setembro 30, 2003

Baetas do mui nobre e sempre leal burgo

Quinta-feira, fui ao baeta aparar a lã. Ao contrário das insuportáveis bichas para o atendimento nas instituições públicas, é um prazer o suave pousio da léria enquanto espero uma vaga na cadeira de mestre Perdigão. Ás vezes, até apetece fazer uma cortesia ao freguês detrás.
Nem sempre assim foi. Quando palerma de calções só dava a cabeça à tesoura se rebocado à unha pela autoridade da gerência familiar. Nem o engodo da “Bola de Berlim” na Pastelaria Académica, após a tortura lanígera, engodava o salafrário. O mestre Miguel, conterrâneo da gerência com barbearia posta na rua da Misericórdia, constava da lista negra dos gabirus com quem um dia mais tarde haveria de ajustar contas. Livre da vingança, com o perdão posteriormente fundamentado na utilidade de tais préstimos – arte da tesoura e autorizada fonte noticiosa –, morreu do cansaço de tanto dar ao dedo e à língua.
Quando por conta própria comecei a andarilhar e a ter buço para escanhoar, fiz trespasse para o Neto. Moço barbeiro que ali na rua da Cadeia tinha por conta uma manada de irreverentes cachimónias com cabelo à beatle para tosquiar. Era um couto de efervescente insurreição, ou não fosse o Neto, neto do Neto de S. Mancos, velho camponês anarquista e desertor nos idos tempos da grande guerra de 14/18. Velho anarquista que ainda tive o aprazimento de acompanhar ao congresso da oposição em Aveiro, corria o longínquo ano de 73.
Após o regresso ao berço eborense – os kambacos (elefantes velhos) tornam sempre ao princípio para aí morrer – assentei arraiais no salão Perdigão, ali na 5 de Outubro como quem sobe para a Sé. Perdigão & Perdigão, sénior e júnior, são danados para a brincadeira ou não fossem moços redondeiros e fizessem jus há sua arte.
Mais uma vez demos despacho a várias matérias vitais... o futebolês nacional em geral, o fervor benfiquista, o unânime galo sulista ao fcp... a honorária paixão pelas moças do nosso contentamento... as chafaricas das redondezas que estão no top dos petiscos e dos tintos, com a avisada ressalva que no Fialho só com letras a noventa dias... o abate virtual de 3 ministros (incluindo o Portas), 8 secretários de estado e 17 directores gerais, mais o avacalho avulso de 2 vereadores, 1 policia, 3 generais e 2 construtores civis... estacou a venerável congregação no tema das novas designações profissionais. Desta vez a pérola saiu da boca do Perdigão Júnior: eu, barbeiro??? já lá vai, cabeleireiro de homens muito menos que isso cheira a roto!!! meus caros, eu sou arquitecto capilar. Boa Perdigão, a criatividade ao poder!

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setembro 29, 2003

Difficile est saturam non scribere III

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setembro 27, 2003

A melancolia do juiz

O juiz-desembargador Pereira sofre de uma enfermidade muito comum em Portugal, principalmente no planeta da justiça. É uma variante autóctone da modernaça doença bipolar, variante sem cura conhecida mas com profundas repercussões no estado terminal do país: à beira de um ataque generalizado de nervos. A sintomatologia mais evidente apenas é perceptível quando salta a tampa ao paciente. O que manifestamente foi o caso do desembargador Pereira quando quis partir aquela merda toda – a merda era uma câmara propriedade do liberal Balsemão, empunhada por um atónito moço que apenas anda ali a ganhar para a sopa e para uns shots nas docas. Por uma questão de rigor, ficamos sem saber se a dita merda era extensível à apavorada jornalista que igualmente anda ali a ganhar para a sopa, para uns shots e mais alguma coisinha para os alfinetes. O diagnóstico da moléstia observa posteriormente que a coisa é mais ou menos na base do aforismo: «vícios privados, virtudes públicas». O que trocado por miúdos indica: uma pública conduta democrática desde pequenino, versus, uma privada nostalgia dos tribunais plenários.

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Difficile est saturam non scribere II

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setembro 26, 2003

Difficile est saturam scribere I

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setembro 25, 2003

Contumaz

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O Franganito enxotou os últimos obstinados, entre eles, o Manel Perna-à-roda que teima em escorropichar até ao cu o tinto da rodada abaladiça. Por entre resmungos insaciados, corre os gatos e fecha a porta da taberna. Lá vai o Manel novamente aos tropeções rua abaixo. Vai serrazinando a lenga-lenga do entre as nove e as dez. Cruza-se com a tia Chica, quase a abalroa ao mesmo tempo que soluça um boa noite em ziguezague. Com o tento do costume, arremessa uma curva larga, toma balanço, enfeixa com a porta, e ei-lo em menos de um fósforo sentado no mocho da chaminé empertigando-se que nem cobra cuspideira para disfarçar o hábito. A tia Joaquina do Perna-à-roda, de costas, miga as sopas para a ceia.
- Ai Manel Manel, gastas o dinheirinho todo em vinho!
- Isso é que era bom, atão a aguardente dão-ma?

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setembro 24, 2003

Chico, não é isso que eu estou a querer dizer...

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setembro 23, 2003

Nova Iorque, imagem do Blackout no Harlem

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BORDA D’ÁGUA

O verdadeiro Almanaque com um reportório útil a toda a gente.

Setembro 23, terça-feira:
Ø Começo do Outono às 11 h. 47 m. (Equinócio)
Ø Entrada do Sol no Signo BALANÇA (Signo do Espírito Crítico e do Equilíbrio) à mesma hora
Ø Dia de S. Lino, Papa e Mártir
Ø Dia Mundial do Mar

O respeitável Almanaque BORDA D’ÁGUA é (não encontro outra) a mais velha publicação portuguesa no activo. O Almanaque de 2004 já está nas bancas e, pelo que indica na nota técnica, o Director passou a ser Pedro Teixeira da Mota.

