dieta. Aquando da sua chegada ao Alentejo, já o pão fermentado tinha substituído o pão ázimo. É ainda com este pão milenar que, hoje, no dia a dia, continuamos a partilhar a comunhão desta nossa manêra de ser.
Sobre o fabrico do pão nos finais do século XIX, no Alentejo, transcrevo um interessante enxerto do livro, Através dos Campos de José da Silva Picão, dado à estampa em 1903: Amassaria – É a oficina do fabrico de pão das diferentes qualidades que se consomem. Tomando por base a importância do consumo, temos em primeiro lugar o pão de centeio, denominado marrocate, que se dá aos criados e malteses; em segundo, o pão de trigo – branco e ralo – que é respectivamente para amos e criados de portas adentro; em terceiro e último, as perrumas, pão de farelos de centeio com que alimentam os cães de gado.
Ainda hoje somos guardadores zelosos desta Epopeia do Pão. Do pão, símbolo dos anseios do povo nas palavras de políticos e poetas: pão e circo; a paz, o pão, a saúde, a habitação... Do pão, mote das sentenças populares: pão, pão, queijo, queijo; a pão e laranjas; comer o pão que o diabo amassou... Do moreno pão de trigo do Alentejo, que em tempos idos também o foi de centeio.
E tal como não dispensamos o azeite e o vinho, o mesmo fazemos com o pão nosso de cada dia. Que Ele continue a ser o assento do naco de toucinho e da lasca de queijo. Que Ele continue a ser a sagrada comedoria no gaspacho, no ensopado, nas migas e na açorda. Que Ele continue a ser alentejano.
Mas, voltando à açorda pódio primeiro do uso pão. Tem a nossa manêra de ser a virtude da poupança ao usar o panito mesmo depois de duro, em cubos ou falquejado, na condição de substância húmida. Têm toda a razão aqueles que dizem que, o Alentejo, é também a terra das sopas. Digo eu: das sopas, mas com pão!
Possivelmente, aqui, na planície, a evolução do pão andou de mão dada com o seu uso em sopas? Disso, nos reforça a convicção Alfredo Saramago, no livro – Para uma História da Alimentação no Alentejo. Atentemos então no seguinte excerto: A escassez dos recursos e a simplicidade dos paladares estiveram na génese da tharîd, pão mergulhado em caldo aromatizado e temperado com azeite. Com ela podia comer-se qualquer coisa; carne, peixe ou vegetais acompanhavam normalmente a tharîd, um prato simples, muito elogiado por Maomé e que constituía uma refeição completa, um luxo para alguns. Também conhecida como tarida, esta receita deve ser considerada como o arquétipo da açorda alentejana, opinião partilhada por alguns historiadores da alimentação durante o período islâmico. Durante o período de civilização dolménica foram encontrados, num vazo cerâmico, restos que a paleobotânica informa serem poejos e vestígios de uma farinação com cozimento. Do período romano há notícia de uma sopa feita de ervas aromáticas, alho, pão, azeite e água. A açorda atravessou culturas e os árabes fixaram-na definitivamente, e levaram-na ao estatuto de «prato real», estatuto que vigorou até ao século XIV, na corte de Merimides, em Fez.
Açorda de coentros
Coentros
Alho
Azeite
ovos
Bacalhau alto
Pimento verde
Sal
Numa panela coza o bacalhau, depois de demolhado, com água bastante para a açorda. Depois de retirar o bacalhau cozido, escalfe um ovo por pessoa. Num almofariz pise os centros e os alhos juntamente com o sal grosso. Numa tigela grande deite o azeite, duas colheres de sopa por pessoa, e um ovo inteiro, acrescente o polme do almofariz e misture tudo muito bem. Corte o pimento em lâminas e deite no preparado. Deite sobre este, mexendo sempre, a água da cozimento do bacalhau a ferver. Com a sopa do ganhão prove e se for caso disso corrija o sal. Deite no caldo as restantes sopas cortadas aos cubos. Deixe embeber bem as sopas e sirva em prato fundo onde já está o bacalhau e o ovo escalfado
Esta é para mim a açorda eleita. Mas pode ser mais singela, sem ovo no caldo, sem pimento e sem bacalhau. Açorda essa que podemos comparar a uma donzela sem arrebiques.
Há ainda as de poejos e de hortelã da ribeira. Com elas pode-se comer uma vasta plateia de sabores; peixe cozido do rio ou do mar, sardinhas assadas ou carapaus, uvas e figos frescos, ou então apenas na companhia da fiel azeitona.
Posso mesmo afiançar que a açorda tem um invulgar feitiço restaurador ao acordar com o cu p’ra lua, a boca a saber a papel de música, a cabeça mais pesada que uma locomotiva da CP e uma sede capaz de esvaziar o Alqueva de um sorvo.
Púm, morra o Dantas e viva a açorda!

