novembro 23, 2004

Afinal...

Era filho do lavrador da herdade grande. Não fosse isso e um apurado humor sempre na ponta da língua, seria mais um entre os outros moços aldeões. Partiu para a aldeia grande assim que acabou a escola primária. O seu pai dizia que o queria um homem ilustrado. Voltava então, à aldeia pequena, todos os fins-de-semana e pelas férias. Voltava para o pagode de vidinha que ele tanto gostava. Os banhos no pego grande da ribeira, as idas aos pássaros e aos bailaricos repletos de moças a desabrocharem rubores e quenturas.
Quando acabou o liceu, o seu pai deu uma festa de arromba no monte. Da aldeia pequena, todos os amigos chegados das estourarias tiveram convite para a função. Da aldeia grande veio, na carreira da véspera, uma multidão de polidos amigos. Durante o banquete, o seu pai anunciou que daí a menos de meia dúzia de anos a festa dobraria para festejar a entrada no mundo das leis de um novo doutor.
Foi então ilustrar-se ainda mais para uma cidade à séria. Coimbra, comentava-
se na venda. De ano para ano foi ganhando modos diferentes. Abdicou de tomar banho no pego grande da ribeira, de armar aos pássaros, de namoriscar as moças nos bailaricos da sociedade e de todas as outras coisas que entretinham a mocidade da sua igualha. Vinha muito de tempos a tempos e apenas passava pela rua grande da aldeia pequena no caminho, de ida e volta, para o monte. Parar na rua grande, só o tempo de comprar tabaco na venda. Distribuía então uns escassos e secos bons dias ou boas tardes, mesmo pelos outrora mais chegados das carteiras da primária. Começou a ter modos aparentados com o dos doutores da aldeia grande.
Soube-se então que a festa redobrou de importância. Mas não houve notícia dos porcos mortos, dos bolos e licores finos servidos. A função aconteceu na casa da família na aldeia grande. Dos amigos da aldeia pequena, ninguém foi convidado.
Aparecia de muito em muito tempo, mas não parava sequer na rua grande para comprar tabaco, fumava charuto. Entre os roncos do potente automóvel somente acenava contidamente. Apenas o sabiam com escritório de jurisconsulto montado na capital. Era finalmente um homem profundamente ilustrado como era desejo de seu pai.
Deixou mesmo de passar na rua grande quando o seu pai arrendou a herdade grande e foi viver com a família para a casa da aldeia grande.
Voltou um dia para acompanhar o pai ao jazigo da família. Tinha o cabelo e a barba aparada quase grisalhos e um ar cansado. Mas, para admiração geral, parecia o moço bem-falante dos tempos da mocidade.
Soube-se depois que tinha renunciado o contrato com o rendeiro da herdade grande. Arranjou e caiou o monte. Para espanto geral, passou um dia pela rua grande guiando o tractor com uma carrada de lenha de azinho. Acenou a todos amavelmente.
Uma noite apareceu no café e entreteve-se por lá na conversa e nas aguardentes. Disse para quem o quis ouvir que o mundo tinha mudado e ele também. Disse mais que tinha perdido uma pilha de anos a aturar e a aturar-se um cagalhão de vida. Mudou-se de todo para a herdade grande. Voltou a aparecer cada vez mais amiúde. Na outrora venda e hoje minimercado, na padaria, no café, na sociedade...
Está aqui sentado de roda de umas cabeças de borrego assadas, de um tinto carregado mas saboroso, de umas azeitona pisadas e de um pão trigueiro. Enquanto desabotoa a samarra de gola de raposa, faz uso da reconhecida ironia do antigamente. Brinca com a graúda dose de colesterol, da boa comida da sua adolescência, de que agora voltou a fazer uso diário. O seu antigo companheiro de carteira da primária, que está sentado ao seu lado de navalhinha em riste, diz-lhe por entre os poucos dentes que lhe restam na boca mal ancorada numa face comida pelos calores e pelo trabalho:
- atão moço, na me digas que queres morrer sadio. Eu cá só quero morrer quando esgotar o capado até à última pinga. A na ser assim, é um desperdício.
Riu-se alarvemente da tirada do companheiro e deu de resposta:
- não vás sem resposta, quando fiquei farto do embuste da higiénica vida de impostor, pensei em matar-me. Até cheguei a desinfectar uma faca para cortar as veias.
Afinal...



Publicado por machede em novembro 23, 2004 01:11 AM
Comentários

Higiene até no suicídio... gostei!

Afixado por: Vi em novembro 23, 2004 01:26 AM

Compadre, só me ocorre a expressão mais simplista e óbvia, mas carregada de verdade - "...então, a vida é mesmo assim!". Digo-o, porque a fita do filme está a passar toda aqui à minha frente... e, então, um dia, provavelmente, cansado da cidade grande (às vezes, cidade de merda), vou fazer o percurso de volta, para sentar, com vagar, e comer de navalhinha na mão o pão trigueiro e o naco de linguiça e de cacholeira bem assada!
Um abraço, Joaquim.

Afixado por: Albardeiro em novembro 23, 2004 05:31 PM

Texto muito bonito. Muito vivo.
Gostei muito.
Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em novembro 24, 2004 10:28 PM