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«NOTA DA REDACÇÃO
O Borda d’Água, sob nova orientação, tentará discernir e apresentar, por entre tempos e marés, tão mutáveis, não só um calendário temporal, agrícola cívico e religioso, mas também alguns dos filões milenários da alma portuguesa que, enquanto tradição e intuição, urge preservarmos perante a ameaça de superficialização massificante que a sociedade consumista moderna provoca. E tentará ainda transmitir ensinamentos para uma sobrevivência mais harmoniosa, conforme lerá nas nossas páginas epigrafadas em latim “Mens sana in corpore sano”, cabeça e alma sã em corpo são. De facto, os “Reportórios dos Tempos”, os “Almanaques”, e saudemos aqui outra das nossas origens, a árabe, donde vem a palavra almanaque, isto é, o digesto de informações úteis e necessárias para guiar os peregrinos nas estações do percurso para a Unidade, têm em Portugal uma longa história. (...)»

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setembro 21, 2003

Peregrinação a Fátima...

Caso nas Antas, hoje, o milagre aconteça, pela minha santa saúde que prometo ir a pé... perdão... de carro a Fátima. Prometo igualmente que estacionarei o carro a uns bons 500 metros (calhando são metros a mais) e que farei sofregamente a pé (de joelhos não posso por via do menisco) o percurso até à rua do Adro. Durante o espinhoso percurso observarei o mais religioso recolhimento em prol da almejada redenção. Lá chegado, pedirei fervorosamente de joelhos (mas com uma jeitosa almofadinha por via do menisco) e em beatifico silencio a absolvição por não vir mais vezes. Com a expiação já a crédito, farei respeitoso sinal ao sacristão... perdão... ao empregado de mesa, e a Ele solicitarei a maravilhosa aparição de uma santificada dose de “Bacalhau à Tia Alice” e uma não menos canonizada garrafa de “Quinta da Bacalhoa” tinto. A dupla referência ao Santo Gadídeo, nos comes e nos bebes, é simplesmente porque nestas coisas da religião não tolero ingerências. Completamente saciado de fé, pagarei a dizima e retirar-me-ei respeitosamente do Templo após ter chamado um táxi para me levar de volta ao carro.
Para que a peregrinação seja piedosa e embebida de Crença, sou gajo para convidar o Santo Eusébio a acompanhar-me ao restaurante da Tia Alice, Igreja com uma culinária esmerada de matriz caseira, portadora de beatitude sápida. A este santuário a minha genuflexão e o meu ámen.

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Eu q’ria ser camponesa...

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Retrato da família de Florbela Espanca durante uma merenda campestre. A poetisa é a menina do canto inferior esquerdo. Fotografia tirada na dobra dos séculos XIX/XX mais coisa menos coisa, pondo-se a hipótese do fotógrafo ter sido o pai de Florbela. Interessante imagem da vivência de uma família abastada no Alentejo da época.

RÚSTICA

Eu q’ria ser camponesa;
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha...

Levar o cântaro à fonte,
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho...

E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D’olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
Plos caminhos de mãos dadas.

E depois se toda a gente
Perguntasse: «Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?»
Eu diria:«É do poente,
Que assim me fez encarnada!»

E fitando ao longe a ponte,
Com o meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pró monte:
«O cant’ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu...»

Florbela Espanca
18-7-1916

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setembro 20, 2003

CORTO MALTESE

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Encontrei-o em Toledo, na estalagem “El Gitanillo”, perto da antiga sinagoga. Antes de ser estalagem, habitou lá El Greco.
Corto, disse-me que a probabilidade de Portugal ganhar o Euro 2004 era idêntica à sorte de ter um garfo na mão no dia em que chover sopa. Concordei!

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setembro 18, 2003

Francisco Louçã, Chico para os mais chegados.

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Nada melhor que inaugurar a componente visual do Alentejanando com o mê Chico.
O Francisco Louçã – não confundir com aquele moço deputado, aliás, o mê Chico a ser, é mais doputedo – é um bichano excêntrico q.b., intelectual acrata, militante??? mas só da libido, melómano do jazz e da clássica, adorador da virtude do petisco e do copo e de umas boas lérias, dorminhoco inveterado e higiénico como qualquer gato que se preze. Por vezes entra em divagações metafísicas... suspeito profundamente que de quando em vez se mete nos charros. Em suma, um verdadeiro cavalheiro bichano!
O mê Chico era há uns tempos o que basicamente se apelida de «sem abrigo», tendo como zona de intervenção a baixa de Faro, lugar estratégico para a sobrevivência, dada a excelente demografia de baiucas ligadas ao peixinho, atafulhados de estranjas sempre disponíveis para uma franqueza a um simpático trinca-espinhas. Mas o mê Chico estava um naco farto deste mal andar – confidenciou-me numa noite de copos... os estranjas são sazonais... o peixe é agora uma fraude de aviário... estava a ficar sem paciência para aturar a invasão das tias veraneantes... e, o pior, sempre detestou a afectada turba motard que uma vez por ano atazana a paciência dos farenses – e pronto, não resistiu ao colo protector de uma balzaquiana entusiasta da gataria – mas não federada na Liga Protectora, o mê Chico detesta essas imbecilidades porque se preza de animal coerente e, já agora, gosta de touradas à espanhola. E lá ficou por conta com casa posta, como dizia o meu avô.
Chegámos à fala na casa da Pisco, do Leo e do Gaspar, durante uma jantarada de robalos apanhados à cana na Ria Formosa. Meia de lérias e deitei o aceno ao mê Chico para se mudar, igualmente por conta e com casa posta, para o paralelo dos chaparros. Mas foi dificulitoso, o mê Chico fartou-se de argumentar com a amenidade do clima e com a praia, convenceu-se finalmente com a qualidade da paparoca e das pomadas alcoólicas.
Cá reside há um bom par de anos, anafado e bem disposto. Por vezes provoco-o: atão mê Chico na tens saudades da vagabundagem libertina com gatas há fartasana. Lambendo os bêços depois de se atulhar c’um petisco de fígados de aves, responde-me quase por favor: ó meu, o Bagão está-se cagando para os excluídos, e sem rendimento mínimo garantido ficava mal amanhado por mou dos prazeres, quanto às gatas, tomara eu que não me fodam a mim. É um bom companheiro!

