Está dito, por quem sabe, que beber vinho é um acto de cultura popular, dando à palavra cultura o seu significado antropológico.
O vinho povoa, efectivamente, o nosso quotidiano, a nossa linguagem, a nossa gastronomia, o nosso imaginário, as nossas relações sociais. Parafraseando Roland Barthes podemos afirmar que, também para os Portugueses, o vinho é uma bebida totémica, correspondente ao leite dos holandeses, ao chá britânico e à cerveja germânica. Como tal, ele «é o suporte de uma mitologia variada, que não se embaraça com as contradições... antes de mais, é uma substância de conversão capaz de voltar do avesso as situações e os estados, e de extrair dos objectos o seu contrário; de fazer, por exemplo, de um fraco um valente, de um silencioso um fala barato» (Barthes 1978).
Repare-se que são imensos os motivos para se beber vinho – ter sede, fazer calor, ter fome, fazer frio, estar cansado, para não falar de outras manobras sociais, como adiante veremos. Sangue da terra (o tinto), manjar dos deuses (qualquer um), suco do sol, «o vinho detêm poderes aparentemente maleáveis: tanto pode servir de álibi ao sonho como à realidade, tudo dependendo dos utilizadores do mito» (Barthes 1978), ou seja, dos bebedores.
O recurso ao vinho é das soluções mais universais do Homem, porque se bebe por tudo: quando se está triste, quando se está contente, porque se está só, porque se está com os amigos, porque estamos zangados, porque fizemos as pazes, porque estamos apaixonados, porque celebramos a vida, e até, quando acompanhamos a morte.
Humaniza-se o vinho: se alguém se sente mal é porque lhe «caiu o vinho no corpo». Por outro lado, «fulano tem bom vinho», ou seja, bebe com prudência e parcimónia ou, quando embriagado não faz disparates. Nalgumas povoações alentejanas, ir ao café ou à taberna, ao fim do dia e beber seja o que for (cerveja, vinho ou amêndoa amarga), é «beber o vinho do trabalho». A simplicidade da expressão é apenas aparente: o homem que trabalhou merece beber vinho e só o vinho é referido como compensação ao esforço dispendido.
A ingestão do líquido cria riqueza e prodigalidade não apenas comportamental; os linguistas ficam satisfeitos com a diversidade semântica da terminologia vinícola. Bebedeira é piela, torcida, bezana, tosga, carraspana, ursa, camada, cardina, açorda, bêbada, borracheira, grossura, tachada, gatosa, pifão, perúa, turca e que mais?
Estar bêbado é estar tratado, é estar alegre, ter o rei na barriga, estar farto, estar com ela ou, já estar.
O petisco, esse cerimonial colectivo, tão do agrado das classes populares, e das outras, parece-me ser simplesmente uma desculpa para beber vinho; é um mecanismo de fachada. Então não se costuma dizer que o petisco é só para enganar o estômago? Beber um copo parece-me também uma deliciosa mentira inofensiva. Quem diz que vai beber um copo, bebe apenas um?
Neste percurso da ironia, desejo evitar equívocos: não faço a apologia da bebedeira, desejo fazer a defesa do bom vinho e, nomeadamente das zonas vitivinícolas ora designadas de origem. No trajecto irónico, a referência é a frase lapidar de muitas tascas alentejanas: «Se vires um homem caído na rua, respeita-o. Pode ser um bêbado».
Numa perspectiva rural e popular, falar do vinho é trazer à memória a tradicional taberna. As tabernas mais antigas estavam associadas às carvoarias, por razões que talvez não fossem meramente comerciais. O garrafão e o pedaço de carvão pendurados às portas eram cartazes publicitários, mas transportavam em si uma outra simbologia. «Para além da questão funcional da venda comum dos dois produtos, descobre-se o significado ritual que faz associar os dois elementos: o carvão provoca o fogo que aquece o copo; o vinho produz a chama que aquece o espírito...» (Ramos 1980).