Quis a vida que me cruzasse com o António Quadros num tempo de sonhos e utopias. Foi num Moçambique fascinante e inquieto dos princípios da década de oitenta. Eu no Ministério da Agricultura e a trabalhar no Centro para o Desenvolvimento Cooperativo de Namaacha. O António com oficina aberta na Direcção Nacional de Habitação, era a imaginação andarilha e o velho mestre alquimista que transmutava o nada em tudo. Do Mestre aprendi a apreender um mundo de coisas da vida, coisas de uma simplicidade apropriada e ao mesmo tempo de uma complexidade cósmica.
A sua vasta e multifacetada obra, atesta do seu génio prodigioso.
Tenho um enorme orgulho no privilégio de ter sido aprendiz de Mestre António Quadros. Tenho uma enorme satisfação em reproduzir o que sobre o Mestre, já postumamente, escreveu o amigo José Forjaz.
«É tarde agora para escrever sobre o António professor. É tarde, é quase inútil. Nunca foi de elogios que ele necessitou. Necessitava de o necessitarem, de o saberem necessário.
É também cedo para sobre ele ter ajusta perspectiva, a compreensão da sua dimensão centrífuga, da sua invenção, da extensão da sua influência sobre os seus discípulos, da sua cultura, fruto de uma curiosidade profundamente engajada.
Conheci-o sempre a ensinar. A ensinar-se a si, que era aprender, a ensinar à volta, que era ensinar a aprender.
Se as pessoas têm uma chave que lhes abra o segredo do ser de uma forma diversa das outras, no caso do António a que o explicaria melhor seria a sua prodigiosa imaginação, isto é, a coragem de pensar para lá do já pensado.
Para este homem, ensinar era uma escolha inevitável entre o grande gozo de produzir, que lhe vinha do cerne e do osso, e a grande responsabilidade do ensinar, que lhe brotava irreprimível em comunicação sempre inadiável. Professou.
O Tempo, como para todos, tinha contudo para ele uma dimensão encolhida que lhe resultava em escolha permanente daquela responsabilidade. A sua arte foi sempre didáctica. Desde a ode aos odres. A cabra ou o cabrão que não lhe vinham à mão – vinham-lhe do coração.
Reler (sempre ler pela primeira vez) os seus apontamentos para a “Tese de Agregação” traz-nos outra vez um profundo ódio pela morte (dos outros), dele que não acabou de facetar esse cristal. Estes apontamentos são mais uma síntese da lição que todos os dias começou, com a descoberta da primeira dúvida, da primeira lição, a si próprio.
O António não era, e muito menos agora é, redutível a uma tese: ele era assim, ele pensava assado, fazia cozido, cantava o frito. O seu pensar era esférico, constelar e translacional. Avançava sem perder a densidade, argumentava não por antítese mas por osmose, por tensão superficial das ideias e das associações. Era um pensar em bacia hidrográfica. De cada ideia seguia o seu percurso, ou um percurso, pelo afluente mais influente até um ponto de nascença, à fonte, uma qualquer das fontes primordiais. A lição que deu foi sempre a da escolha, sempre insuspeitada, de uma nova aventura do espírito.
Ele foi isso: um navegador do pensamento. Com ele o Norte eram todos os horizontes e a Índia não era um destino – era um pretexto. Pensar era preciso. Foi portanto este salutar aventureirismo do pensamento que ele melhor ensinou.
Esta alegria da descoberta do milagre da associação de ideias, das imagens, dos ritmos, das lavas eruptíveis do vulcão latente da memória. Da dimensão telúrica, subterrânea, ultramarina, astral, cósmica da imagem. Disso ele foi o mestre, o Gama das vastas regiões mentais inexploradas.
Pensar era alegria.
Era paixão.
Transmitir essa alegria era o seu vício, o seu dever alegre, o seu interesse visceral a cada momento, a cada encontro.
Como dito, ele veio ao ensino por aprendizagem. E por respeito pelo ensinável e pelo ensinado. Nos alunos respeitava tudo. Primeiro a pessoa. Toda a pessoa. Depois todos. O grupo. A relação. A inocência ou a pseudo falta dela. O espanto. A ignorância. A desconfiança, a dificuldade no adolescente ou agonia do obscuro, no maduro. Em cada um, um indivíduo a descobrir, a levar à descoberta. Um indivíduo a aprender. Um universo a maravilhar, a impressionar, a levar ao fim de si próprio.
(...)
Conviver com ele como aluno, amigo ou parceiro era uma constante exposição a esta quase tempestade de fulgores de imagens sempre, e quantas vezes quase instantaneamente, construídas a partir da matéria densa da sua enciclopédica cultura.
Porque o António era, curiosamente, um homem erudito. Curiosamente porque no seu caso (raro) o saber não lhe atrasou os caminhos da cultura. Ele fez sempre essa agronomia do conhecimento que brota no facto cultural.
Dessa cultura lhe veio a intransigência pelos que da cultura se servem para alimento da sua preguiça mental e doentia mistificação dos outros. Lhe veio uma atitude tão intransigentemente crítica que a muitos pareceu até maldosa. Não era. Era, sim, uma incapacidade de separar o pensador do seu pensar, a palavra da atitude. Mas pela crítica se progride, pela crítica se sobrevive. Pela crítica se ensina.
Melhor que eu ele o dirá.
Transcrevo (a crítica...):
“A aula passa a ser, entre mestres e amestrados, o doce congresso, de outros ou de duplos contentes, porque, reduzindo o plano da ilusão ao real cínico da sombra que projectam, um e outros, repartem sem partilha, o árido fazer no fito de ficar feito, a medonha inversão de sentidos do que arte seja, vida seja, ventura fosse. Do alto da peanha sombria e suja, a luz engessada de vinte séculos os contempla.
Avultam: a superioridade plástica, da morfologia menor desta Vénus em gesso, e a mesquinhez ofensiva dos bordejos encarvoados que são o resultado plástico da acção perversa do ser não.
Uma aula de crianças excluiria este não brio. Um salão de loucos mostraria a ronha alienada que, de facto, é.
Os cursos de arranjos florais têm emoção e comadrio. Num leilão de gado há activa contemplação estética, e, uma narina fremente, o fino jarrete, a crina farta da poldra, o velo enmoitado das borregas, ou a catenária pendente da vaca prenha, soltam o bafo das emoções mais directas por parte do perito morfo-pecuária. De onde sairá então a passividade perante o motivo? O domínio da emoção comum faz parte de toda a aprendizagem. Mas, domínio de, não significa ausência mas, e pelo contrário, a compactibilidade, ou seja, um acréscimo postulado pelo aumento de pressão interna. Só que o duplo, por natureza, é a imagem simulacro, a cria ligada à placenta da ilusão, nó de enjoos. Das suas opacidade ou ocacidade falarão os propósitos em falta.”
Crítica, como vêem.
À mediocridade de que o António Quadros, sem ser pela lei da morte, já há muito se tinha libertado.