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setembro 17, 2003

PCP lights

Quando o Ary dos Santos morreu, o Luís Pacheco após acompanhar o poeta ao destino final, comentou no seu eterno estilo surrealista: impressionou-me o esquife coberto pela bandeira do PCP, vou meter uma cunha ao meu amigo Casanova a ver se me admitem lá no partido, quando bater a bota gostava imenso de levar também a bandeira, para além da performance é confortável e deve ser tremendamente quentinha. O Pacheco engendrou uma curiosa e singela conveniência a ter em conta pelos estrategas do partido, entre muitas outras, do mesmo vulto, que obviamente terá. Nos tempos que correm, o partido não se pode permitir viver somente dos volumosos mercados da Assembleia da República, dos sindicatos e das autarquias. Tem de se fazer há vida e procurar novos utentes.
Manifesto assim a minha empenhada preocupação com o definhamento do partido. O PCP faz falta e é insubstituível no poial partidário. Um baleizoeiro, amigo chegado, lavrador dos antigos e com tendência direitinha – a minguar – sempre que a conversa para aí encarreira, proclama com denodo: o partidão faz falta ao Alentejo, e a Catarina Eufémia não a arredam ali do largo, eu sou um dos que não autorizo. Explica muita coisa!!!
O mercado está atafulhado de café sem cafeína, de tabaco quase sem nicotina, de cerveja sem álcool, e outros produtos que, segundo os “nutricituacionistas”, não fazem mal ao esqueleto. Sob a mesma bandeira – o vermelho é lindo e (do) glorioso, a foice e o martelo são duas honestas e respeitáveis ferramentas que estiveram na génese do mundo moderno, fazem alguns calos é verdade, mas o que custa é o que Deus e o Marx agradecem – porque não duas versões; o PCP puro e duro; e o PCP com baixo teor de comunismo. O Abrantes, o Jerónimo, o Bernardino, o Casanova, tinham um mercado, o Figueira, o Carreira, o Brito, o Edgar, tinham outro mercado. Há alguns, pé-cá-pé-lá, que não atino como os embrulhar?
Não mereço louros porque não inventei coisíssima nenhuma. Desde o tempo dos calções que o PS tem duas linhas: uma que não faz mal à saúde, e outra, que nem bem nem mal. Rapazes, olho no Alegre e, calculem, no Soares e na infiltração do MES. Caso singular é o do Bloco de Esquerda, que nasceu só com uma linha: a sucedânea lights da extrema-esquerda de antanho. Só espero que um dia o ADN do Trotsky não se engalfinhe com o ADN do Mão. Nesse dia, os moços, têm que abrir um supermercado do género do Celeiro. Prateleira a ti, prateleira a mim, e não sei?

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setembro 16, 2003

Sepúlveda sem papas na língua

«Sou do sul. Tenho todo o tempo do mundo para conversar». Estamos entendidos Luís! Cá neste sul temos igualmente todo o tempo do mundo para concluirmos, ou não?
«Allende queria edificar no Chile o socialismo sem violência... 1000 dias de sonho... a nossa experiência não era decalcada de nada... nem Cuba, nem União Soviética, nem qualquer outra, era a nossa... a Lenine, preferíamos John Lennon... a Marx, antepúnhamos Grasmci... socialismo? sim, o libertário!.. propósito? claramente próximo do sistema sueco de Olf Palme com as devidas diferenças entre economias e culturas... acabar radicalmente com a propriedade privada? não, acabar radicalmente só com a pobreza. Depois foi o que toda a gente atenta sabe... a violenta golpada do criminoso Pinochet, marioneta dos interesses que bem sabemos... responsável por uma ditadura feroz e sanguinária... com muitos milhares de vítimas... ideólogos? o Nixon e o Kissinger! mais uma vez com a mão reincidente da criminosa e terrorista CIA». Recentemente num encontro com estudantes, o insuspeito Colin Powell – conhecido na América por Pai Tomaz – inquirido sobre o golpe no Chile respondeu: “Não é uma parte da história de que possamos orgulhar-nos”.
Se o paleio fosse tu-cá-tu-lá, certamente a conversa teria pano para mangas e alguns tintos. Mas a coisa era mais cem-cá-tu-lá, como normalmente acontece nestas andanças, e sucederam-se as coloquiais perguntas da praxe. Até que aconteceu a incómoda pergunta, a adivinhar um forte desconsolo para uma certa rapaziada que teima em hipocritamente querer esconder que o mundo pula e avança, mas tal como não esquece o ignóbil generaleco chileno, não esquece igualmente o sórdido Zé dos bigodes.
«Qual a minha posição sobre o regime de Fidel Castro? é tremendo e desumano que se condene um povo a um bloqueio de quarenta anos... não aceitarei nunca o que se passou ultimamente em Cuba porque sou de esquerda, e ser de esquerda é ser contra os processos sumários e a pena de morte, processos e penas iguais aos que usou a ditadura chilena... os americanos são burros, no dia em que acabarem com o bloqueio a Cuba, o regime de Fidel sobreviverá quanto muito mais um ano».
Pela parte que me toca, sem dúvida Luís, concluí!

A convite da Livraria eborense Som das Letras, ontem, no Garcia de Resende, o consagrado escritor chileno Luís Sepúlveda apresentou o seu último livro “O General e o Juiz”.

O Luís Sepúlveda é reconhecido internacionalmente como escritor, é um homem de esquerda com um percurso de vida exemplar. Tive um imenso prazer em ouvi-lo em Évora. Estranho que no Garcia de Resende, uma das salas de visita oficial da cidade, não estivesse presente ninguém da Autarquia socialista – eu não vislumbrei. Perderam a oportunidade de ouvir coisas interessantes.

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setembro 15, 2003

«XITIZAP

www.xitizap.com é uma iniciativa editorial
privilegiando a energia e sustentabilidade ambiental
...a divulgação da astronomia e outros tópicos da ciência popular».