Taberna é tasca ou adega. Nalgumas localidades é apenas nomeada pela última designação. Naturalmente que a adega pressupõe a produção própria ou, pelo menos, a armazenagem. O vinho é, na taberna, o centro à volta do qual gira um vasto número de elementos: o petisco, o mobiliário, a decoração, o vasilhame, a clientela, etc. Note-se que, quando outras bebidas invadem o espaço do vinho, a taberna genuína torna-se híbrida e caminha para café, restaurante ou bar.
A taberna mais primitiva só vende vinho (e aguardente), e não fornece petisco, não possui frigorífico, a vasilha por excelência é o garrafão ou serve directamente do pote, a decoração é exígua e o local é frequentado pelos grupos sociais mais pobres. A taberna frequentada por caçadores, empregados bancários e funcionários públicos, (grandes amantes do «vinho do trabalho»), tem tendência a evoluir para café: surge o balcão-frigorífico, o jornal, a televisão, a coca-cola, o petisco diversificado, etc.
Os bons bebedores fazem questões em beber o vinho de um copo sem interrupções. Bebem no entanto devagar, prolongando o prazer do saboreio e olhando o vinho decrescente. Deixam uma pinga no fundo do copo, atirando-a normalmente para a parede do balcão. Limpam a boca com a manga e cospem de seguida. Tal acto simbólico de purificação pode acontecer, nalguns casos, antes de se levar o copo à boca. «Os homens que misturam vinho com gasosa são considerados fracos bebedores, sendo por isso alvo de chacota». (Ramos 1978). As tabernas-adegas mais tradicionais possuem ainda talhas centenárias fabricadas no Redondo, S. Pedro do Corval e Beringel.
Beber um copo de vinho, que é beber o vinho de um copo, já foi «vai um copo de três» e, nos dias que correm pode ser: «vá lá mais um», «queria um balde», «quero um penálti», «dá-me uma saquinha de carvão», «serve-me um chá», «dá-me um dos grandes», «aponta aí mais um», «vá lá o último». Mas este jogo de metáforas não cria problemas de comunicação; os interlocutores entendem-se perfeitamente, tão perfeitamente que podem passar da linguagem oral à gestual.
Na comunidade rural o vinho é o tónico duplamente fortificante que a tudo ajuda: é preciso beber uns copos antes de contar um segredo há muito guardado, antes de descrever uma história interdita, antes de enfrentar os cornos de uma vaca ou os punhos de um rival. O vinho é, na festa popular, a armadura ideal para a ruptura com a norma. Por outro lado, se a comunidade critica o comportamento de um indivíduo que se embriagou, há sempre uma voz de contrição que, misericordiosa, atalha: «Coitado, estava bêbado, não sabia o que fazia...».
O bêbado é uma figura acima e fora de regra, não é homem e não é deus, não está no seu juízo perfeito e não é louco; é outro. É um réu condenado a ser condenado a pena suspensa. Como insinua com imaginação Lobo Antunes, teria sido uma bebedeira tipificada nalgum marinheiro famoso que nos terá levado ao Cabo das Tormentas e às Índias. Sem o vinho, a aguardente ou o absinto que Fernando Pessoa bebeu, estaríamos agora a comemorar o maior poeta universal do nosso tempo?
Nos meandros e nos delírios das paixões obsessivas do mundo rural, há sempre uma desculpa mítica veiculada por mãos femininas: «Ela deu-lhe qualquer coisa a beber» - diz o povo. Depois de investigação aprofundada sobre o tema posso garantir-vos uma coisa – dessa veniaga amorosa não consta o vinho do Alentejo.
Francisco Martins Ramos,
antropólogo
(do Livro de Bordo da Sulitânia)
Joaquim, isto é escrita de "escriba" que conhece os nomes e as "coisas" por alcunhas,tudo tem e faz sentido. E a Amareleja aqui tão perto.
Afixado por: Albardeiro em outubro 24, 2004 05:26 PMVou só ali beber um copito e já venho...
Afixado por: André em outubro 25, 2004 06:57 PMVens ou não vens beber um tinto no dia 6/11?
Afixado por: nikonman em outubro 25, 2004 07:25 PMNão há festa sem vinho!
Como é que aparece o S. Martinho a ssociado ao vinho? Não é só porque rima...