“Riscos com cavalo”
António Quadros

À parte a mágoa de ter vivido as duas primeiras décadas aperreado pela pudica moral salazarenta, exprimo o meu mais profundo aprazimento pela oportunidade de ter medrado e destapado os mistérios da vida ao natural sustento, arredado dos constrangimentos beatos e da falsa moral dos fariseus. Entrementes, e até cerrar contas com a mãe terra, porfio que nunca haja um só palmo de zona erógena por cultivar!
Ó Eça, o Jorge Britânico Assobia Pró Ar diz que é cíclico, tá certo!
Mais esta ó Eça, os Rambinhos (não confundir com rabinhos) cá do rectângulo, gostaram que se fartaram do dia da defesa nacional. Para a próxima são contemplados com uma farda da “Bufa”.
Glossário: Bufa. Termo popular que designava a juventude salazarista Mocidade Portuguesa.

António Gancho nasceu em Évora. Já em Lisboa, gastou os fundilhos das calças nas cadeiras do desaparecido Café Gelo, consumindo o tempo na mítica tertúlia dos surrealistas. Há uma eternidade que vive na Casa de Saúde do Telhal. Desde que a mãe lhe morreu, sua única companhia de sempre. Possivelmente, já não saberia viver noutro lado. E tal como ele diz no poema «Sobre uma manhã qualquer»: Ah, os poetas são decididamente afectados.
Noite Luarenta
Noite luarenta
Noite a luarar
Noite tão sangrenta
Noite a dar a dar
Na chaminé da planície
a solidão a cismar
na chaminé da planície
noite luarenta a dar a dar
Noite luarenta
noite de mistério
noite tão sangrenta
solidão cemitério
Na chaminé da planície
o Alentejo a solidar
noite luarenta que o visse
noite luarenta a dar a dar
Noite luarenta
noite luarol
na chaminé da planície
o temor e o tremor
O cavalo a luarar
a lua a fazer meiguice
noite luarenta a luarar
noite luarenta a luarice.
António Gancho
Com base numa sondagem da Universidade Católica, diz o jornal Público que a esmagadora maioria dos portugueses concorda com mensagens-choque nos maços de tabaco.
Há uns tempos que comecei a ter fortes suspeitas de aqui o rectângulo ser um sítio mal frequentado. De uma coisa não tenho duvidas: caçar com estes gajos, não vou de certezinha, entram mal nas silvas!
Almodôvar, Dogueno, Ameixial, Besteiros, Catraia, Cortelha, Barranco do Velho, Alportel, S. Brás de Alportel, Machados e, depois, o que resta de uma outrora farta e imensa campina. A velha estrada Nacional 2, depois de serpentear pelo Caldeirão, chega quase em segredo a Faro, como que envergonhada de desembocar num “progresso” que não é decididamente o seu. Quase no final, subalterniza-se e atravessa incógnita o talude da jovem e tresloucada Via do Infante, como que proferindo: não se incomodem comigo. Abdicou de livre vontade de colaborar na venda da alma ao diabo e remeteu-se a uma pacatez que sempre foi sua.
Mantém a tranquilidade e a beleza de uma anciã que, lucidamente, conhece os seus préstimos, desempenhando agora a mansa função de encaminhar os poucos viajantes, sem alma de turistas, e o vaivém dos locais que, da cumeeira ou das abas da serra, descem os afazeres para os lados do Algarve ou do Alentejo. Curvilínea junção a um território de gente que não se sente nem do Algarve nem do Alentejo. Antes preferem a apátrida condição de serrenhos que, quando descem, vão ali ao Algarve, ou, vão ali ao Alentejo.
Do livro “A Serra do Caldeirão”, editado oportunamente pela Associação In Loco, retiro dois relatos que são a prova cabal deste sentimento profundo.
«Nós aqui, não usamos assim muito a miga, é mais ali para o lado da serra do Alentejo. A gente usava mais a açorda. E a açorda também é uma coisa simples. Temos o alho e o azeite e o sal numa tigela, e coentros, e depois temos a água ali a ferver, com ovos ou sem ovos, como quisermos, pomos ali o alho, o azeite e as sopas ali numa tigela. Depois deita-se a água quando estiver a ferver e os ovos cozidos, se tiverem ovos, ali para cima daquelas sopas. Mas, só a açordinha, também era bom. Depois mexe-se assim por baixo, para vir o azeite por cima e aquele sabor do alho, está a açorda feita!»