Nos tempos que correm, esta oportuna e acutilante página chega-nos das margens do Índico. Entre outras coisas e loisas, denuncia a rapina ambiental praticada pelas “nações desenvolvidas” onde quer que a corrupção local lhe dê uma abébia. Resumindo: aceitem lá a “oferta” de 1 barco de milho transgénico – para não o poderem semear senão acabam-nos com o negócio - para matar a fome ao povo, acompanhado igualmente da irrecusável mas generosa dádiva de 1 barco de lixos tóxicos e outros que tais.
Esta verdadeira guerra surda movida contra o mundo pobre – com a conivência dos corruptos poderes locais - assume contornos cada vez mais avassaladores.
A rapaziada bem nutrida e civilizadinha é susceptível a imagens com gajos esqueléticos a baterem a bota que nem tordos. Que antes continuem a bater a bota que nem tordos envenenados e radioactivos... mas bem anafados... sempre impressiona menos e as nossas cristãs consciências ficam aliviadas.

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setembro 14, 2003

Um alentejano com uma espingarda caçadeira a tiracolo, prantado no meio de uma seara de trigo...

Belamente é um serial killer, cacete.

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setembro 13, 2003

A Estátua da Liberdade qualquer dia, envergonhada, baza...

Acabei de ver o “Sinais do Tempo” no quase defunto canal 2. O assunto foi a sanha persecutória que na América de Bush se faz a tudo quanto cheire a muçulmano. O documentário foi deveras elucidativo. Retive uma novidade que desconhecia: a existência, fomentada e subvencionada pelas autoridades, de grupos civis de vigilância. O paleio dos energúmenos é deveras esclarecedor da sua inteligência e intenções relativamente a tudo quanto é preto e muçulmano.
A memória fez um zoom, no meu ecrã desfilaram: os camisas castanhas; os camisas negras; a legião portuguesa; os comités de defesa.
Se há uns anos atrás a minha utopia imaginasse este descalabro, suicidava-se com um balázio de 38.

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setembro 12, 2003

Luís Carmelo,

Irrepreensível. Percebi lindamente a tua argumentação na defesa da negociata novelesca. Daí, infiro igualmente das armas da retórica a que lançarás mão na defesa do castelo. Usando o futebolês, e parafraseando o grande intelectual das quatro linhas José Mourinho: para ganhar, vale tudo! O povo é iliterato, sai portanto mais uma dose de indigência mental ali para a mesa do Zé-povinho. Brilhante!
Quanto ao mestre de semiótica, ao preocupado escritor do «A falha», ao cultor ensaísta, que certamente escorraçará à bengalada da sua mesinha de cabeceira as inenarráveis ritas ferros e margaridas não sei quê, fico deveras desassossegado. Receoso do seu guarda-roupa ter as tais duas fatiotas. Uma, que traja na qualidade de livre-pensador. A outra, que enverga durante o santo horário de trabalho de capataz acocorado da “cultura” municipal.
Relembro o meu amigo António Quadros – o pintor, não o outro – que com o seu habitual sarcasmo, vociferava: o capataz é o incapaz!

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Na continuação da saga da telenovela da TVI em Évora, o leitor Zé da Provocação enviou-me o seguinte texto:

“Caro compadre: tal como eu, parece que você não percebe os apelos do Presidente Sampaio. Diz ele que devemos puxar o ego para cima e ser optimistas. O ego, não consigo pô-lo mais alto: já o mandei para o espaço. O optimismo, sabe o que aconteceu? O bolso vazio transformou-se em balão e rebentei-o. Além do estoiro, não aconteceu nada de novo. Continuou a chover merda de norte a sul e eu, cagado, não consigo ser optimista, compreende? A Manela, continua a chupar-nos as entranhas; os incompetentes, continuam a mandar no país; os corruptos, continuam a rir-se de nós; os pedófilos, continuam a ser vedetas da TV; os incendiários, continuam em alta... Para já não falar na economia, no desemprego, na educação, na saúde, na justiça ou no bebedolas do Texas. Haja quem me explique: como é que posso estar optimista? Bem, apesar de tudo, acho que em relação ao financiamento da Câmara de Évora à TVI por causa da telenovela, você abusou. Até me parece que 25 mil das velhas notas de conto, não são nada perante as vantagens que antevejo. Sinceramente. Repare no seguinte:
1º) A nossa Câmara, afinal, não está de tanga como se dizia. É um desassossego para a inércia que admitíamos ser causada pela falta de massa, mas, como deixa de haver esta justificação, talvez se faça alguma coisa a sério no concelho;
2º) As instituições locais que têm uma actividade útil à comunidade, já podem começar a exigir os apoios que merecem e que têm falhado. Talvez pingue qualquer coisa, além das palavras bonitas;
3º) Os artistas locais - os verdadeiros e os outros - têm oportunidade de ganhar a justa projecção (e retribuição) do seu talento. Veja-se:
4º) O guião da telenovela, consta vai ser escrito em parceria pelo Carmelo e pelo Monarca, o que dá garantias de qualidade, os devolve à utilidade perdida e desonera o orçamento da autarquia;
5º) A direcção de fotografia, diz-se que ficará a cargo do Rodrigues, o que dá as mesmas garantias e tem exactamente o mesmo efeito;
6º) As músicas, parece que serão da responsabilidade do Liaça e do pimba Mendes. Só não se sabe o que fazer com as bailarinas deste;
7º) Os protagonistas, consta que serão do eterno elenco do CENDREV, se conseguirem meter peças novas nos galãs e recauchutar as balzaquianas, outrora actrizes;
8º) Os figurantes – isto são certos! – serão recrutados entre os figurões que ficaram desempregados da política e ainda não arranjaram tacho. A TVI paga mal, mas sempre ficam entretidos;
9º) As filmagens, diz-se que vão ser asseguradas pelo Galiza e pelos putos da Epral, porque os miúdos precisam de perder a inocência antes de os mandarem filmar qualquer big brother.
Como vê, as vantagens são inúmeras! Só me chateia a invasão de turistas chinamarqueses, iberojapónicos e astrogaleses que virão a correr para Évora quando a telenovela passar nas suas terras. Mas, se o Presidente Ernesto acha que é bom, está achado! Ele é que sabe, ele é que manda. Não sei se você sabe, mas o homem, apesar de ser médico, sofre muito do estômago. Faz mal as digestões. Não consegue digerir as críticas, percebe? Só lhe passa quando a plateia dos novos turcos (não disse jovens, reparou?), abana a cabeça para baixo e para cima. Mas se algum se atrever a abanar para a esquerda e para a direita, já sabe que fica tramado. Nunca mais conta para nada, deixa de existir. Isto contou-me um tipo de rosadas cores que ficou transparente, só porque se enganou no abano. Enfim, que se lixe a telenovela, mais os seus apoiantes.”

