Passou a santa vida a beber copos de cinco, no balcão de pé. Mesmo tendo todo o tempo do mundo – como gostava de arrematar – nunca o viram sentado na taberna. Dizia que gostava de estar à altura do momento. E ria-se, ria-se escancaradamente de si mesmo enquanto cismava que, afinal, era um homem para consumo próprio. Estimava igualmente sublinhar que, em coerência com o consumo, era também dono de si próprio.
E assim parecia ser. Corria à boca cheia que sempre que um patrão o tentou abeirar do vexame ou da desfeita: despediu-se. Alardeava depois que não eram só os balcões que o conheciam de pé!
Como não tinha paciência para usar a vida a meias, permanecera solteirão. Quando a velhice tentou empurrá-lo para a dependência do lar da misericórdia, bradou: serei até ao fim eu o meu único dono. Suicidou-se, igualmente de pé!
(Desaforadamente, depois de morto, a estatística usou-o como mero número para informar que o Alentejo é região contumaz no top dos suicídios.)
Caro Joaquim, é a rotina desse "nosso" espaço... essa ansiedade sem remédio, essa vã glória de se ser maltez - que quando depois do abandono dos homens até o divino já não nos diz nada! Para os outros... de facto, só resta o número.
Um abraço.
Mais um sobreiro que morreu de pé !
Afixado por: Jorge Raimundo em março 16, 2005 08:19 AM