«Eu lembro-me da minha mãe secar sardinhas para comer com a açorda, aquecidas ao lume e depois temperadas com azeite e alho. Já vinham secas do Algarve. (...) Vinham secas de lá e vinham as sardinhas em barricas, as sardinhas estivadas (vinham em canastrinhas, todas amanhadas, já preparadas). Havia também quem as comesse cruas, como se come bacalhau, ou aquecidas ao lume na brasa, e depois temperadas com azeite e alho».
Agora que a maré das tias, dos bimbos, dos chefes de finanças, dos construtores civis, dos deputados (doputedo), dos ministros, dos futebolistas, dos excursionistas, dos vereadores, dos directores, dos generais, e outros caralhos que tais, vazou, vou eu aos robalos, porra!
Vou visitar a Pisco, o Azevedo, a Cristina, o Olho no balde, o Pica-pau, a Taska, o Sueste, o Carlinhos (que também é do Glorioso) , o Vila, o Zé de Sousa, o Correia e muitos outros maduros de bem estar. Com cinco tostões de jeito ainda papo uns jantares debaixo da alfarrobeira. Com seis tostões de jeito ainda engato uns carapaus alimados. Com sete tostões de jeito ainda destapo uns medronhos. Por fim, com mais meia dúzia de tostões, ainda saco uns puros em Ayamonte
Já não era sem tempo!
A tecnologia da imagem ultrapassou tudo o que pensávamos possível. Hoje, fotografa-se, envia-se e liga-se de seguida para perguntar se gostou da imagem, tudo isto realizado por uma pequena maquineta que, não há muito tempo, desconseguíamos de futurar. Uma sucessão vertiginosa de actos que, há coisa de meio século, implicava um exército de meios, gente e muito tempo.
Não nego que gosto da imagem colorida. Como o poderia negar se a vida é a cores. Mas continuo com a velha paixão pela fotografia a preto e branco. Querem o quê, maniqueísmos estéticos de gajo usado!
De entre os muitos fotógrafos que objectivaram o Alentejo, tenho uma predilecção especial pelo preto e branco da Ana Esquível.

www.xitizap.com sobre a situação no Zimbabwe

Num dos meus passeios nocturnos pelo burgo, demorei a memória na loja Porto filho, estabelecimento com porta aberta na rua Elias Garcia. O pai Porto tinha loja montada, vão uns anos largos, na rua do Raimundo. De pai para filho o ramo de negócio manteve-se mais ou menos inalterado, a não ser numa engenhosa particularidade. O pai Porto tinha uma grossa fatia de negócio no comércio de livros usados, e nestes, a talhada maior pertencia às histórias dos quadradinhos. A parte engenhosa do negócio tinha a completa adesão dos pequenos clientes: entregavam dois usados em estado legível contra o levantamento de um usado ainda não lido. A coisa funcionava, evidentemente alimentada pelos mais endinheirados que forneciam o circuito de livralhada nova. O que é certo é que dei esta matéria dos quadradinhos estribado num investimento de pequena monta. O reduzido orçamento disponível assim o exigia. É que para além dos livros dos quadradinhos também comportava os pirolitos, os selos da bola, os matraquilhos e mais algumas extravagâncias extras.
Na literatura quadriculada era mais ou menos eclético. Mantinha, no entanto, uma relação mais chegada com o luso-britânico Major Alvega e com o justiceiro Fantasma. O Tim-Tim prendia-me a atenção pelo rigor e colorido do desenho. A alínea dos índios e dos cowboys foi igualmente devorada, servindo inclusivamente de guião para incontáveis tardadas de brincadeira povoadas de tiros e setas. A porra é que na inicial divisão dos exércitos ninguém estava virado para ser índio. Escusa, que levava há formação de um exército pele-vermelha constituído por voluntários à força que, na primeira oportunidade, desertavam ou traíam. Carreguei durante muito tempo o fardo da simpatia pelos peles-vermelhas mas da relutância em pertencer a um exército derrotado à partida.
Mais tarde, quando soube que as histórias aos quadradinhos eram afinal banda desenhada, percebi igualmente da trama montada pelos caras-pálidas aos peles-vermelhas. Daí que, guarde devotamente o único livro que penso ter lido onde os peles-vermelhas, comandados pelo Touro Sentado, deram uma monumental coça nos caras-pálidas, comandados pelo famoso general Custer, cara-pálida que, precisamente, nessa batalha, bateu a bota.