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Telenovela??? TVI??? Cacau da Câmara??? Mau Maria!!!

Segundo o jornal Público de quarta-feira, «Évora investe em telenovela para promover o turismo». Algures, num blogue nativo, já tinha dado fé da original nova.
Que a TVI rode telenovelas em Évora, problema dela. Que a Câmara participe no assunto com a bonita quantia de 125 mil euros/25 mil notas das outras, aí o balho é diferente. Ainda por cima com o acrescido contributo de «recursos técnicos» e «assegurar a colaboração de colaboradores seus». Estou perante um filme projectado em negativo. O normal seria o contrário, ou seja, a sagacidade estaria em pôr a TVI a patrocinar eventos de qualidade promovidos pela Câmara.
Relativamente ao instrumento «telenovela para promover o turismo em Évora», com o argumento de ser «uma opção estratégica» do executivo para promover os encantos da cidade e atrair turismo. Sou honesto, tenho sérias reservas!
O Alentejo, é uma menção de qualidade no imaginário nacional. Évora, uma referência de excelência – tal como apregoam e eu subscrevo – não só nacional como internacional. Referência baseada num património cultural, a todos os níveis valioso, que em nada se coaduna com novelas que mais não fazem do que promover a indigência mental. O zapping masoquista que, de tempos a tempos, faço aos produtos novelescos da oferta TVI, é a sustentação do discurso.
A não ser que a autarquia esteja agora empenhada em voltar a captar o excursionismo de fim-de-semana que, num passado recente, ocupava alarvemente as piscinas municipais. A não ser que a autarquia esteja igualmente empenhada em promover a “algarvização turística” – quão arrependidos estão já os algarvios. Dessa poda já temos parecenças que baste na desordenada betonização urbana de alguns bairros dos arrabaldes da cidade património mundial. Há por aí uns técnicos e uns decisores – alguns já devem ter dado bazado – que devem ter a consciência pesada – calhando não, ele há feitios para tudo.
Évora, tem já um substancial número de visitantes, só que com um tempo médio de permanência baixo e de evidente sazonalidade. Manda assim a sensatez que se ocupe a cidade com um calendário anual de acontecimentos de qualidade – o prestígio da urbe e os cidadãos assim o merecem – de forma, a captar um caudal permanente de visitantes e a subir o seu tempo de permanência.

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setembro 11, 2003

Ditosa Pátria que tais educadores tem

No correio electrónico chegou o pasmo que abaixo incólume transcrevo. Vale o que vale e possivelmente também tem uma dose de bota abaixo. Todos sabemos o quanto somos especialistas a bater no ceguinho.
Pessoalmente não fiquei estupefacto. Para desgosto meu, tenho sido um espectador atento desta (in)evolução.
Juventude rasca, não vou por aí, talvez um pouco distraída. Rascas, deliberadamente só os progenitores e o estado da nação. Depois, mas sempre a montante do sujeito, sucede-se todo um cortejo de responsáveis por este descalabro educacional. No fim da linha, encontra-se a pátria dos chicos-espertos, paraíso da acefalia galopante em que o novo-riquismo é a ideologia dominante. Vamos longe!

«1. Curso de Segurança Social, numa universidade privada lisboeta.
- Diga-me lá porque é que a taxa de natalidade é menor nos países
desenvolvidos.
- Porque se trabalha mais do que nos países subdesenvolvidos.
- Ai sim?
- E tem-se menos tempo.
- Menos tempo para quê?
- (o aluno, hesitante e já embaraçado) Menos tempo para fazer amor.

2. Exame numa universidade privada, em Lisboa.
- Dê-me um exemplo de um mito religioso.
- Um mito religioso? Sancho Pança.
- (estupefacto, o professor pede ao aluno para este escrever o que acabou de dizer.) O aluno escreve no quadro: "S. Xupanssa".

3. Prova oral da cadeira de Direito Constitucional, uma universidade privada de Lisboa:
- O que aconteceu no 25 de Abril foi o início do regime autoritário salazarista. Mas quem subiu ao poder foi o presidente do então PSD, Álvaro Cunhal, que viria a falecer em circunstâncias misteriosas no acidente de Camarate.

4. - Quais são as batalhas mais importantes da história portuguesa?
- Antes de mais, senhor doutor, a batalha de Alves Barrota.
O exame terminou aqui.

5. Um instituto superior da capital. 1º ano de Relações Internacionais. A cadeira é Ciência Política. O professor é um distinto deputado à Assembleia da República. A aluna, com rara convicção, explica ao examinador tudo o que se passou no 25 de Abril de 1974: a revolução de 74 significou a queda de um regime militar dominado pelo almirante Américo Tomás e pelo marechal Marcelo Caetano, que governava o país depois de deposto o último rei de Portugal, Oliveira Salazar. O 25 de Abril foi uma guerra entre dois marechais: o marechal Spínola e o marechal Caetano.
Obviamente, chumbou.

