fevereiro 28, 2005

Das sopas de pão alentejanas e do resto do mundo...

Saboreiam as sopas alentejanas e dizem-nas divinais. Da açorda, passando pela tomatada, até às beldroegas com queijo, deliciam-se com a subtileza gustativa dos coentros, dos poejos, das hortelãs da ribeira e comum... Engorduram os beiços com os remanescentes adubos terrenos ou aquáticos, da pastagem, da horta ou do mar. Sorvem deleitados em rijas colheradas os calduchos até ao cu do prato e, quanto a ensopar e deglutir as generosas sopas de pão, aos cubos ou falquejadas, aos costumes dizem nada. Assim, regra geral, se comportam os exógenos – a não ser um reduzido número de iniciados – quanto à realeza e indispensabilidade do pão embebido nas sopas da planície.
Tenho para mim que, ensopar pão no caldo dos cozidos de panela, é costume generalizado por tudo quanto foi território de subsistência. Mais a mais nas regiões bordaduras do mediterrâneo. Tenho para mim que o desuso do costume, caminhou lado a lado com o abastardamento da genuinidade do pão. Com o abastardamento galopante induzido pela industrialização.

Sopa de Peixe

A pequena praia onde acostámos situava-se no começo de um desfiladeiro e instalámo-nos no meio das pedras, sobre uma tira de relva queimada, que nos serviria de mesa.
Era realmente um acontecimento esta “bouillabaisse” ao ar livre. Primeiro, Micoulin entrou para o barco e foi sozinho puxar os cofres que colocara na véspera. Quando voltou, Nais apanhara tomilhos, alfazemas, um molho de ramos secos suficientes para acender um grande fogo. Nesse dia, o velho ia fazer a “bouillabaisse”, a tradicional sopa de peixe, cuja receita os pescadores do litoral transmitem de pai para filho. Era uma “bouillabaisse” extraordinária, fortemente apimentada, terrivelmente perfumada com alho esmagado. Os Rostand divertiam-se muito com a confecção desta sopa.
- Pai Micoulin – disse Mme Rostand, que nestas ocasiões condescendia em brincar -, acha que ficará tão boa como a do ano passado?
Micoulin parecia muito divertido. Amanhou primeiro o peixe com a água do mar, enquanto Nais tirava do barco uma grande frigideira. A operação foi rápida: o peixe no fundo da frigideira, coberto apenas com água, cebola, alho, uma mão cheia de pimenta em grão, um tomate, meio copo de azeite; depois, a frigideira ao lume, um fogo formidável, capaz de assar um carneiro. Os pescadores dizem que o segredo da “bouillabaisse” está na cozedura: a frigideira tem de desaparecer no meio das chamas. Enquanto isso, o rendeiro, muito sério, cortava fatias de pão numa saladeira. Ao fim de uma meia hora, deitou o caldo por cima das fatias e serviu o peixe à parte.

Do “Nais de Micoulin” de Émile Zola

Publicado por machede em fevereiro 28, 2005 07:37 PM
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