Andei ali de roda dos livros de fotografia. Página a página vagarosamente, muito devagar, “Moçambique a Terra e os Homens”. E pronto aí está a porra da nostalgia da terra moçambicana.
A conversa serena com os amigos pelo fim da tarde na esplanada da Grega, enquanto dávamos despacho a umas quantas laurentinas e contemplávamos a quietude da Ilha da Xefina. Antes, tinha esperado a chegada dos pescadores da Costa do Sol. Mercara umas garoupas pequenas para grelhar e um tubarão pequenino para a sopa. O Kok agastara-se: só este gajo e os monhés é que compram tubarão, para que é que isso serve? Carreguei a fala alentejana e expliquei-lhe: não havendo por aqui cação como queres que faça a sopa do dito, faço sopa de tubarão que do mal ao menos ainda são primos. Com a deixa gastronómica acalmei a desconfiança do Chinês. Tive que lhe ensinar a receita da sopa, acautelando no entanto que sopas à alentejana só com pão da transtagânea. Sustento que, durante a etapa africana, sempre se arremedou lá em casa. Coziam-se todas as semanas dois a três grandes pães, guloseima suprema dos amigos que rotineiramente punham os pezinhos debaixo da mesa para dar fé das novidades cozinheiras da planície.
O Chinês, para além de velho repórter da imagem, de provador inveterado de petiscos em casa alheia, era igualmente um exímio cozinheiro. Pela sua cartilha amancebei-me intimamente com a cozinha cantonesa, terra de origem dos seus progenitores. Deglutir um pato à Pequim saído da sabedoria obliqua do Kok, era o mesmo que partilhar o Olimpo com os Deuses, da gastronomia bem entendido! Hoje, quando encaro com aquelas baiucas chinesas que pululam por tudo quanto é sitio, lembro-me das iguarias do Chinês e passo de largo.

Com a idade, o fotógrafo Kok Nam ganhou um novo epíteto, os amigos, para além de Chinês chamam-lhe agora Mandarim. Ele merece esta promoção!
Cuba, Vila de Frades e Vila Alva. Lugares onde o milagre do vinho ainda acontece nas velhas talhas de barro pesgadas, como se do tempo dos romanos se tratasse. As “dolias” (talhas romanas) tinham uma capacidade de cerca de mil litros; o isolamento do barro, tal como hoje, era efectuado através de pez. Ontem como hoje, é o puro sumo da uva que se transmuta em vinho sem prestidigitação de espécie alguma. Fluido integro, que da talha escorre directamente para a alegria das recompensadas goelas dos bebedores. Dura enquanto dura, nunca mais que o intróito do ano novo. Depois, esperam-se uns pares de meses pelo novo milagre.
Este ano correu a jeito para a uva. A malta está com uma enorme fezada na bondade da nova pinga. Que venham umas rijezas lá para o fim do mês, preceito último para o milagre ser de estrondo. Hoje é lua cheia, para a próxima voltamos a conversar?

Adolecresci a ouvir Brel. Faz parte da minha tarimba.

«L’aventure commence à l’aurore
A l’aurore de chaque matin
L’aventure commence alors
Que la lumière nous lave les mains»
O O’Neill, onde quer que esteja, certamente entre 3 ou 13 scotch, deve estar a rir de mansinho da sua Musa Mona Lusa.
SABER VIVER É VENDER A ALMA AO DIABO
Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(«Allez-vus bientôt manger votre soupe,
s… b… de marchand de nuages ?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.
Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.
Gosto de Ofélia ao saber da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»
(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?...)
Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...
Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?
Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!
Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.
Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!
E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p’ra morrer?
Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!
Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
...sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...
Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
O mais económico dos gestos!
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
Alexandre O’Neill
Simpatizo com o Paulo Pedroso e reconheço-lhe mérito na acção política. Nunca me pronunciei sobre o famoso processo. Tenho aguardado serenamente a possibilidade de ver o fundo ao cesto. A ver vamos.
No entanto, sublinho com agrado o democrático stop na paranóia justiceira do táxi driver.