6. Outra versão, ainda mais criativa, desta vez numa universidade privada de
Lisboa, no 3º ano de Relações Internacionais.
- Descreva-me brevemente o que foi o 25 de Abril de 1974.
- Foi um golpe levado a cabo pelos militares, liderados por Salazar,
contra Marcelino Caetano.
- (o professor, já disposto a divertir-se) E como enquadra o processo de descolonização nesse contexto?
- Bem, a guerra em África acabou quando Sá Carneiro, que entretanto
subiu ao poder, assinou a paz com os líderes negros moderados. Foi por causa
disso que ele e esses líderes morreram todos em Camarate.
- Já agora, pode dizer-me quem era o presidente da República Portuguesa antes de 1974?
- Samora Machel.
Conta quem assistiu à oral que o professor quase agrediu a aluna.

7. Uma professora de Direito Constitucional numa universidade privada do Porto questiona o aluno sobre a Constituição de 1933. Esta consagra a impossibilidade de os descendentes da casa de Bragança se candidatarem à presidência da República.
- Diga-me lá porque é que D. Duarte, segundo a Constituição portuguesa de
1933, não poderia candidatar-se à presidência da república?
- Porque ele é actualmente o presidente português.
Noutra resposta à mesma pergunta, esta professora recebeu:
- Porque vivemos num sistema monárquico.

8. Numa outra prova oral de Direito Constitucional, o examinador pergunta ao aluno:
- Quem substitui o presidente Jorge Sampaio em caso de impossibilidade temporária deste?
- A mulher dele, a Maria José Rita.

9. Uma universidade privada em Lisboa, 1997. A correcção manda que se
diga que "as leis são emanadas pela Assembleia da República". Discorrendo
sobre o processo legislativo, um aluno responde que "as leis vêm em manadas da Assembleia da República".

10. Prova Oral de Política Internacional, 3º ano de Relações Internacionais,
numa universidade privada de Lisboa. O professor questiona o aluno sobre o tratado Ribbentrop-Molotov.
- Como se chamava o tratado germano-soviético de não-agressão?
- (o silêncio é sumptuoso).
- (o professor tenta ajudar) O primeiro nome do tratado é Ribbentrop.
- Aaaaaah....
- Então?
- (novo silêncio).
- (o professor, em desespero) O segundo tem nome de pudim...
- Ah! O Flan!

11. Já numa universidade privada do Porto, durante uma prova oral, um aluno
preferiu situar a Segunda Guerra Mundial "no século dezanove". O professor, disposto a levar o caso até às últimas consequências, pede-lhe para se explicar um pouco melhor. Inquebrantável, o aluno responde:
- É mesmo no final do século. Logo a seguir, começa o século XX, em
1950.

12. 1º e 2º ano do curso de Relações Internacionais, uma universidade privada de Lisboa. 1988/1996. Algumas preciosidades.
- Quem é o actual presidente dos Estados Unidos?
- O Perez Troika.
- Paris é a capital de que país?
- Bruxelas.
- Quando foi a Revolução Liberal em Portugal?
- Em 1640.

- Diga-me por favor o que é a Nato.
- É a Organização do Tratado do Atlântico Norte.
- E a OTAN?
- (o examinado, depois de pensar demoradamente) Bem, aí a doutrina
divide-se.
- Então diga-me lá qual era o nome próprio de Hitler?
- Heil.
- Minha senhora, em que época histórica situa Adolfo Hitler?
- No século XVIII, senhor professor.
- Tem a certeza?
- Não! Desculpe... No século XVII.
- Pode dizer-me o que é um genocídio?
- É a morte dos genes.
- Como?
- É a morte dos genes e dos fetos.

13. Numa outra oral. Cadeira de História das Ideias Políticas e Sociais.
- Qual é a obra de fundo de Adolfo Hitler?
- É a Bíblia alemã.

14. Cadeira de Direito Internacional Público, uma universidade privada do Porto. O professor, desesperado com a vacuidade das respostas de certo aluno em orais da especialidade, resolve tentar ajudar, recorrendo à geografia. Questionado sobre a localização da Escandinávia, o aluno responde que fica algures na Ásia. O examinador, rendido, brinca agora:
- Podemos então passar a chamar-lhe Escandinásia.
- Se calhar, senhor doutor.
- Não sabe que a Escandinávia fica na Europa?
- Pois é, tem razão!
- E fica a Norte ou a Sul?
- A sul.
- E sabe apontar-me alguma característica dos escandinavos?
- (o aluno, depois de longa pausa) Bem, eu acho que eles não são pretos.»

A bem da nação.

Publicado por machede em 10:16 PM | Comentários (1) | TrackBack

setembro 10, 2003

Sociedade Harmonia Eborense

O mordomo, dantes, era o Ramos – Ramon, para os chegados.
Na mesinha, a sorte bafejava o velho Zé Maria: ó Ramos assa aí um frango. Algumas jogadas após, o azar demolia as fichas do velho Zé Maria: ó Ramos desassa.
A jogatina e os bailes de debutantes foram-se atrás dos tempos que outros tempos hão-de vir para a mocidade das bijecas...
Agora, o mordomo, é o Naia.
A velha varanda da Harmonia, lá continua a controlar a noite na praça... o polícia do Banco de Portugal... os putos a enrolarem na fonte... a gargalhada do Gi de retorno a casa... as camadas que se cruzam ziguezagueando na arcada... os homens da Câmara que agulhetam a calçada... e, murmuram os iniciados que, em certos dias, se vislumbra o Barroca e o Artur deslizando no tabuleiro, pra cá, pra lá, pra cá, pra lá.

Publicado por machede em 03:30 AM | Comentários (1) | TrackBack

setembro 09, 2003

Porventura existiam duvidas????

