Com abundância pedem a receita do pão alentejano. Tenho evitado escarrapachá-la. Não que a feitura do pão alentejano seja do domínio dos deuses, nada disso. Apenas porque o seu fabrico requer reunidos alguns pormenores indissociáveis do genuíno. Originalmente as farinhas tinham uma moagem mais grosseira e, em boa verdade, eram uma mistura de trigos rijo e mole. A cozedura era feita em forno aquecido a lenha – até a qualidade das lenhas não era ignorada. O fermento (isco) também tinha o seu rigor – era consecutivamente deixado de massa para massa. Por fim a sabedoria das mãos que dançavam o ritual da amassadura. O sapiente e destro movimento de amassar, o momento certo de borrifar a massa com água, a leitura rigorosa do ponto de levedura e o tender e esculpir do pão.
Mas que a tentativa seja, neste caso, a mãe do engenho. Com mais ou menos rigor, que se amasse, coza e comungue o saboroso pão.
Nas andanças por outros que não o meu transtagano território, sempre na minha casa se fez pão.
2,5 kg de farinha
50 gr de sal grosso
125 gr de fermento de massa (adquira numa padaria)
1,5 l de água
Põe-se a farinha num alguidar suficientemente grande. Abre-se no centro da farinha um buraco, onde se deitam 2 l de água morna com o sal. Mistura-se bem o fermento na água. Mexe-se a farinha até que esta ensope totalmente a água. À medida que se amassa, sempre que a massa borbulhar, borrifa-se com água tépida. Deixa-se a massa em descanso a levedar, cobrindo o alguidar com um pano. Em levedando (crescendo) 2 a 3 cm no alguidar, tendem-se os pães – divide-se esta massa por 3 pães. Cozem-se em forno bem quente durante, mais ou menos, 1 hora.

Imagem de António Cunha
...embora vivendo no Norte, vivi igualmente alguns anos em Setúbal e bastas vezes desci a diversas zonas do Alentejo para saborear o seu inolvidável pão...isto para dizer que, tendo um forno de lenha em casa, logo que possa vou abalançar-me a seguir a tua receita que amavelmente puseste à disposição...viva pão, viva o alentejo e vivas tu...bem hajas...
Morfeu
Afixado por: morfeu em fevereiro 23, 2005 06:21 PMProvei, não só o pão (tal e qual como a minha avó paterna o costumava fazer) como as lágrimas, que saudosas de correram pelo rosto. Para mim, o Alentejo é sinónimo de infância, felicidade, descoberta e muita saudade.
Obrigada, mil vezes obrigada.
E pensar que comecei em Madrid e acabei tão perto de mim...
Eu fui uma das pessoas que pediu a receita ;). Já agora, é 1,5l (indicado na lista de ingredientes) ou 2l (indicado na descrição) de água? Obrigada!
Afixado por: inkognita em março 4, 2005 02:31 PM