O nosso Presidente e nosso Primeiro que me inocentem, mas como bom patriota quero o melhor para o rectângulo do 2004... perdão... para a nossa velhinha Pátria. Não sei se estão a ver o alcance da proposta, não estão ainda??? mas calminha que já a arremato. Isto é um verdadeiro estrondo de marketing, nem o Comendador Marques de Correia, iluminado articulista da revista do Expresso se lembraria de tão superior estratégia. Nem mesmo o Scolari, cacete!
Cá dentro, no rectângulo... perdão, na Pátria, a coisa resultava que nem ginjas: os estudantes empobreciam os papás e regalavam-se a pagar um colhão em propinas; os ganzados largavam de vez a zurga tal era a curtição reinante; todos os concelhos passavam a ter um “falcon” para a rapaziada voar que nem uns nababos; o jet-set deambulava pelo país, em caravana aérea, com alcofas atulhadas de canapés e champanhe francês, marcando presença em tudo o que fosse festarola popular; o Pinto da Costa seria eleito chefe da claque No Name Boys; a filha daquele senhor que não encaixa nesta proposta voltava a estudar medicina em Portugal, caramba, ir agora dar cabo dos esqueletos dos outros quando a gente vai ter matéria-prima à farta dada a demografia tipo beliche após a aprovação da presente moção; no parlamento, debaixo da batuta daquele moço deputado de Águeda, existiriam o grupo parlamentar da Felicidade Plena e o grupelho da oposição apenas com um deputado em part-time, a escolher entre os renitentes, num sufrágio de copo no ar a realizar na Ovibeja a partir das 2 da matina.
Lá fora, na Aldeia Global, a informação sobre a nova situação tinha que ser libertada a conta-gotas, senão corríamos o risco dos aeroportos da Portela, Faro, Porto, Beja e os aeródromos dos sítios mais esconsos ficarem a abarrotar de aeronaves, tal era a afluência de turistas, investidores, dentistas brasileiros, monárquicos com e sem coroa, gigolos, Xeiques do pitrólio, actores de cinema e telenovela, ditadores africanos e sul-americanos em saldo e muitos outros que não vão resistir a este verdadeiro deleite (não confundir com a linguagem do Meu Pipi).
O arremate da proposta aí está, e agora alimpem-se a este guardanapo:
Ministro da Cultura: Teresa Guilherme (caso aceite usar sapatos daqueles modernos altíssimos, isto para não ser confundida com um ministro do actual governo);
Ministro dos Trapinhos: Manuel Serrão (no caso de não entrar igualmente para os No Name Boys);
Ministro do Turismo: a sortear junto dos industriais de batatas fritas congeladas, hambúrgueres, pão Bimbo e micro-ondas;
Ministro das Finanças: Bibi do Benfica (cuidado que eu nessa não entro!);
Ministro da Defesa: estou indeciso entre o actual e o pedido de empréstimo a Angola do seu representante junto da UNESCO (se for o actual é o único com competência para transitar para este elenco de galácticos);
Ministro Junto do Presidente Lopes: o da Defesa, no caso da primeira escolha, em acumulação (dada a eficiência demonstrada no ensaio geral, vai ser encarregue pelo Presidente Lopes de apagar todos os anteriores Presidentes – a safar-se será o Américo Tomás, mas mesmo assim a fotografia será sempre a de uma abóbora);
Ministro dos Negócios Estrangeiros: Evaristo da Casa do Castelo acolitado pela Cinha;
Ministro da Agricultura: não é necessário (com este governo o país deixa de ter pategos e manêses, para além disso os investidores amaricanos vão instalar a tecnologia para produzir toda a comida em fábricas automatizadas, tal como pensam os putos das escolas na América, e parece que é verdade);
Ministro da Educação: Paula Bobone assessorada pelo Bartoon do Público;
Ministro das Cidades (deixa de haver Vilas e Aldeias, e as que teimarem em existir serão implodidas pelos investidores amaricanos): a sortear junto dos construtores civis do Algarve (já chegaram reclamações dos outros lados, com o poderoso argumento de que não é só no Algarve que há caixotes de betão sem a puta de uma árvore à roda);
Ministro do Ambiente: a escolher junto dos suinicultores por sufrágio directo de leitão ao alto na próxima feira do Montijo.
Ministro das Pescas: a nomear pelo Aznar (que também já me fez chegar a sua indignação porque se acha no direito de escolher o Presidente da Republica, o Governo, os Presidentes das Câmaras, e mais não disse porque fingi que se tinha acabado a bateria do telemóvel – parece-me ter dito também que tinha negociado esse direito com o nosso primeiro actual);
Ministro da propaganda: Luis Delgado assessorado pelo competente dono do Blog M.M. (o Luis anda já a ler umas coisas de um moço que há uns anos esteve no poder na Alemanha).
Ministro da Indústria: não há (a Cinha e a 1º Ministro são da opinião que havendo Indústria haverá inevitavelmente operários com as unhas sujas de óleo).
Ministro da Justiça: a escolher por sufrágio directo de fósforo na mão junto do grupo patrocinador da condenação à fogueira, na próxima marcha branca.
Ministro dos Blogues: J.P.P. assessorado pelo Blog de Esquerda e pelo Meu Pipi.
Ministro do Desporto e do Euro 2004: Pôncio Monteiro (dada a sua reconhecida competência e apetência o Madaíl vai jogar-se ao chão, mas atão nem todos são galácticos de 1º Divisão). O Pôncio já está avisado que o fcp não pode ganhar o 2004 porque é um campeonato de países. As negociações foram demoradas mas chegaram a bom porto... perdão, aeroporto.
Ministro do direito à preguiça: estou indeciso entre o Paul Lafargue e a Maria Elisa.
Perdoem-me, Jorge e Zé Manel! Suponho, no entanto, que perante um desígnio tão astucioso e patriota seria para vós uma honra abdicar do poleiro. O ministro da borracha promete que não apaga o Jorge – não sei é se o Jorge quererá ficar ao lado da abóbora no caso desta não ser igualmente saneada.
A Bem da Nação.