O jornal Público regista em título, “Fosso entre regiões ricas e pobres não para de aumentar”, e em subtítulo, “Estudo da Universidade do Minho revela que fundos estruturais europeus contribuíram para agravar tendência da litoralização nos últimos 30 anos”.
É clarinho como a água. Basta dar uma volta pelo interior e observar com atenção. É evidente que o interior não é só as capitais dos distritos, mas também as outras cidades, as vilas e as freguesias e os lugares. Resumo a questão numa penada, há tempos um gestor bancário alentejano preocupado com estas questões tal como eu, disse-me: a maior parte para não dizer a quase totalidade das poupanças aqui geradas, são investidas no exterior. Sem chamar ao caso os outros, este indicador basta-se para perceber quão grave é a depressão do interior.
Culpas? Na minha opinião são de atribuir transversalmente a todos os poderes que se foram revezando, sem excepção. Neste todos, valha a verdade sublinhar, as políticas de fomento do desenvolvimento do interior – ou as farsas politicas - tiveram alguns ciclos, em que se vislumbrou alguma clarividência. Também valha a verdade sublinhar que as culpas – e até agora todas morreram solteiras - nem só o poder central as tem, aos regionais e locais também cabe uma quota-parte jeitosa. No caso dos últimos: levantamento, diagnóstico, plano, concertação e consequente uso dos recursos, o método de ataque é mais ou menos assim na base «do cada um toca o que sabe». É claro que a somar a esta cacofonia, e para baralhar ainda mais, vêm juntar-se na procissão as inevitáveis capelinhas politicas mais as suas alianças e desalianças.
Há algum tempo, no lançamento de mais um Programa para a revitalização social e económica das aldeias do Alentejo, face há lista das que tinham sido premiadas, inquiri o coordenador e membro da instituição que promovia a reunião:
- Quais os critérios usados na escolha das aldeias em causa?
- Simples, foi a selecção das que ainda têm alguma capacidade de sustentação!
- Então os senhores usaram um método igual ao da CP. Ou seja, começam por fechar os apeadeiros para finalmente os interesses superiores fecharem a linha dada a manifesta falta de utentes.
Simples, quando fecharem a linha vão todos contentinhos para o litoral, que lá é que está a dar. Eu, não vou, pronto! Ainda por cima, com o peso da maralha, qualquer dia menos dia, aquela porra empina-se e vai tudo nadando, nadando, até ao paraíso do Zulu Alberto.
Eu, que teimosamente cá fico, corro o risco de ficar sem densidade e ir parar ao vácuo o que, deixem que lhes diga, deve ser óptimo para praticar ginástica rítmica. Isto, parafraseando o amigo João Faria que oportunamente me ensinou que afinal eu vivia num «território de baixa densidade».

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setembro 08, 2003

Cobertura da Sé de Évora

Até que enfim, no meu parco entendimento, que acontece alguma coisa esteticamente apetecível cá no burgo.

Publicado por machede em 03:26 AM | Comentários (0) | TrackBack

domingos da minha angústia...

Lá marchou mais um abominável domingo. Sempre os desadorei. O domingo das missas atafulhadas de beatas... dos casamentos contentinhos das buzinadelas e laçarotes nas antenas dos popós... da caridade aos pobrezinhos que, deduzo, só davam ao dente de oito em oito... dos baptizados com gaiatos brunidos de fatiotas horripilantes... dos programas néscios da televisão... das visitações familiares compulsivas a estalo... das digressões ao jardim público onde pisar a relva dava direito ao cadafalso e para ter cinco tostões de prazer perdia a paciência na bicha pró baloiço... da venda da Genoveva fechada o que me impedia de almejar a sorte de ter o Coluna colado na caderneta da bola... das moças de peitinhos a desabrocharem invejavelmente reféns das mães porque era o dia da família patipatá patipatá... da amargura de ver o Lusitano levar quatro secos da CUF com o Vital a chorar baba e ranho e ir parar há segunda divisão. O intolerável domingo véspera da escola do professor Pires insaciável justiceiro da régua... do tremendo Rodrigues da “electricidade” (passou quase um milhão de anos e ainda sei na ponta da língua a porra da lei do ampere «uma corrente eléctrica que atravessando uma solução de nitrato de prata na água, deposita prata na proporção de 1,118 mg/segundo»)... das incontáveis reuniões técnicas de planificação semanal que me atazanavam a paciência e quase me transmutaram num serial killer pronto a chacinar uma quadrada alcateia de doutores e engenheiros.
Estive vai-não-vai para fazer uma respeitosa petição ao Gregório afim de recuar o domingo para antes do sábado. Lucidamente, desisti. Iria, insanamente, transformar o simpático sábado num inimigo fidagal!

Publicado por machede em 02:20 AM | Comentários (2) | TrackBack

setembro 07, 2003

Está certo!

Nem o berço da nacionalidade nos salvou. Um observador atento jura a pés juntos que o Afonso Henriques bazou do estádio logo após a segunda ameixa ter entrado no cabanejo, completamente verde de indignação. Acto, perfeitamente compreensível na pessoa do fundador e primeiro seleccionador nacional.
Cá para mim, a equipa espanhola ficou com a sensação de ter jogado contra uma selecção provincial? E calhando jogou?
Melhor: a selecção espanhola jogou contra o novo show do La Féria «Filipão e suas baratas tontas».

Publicado por machede em 12:13 AM | Comentários (1) | TrackBack

setembro 06, 2003

Ditosa Pátria alentejana que tais cus tem

Quatro canas com gulosos iscos de molho, durante um bom par de horas, para uma miserável safra de dez achigãs dez. Porca miséria. Assim como assim, abonou a expedição piscatória alqueviana o desfrute do reconfortante silêncio campestre, as lérias do companheiro António Batista e a competente merenda debicada a compasso de tonificantes tintos.
Na volta, alvejámos o azimute a Portel com a proposta de aprovisionar tabaco e intercalar um tinto. Então e não é que a meia dúzia de palmos do Tarro, mesmo no instante de meter freios ao mova, na intercessão do meio-dia e um quarto, progride e balança com requebros de malvadez um escultural alçado posterior. Regalo do campo, certamente criado à mão.
Extasiados perante tal aparição - julgo mesmo que nem a visão de Nossa Senhora em cima da azinheira produziu semelhante emoção – a catástrofe esteve iminente. Valeu a algazarra produzida pela debandada desordenada do salve-se quem puder perante o iminente abalroamento da esplanada pelo mova. E, qual cu nem meio cu, travões a fundo na besta...uhf !!!! o mova estático com a frontaria a cinco tostões dum prato com orelha de porco de azeite e vinagre. Justíssimo alarido da aterrorizada clientela ainda mal refeita do susto. Nossas diplomáticas desculpas para apaziguamento da inusitada situação. Hostes apaziguadas e já completamente entretidas a construir ironia à volta do desvario.
Já com o ritmo cardíaco reposto e entre dois sorvos de tinto:
- então, não vias a porra da esplanada?
- Não!
- e a aparição?
- então não havia de ver!


