outubro 27, 2004

Do lugar de Vimieiro

Infanta da Planura = aforismo romântico saído da aura poética de um amante do Sul, porventura autóctone, que assenta bem e é já um dado adquirido na compreensão e paixão pelo lugar.
Sitio aberto, de vastos horizontes, situado numa encruzilhada de caminhos importantes e estratégicos desde a Pré-história.
O seu topónimo, Vimieiro (Lat. Vimenaria), gerou controvérsia, mas, recentemente, afastou-se a hipótese de terras de vimes, dada a secura da área, a não utilização de vimes na empa da vinha, nem de pipas e tonéis, mas talhas de barro no fabrico do vinho. Resta, portanto, a colonização interna no sec. XIII por gente do Norte, provinda de localidade homónima do norte de Portugal.
Tem presença humana assinalável desde o Neolítico, sobretudo, no eixo da ribeira de Tera que abrange a linha Vimieiro / Pavia. É uma zona de profusão de povoados, monumentos funerários megalíticos (antas), alinhamentos e menhires. De assinalar a Anta dos Prates, Claros Montes, Caeira, Camaroeira e Bardeira.
A presença Romana é um facto notório, pois aqui passa uma ligação à grã Via Olisipo / Emérita Augusta, restando ainda de pé a Ponte da Frausta, a Ponte do Freixo e vários pedaços empedrados dessa via. O topónimo Fonte Santa, pressupõe uma fonte com virtudes medicinais e divinas do tempo Romano. O topónimo Tourega tem importância arqueológica, ainda de origem Pré Romana, bem como o Vale da Pinta cujo termo arcaico de “Pinta” provem do Latino “Picta”. Este topónimo, aproxima-se dos nortenhos Pala de Pito, Pala Pinta, em que “Pala” era sinónimo de anta, o que ajuda também na toponímia da vila.
A conquista da Península Ibérica pelos muçulmanos, trouxe novas gentes à região. São berberes, islamizados, mas não arabizados, que são relegados para as zonas mais pobres e marginais como a do lugar de Vimieiro.
ABD-Al-Rahman, ibn Marwan Al-Jilliqii, líder berbere incontestado, une interesses locais e berberes e ganha posição em relação a Córdova, que acaba por lhe reconhecer a posse de “Bataliyaws”, (Badajoz). Daqui resulta mais tarde o poderoso reino de Badajoz, já no período Taifa, no qual a nossa terra estava incluída.
Após conquista cristã e a consequente colonização, surge o Vimieiro, já documentado no séc. XIII, Consta da tradição ter tido foral de D. Dinis, no entanto, nada o certifica e só tem prova cabal o foral de D. Manuel I de 1 de Junho de 1512.
Foi sede de concelho desde o séc. XIII até ao séc. XIX, altura em que o poder centralizador do estado acabou com ele, tal como com muitos outros (1855).
O Senhorio Medieval é um tanto obscuro, como no geral no interior Alentejano, aparecendo D. Sancho de Noronha no séc. XV e terminando com D. Sancho de Faro e Sousa no séc. XVIII.
A segunda metade do séc. XVIII é tempo áureo para a casa condal de D. Sancho de Faro e Sousa, pela mão da poetisa D. Thereza de Mello Breiner, sua esposa. D. Thereza é fundadora da Arcádia, movimento intelectual de maior expressão há época, e, é aqui, neste palácio, que dispõe ao tempo da maior biblioteca privada do reino, onde se reúne a nata pensante da corte. Após a morte de D. Thereza, e em sua memória, o seu marido mandou erigir um monumento (obelisco) nos jardins do palácio, composto por uma pirâmide de basalto de pedra única.
Tem o Vimieiro grande profusão de monumentos religiosos, sobressaindo a Igreja Matriz, em honra de Nossa Senhora da Encarnação do Sobral. Vasto templo em cruz grega, com seis capelas além da mor, de uma só nave, com frestas estreitas, alpendre exterior e telhado ameado, tecto de abobada ampla artesoada, sem uma única coluna, cuja autoria se remete para o arquitecto da Igreja de S. Francisco de Évora (séc. XVI). De salientar ainda, embora mais pequena, a Igreja da Misericórdia e a Igreja do Espírito Santo, ainda dentro da vila.
Circundante ao povoado, temos a assinalar o Convento de S. Francisco (1554), do qual só restam ruínas, e outras capelas cuja edificação se situa entre os séculos XIV e XVIII.
Terra plurifacetada prenhe de influências, viu, e certamente sentiu, em tempos de transumância passar maiorais serranos do centro de Portugal, na demanda de suculentas pastagens e invernos menos rigorosos, ali, para os lados dos campos de Ourique. Estas enormes caravanas de gentes e animais utilizavam um trajecto, nem sempre pacífico, a pé, através da chamada Canada Real. Após travessia do Tejo, em Vila Vela de Ródão, percorriam os campos de Nisa e Alpalhão até Fronteira, onde se bifurcava a rota. Uns seguiam por oeste, outros para este, voltando a encontrar-se no Monte da Estrada (Vimieiro). Daí rumavam para Venda do Duque, Vale do Pereiro e campos de Évora, prosseguindo até Ourique. O regresso, já com o Verão à porta, processava-se pelo mesmo itinerário.


Curiosidades do lugar

“Era tal o amor que os do Vimieiro tinham aos seus baldios, que, em lhes falando em os aforar ou alienar, faziam logo bernarda”. Por diferentes vezes foram incendiados os papéis das Repartições Públicas (Pinho Leal).

Os habitantes do Vimieiro eram conhecidos nos arredores pelos “Favas Fritas”, “Favas Torradas” dada a profusão do cultivo e consumo desta leguminosa.

Acerca de 3 Km da Vila, na estrada para Pavia, há um pedaço de caminho tão direito e unido que parece calçado a maço. É o “brincadouro”, assim chamado porque vão para ali as bruxas brincar e fazer o sabbat.

Na Ribeira de Tera junto ao chamado pego do Sino, na noite de S. João, à meia-noite, ouve-se cantar um galo, chorar um menino, berrar um boi e tocar um sino.

José Oliveira (Det)
Viticultor e finalista de Arqueologia

(do Livro de Bordo da Sulitânia)

Publicado por machede em outubro 27, 2004 11:49 PM
Comentários

Lá terei que ir visitar a Sulitânia e conhecer o respectivo "Livro de Bordo"... Com tanta coisa aliciante, quem pode resistir?... ;))

Afixado por: Margarida A. em novembro 6, 2004 09:59 PM