Esta imagem foi fixada no mês de Setembro de 1958. Numa leitura repentina, é de certeza uma imagem captada num lugar da Europa mediterrânica. Grécia, Sicília, Córsega, Espanha, são lugares passíveis de uma imagem semelhante. Trata-se de um retrato do casamento do tio António, matrimónio que aconteceu há 45 anos em Nª Senhora de Machede, era eu um petiz de franja e calções com peitilho.
Do espólio de imagens que guardo religiosamente, esta, é sem dúvida a preferida. É muito forte. Revela mais sobre a vida no Alentejo desse tempo – que em termos históricos está já ali ao virar da esquina do passado – do que muitos tratados sociológicos.
Da direita para a esquerda: a madrasta da minha mãe – como era uso ouvir da família; o avô Isidoro – republicano de uma vida inteira que para seu grande prazer morreu depois de Abril; o tio António e a sua noiva; e quatro tias da noiva – percebi posteriormente que ao tempo todas elas já eram viúvas, a imagem diz isso.
O tio António era alcunhado na família de “Africanista”. Contava-me estórias maravilhosas de lugares fantásticos repletos de bichos assustadores. Assomava de quando em vez, muito de quando em vez, chegava e partia de paquete. Antes de eu ter registos, tinha partido na busca de outra vida e, possivelmente, de aventuras. Mal sabia o tio António que ao contar-me as estórias, estava a semear uma seara de muitos moios de convencimento de também eu um dia partir para aqueles admiráveis lugares. Tinha carradas de razão o tio António! E como atrás dos tempos outros tempos hão-de vir, agora sou eu que conto estórias de gentes e lugares fantásticos
Mestre Palolo, uma imensa vida absorvida na alquimia de fundir e forjar o ferro como se de ouro se tratasse. Dono de umas mãos que ganharam fama de fabulosas na boca dos camaradas operários. Artífice antigo do rigor virtuoso do compasso e do esquadro que além de na severidade do metal também na suavidade do papel traçava criatividade.
António Palolo saiu à cepa das mãos progenitoras, tacteou e percorreu o caminho dos perseverantes. O António Palolo abalou ali da rua de S. Cristóvão como quem desce do Garcia de Resende para na grande capital pintar o seu destino. Faz algum tempo que partiu para criar nas infindáveis telas do universo. Estou-lhe grato pelas que cá deixou!

António Palolo – Sem Título - 1971
Eu sei que o sol quando nasce é para todos. Eu sei que vivemos numa democracia, ainda que um nadinha coxinha, mas é uma democracia. Eu sei que a censura é coisa de intolerantes. Mas porra, logo na abertura a Margarida não sei quê Pinto??? Que não sei o quê, mais não sei o quê. O único quê com algum jêto era a blusinha que a moça tinha enfarpelado. Ó distinto Viegas, é caso para botar que na primeira cavadela, minhoca!
Ora diz lá Minhoca, és servida de um tinto?
Na próxima jornada da Liga dos Campeões, o fcp vai solicitar que o jogo seja dirigido por um árbitro português. Com um careca que não dá de frosques à frente dos gaijos, que não tem respeito ao elegante Baia, que não passa chapa aos fingimentos dos gaijos, que fodeu o Deco com um amarelo, não brincamos carago. Estes gaijos estranjas devem estar todos off-side do sistema carago!