«A bunda,
que engraçada

A bunda, que engraçada
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gémeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.»

do «Amor natural» de Carlos Drumond de Andrade

Publicado por machede em 03:19 AM | Comentários (0) | TrackBack

setembro 04, 2003

Mais uma jornada no mar do Alqueva

Amanhã, pelas 6,30 da matina – de manhã é que se começa o dia (principio válido apenas para os dias de pesca) – artilhado de canas, carretos, isco, sombreiro, confortável cadeira, música, tabaquinho e uma incontornável merenda acolchoada com um magnânimo tinto, ala que se faz tarde direitinho que nem um fuso ao mar do Alqueva.
Os achigãs que se cuidem!

Publicado por machede em 09:24 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Alentejanando está de luto

A miserável chacina dos lagartos, perpetrada pela bimbalhada do fcp, exige uma resposta adequada:
1. criação numa ilha do Alqueva de um campo de concentração para albergar todos os adeptos de fcp encontrados, a passar férias, abaixo do paralelo dos leitões da Mealhada;
2. fecho imediato das fronteiras terrestres e marítimas e proibição de sobrevoo do sul pelo fcp;
3. exílio no Castelo do Queijo de todos os renegados do sul adeptos do fcp, incluindo alguns colunistas e escritores da nossa praça;
4. boicote activo às tripas à moda do Porto;
5. condenar a trabalhos forçados na segunda reforma agrária o Pinto da Costa e o Reinaldo Teles;
6. condenar o Mourinho a dirigir os jogos do fcp sentado ao colo do MEU PIPI;
7. aliciar o major e o filho para, sob disfarce de adeptos do fcp, cometerem um atentado suicida numa daquelas cerimónias em que os do fcp dão dragões uns aos outros;
8. que todos os confrontos de equipas do sul com o fcp se realizem no “tabuadu” de Barrancos;
9. nos jogos com o fcp, que todos os clubes do sul equipem de botas caneleiras com protectores à frente e atrás;
10. aliciar o Bush para invadir e ocupar a sede do fcp e as antas, sob o pretexto de existência de elementos perturbação maciça (exemplo: o guarda Abel, o Paulinho Ninja Santos, o Manuel Serrão...).


Publicado por machede em 02:00 AM | Comentários (0) | TrackBack

setembro 02, 2003

Porra??? acordei completamente verde!!!

já sei, é o chip recentemente implantado pela engenharia sulista «anti bimbos fcp» a funcionar!
É lagartagem, nada de embandeirar em arco, esta coloração anómala funciona só até à meia-noite de hoje, voltando automaticamente ao encarnado de sempre logo de seguidinha.

Publicado por machede em 11:11 AM | Comentários (2) | TrackBack

setembro 01, 2003

mais um intelectual do esférico nascido lá para as bandas das antas...

o Professor Bitaites, aquele jovem atarracado dos «prognósticos só no fim do jogo» e o guarda Abel que se cuidem... o jovem Mourinho tem potencial carago! é um enlevo aquele discernimento mental.

Publicado por machede em 01:51 AM | Comentários (0) | TrackBack

«Tão pouco e tanto»

Abençoada caixa que, por vezes, ressuscita, escassas vezes, mas de hora em vez tem momentos de lucidez! Sábado, no canal 2, Ana Sousa Dias esteve à conversa com o Janita Salomé.
Um cozido de grão acolitado de um generoso tinto na companhia de tão interessante conversa foi a salvação para uma alma integralmente metralhada pelo pelotão da “rentrée”. Mil anos de vida para o cozido de grão e para o generoso tinto, para a interessantíssima Ana e para o amigo Janita.
«Tão pouco e tanto», último trabalho gravado do cantador da Vila do redondo, foi o mote para a mansa cavaqueira. Digo mansa porque o mê Janita está para a vida como o tempo está para certos tintos, quanto mais velho, melhor. E foi um desaguar de comemorações: a solidariedade rural; o estoura-vergas do mano Vitorino; os conjuntos «Planície» e «Vagabundos do ritmo», que valha a boa vontade das moças em nada contribuíram para afinar a cadência destes dois pés-de-banco que ainda hoje são os meus; o nosso colectivo humor que jamais será privatizado; o telúrico cante do companheirismo alentejano; a fraterna convivialidade da taberna à volta do copo de cinco; o imenso sul mediterrânico onde navegam as nossas emoções e raízes ...

Sobre o «Tão pouco e tanto» rabiscou Manuel Alegre:
“Há no sul um silêncio povoado de sons, um misto de cigarras, zibelinas, besouros, uma espécie de zumbido do tempo, por vezes rasgado pelo grito do milhafre.

Se fosse pintor, pintá-lo-ia sob a forma de um traço branco em fundo azul. Um risco, nada mais do que um risco. É esse risco ou esse grito ou esse traço que vejo na voz de Janita Salomé. E digo vejo, porque é uma voz que se ouve e se vê, uma voz que nos traz o sol a tremular no descampado, ou a brancura de Casablanca à hora da oração do muezzin. Há nela, já se sabe, o grito do milhafre a pairar sobre a planície. E o zumbido. O som do tempo. E o silêncio. Mas há também a pergunta sem resposta do cante jondo, o cigano que esfarrapa a voz e a alma para chegar mais além. Há vários cantes neste cante. Vem de muito longe, de algum acampamento perdido na poeira dos séculos. Cante alentejano, cante jondo. Mas sobretudo andalu. (...)

Publicado por machede em 01:28 AM | Comentários (0) | TrackBack