abril 03, 2005

Uma questão de papa, obviamente!!!

O que toda a gente sabe, obviamente! É que esta pornógrafa sociedade do espectáculo é composta por uma maioritária fatia de famintos que, obviamente, também fazem parte do espectáculo – contra vontade, certamente. E sem a papa, propriamente dita, não serão as preces dos piedosos que lhes atestam a tripa. Continuarão, isso sim, a morrer que nem tordos. E, que eu saiba, para os tordos nem sequer há o reino dos céus!
Continuemos pois, a branquear a conscienciazinha na rotineira dádiva do pacote de bolachas de água e sal na soleira do hipermercado.

Publicado por machede em abril 3, 2005 11:55 PM
Comentários

Meu caro Joaquim, isto faz-me lembrar os velhos (mas sempre actuais e eficazes) mecanismos da dominação das vontades que durante séculos semearam e colheram os frutos, ou seja, a caridade cristã e a piedade religiosa, aquela que costuma(va) situar o indivíduo no lugar da debilidade mais absoluta e da mais extrema impotência. É mister sublinhar que não pretendemos descobrir, finalmente, este véu que tem a forma da piedade, para poder mostrar assim, em toda sua crueldade, a verdade nua da coerção e da hipocrisia. Poucos se atrevem a desmascarar uma ideologia por trás da qual o controle social gosta de se apresentar. Empreender uma crítica da ética da caridade e da compaixão exige que nos lembremos de Nietzsche, pois foi mérito seu ter sabido iniciar, com lucidez e firmeza, um estudo demolidor destas estratégias de poder que, no preciso momento em que nos prometem auxílio e assistência, multiplicam os mecanismos de coerção, docilização e submissão. As perguntas que Nietzsche fez a respeito da caridade e da compaixão podem ser resumidas nestas duas: "É conveniente ser antes de mais nada homens compassivos?"; "É conveniente para os que padecem que deles vos compadeçais?". A resposta a estas questões será, por sua vez, determinante: "Os nossos benfeitores diminuem o nosso valor e a nossa vontade, ainda mais que nossos próprios inimigos". Como afirmouHannah Arendt , "Por tratar-se de um sentimento, a piedade pode encontrar em si própria o seu prazer; isso leva, quase que automaticamente, a glorificar a sua causa: o sofrimento alheio". Assim, meu caro joaquim, pela lógica perversa da piedade, a miséria e a dor terminam por legitimar a mesma dissimetria de poder que as gerou. Chega de palavrório...

Afixado por: Albardeiro em abril 4, 2005 10:58 AM

Aplaudo.


Um abração do
Zecatelhado

Afixado por: zecatelhado em abril 10, 2005 01:06 PM