Arrefeceu. Até que enfim poisou o Outubro. Já não era sem tempo. Os mais velhos dizem que o astro ficou desnorteado desde que os americanos foram à lua. Mas não deixa de ser verdade que o tempo anda a modos que apalermado. Já cá ando há anos suficientes para ser dono dessa sabedoria.
Mas o que eu gosto mesmo é de perceber com nitidez os contornos das extremas nas estações do ano, tal e qual como gosto de sentir que saí do Alentejo e entrei na Andaluzia. Tem a ver com o atino da minha bússola territorial/temporal.
Acabei de malhar uma açordinha com uma posta de pescada e um ovinho cozido. Foi a comedoria de boas vindas à inteireza da época do cair da parra. Também não me batia mal um par de santas migas. De batata, alentejanas, da charneca, de tomate, canhas, com espargos, à serrador, de mioleira, gatas, de couve com feijão, do Guadiana, de batata à S. Mateus... são migas senhor... são as santas migas do nosso contentamento.
A propósito da arte das migas, aqui vos lego um belo texto, sacado do livro “a talha e a sertã”, talhado pela pena do meu belo amigo e confrade José Manuel Martins.

As Migas
Esclareça-se antes de mais uma confusão: aqui no Alentejo chamamos migas aquilo que (aproximadamente), os outros portugueses chamam açorda e com este nome em Lisboa por exemplo, comem uma papa parecida com as nossas “migas”.
Mas ficam-se por aqui as semelhanças.
Imagine-se, numa manhã fria de inverno, uma grande cozinha com a sua lareira ao fundo. Sobre as brasas coloque-se uma trempe e em cima desta uma sertã de ferro, funda com um cabo. Cortem-se lá para dentro rodelas de chouriço, farinheira e umas lascas de toucinho. Deite-se mão de entrecosto e carne de porco migada, antecedentemente apaladada com massa de pimentão. Para ajudar a fritura dos enchidos, caso o toucinho não chegue, uma colherita de banha ou fio de azeite. Não se pode dispensar um ou dois dentes de alho.
Retire os enchidos depois de fritos, mas não exagere e bote de seguida a carne de porco, que levará um pouco mais de tempo. Previamente já amoleceu em água pão duro (do nosso “casqueiro” alentejano) que apenas se deixa roer. Retire a última fritura e, no pingo que ficou deite o pão escorrido quase desfeito, renovando os alhos, porque os da primeira fritura já estão pretos.
De colher de pau em punho dê umas voltas até obter uma massa uniforme. Prove e apure de sal. Se achar seca, junte uns golpes de água. Começando a despegar do fundo abandone-se a colher e segurando a pega da sertã tente enrolar a massa. Pode-se imaginar do “Tour d’Argent” finalizando uma omoleta. Obterá, se para tanto tiver arte e engenho, um rolo tostadinho por fora, mas não muito seco.
Está pronto.
Verta numa travessa, dispondo à volta as carnes fritas e rodelas ou gomo de laranja. Um pequeno pires de rábano é companhia apreciável.
Assista-se com um tinto encorpado de preferência do Alentejo e prepare-se para não fazer mais nada durante a tarde excepto filosofar sobre pequenas/grandes coisas da vida, enquanto lá fora cai a chuva miúda e sobra o norte gelado.
É a “áurea mediocritas” dirá o leitor cosmopolita e “europeu” .
Mas é BOM.
aahhhhhh .....
.........uuuuhhhhhhh
(simulações de um bom arroto)
e bom proveito
"Avec alors par Lisbonne" em alegre convívio com velhos amigos! E não diz nada a ninguém!
Afixado por: carlos a.a. em outubro 12, 2004 11:18 PMDiz-se que o amor também passa pelo estômago e já agora, o seu enamoramento pelas terras alentejanas. Em boa verdade e com um apetite danado, com estas MIGAS estamos perante uma culinária simples, que traz consigo o gosto milenar de gerações passadas. Todavia, perguntem ao Joaquim se comer bem não é uma arte e em que o segredo do sucesso está nos detalhes. Nós alentejanos o conselho que damos (feito da experiência, qual navegador quinhentista “do ver claramente visto”), não correndo o risco de pecar mas de seduzir, é que a soma dos detalhes resulta na certeza de que cada refeição na terra Transtagana se torna uma experiência única e muito saborosa. Será que me faltou alguma coisa...!Acho que são horas de almoçar.
Um abraço.
Não sabia que era possível transmitir água na boca pela NET...
Afixado por: MiguelTorres em outubro 13, 2004 04:07 PMAi quem nem marchava umas migazitas com sumo de laranja agora não... com café com leite então.. ui!
Afixado por: engpokoto em outubro 14, 2004 06:23 PM