Não tarda cinco tostões está aí o Verão dos marmelos. Pois é, cá na provinciana transtagânea desfrutamos o verão em duplicado. No intervalo, entra o mestre Outono com os borrifos da praxe para amaciar a leiva e libertar o memorável cheiro a terra molhada que carrego no disco duro da memória desde que sou gente. Pelo Outono adentro volta o patrão sol a derramar uns calores segundeiros, menos ásperos mas nem por isso menos calmosos. A rapaziada de muito tempo ainda dá vaia: cautela com ele (o patrão sol) que anda baixo. Ano há, que a quentura ainda anima o S. Martinho.
Era o tempo das primeiras caçadas – digo era, porque hoje nada mais há que uma guerra sem quartel, desencadeada por um magote de tios, tias, bimbos e outros alarves invasores de camuflado que atiram a tudo o que mexe, incluindo os nativos se a jeito estiverem. Era o tempo das primeiras lavouras – digo era, porque agora só já restam agricultores transmutados em guardas da natureza e alguns ucranianos e moldavos, ainda assim não ficamos para aqui só meia dúzia de pategos a ver se chove. Que venham e tragam sangue novo para outra caldeirada de culturas que nessa têmpera foi modelado o nosso B.I.
Mas voltando ao Verão dos marmelos, ou seja, o segundo do calendário da transtagânea. É esta a altura dos ditos estarem maduros, penugentos, amarelinhos, de marmeleiros que nasceram no deus-dará das balsas e por mou disso o cognome de marmelos balseiros. Desses amarelinhos saía a gulosa marmelada que se vendia aconchegada em papel vegetal dentro de caixas de madeira, essas mesmas respeitáveis e estéticas embalagens que a acética ceéézinha tornou proscritas. Pelo descaminho que isto leva, não tarda nada que um eurocrata tonto declare a expulsão da flora e fauna dos intestinos dos cidadãos: não são permitidos gajos com hortas e bicheza nos interiores, pronto!
Lá ia eu outra vez para a bordoada, este maldito feitio ainda prega comigo num Guantanamo qualquer. Voltando à lambarice, sobre a dita marmelada existe um naco de prosa do saudoso Afonso Praça, no maravilhoso livro também desenhado pelo Francisco Simões, “Receitas afrodisíacas & desenhos eróticos”, que é uma conveniente e animada celebração de doçuras.
«A arte de bem fazer marmelada

Pode parecer exagerado, mas a verdade é que a marmelada aparece sempre ligada ao conceito de prazer, e não apenas por ser doce. Em favor desta teoria, que adiante se desenvolverá, pode mesmo invocar-se abonação real, chamando a terreiro o exemplo do Rei Magnânimo, D. João V, um dos mais célebres comedores de ladrilhos de marmelada da história de Portugal, ele próprio responsável por muita da marmelada que no século XVIII se fez no Convento de Odivelas, durante o seu longo reinado de 44 anos.
Conta-se, e a história confirma, que o Rei, beato e muito dado a superstições e bruxarias, já se tinha tornado conhecido como frequentador assíduo do Convento, quando para lá entrou uma bonita jovem de 17 anos, Paula Teresa da Silva e Almeida, mais tarde celebrizada com o nome simples de madre Paula. D. João V era tudo menos um platónico freirático. Guloso, galanteador, mulherengo e apaixonado, transformou-se num autêntico «coureur de femmes», e era vê-lo apear-se do seu coche, à porta do convento, «para ir ler papéis de solfa com as freiras assentadas nos joelhos», como diz Júlio Dantas, que lhe chama «galo de Odivelas e de Via Longa».
D. João V apaixonou-se pois pela jovem Paula Teresa, que, apesar da sua tenra idade, já era amante do Conde do Vimioso quando entrou para o convento. Foi fácil ao Rei entender-se com o Conde, e Paula passou a ser a amante preferida de D. João V, que a transformou numa espécie de Madame Pompadour, mais desejosa de conforto e de prazeres do que de sacrifícios e de cilícios. E apesar da diferença de idades (o Rei era trinta anos mais velho do que a freira), D. João V visitava-a todas as noites, ou quase. Com tal assiduidade, nada mais natural que fazer alguma marmelada – a possível, é evidente. Mas também se admite que o Rei, bem resguardado dos olhares ávidos dos súbditos, algumas vezes tenha colaborado com a amante na confecção do pudim da Madre Paula, batendo as dez gemas de ovos que a receita indica. Em questões de doçura, não lhe faltava, aliás, que fazer, nem a ele nem a outro qualquer com as mesmas facilidades à chegada à portaria: o Convento de Odivelas tornou-se famoso pelo seu receituário doceiro, no qual avultavam, além do pudim da Madre Paula, o bolo-podre, os suspiros, o toucinho-do-céu e... os ladrilhos de marmelada, de que, pelos vistos, o Rei era grande consumidor.
Verdade ou não, Alberto Pimentel diz que, em Odivelas, D. João V «entremeava as pulsações do coração com as contracções do estômago, mordiscando ladrilhos de marmelada com a Madre Paula; e tanto assim que um desses quadradinhos de doce, com evidentes de mordeduras régias, serviu, juntamente com outros ingredientes de procedência menos limpa, para uma célebre sorte de bruxedo que foi um dos mais apregoados escândalos desse tempo».
O caso soube-se porque em 1736 as mulatas Salemas, bruxas de Setúbal, foram acusadas de terem preparado, com a cumplicidade do Padre Bartolomeu de Gusmão e de duas freiras de Odivelas, um feitiço com o objectivo de mudar o Rei da cama da Madre Paula para a de outra freirinha mais nova e também muito bonita. O bruxedo não deu resultado e D. João V lá continuou a fazer (e a comer) marmelada com a Madre Paula, talvez na esperança de que tão doce tarefa lhe fosse levada a crédito na hora do ajuste final de contas.»