O finado Diário de Lisboa foi o periódico no qual, por meados dos dezassete anos, comecei a soletrar as boas e más andanças do mundo. Na altura, a silabar nas entrelinhas do atrevimento da guerrilha contra o azul da censura. Era quase uma diária resolução de um imenso jogo de palavras cruzadas. E fui-lhe fiel, rigorosamente fiel até ele se finar de exaustão financeira, bastos tempos depois do enterro do azul da censura. Generosas memórias abrigo da “Guidinha” do Sttau Monteiro, do suplemento “A Mosca” dirigido pelo Cardoso Pires, da critica de televisão do Mário Castrim e da afoita opinião do Piteira Santos.
Algum tempo depois do desatar da mordaça, comecei também a estacionar a leitura nas crónicas taurinas de Cristóvão Moreira. “Solilóquio” de sua curiosa denominação. Convém aclarar que, nos abrasados tempos da altura para um cidadão, visivelmente da margem esquerda, gostar da festa das hastes nuas e do bailado de luces, era uma condenável profanação. Um marialvismo miseravelmente retrógrado. Mas, contra as correctivas orientações da moral proletária, lá fui mantendo o prazer de aficionado. Com a agravante imoralidade de gostar da sorte integral, ou seja, com o estoque ou com o indulto.
Então e não é que me entra pelo portão adentro um tranquilo senhor que, não tardei a descobrir, ser o homem dos excelentes monólogos taurinos no saudoso Diário de Lisboa. Que volte sempre a entrar por este modesto portão e amesende em paz Senhor João Cristóvão Moreira.
OITO POETAS DE ESPANHA
1 – Manuel Machado (1874 – 1947), foi um dos grandes de Espanha que em seus versos cantou a Festa, de que sonhou um dia ser protagonista:
Y, antes que un tal poeta,
mi deseo primero
hubiera sido
ser un buen banderillero
2 – Juan Ramón Jiménez (1881 – 1959), um dos Nobel da literatura espanhola, que nos deixou o incomparável encanto de «Platero y yo». Não sendo aficionado, a sua sensibilidade captou o sortilégio do touro:
El negro toro surge, neto y bello
sobre la fria aurora verde.
Muge de sur a norte, espujando
el hondo cenit cardeno, estrellado todavía
de las estrellas grandes
con su agigantado testuz.
- La soledad inmensa se amedronta
el silencio sin fin se calla.
3 – Adriano del Valle (1895 – 1957), sevilhano famoso como literato e jornalista, poeta que também foi da Festa, sensível a tudo o que dela se desprende, até da morte de um cavalo de picar:
Caballo, que en treinta pasos
morirás sobre la arena...
Volando se irá tu alma,
no te servirán las piernas
vuela, caballito muerto!
Que el alma no tiene riendas,
ni los vientos tienen justos,
ni los angeles espuelas!
4 – José Bergamin (1897 – 1983), o poeta que sentiu a música calada do toureio de Rafael de Paula, cantou também o ocaso dos que um dia se vestiram de luzes:
Los toreros viejos
pasan por la calle
haciendo el paseo con un pasodoble
que no escucha nadie.
5 – Lorca (1898 – 1936), o imortal Federico a quem os tiros assassinos não mataram a grandeza do seu génio, para além da hora trágica de «Las cinco de la tarde», deixou o sofrimento de olhar o corpo sem vida de Ignácio Sánchez Mejias:
No quiero que le tapen la cara com pañuelos
para que se acostumbre con la muerte que lleva.
Vete, Ignacio: no sientas el caliente bramido.
Duerme, vuela, reposa. También se muere el mar!
6 – José Maria Pemán (1898 – 1981), foi doutor, dramaturgo, Presidente da Real Academia: mas para o aficionado, foram seus versos que ficaram, como os daquela tarde de touros, depois da corrida:
Silencio. En el redondel
inmóvel, triste, callado
un abanico olvidado
y un clavel...
En el pueblo, unos reflejos
del sol que se vá. Unos dejos
de amargura en las almas
y mui lejos, entre palmas,
un fandanguillo...
Muy lejos...
7 – Rafael Alberti (1902 – 1999), o poeta de El Puerto de Santa Maria, poeta universal de «Marinero en tierra» e «Cal y canto», também no mundo deslumbrante dos seus versos cabia o touro:
Corre toro, a la mar, embiste, nada
Y a un torero de espuma, sal e arena,
Ya que intentas herir, dale la muerte.
8 – Miguel Hernández (1910 – 1942), foi autor de várias excelentes biografias de toureiros contidas em «Los toros» de Cosio; mas nessa prosa anónima se escondia o grande poeta, militante da República que o franquismo deixou morrer aos 32 anos num cárcere de Alicante:
Como el toro he nascido para el luto
y el dolor; como el toro estoy marcado
por un hierro infernal en el costado
y por varón en la ingle con un fruto.
Como el toro lo encuentra diminuto
todo mi corazón desmesurado.
Do livro de Cristóvão Moreira “O Corte da Coleta”
OLÉÉÉÉÉ...!!!
E como a "lide" respeita a uma corrida integral rogo ao "inteligente" a atribuição de orelhas e...rabo!
Afixado por: Ricardo em fevereiro 8, 2005 04:16 PM
OLÉÉÉÉÉ...!!!
E como a "lide" respeita a uma corrida integral rogo ao "inteligente" a atribuição de orelhas e...rabo!
Afixado por: Ricardo Freixial em fevereiro 8, 2005 04:17 PM
OLÉÉÉÉÉ...!!!
E como a "lide" respeita a uma corrida integral rogo ao "inteligente" a atribuição de orelhas e...rabo!
Afixado por: Ricardo Freixial em fevereiro 8, 2005 04:17 PMNã gosto nada de "tóradas" mas logo que possa passo por aí para "torear" uma costeleta de novilho. Se houver!!!?
Afixado por: 1 amigo da Cuba em fevereiro 8, 2005 11:16 PM